Campos dos Goytacazes - RJ

Titulo

COMENTÁRIO BÍBLICO DO LIVRO DE ROMANOS

Pr. David Marcos, Quinta, 31 de Janeiro de 2013

 

ROMANOS

(Capítulos 1 – 8)

 

Comentário Bíblico

 

 

David Marcos Soares Ferreira

 

 

 

 

 

 

 

 

ÍNDICE

 

Agradecimentos .............................................................................................................. 3

 

Prefácio ........................................................................................................................... 4

 

Introdução........................................................................................................................ 5

 

Contexto e Características da Epístola aos Romanos .................................................... 6

 

Capítulo I.......................................................................................................................... 7

 

Capítulo II ..................................................................................................................... 59

 

Capítulo III .................................................................................................................... 94

 

Capítulo IV ................................................................................................................. 125

 

Capítulo V ................................................................................................................... 142

 

Capítulo VI ................................................................................................................. 168

 

Capítulo VII ................................................................................................................ 194

 

Capítulo VIII .............................................................................................................. 212

 

Referências Bibliográficas ........................................................................................... 256

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aos membros da Igreja Batista Reformada:

pela parceria de adoração, oração e sofrimento dentro do Reino de Deus.

 

À minha esposa Christiane:

 pelo amor e paciência demonstrado ao longo de anos.

 

Aos meus pais:

Por terem me educado nos caminhos do Senhor e despertarem em mim o amor pela Palavra de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PREFÁCIO

 

            Estudar a Bíblia sempre é um ato de adoração! A Bíblia é a carta de Deus para o nosso coração. Portanto, toda vez que a estudamos, estamos, necessariamente prestando culto! Isto significa que não temos o direito de analisá-la de maneira meramente intelectual e acadêmica. Este pode ser o erro a se cometer quando estudamos qualquer livro bíblico versículo por versículo. Ao analisarmos o contexto histórico, a intenção do escritor, palavras diferentes... podemos cair no erro de olhar para a Bíblia como um livro técnico.

            A epístola de Paulo aos Romanos é inundada de teologia e muitas vezes difícil de ser compreendida. O Apóstolo Pedro compartilhava deste pensamento, tanto que em sua segunda carta ele declarou o seguinte sobre os escritos de Paulo: “Em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender”. (II Pe. 3:15,16). Pedro reconheceu que as epístolas paulinas possuem temas elevados demais, que o apóstolo Paulo era extremamente teológico e que acompanhar os seus pensamentos nem sempre é muito fácil.

            Contudo, a intenção de Paulo ao escrever esta carta, era edificar e fortalecer a fé dos crentes romanos em Deus. Esta epístola não é um tratado teológico, escrito por um especialista para professores; antes, ela foi escrita a uma igreja, com objetivos e fins práticos. São as palavras consoladoras, estimulantes e exortativas de um pastor para suas ovelhas.

            É importante termos esta verdade em mente ao nos aproximarmos da epístola aos Romanos, afinal, corremos o risco de nos envolver demais com a teologia e esquecer das aplicações. Certa vez Henry David Thoreau afirmou o seguinte: “Ser filósofo não é meramente ter pensamentos sutis, nem mesmo fundar uma escola... é resolver alguns dos problemas da vida, não na teoria, mas na prática”. O mesmo vale para o estudo da teologia: ou a reflexão nos ajuda a viver melhor, ou é puro diletantismo. Sempre ouvi dizer que as linguagens teológica e filosófica carecem de trem de pouso. Talvez esta fosse a idéia de John Stott ao afirmar que: “Há um tanto de inutilidade em se interessar por Deus de modo puramente acadêmico. Deus não é um objeto adequado para uma avaliação e uma observação fria, crítica, imparcial e científica. Não, o verdadeiro conhecimento de Deus sempre nos levará a adoração. Nosso lugar é diante dele, com o rosto em terra, num ato de adoração”.

            Conheço pastores que preferem ignorar a epístola aos Romanos a ter que pregá-la para sua igreja. Não é porque algo é de difícil entendimento que devemos desprezar ou pular. Paulo disse a Timóteo: “prega toda a palavra”. Tudo precisa ser ensinado, não podemos escolher as partes fáceis e desprezar as difíceis.

            A verdade é que o que nos dá sustento em nossa vida cristã é uma teologia profunda. O que nos possibilita caminhar com firmeza e esperança é conhecer as doutrinas da Palavra de Deus. Isto requer esforço, é custoso, é trabalhoso, mas é recompensador! Spurgeon certa vez afirmou que: “Nunca teremos grandes pregadores até que tenhamos grandes teólogos”. Jamais teremos grandes cristãos até que estes conheçam teologia. Infelizmente vivemos na era do "sermãozinho", e "sermãoezinhos" fazem "cristãozinhos". 

            Portanto, ao se aproximar deste fantástico livro, lembre-se destas duas verdades: esta é uma ocasião para adoração e não apenas para uma preleção. E, ainda, não desista simplesmente porque existem nesta epístola “certas coisas difíceis de entender” (II Pe. 3:15,16). A recompensa valerá o esforço da reflexão, pode acreditar!

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

            Das diversas cartas escritas por Paulo incluídas no cânon do Novo Testamento, Romanos é a primeira. Ela vem logo depois do livro de Atos. Acredito que isto não aconteceu por acaso. Por que ela se acha na primeira posição? Não é porque ela foi a primeira carta escrita pelo apóstolo. A primeira epístola paulina a ser escrita foi a carta endereçada aos Tessalonicenses. Também não é porque ela é a mais longa como querem alguns; este argumento não deveria nem ser levado em consideração. É consenso que ela é a primeira do cânon por causa da sua importância.

            Neste livro somos colocados face a face com todas as verdades fundamentais das Escrituras. Em Atos vemos como a igreja foi formada, estabelecida e propagada. Logo a seguir, é descrito o alicerce básico sobre a qual a igreja sempre deve estar firmada.

            Grandes homens de Deus ao longo da história têm testemunhado sobre a importância desta epístola. O maior expositor bíblico do século vinte, D.M.Lloyd-Jones afirmou o seguinte: "a epístola aos Romanos teve um papel mais importante e mais crucial na história da Igreja do que qualquer outro livro da Bíblia”.

            Agostinho - considerado ao lado de Paulo, Calvino e J.Edwards os maiores teólogos da história do Cristianismo- tinha uma vida dissoluta, regada a farras, mulheres e bebidas. Sentado debaixo de uma árvore, com o coração aflito, ouviu a voz de uma criança que dizia: “Toma e lê”. Com o coração angustiado, o famoso teólogo correu para o seu quarto, abriu a Bíblia, leu e se converteu. O texto que foi usado por Deus para resgatar Agostinho? Rm.13:13: "Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”.

            Anos mais tarde, Agostinho travou uma dura e árdua batalha teológica contra a heresia pelagiana. Como ele fez isto? Expondo esta fantástica epístola. Romanos foi o alicerce sobre o qual a fé da Igreja foi mantida, estabelecida e capacitada a continuar.

            E o que falar do relacionamento do grande reformador com esta carta paulina? Lutero encontrou nesta epístola as verdades que mudaram o rumo da sua vida. Ele resolveu dar aulas aos seus alunos baseado nesta carta de Paulo, e ao estudar mais profundamente a mensagem de Romanos, descobriu a justificação pela fé. Foi esta verdade que mudou a vida de Lutero e desencadeou a Reforma.

            Certa vez Lutero afirmou o seguinte: “Esta epístola é a parte principal do Novo Testamento e o mais puro evangelho, e merece que o cristão não apenas a saiba de cor palavra por palavra, porém também trate dela diariamente como o pão diário para a alma, pois nunca poderá ser lida demais, nem estudada demais, nem assimilada demasiadamente bem, e quanto mais for manuseada, mas deleitável se tornará e melhor sabor terá”.     Outros gigantes da fé também deram o seu testemunho. Eis o que disse João Calvino: “Se porventura conseguirmos atingir uma genuína compreensão desta epístola, teremos aberto uma porta de acesso aos mais profundos tesouros das Escrituras”. Guilherme Tyndale também deu a sua contribuição: “Ninguém pode lê-la demasiadas vezes nem estudá-la suficientemente bem. Sim, pois, quanto mais é estudada, mais fácil fica; quanto mais é meditada, mais agradável se torna e quanto mais profundamente é pesquisada, mais coisas preciosas se encontram nela, tão grande é o tesouro de bens espirituais que nela jaz oculto”.

            Juntam-se a todos estes, na lista daqueles que tiveram suas vidas transformadas por esta epístola, o famoso puritano John Bunyan, autor do livro “O Peregrino”, e o grande evangelista britânico John Wesley.

            Portanto, não estamos diante de um livro qualquer. A epístola de Paulo aos crentes de Roma têm sido um dos grandes instrumentos de Deus ao longo da história para quebrar corações de pedra, convencer mentes descrentes e transformar conceitos e valores pagãos.

           

Contexto e Características da Epístola aos Romanos

 

            Na época em que o apóstolo Paulo endereçou estas palavras aos cristãos que residiam em Roma, a Igreja não se reunia em templos. Esta prática só teve início trezentos anos depois do Pentecostes. A reunião pública da Igreja de Deus passou a acontecer nos templos apenas depois que o Império Romano adotou o cristianismo como sua religião oficial. Foi neste momento que Santa Helena, mãe do imperador Constantino, resolveu espalhar templos por todo o império; antes disso, a igreja se reunia nos lares. Numa cidade de aproximadamente 1.500.000 pessoas não existia apenas uma igreja numa única casa. Sendo assim, a carta de Paulo endereçada aos Romanos, circulava entre estas várias casas ou comunidades.  

            Acredita-se que a epístola foi escrita entre 54-58 d.C quando Paulo estava em Corinto na casa de seu amigo Gaio. A pessoa que levou a carta até os romanos foi uma senhora chamada Febe. Ela era de Cencréia, subúrbio de Corinto e estava de saída para Roma. “Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é serva da igreja que está em Cencréia; para que a recebais no Senhor, de um modo digno dos santos, e a ajudeis em qualquer coisa que de vós necessitar; porque ela tem sido o amparo de muitos, e de mim em particular”. (16:1-2) Como não havia correios, e-mail ou sedex 10 no Império Romano, as cartas eram enviadas por viajantes de confiança. E, certamente, Febe era uma mulher em quem o apóstolo depositava a sua confiança.

            Romanos é a única epístola paulina destinada há uma igreja a qual Paulo não fundou nem visitou anteriormente. Mesmo assim ele conhecia alguns membros daquela comunidade. É muito provável que ele tenha conhecido estas pessoas numa de suas muitas viagens. Mediante este fato, alguém pode perguntar: “Como então esta igreja foi formada?” Existem várias possibilidades.

            Primeiro. O que acontecia em outras regiões do mundo não passava despercebido dos romanos. Aliás, tudo terminava em Roma, basta lembrarmos do famoso ditado que afirma que “todos os caminhos levam a Roma”. Existiam várias estradas que conduziam as pessoas até Roma, e, junto com as pessoas, chegavam na cidade as ideologias, crenças e religiões.

            Segundo. Existiam navios do mundo todo que paravam nos portos de Roma. Junto com as mercadorias, chegava também o Evangelho. Paulo utilizou-se várias vezes destes navios para chegar em outras cidades.

            Terceiro. Lucas nos diz em Atos 2:10 que existiam romanos presentes em Jerusalém no dia de Pentecostes. É razoável acreditar que ente os 3.000 convertidos existissem alguns romanos. Logo, quando regressaram aos seus lares, compartilharam do Evangelho.

            Portanto, tudo leva a crer que a Igreja romana iniciou-se com uma plebe de judeus e gentios. Ela não teve, inicialmente, a intervenção de nenhum apóstolo. A tese defendida pela Igreja Católica Apostólica Romana de que Pedro foi bispo desta igreja durante 25 anos (42-67 d.C) é um tremendo engano. Se Pedro tivesse esta posição de autoridade será que Paulo não o saudaria em sua carta? Em sua lista de saudações, dirigida a crentes individuais, Paulo não menciona o nome de Pedro (16:13-15) Paulo jamais faria isto!

            Outro detalhe que precisamos observar é que no capítulo 15:20, o apóstolo nos lembra que não era do seu costume “edificar sobre fundamento alheio”. Ou seja, Paulo não interferia no ministério de ninguém. Ele era um pioneiro! Se Pedro tivesse estabelecido esta igreja, Paulo não lhe enviaria esta carta. Era contra a sua prática e princípio! Além disso, não existe nenhuma base histórica de que Pedro tenha estado em Roma no início da Igreja. Pedro esteve em Roma somente no final da sua vida. Ele não fundou a igreja e nem ficou por lá todo este tempo!

           

 

 

CAPÍTULO I

 

            Há muito para se aprender nas palavras introdutórias das epistolas. Não podemos jamais cair no erro de passar de forma rápida e despercebida por estes versículos. Como Paulo não conhecia os crentes romanos, ele tomou um cuidado especial para explicar os motivos de estar escrevendo. Ele fala que teve vontade de ir visitá-los, mas foi impedido (v.13). Louvado seja Deus por esta impossibilidade de Paulo de não poder visitar aquela igreja, afinal, ao ser impedido de visitar os romanos, o apóstolo sentiu-se inclinado por Deus a escrever-lhes, e o resultado de tudo isto é esta fantástica carta que temos hoje em mãos!

            A frustração do apóstolo conduziu ao enriquecimento da igreja. Às vezes Deus não nos dá algo que muito desejávamos porque Ele tem planos maiores!

            Uma das características dos escritos de Paulo são as suas saudações. O apóstolo sempre cumprimentava àqueles que conhecia e amava. No final da epístola em suas recomendações finais ele vai dizer: "saudai-vos uns aos outros com ósculo santo". (16:16). O mesmo foi dito aos crentes da igreja de Corinto (I Cor. 16:20; II Cor. 13:12) e aos de Tessalônica (I Ts. 5:26). O apóstolo Pedro também exercitava este hábito e o recomendou aos seus leitores (I Pe. 5:14). O mesmo precisa acontecer entre nós. Saudar as pessoas além de educado, é algo extremamente importante. Ser gentil, simpático e educado é uma atitude que aprendemos na Palavra de Deus. Mesmo que não tenhamos estas características, precisamos desenvolvê-las!

            A saudação desta carta é a mais longa de todas as cartas paulinas. O número de palavras para cada saudação do apóstolo Paulo em suas cartas: I Cor. (55)  /  II Cor. (41) / Gl. (75)  /  Ef. (28)  /  Fp (32)  /  Cl. (28)  /  I Tes. (19)  /  II Tes. (27)  /  I Tm (32)  /  II Tm. (29)  /  Tt. (65)  /  Fm.(41)  /  Romanos: 93 palavras! A razão disto talvez esteja no fato de que o apóstolo ainda não havia visitado a igreja de Roma.

 

Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o evangelho de Deus”(v.1)

 

            Não devemos cair no erro de analisar estas palavras sem antes relembrarmos quem foi o homem que as escreveu. Conhecer ideologias e saber a sua fonte é extremamente relevante. Os livros que lemos, normalmente, recebem um crédito maior quando sabemos quem foi a pessoa que a escreveu.

            Ao analisar o livro de romanos, não podemos esquecer o passado do homem que escreveu estas palavras. Paulo teve um ótimo berço, bem como uma excelente educação. Ele foi um hebreu de hebreus, da tribo de benjamim, o que lhe dava um enorme prestígio entre os judeus.

            Paulo foi criado na cidade de Tarso.que junto com Atenas (Grécia) e Alexandria (Egito) eram os maiores centros culturais do mundo. Isto significa que Paulo teve acesso aos poetas, filósofos e livros gregos.

            Paulo foi educado como um fariseu, tendo como seu principal tutor, o maior mestre fariseu, Gamaliel. Nenhuma educação era semelhante a esta!

            Paulo tornou-se um especialista na lei judaica, como ele mesmo relatou, sobrepujando a todos em Excelência (Gl.1:14).

            Não há dúvida de que o apóstolo Paulo teve uma das maiores mentes da história da humanidade. O nome de Paulo consta em algumas listas seculares das maiores mentes da humanidade. Sua capacidade de argumentação impressiona aos maiores eruditos, seu raciocínio, sua lógica, o modo como ele dispõe suas provas é algo incomum!

            Paulo era um cidadão romano, o que trazia para ele muitos privilégios e muita honra.

            Por que é relevante relembrarmos destes detalhes do passado de Paulo? Porque podemos perceber claramente que Paulo foi preparado por Deus para uma causa muito nobre. Paulo foi o instrumento de Deus utilizado para defender a fé cristã entre judeus e gentios! Para que isto fosse possível ele precisava ter toda esta bagagem que adquiriu ao longo dos anos. Paulo conhecia completamente o outro lado. Desta forma, ele teve como argumentar, enfrentar e refutar as falácias do judaísmo. Quando Pedro começou a fraquejar na fé (Gl. 2) querendo voltar ao judaísmo, Paulo o repreendeu e o trouxe de volta a um verdadeiro entendimento do evangelho!

            Paulo não tinha apenas o Evangelho para pregar. Ele conhecia o povo para o qual pregava! Ele conhecia tanto a cultura dos judeus como a cultura dos gentios!

            Ao voltarmos o nosso olhar para a história do povo de Deus, podemos visualizar como Deus sempre preparou os homens para realizar Sua obra aqui na terra. Moisés foi instruído nos palácios de faraó com a melhor educação da época. Davi, além de possuir uma mente brilhante, tinha uma enorme competência no que fazia! Isaías foi conselheiro do rei e vivia nos corredores do palácio. Agostinho, Lutero, Calvino e muitos outros, tiveram uma grande instrução e educação.

            O que aprendemos com este fato, é a verdade de que, a fé cristã não concede prêmios à ignorância e á estultícia. Somos estimulados pela Palavra de Deus a pensar, a estudar, a crescer em entendimento. Poderemos ser melhores instrumentos nas mãos de Deus, se tivermos uma boa instrução.

            Paulo era o homem certo e necessário para lançar, defender e divulgar as bases da fé cristã.

 

Paulo... a todos os que estais em Roma”.(v.7)

 

            Quem eram estes que estavam em Roma? Os membros da igreja de Roma eram tanto gentios (1:5, 6, 13) como judeus (2:17; 7:1; 11:13; 15:15). Qual destes grupos era o maior? Existe muita especulação e nenhuma certeza. O certo é que existia um certo clima de rivalidade entre estes dois grupos. Havia o risco de um grupo olhar com desdém para o outro. Contudo, o fato mais importante aqui é que Paulo não está interessado nesta questão. Para o apóstolo não importa qual o grupo é o mais influente, ele está preocupado em mostrá-los que em Cristo, todos somos iguais! (10:12)

            Este é um grande perigo que corremos em nossas igrejas: honrar os mais influentes, ricos, notáveis e poderosos, desprezando o pobre, feio e ignorante. Títulos, diplomas, posição social, nada disto pode ser fator determinante dentro da igreja. Isto acaba com a comunhão!

            O grande orador e estadista norte-americano Daniel Webster saía freqüentemente, aos domingos, de Washington para ir ouvir um humilde pregador numa igreja rural. Quando lhe perguntaram o porquê desse procedimento, ele respondeu: “É que os outros pastores pregam para Daniel Webster, o estadista, mas aquele homem, prega para Daniel Webster, o pecador”.

            No reino de Deus todos devem ser tratados de igual forma. Em sua carta, Tiago faz uma dura repreensão àquelas pessoas que dentro da igreja, bajulam o rico e desprezam o pobre (Tg. 2:1-10). Paulo preocupou-se em mostrar esta verdade aos crentes em Roma.

            Além de não ser correto termos tratamento diferenciado, precisamos respeitar as diferenças. Muitas vezes somos preconceituosos com o negro, pobre, sujo, feio, gordo. Deus ama a todos, porque é que nós temos que desprezá-los? Muitas vezes o nosso desprezo acontece através de piadas, comentários e atitudes. Precisamos amar e tratar a todos de igual maneira! Isto vale não só para o rico e influente, como para o pobre e sem expressão.

            Além das pessoas que viviam ali, é importante perceber o mundo em que estas pessoas viviam. Do verso 18 ao verso 32 Paulo nos dá alguma idéia de como era o mundo romano. É um quadro de degradação terrível! O mundo grego e romano dos dias de Paulo era um mundo sem esperança. Aqueles eram dias de intenso desespero entre as pessoas. A grande maioria acreditava que depois da morte a alma era extinta. Os estóicos – um grupo de filósofos (At.17:18) – pregavam abertamente que a vida cessaria após a morte.

            O que será que fez com que pessoas que viviam num mundo completamente ímpio, descrente e depravado, se transformassem em cristãs? Só existe uma explicação para isto, e a encontramos no verso 16 deste primeiro capítulo: “o evangelho é o poder de Deus para a salvação”. Nada poderia ter produzido cristãos no Império Romano a não ser o Evangelho de Deus.

            Este glorioso evangelho não apenas gerou cristãos ali em Roma, como também trouxe muita esperança àquelas pessoas que ali residiam. Romanos é o livro do Novo Testamento que mais trata do assunto da esperança (8:24, 26-39; 15:13). Do início ao fim da epístola as boas-novas, junto com a esperança, é um dos assuntos mais defendidos e proclamados pelo apóstolo Paulo.

            Paulo nos diz que está escrevendo a “todos os que estais em Roma”. Ele não está escrevendo à igreja de Roma, e sim à Igreja em Roma. Isto pode parecer tolo, mas é muito significativo! A maneira característica de Paulo escrever é esta. Ele escreve à igreja em Corinto, em Éfeso ou em algum outro lugar. Isto nos mostra que a igreja não é de algum lugar debaixo do sol. A igreja é composta de cidadãos do céu que se encontram num determinado lugar. Eles não são de Roma, eles estão em Roma.

            Humanamente falando, eles são cidadãos romanos, pertencem as suas cidades terrenas. Contudo, Paulo faz esta distinção. Quanto ao corpo estais em Roma, porém, o mais importante é que fostes “chamados para serdes santos”.

 

Servo de Jesus Cristo”. (v.1)

 

            Este é o modo característico de Paulo descrever-se. Ele está dizendo aos seus leitores que o mais importante de sua vida é que ele é “um servo de Jesus Cristo”.

            Todo o seu ser girava em torno desta Pessoa. Paulo não podia pensar em si mesmo separadamente de Cristo. Ele não consegue começar a escrever sem apresentar Jesus imediatamente. Para Paulo Jesus era o princípio e o fim, o tudo-em-todos. Jesus sempre estava no centro de qualquer escrito ou atividade do apóstolo. Nesta introdução ele menciona Jesus cinco vezes. Em Efésios nos primeiros 14 versos, Paulo menciona Jesus 15 vezes.

            Será que esta também tem sido a nossa atitude? Será que Jesus realmente ocupa o centro de nossa vida? Tudo o que fazemos (até o comer ou beber) fazemos para a glória de Deus? Pecado não é apenas errar o alvo, fazer o que desagrada a Deus; pecado é não dar glória a Deus em tudo o que fazemos! Se não colocamos Jesus no centro das nossas vidas não estamos dando glória a Deus em tudo o que fazemos, conseqüentemente, estamos pecando.

            A palavra traduzida por “servo” é o termo grego doulos, que significa “escravo”. Esta palavra foi traduzida como servo e não como escravo, devido ao sentido que “escravo” tem em nosso meio. Associamos escravo a idéia de serviço involuntário, sujeição forçada, tratamento agressivo. Não era nada disso que Paulo tinha em mente quando usou a palavra escravo para descrever-se. O que o apóstolo tinha em mente é que ele estava completamente à disposição de seu Senhor

            Paulo nos lembra com esta expressão (escravo) que todo cristão deve ter a Jesus como seu Senhor! Antes de ser nosso Salvador, Ele é o nosso Senhor! Em sua primeira carta a igreja de Corinto, Paulo nos lembra o seguinte: “Não sois de vós mesmos, fostes comprados por preço”. (I Cor.6:19,20). A verdade é que nunca fomos livres, éramos servos cativos de Satanás, agora somos servos cativos do Senhor Jesus Cristo. Foi por isto que Paulo afirmou aos cristãos de Gálatas: “Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. (Gl.2:20)

 

“Chamado para ser apóstolo”. (v.1)

            Ao lermos o Novo Testamento, percebemos que algumas pessoas não se dispunham a aceitar o apostolado de Paulo. Devido a este fato, ele sofreu amarga perseguição sendo muitas vezes difamado e caluniado.

            Na primeira carta aos Coríntios ficamos sabendo que os opositores do apóstolo afirmavam que ele estava no ministério para ganhar dinheiro e para obter favores sexuais de mulheres; portanto, ele era um mentiroso, um enganador em relação ao seu ministério. Além de ser um hipócrita que tinha uma vida secreta, Paulo era irrelevante àquela cultura e sua mensagem era muito simples. Diziam também que ele era um palestrante fraco e de aparência ruim, que não ensinava a verdade. Afirmavam ainda que ele era um convencido que havia posto a si mesmo em evidência. Portanto, era enganoso e perigoso para as igrejas.

Neste contexto, era imprescindível para Paulo afirmar sua autoridade apostólica. Não é por acaso que ele inicia a maioria de suas cartas evocando o seu ofício apostólico. (I Cor.1:1; II Cor.1:1; Ef.1:1 Cl.1:1) Isto indica a importância que ele conferia a seu ofício apostólico.

            Ser apóstolo naquele período era muito importante! Eram os apóstolos que possuíam autoridade para pregar, escrever, exortar e disciplinar. Eram eles que decidiam várias questões quando apareciam discussões, a palavra final sempre era deles. Eles estavam numa posição autorizada para decidir sobre ensino e doutrina. Um dos “critérios canônicos” era a Apostolicidade. O livro para ser considerado canônico deveria ter sido escrito por um dos doze, ou então, possuir o que se chama hoje de “imprimatur apostólico”; significa que o escrito poderia vir de alguém que estivera em contato íntimo com o apóstolo ou de alguém que produziu algo a pedido do apóstolo. Eram os apóstolos que estabeleciam a ordem nas igrejas ordenando anciãos e nomeando presbíteros.

            A palavra do apóstolo era considerada como vinda diretamente de Deus. “Havendo recebido de nós a palavra da pregação de Deus, a recebestes, não como palavra de homens, mas, como palavra de Deus”. (I Tes. 2:13) Os próprios apóstolos afirmavam uns dos outros que as suas palavras eram vindas de Deus: “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada; como faz também em todas as suas epístolas, nelas falando acerca destas coisas, nas quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, como o fazem também com as outras Escrituras, para a sua própria perdição”. (II Pe.3:15,16) Pedro está afirmando que os escritos de Paulo são Escrituras! Ele atribuiu aos escritos de Paulo uma autoridade igual à das Escrituras do Velho Testamento. Portanto, trata-se de um apóstolo descrevendo a autoridade de um colega de apostolado.

            Sendo assim, Paulo mostrou aos cristãos de Roma, que ele não é somente um participante de uma fé comum, ele foi elevado ao apostolado, e isto significa estar acima dos crentes normais. É exatamente por causa do seu apostolado que ele se dirige à igreja de Roma.

            Diferentemente dos doze, Paulo não fora uma testemunha do ministério do Senhor (um dos requisitos para ser apóstolo). Ele foi chamado para ser apóstolo tempos depois. Por isso é que ele diz que é um apóstolo que “nasceu fora do tempo” (I Cor. 15:8) No entanto, mesmo sendo fora do tempo, foi Deus quem o comissionou para ser apóstolo: (Gl.1:1).

            Um dos motivos pelos quais Paulo precisava defender seu apostolado, era porque muitos naquele período também se diziam apóstolos. "Eu sei as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que se dizem ser apóstolos e o não são, e tu os achastes mentirosos”. (Ap.2:2) Paulo precisava ser muito claro sobre o seu apostolado àquelas pessoas a quem ele escrevia. Não poderia ficar nenhum tipo de dúvida sobre esta questão, do contrário, todos os seus escritos e todo o seu ministério estaria arruinado!

            O que era preciso ter ou fazer para ser considerado um apóstolo? Primeiro, era necessário ter sido escolhido, chamado e enviado pessoalmente por Jesus (Jo. 6:70). Isto aconteceu com Paulo: "Faço-vos saber, irmãos, que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens; porque não o recebi de homem algum, nem me foi ensinado; mas o recebi por revelação de Jesus Cristo”. (Gl.1:11,12) “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei”. (I Cor.11:23) Paulo afirma que não recebeu o evangelho de apóstolo nenhum, mas diretamente de Deus. Se ele tivesse recebido de algum apóstolo, ele mesmo não seria apóstolo: “Ou seja eu ou sejam eles, assim pregamos e assim crestes”. (I Cor.15:11) Portanto, Paulo se coloca em igualdade absoluta com os outros apóstolos.

            Segundo; era necessário ser testemunha ocular das palavras e feitos de Jesus, especialmente ser testemunha da ressurreição de Cristo. (At.1:8, 21,22; I Cor.9:1;15:8; Ef.3:2-8; I Jo.1:1-3). Paulo era apóstolo porque também viu ao Senhor depois de ressurrecto.

            Terceiro; era preciso ser dotado, numa medida especial, com o Espírito Santo. (Mt.10:20; Jo.14:26; 20:22; I Cor.2:13)

            Quarto; era preciso provar que Deus abençoava poderosamente as obras realizadas pelo suposto apóstolo, através de sinais e milagres. (Mt.10:1,8; At.2:43; 5:12-16; Rm.15:18,19; II Cor.12:12)

            Paulo preenchia todos os requisitos, sendo autorizado pelo próprio Deus a falar em Seu nome.

            É importante observarmos que no Novo Testamento existe outra interpretação para a palavra apóstolo. Em alguns lugares encontramos a palavra "apóstolo" com o sentido de embaixador, emissário, mensageiro, enviado. Neste sentido Barnabé, Epafrodito, Apolo, Silvano e Timóteo são chamados de apóstolos. (At.14:14; I Cor.4:6,9; Fp.2;25; I Ts.2:6). Quando a Bíblia fala de apóstolos nestas e em outras passagens, não é no sentido de Paulo e dos outros doze, afinal, o dom de apostolado foi exclusivamente concedido aos doze e a Paulo, um apóstolo nascido fora do tempo (I Cor. 15:8).

            Algumas pessoas e religiões tentam defender a idéia da sucessão apostólica. A Igreja Católica Apostólica Romana ensina explicitamente que a autoridade do papa vem da sucessão apostólica. Por isto que sua palavra é infalível. Ele pode ensinar o que desejar que será tido como correto. Algumas denominações evangélicas também tentam defender esta tese! Vemos vários pastores que são elevados ao título de apóstolo nos dias de hoje.

            No entanto, é fácil provar que a sucessão apostólica não é ensinada pela Palavra de Deus. Como vimos a pouco, uma das marcas essenciais de um apóstolo é que ele possa dar testemunho da ressurreição de Cristo. Sendo assim, como é que alguém que vive nos dias de hoje pode ser apóstolo?

            Além disso em Efésios 2:20, encontramos as seguintes palavras: “Edificados sobre o fundamento dos apóstolos”. Paulo fala que a igreja foi edificada sobre este fundamento. Não continuamos a construir o fundamento. Um alicerce é algo que se faz somente no começo, ele não se estende, ele não continua sendo lançado.

            Outros textos bíblicos nos ajudam no correto entendimento desta questão tão debatida. Em I Coríntios 1:1 encontramos Paulo dizendo: “Paulo, chamado para ser apóstolo...e o irmão Sóstenes”. Paulo faz uma clara diferenciação entre ele e Sóstenes. Por mais excelente e santo que Sóstenes fosse, ele não era apóstolo!

            Em Filipenses 1:1, lemos: “Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo, a todos os santos”. Quando Paulo se descreve como “servo”, ele e Timóteo são iguais. Timóteo é servo de Jesus tanto quanto Paulo. Quando a questão é de “servo”, ambos estão juntos. No entanto, quando Paulo emprega o termo “apóstolo”, existe uma clara diferença, podemos perceber isto em Colossenses 1:1: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo”. Timóteo era um dos favoritos de Paulo, porém, não era apóstolo! Ele era apenas um “irmão”, era um servo, mas não era apóstolo.

            Desde aquele tempo não houve mais apóstolos. Toda pretensão de apostolado nos dias de hoje vai diretamente contra o ensino do Novo Testamento. As tentativas de validar esta tese nos dias de hoje, se baseiam na tradição e não nas Escrituras. Uma das funções dos apóstolos era ministrar ensino autoritativo, inerrante. Hoje nós temos a Bíblia, não existindo mais a necessidade de apóstolos!

 

“Separado para o evangelho de Deus". (v.1)

 

            Antes de sua conversão, Paulo era um fariseu, alguém separado dos demais. Os fariseus, literalmente, se colocavam à parte das demais pessoas. Eles andavam do outro lado da rua, tinham todo cuidado para que suas vestes não tocassem em ninguém, não se relacionavam com publicanos e pecadores.

            Com esta expressão – "separado para o evangelho de Deus" -  Paulo está nos lembrando a verdade de que antes ele havia sido separado como um fariseu; agora, Deus o separou para o Seu evangelho. O apóstolo nos lembra da falsa separação e da verdadeira separação; uma separação feita pelo homem e a separação feita por Deus!

            Contudo, até mesmo a falsa separação é usada por Deus. Tudo que Paulo aprendeu antes de se converter foi usado por Deus mais tarde no Seu Reino. Não há dúvida de que a herança (judaica, grega e romana) e a educação de Paulo foram predestinadas por Deus com vistas ao serviço apostólico. Para fazer o que fez, Paulo precisava do histórico de vida que possuía. Portanto, Deus sempre esteve presente na vida do apóstolo, preparando, lapidando e cuidando para que ele se tornasse o grande teólogo do cristianismo. Esta verdade pode ser confirmada em Atos 9:15: "...este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel".

            Em Gálatas, Paulo afirma que Deus o comissionou para o Evangelho, muito antes da sua conversão: “Mas, quando aprouve a Deus, que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça”.  (Gl.1:15). Ao que parece, Deus tem o costume de fazer isto com aqueles a quem ele convoca para esta obra tão nobre, o mesmo aconteceu com Jeremias: “Antes que te formasse no ventre te conheci, antes que saísses da madre te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jr.1:5). Assim também foi com João Batista, Moisés, Sansão e muitos outros.

            A verdade sobre Paulo, Jeremias, Moisés, Sansão e João Batista, também se aplica a cada um de nós. Desde o ventre materno Deus já tem um plano para cada um de nós! Nada em nossa vida acontece por acaso. Como diz o ditado, "Deus não joga dados". Nosso Senhor sabe, dirige, controla e governa todos os fatos da nossa vida e do universo ao nosso redor.

            A última verdade que gostaria de salientar sobre esta expressão de Paulo, é o ensinamento bíblico de que os líderes do reino de Deus precisam ser realmente chamados por Deus. Existem muitos pastores que nunca foram genuinamente convocados por Deus para o ministério. Assumir o ofício sem a vocação é um grande desastre!

            O pastor Ed René Kivitz na revista Eclésia de 2002 faz uma excelente diferenciação entre quatro tipos de pastores, por ele denominados de "lobos", "Pastores", "Iluminados" e "Pastores Ovelhas". Os "Lobos" são aqueles pastores conscientemente corrompidos na alma, na mente e no coração. Os "Pastores" são aqueles que ouviram a voz de Deus e o chamado do Senhor prevaleceu sobre eles. Os "Iluminados" são pastores que rompem a linha que nivela os mortais. E, por fim, os "Pastores Ovelhas" que são ovelhas vestidas de pastores; cristãos sinceros, dedicados e capazes, contudo, jamais deveriam ter sido investidos da autoridade que acompanha a função pastoral; eles não têm a vocação ministerial, falta-lhes o carisma, a autoridade divina, o chamado do Espírito Santo, o coração, a paixão e a alma de pastor; receberam o título, o diploma de bacharel, mas não receberam a unção que vem do alto, afinal, esta não pode ser forjada, manipulada, tomada de assalto. Estes homens, diz o Ed René, seriam bons crentes, mas preferiram ser péssimos pastores.

 

O qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras”. (v.2)

 

            Paulo deixa claro que a primeira coisa que se deve lembrar acerca deste evangelho é que ele foi prometido anteriormente. Ele está dizendo que Jesus não desceu à terra inesperadamente. A doutrina de Cristo não é algo novo que jamais foi ouvida por alguém. Cristo e o Seu Evangelho foram prometidos e esperados desde o início do mundo!

            Para defender a sua tese, o apóstolo introduz os profetas como suas testemunhas a fim de remover qualquer suspeita. Ou seja, o Evangelho de Cristo que ele anuncia, é o mesmo que os profetas prometeram. Desta maneira, Paulo estabelece a credibilidade do Evangelho com base em sua antiguidade.

            Onde é que podemos encontrar estas promessas a que Paulo se refere: “outrora prometido”? Em vários lugares no Velho Testamento. A primeira, logo no início de Gênesis: "Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente: esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. (Gn. 3:15) Em Números encontramos a seguinte profecia: “Uma estrela procederá de Jacó, de Israel subirá um cetro” (Nm. 24:17). No Salmo 22, o salmista fala que as vestes de Jesus seriam sorteadas na crucificação, e menciona as palavras que Jesus diria na cruz: “Deus meu por que me desamparastes?”. O profeta Malaquias fala de João Batista, o precursor de Jesus (Ml. 3:1). Zacarias profetizou que Jesus entraria na cidade de Jerusalém “montado num jumentinho”. (Zc. 9:9), que o Messias seria vendido “por trinta moedas de prata” (Zc. 11:12) e que Ele seria traspassado (Zc.12:10). Miquéias menciona o lugar em que Jesus nasceria. (Mq. 5:2).

            De todos os profetas, Isaías é o maior profeta messiânico. Seu livro está repleto de profecias sobre Jesus. No capítulo 9 encontramos as seguintes palavras: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; e o principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus forte, Pai da eternidade, Príncipe da paz”. (Is.9:6). O Capítulo 53 de Isaías é todo messiânico.

            Estas profecias que acabamos de ver são as chamadas profecias diretas. Porém, existem aquelas que são chamadas de profecias indiretas, como o cordeiro da páscoa que prefigura o “cordeiro de Deus” tirando o pecado do mundo; as ofertas, os sacrifícios, os utensílios e móveis do tabernáculo, tudo apontando para Jesus.

            Os “tipos de Jesus” também se encontram nas chamadas “profecias indiretas”. Abraão nos lembra da obediência de Cristo quando deixou a terra, os parentes, o pai (Gn. 12:1-3) e foi em busca da promessa que dele Deus suscitaria uma grande nação. Semelhantemente, Jesus deixou seu lar e seu Pai, e por causa disto uma grande nação (Israel celestial) começou a existir.

            Isaque nos mostra a passividade de Cristo. Isaque poderia não aceitar o sacrifício proposto por seu pai Abraão. Numa outra oportunidade, Isaque fez aliança com Abimeleque que o odiava. (Gn. 26:27-30). Jesus nos mostra sua passividade, mansidão quando demonstrou amor e cuidado pelo soldado com a orelha cortada. Na cruz Ele clamou por aqueles que o maltratavam: “Pai, perdoa-lhes”.

            Jacó nos mostra o empenho de Cristo. Labão o enganou, mas ele batalhou duro para ter a mulher que amava. Ao lutar com o anjo ele disse: “Não te deixarei ir, enquanto não me abençoares”. Podemos ver o empenho de Jesus nas seguintes passagens do Novo Testamento (Jo.13:1; Lc.22:44).

            José nos mostra a dedicação e confiança de Cristo. A vida de José divide-se em 3 estágios: filho, escravo e soberano. Jesus Cristo, foi o eterno filho de Deus, passou por um período de escravidão e terminou com sua exaltação ao lugar de soberano (Fp. 2:5-11). Cada um destes períodos da vida de José pode ser subdivido em outras partes que encontram semelhança na pessoa de Cristo. No primeiro estágio encontramos José como "amado por seu Pai" (Túnica); a Bíblia nos revela Jesus como o amado Filho de Deus. (Mt. 3:17; Mt. 17:5;). O segundo estágio da vida de José foi aquele onde ele foi "enviado a seus irmãos" (Gn. 37:13). O verbo "enviar” é encontrado 35 vezes em João (Jo.1: 11; Mt. 15:24). Ainda neste estágio encontramos as semelhanças em que José colocou-se a disposição do seu pai para cumprir as suas ordens (Gn. 37:13) e Jesus veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai (Hb. 10:5-7; Jo. 6:38). No último estágio da vida de José, ele é "odiado pelos irmãos" (Gn.37:4,5 e 8). Diz as Escrituras que eles odiavam a José por 3 motivos: Porque José falava a seu pai as más obras de seus irmãos (Gn. 37:2), por causa do relacionamento com seu pai (Gn.37:3,4) e porque José proclamava a mensagem que recebera de Deus (Gn. 37:6-11). Jesus foi odiado pelas mesmas razões que os irmãos de José o odiaram. O caráter santo de Jesus censurava e denunciava as pessoas (Jo. 7:7), a reivindicação de ser o amado do Pai deixava-os furiosos (Jo. 5:18; 10:30,31) e a proclamação da verdade de Deus causava-lhes raiva, ódio (Jo. 8:40)

            Ainda vemos José como "tipo de Cristo" quando ele foi vítima de conspiração (Gn. 37:19, 20); Jesus também passou por isto (Mt. 26:4; Lc. 4:28,29). José foi despojado de suas vestes (Gn. 37:23); a mesma coisa aconteceu com Cristo (Mt.27:27,28). José foi lançado num poço, sendo este uma figura ou símbolo de morte. (Pv. 1:12; Is. 38:18). O intuito original dos irmãos de José era matá-lo (Gn. 37:20-23); o Senhor Jesus desceu “as profundezas da morte na cruz do Calvário”. José foi vendido como escravo (Gn. 37:26); Jesus foi vendido a preço de escravo. (Mt. 27:3). José foi tentado (Gn. 39:7-12); Jesus também passou por isto no deserto (Mt. 4:1-11).

            No estágio de soberano, encontramos José recebendo soberania. Os homens prostraram-se diante dele. O mesmo ocorreu com Jesus (Fp. 2:10). José também exerceu soberania. As pessoas foram atraídas até José por causa da fome (Gn. 42:1,2); a fome espiritual nos atraiu ao Senhor (Is. 52:2,3), José foi enviado por Deus para salvar seus irmãos (Gn. 45:7); a mesma coisa aconteceu com Jesus.

            Outro "tipo de Cristo" é Moisés. Na época em que Moisés nasceu foi decretada a morte de crianças. O mesmo ocorreu no nascimento de Jesus. O preparo de Moisés foi no deserto, o de Jesus também. Diz a Bíblia que Moisés foi extremamente solidário, ele desestruturou toda a vida que já tinha construído e voltou para o Egito a fim de libertar o povo; da mesma forma, Jesus deixou seu lar, sua glória, sua “estabilidade” e desceu à terra para redimir o povo. Moisés conduziu o povo para Canaã (terra prometida); diz as Escrituras que Jesus conduz o Seu povo para o céu. O ministério de Moisés começou depois de um grande acontecimento sobrenatural lá com a sarça ardente; o mesmo aconteceu com Jesus, seu ministério teve início depois do seu batismo. Sob o comando Moisés o povo se alimentou do maná; Jesus afirmou ser o Pão da Vida.

            Todo o Velho Testamento está repleto de promessas diretas e indiretas sobre a vinda de Jesus (o próprio evangelho) O que Paulo diz nesta passagem é apenas um resumo daquilo que Deus tinha “outrora prometido”. As profecias que inicialmente foram transmitidas oralmente, também foram escritas “nas Sagradas Escrituras”.

            Além de transmitir as verdades, os profetas registraram no papel estas verdades. Foi Deus que, desde então, preparava as Escrituras para aqueles que viveriam séculos depois. Já que não temos mais os profetas, temos os escritos destes profetas, e Paulo nos diz que estes escritos são considerados como “Sagradas Escrituras”.

            Portanto, o apóstolo está nos dizendo que no Velho Testamento já era anunciado o Evangelho da salvação. Ao contrário do que muitos afirmam, podemos aprender no Velho Testamento sobre a salvação. Foi isto que Paulo disse a Timóteo: “E desde a tuia meninice sabes as Sagradas Escrituras (a mesma expressão de Rm.1:2) que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus”. (II Tm. 3:15, 16). “Santas Escrituras” aqui, se refere ao Velho Testamento, afinal, o Novo Testamento ainda não existia. Paulo deixa claro que o Velho Testamento é capaz de conduzir alguém a salvação!

            Em várias oportunidades Paulo se baseia nas verdades proferidas pelos profetas. “Se manifestou a justiça de Deus pela lei e pelos profetas”. (Rm. 3:21); “Se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas”. (Rm. 16:26) Esta declaração está presente no início, no meio e no fim da epístola.

            O desejo do apóstolo era que os romanos percebessem a posição das Escrituras em tudo o que ele falava. Isto nos mostra que este era o método de Paulo, expor as Escrituras! Ele recorria a Moisés, a Lei, aos profetas, as Escrituras! “E, passando por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica, onde havia uma sinagoga de judeus. E Paulo, como tinha por costume foi ter com eles; e por três sábados disputou com eles sobre as Escrituras”. (At.17:1, 2)

            Paulo não ficou contanto histórias, anedotas ou coisas agradáveis aos ouvidos humanos. Ele debateu com aquelas pessoas sobre as Escrituras! O restante do texto diz o seguinte:“Expondo e demonstrando que convinha que o Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos. E este Jesus, que vos anuncio, dizia ele, é o Cristo”. (At.17:3)

            O exemplo de Paulo nos ensina que a Palavra de Deus, e nada mais, deve ser o centro de nossos cultos bem como de nossas vidas! A Bíblia, toda a Bíblia e nada mais do que a Bíblia, deve ser a religião da igreja de Cristo. Ela é a única autoridade, a única regra, o único padrão. A mensagem de qualquer pregador deve sempre vir das Escrituras. Os métodos dos pregadores e das igrejas devem provir das Escrituras. Não devemos acreditar em nada que não seja das Escrituras. A autoridade final em qualquer área das nossas vidas deve vir das Escrituras. Por isto Paulo disse a Timóteo: “prega a Palavra”. Por isto os reformadores colocaram como um dos seus lemas principais: Sola Scriptura!

 

“Com respeito a seu filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi” (v.3)

 

            Paulo começa a desvendar o que é o evangelho mencionado por ele no verso 1. A primeira verdade que ele defende acerca do evangelho é que este é acerca do Filho de Deus. Este é o ponto nevrálgico, a questão principal. O apóstolo nos mostra que Cristo é a questão principal do evangelho; não existe cristianismo sem Cristo! Isto não significa que Jesus é um “portador” de boas novas vindas de Deus, significa que Ele próprio é a boa nova! As boas novas são a Pessoa e o que a Pessoa realizou.

            Este detalhe é que constitui uma das singularidades do evangelho cristão. Em nenhuma religião pode-se dizer que a pessoa principal é absolutamente essencial. Existe budismo sem Buda e confucionismo sem Confúcio. O homem não é essencial ao ensino, o que é vital em todas as religiões é o ensino. No cristianismo, é absolutamente diferente! Tudo gira em torno de Jesus Cristo. Sem Ele não existe ensino, não existem palavras, não existe evangelho!

            Um outro exemplo pode ser visto na lei dada por Deus aos filhos de Israel. Deus poderia ter dado a lei por meio de Josué ou de qualquer outro homem. Deus escolheu Moisés para ser o intermediário, mas isto não significa que Moisés, como pessoa, era parte vital da lei. A lei poderia existir sem a presença de Moisés. No caso do Evangelho é diferente. A mensagem em sua totalidade é acerca da Pessoa de Cristo. Sem a Pessoa não existe Evangelho!

 

 “Com respeito a seu filho”. (v.3)

 

            Paulo prossegue nos informando algumas coisas sobre esta Pessoa de quem depende todo o Evangelho.

            A primeira verdade a respeito de Jesus é que Ele é o Filho de Deus! Isto é de fundamental importância para que o Evangelho tenha força e credibilidade. Foi por causa desta reivindicação que Jesus foi crucificado. Quando afirmou: “EU e o Pai somos um”, Jesus foi acusado pelos líderes judeus de blasfêmia. Por esta razão conspiraram contra Ele e disseram que Ele precisava ser eliminado.

            Se Jesus não é Deus, está em jogo a expiação de Cristo, afinal, qualquer criatura, por maior que seja, não pode nos salvar! Se Jesus não é Deus, a justificação pela fé é anulada, afinal, é a justiça de Cristo imputada a nós que nos livra da ira de Deus. Se Jesus não é Deus, não podemos adorar e nos dirigir a Cristo em oração, seria idolatria proceder assim. Se Jesus não é Deus, não temos um mediador entre nós e o Criador das nossas vidas. Se Jesus não é Deus, acabou o Evangelho!

“O qual, segundo a carne”. (v.3)

 

            O que é que significa a palavra “carne” neste texto? Nas Escrituras esta expressão é utilizada das mais variadas maneiras. Neste contexto, o termo está se referindo ao que o Filho de Deus se tornou, um ser completamente humano, sujeitando-se voluntariamente à mortalidade e todas as suas implicações.

“Veio da descendência de Davi”. (v.3)

 

            Em sua carne e na forma humana Jesus era “da descendência de Davi”. Essa é a descrição que nos é dada de Jesus em várias partes do Novo Testamento. “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi”. (Mt.1:1) “Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim”. (Mc.10:47). “Lembra-te de Jesus Cristo, ressurgido dentre os mortos, descendente de Davi”. (II Tm. 2:8)

            Por que o Novo Testamento concede tanto valor a esta expressão “da semente de Davi”? Porque ela nos lembra as profecias do Antigo Testamento que se cumpriram na pessoa de Jesus. Por isto a importância de mostrar a genealogia de Jesus como descendente de Davi. Não fosse ele descendente do grande rei de Israel, não teria sido o Messias. A profecia a seu respeito tinha de cumprir-se!

            Quando percorremos o Velho Testamento e examinamos esta profecia, percebemos que Deus foi estreitando Sua promessa. Primeiro, lá no Éden, Deus fez a promessa geral de que “a semente da mulher” esmagaria a cabeça da serpente. “Semente da mulher” nos lembra que o Salvador viria da humanidade. Depois, Deus estreitou a promessa afirmando que seria da semente de Abraão, ou seja, o Salvador seria um hebreu. Aqui foi feita a distinção entre judeus e gentios. Embora provindo da espécie humana, Ele viria dos israelitas.

            Deus estreitou ainda mais a promessa. A Bíblia nos diz que o Salvador viria de uma tribo particular de Israel, a tribo de Judá: “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de autoridade dentre seus pés, até que venha aquele a quem pertence; e a ele obedecerão os povos”. (Gn.49:10) A Tribo de Judá possuía muitas famílias, de forma que Deus estreitou ainda mais a promessa. Nosso Senhor limitou a promessa a uma família em particular, a linhagem e casa do rei Davi.

            Portanto, percebemos claramente Deus comandando a história e preparando o caminho para o nascimento do tão aguardado Messias; e, quando ele viesse, seria homem, da nação de Israel, da tribo de Judá, “da descendência de Davi”. Paulo então diz: “Aí está a resposta! Jesus Cristo é o cumprimento da profecia!”

            Nesta profecia percebemos a soberania de Deus. Deus cuidou de cada família, de cada pessoa, de cada detalhe até o nascimento de Seu Filho. Isto nos lembra da verdade de que Deus conhece, sabe e ordena o nascimento de cada homem deste planeta. Ninguém está aqui por acaso! Deus desejou que você nascesse! Dos milhões de espermatozóides ninguém poderia chegar na sua frente! Deus, desde lá, já estava controlando todas as coisas!

            Existe algo de muito importante nesta expressão que muitos desconhecem. Os judeus ainda estão esperando a vinda do Messias. Só que os judeus tem um grave problema. Eles entendem, segundo as Escrituras, que o Messias será da semente de Davi. Só que nos dias de hoje é impossível se provar isto. Todos os registros judeus foram perdidos com a destruição do templo em 70 d.C. As tábuas genealógicas desapareceram! Se alguém aparecer afirmando que é o Messias, eles não podem provar que este homem é da descendência de Davi!

            Nós, cristãos podemos provar que o Messias que veio era da semente de Davi. Na época de Jesus os registros ainda estavam disponíveis. Lucas capítulo dois fala do recenseamento periódico que era feito. Todo judeu, com toda sua família, era obrigado a participar. As genealogias ainda existiam e José e Maria tiveram que ir a Belém recensear-se.

            Estes fatos nos mostram a cegueira que domina os judeus. Eles não possuem nenhuma condição de provar que o Messias que estão esperando é realmente o Messias. Em contrapartida, rejeitam Aquele em cujo caso se pode comprovar.

            Foi comprovado que Jesus é da semente de Davi, cumprindo assim, a profecia! Este é um precioso argumento na evangelização de judeus!

 

“E foi declarado Filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor (v.4)

 

            Neste verso, o apóstolo faz aqui um contraste com o que ele acabou de falar no verso anterior. O termo “declarado” é contrastado com a expressão “nasceu” do verso três. Ele “nasceu da semente de Davi, segundo a carne”, contudo, ele não “nasceu Filho de Deus com poder”. É importante percebermos que Jesus foi “declarado” e não “nasceu” Filho de Deus com poder. Jesus “começou a ser” da semente de Davi, segundo a carne, porém, Jesus nunca “começou a ser” o Filho de Deus, Ele sempre foi o Filho de Deus!

            Este é um ótimo argumento contra a heresia Adocionista que defende a idéia de que no batismo de Cristo, o Pai adotou a Jesus como Filho conferindo-lhe poderes sobrenaturais.

            Paulo reforça esta idéia com uma negativa. Ele nega que Jesus se tornou o Filho de Deus pela ressurreição. Alguns hereges dizem que ele se tornou Filho de Deus no batismo, outros dizem que foi na ressurreição. Paulo nega as duas teorias. O apóstolo nos mostra que Jesus já era o Filho de Deus antes de qualquer coisa, Ele não foi feito Filho de Deus pela ressurreição, Ele foi declarado Filho de Deus por ela.

            Aquele que durante sua vida terrena se revestiu de “humildade e fraqueza”, pela ressurreição tornou-se o “Filho de Deus em poder”. Pedro também falou sobre isto no dia de Pentecostes: "Saiba, pois, com certeza toda a casa de Israel que a esse mesmo Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo”. (At.2:36)

            Jesus já era Senhor e Cristo. A grande questão a ser entendida é que, aqui na terra, Ele teve alguns dos seus poderes limitados: "O qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fp.2:6,7). Quando veio a este mundo, Jesus não veio como “o Filho de Deus com poder”. Ele limitou-se em vários de seus atributos, como a onipresença. Ele não era “Filho de Deus com poder” quando estava na figura humana, afinal, como uma criança não podia falar, nem comer alimento sólido, nem controlar a bexiga; dependia de uma jovem mãe para receber abrigo, alimento e amor.

            Após a ressurreição sim, ele “foi declarado Filho de Deus com poder”. O resultado da ressurreição foi que o poder de Deus foi manifestado no Filho. Após a ressurreição e momentos antes da ascensão Jesus disse aos discípulos: “Todo poder é me dado no céu e na terra”. (Mt. 28:18) Em outra passagem Paulo nos diz que: “Foi crucificado por fraqueza, vive, contudo, pelo poder de Deus”. (II Cor.13:4)

            O que precisamos perceber no texto que estamos analisando, é que o apóstolo está fazendo um contraste entre a forma de servo e a forma de Deus de Jesus. Ele está contrastando a carne com o espírito. Segundo a carne, Ele foi feito da semente de Davi e veio em fraqueza. Segundo o espírito, Ele é Filho de Deus com poder, o que é provado pela ressurreição.

            A partir de então Jesus é Filho de Deus e Filho do homem. Antes da encarnação Jesus era somente Filho de Deus. Mas depois disto, Ele tornou-se um homem para sempre! Cristo subiu aos céus e lá está como Filho de Deus, mas como homem também. Jesus levou a natureza humana para a glória! “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”. (I Tm. 2:5)

            Jesus será um homem para sempre! Após a ressurreição podemos perceber Jesus com as cicatrizes dos cravos nas mãos, Ele as mostrou a Tomé (Jo. 20:25-27). Após a ressurreição, Jesus possuía carne e ossos: “Olhai as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede; porque um espírito não tem carne nem ossos, como percebeis que eu tenho”.  (Lc. 24:39). Após a ressurreição, Ele comia (Lc. 24:41,42), Estevão o viu como “o filho do homem, em pé a destra de Deus” (At.7:56), João o viu como “um semelhante a filho de homem” (Ap.1:13).

            Todos os textos indicam que Jesus não se tornou temporariamente homem. Eles nos mostram que sua natureza divina foi permanentemente unida à sua natureza humana. Portanto, Ele vive para sempre não só como o Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade; mas também como Jesus, o carpinteiro de Nazaré, o homem que nasceu de Maria. “Quando Jesus desceu a terra não deixou de ser Deus; quando voltou ao céu não deixou de ser homem”.(J. Blanchard)

            Um mistério! Uma maravilha! Duas naturezas: a divina e a humana. Completamente humano e completamente divino. Ambas as naturezas numa só Pessoa. Sem misturar-se e, todavia, ambas estão ali, juntas, unidas.

            Não tentem entender isto! É o mistério dos mistérios! É a maravilha da eternidade! É o meio pelo qual Deus resolveu nos salvar! Glória ao Pai! Glória ao Filho! Glória ao Espírito Santo!

 

“Jesus Cristo, nosso Senhor”. (v.4)

 

            Este título que Paulo atribui a Jesus é uma espécie de resumo de tudo o que foi dito a respeito dEle até agora. Os cristãos primitivos deleitavam-se com esta designação: “Jesus Cristo, nosso Senhor”. Eles gostavam de usá-la porque, esse nome por si só, já os lembrava das verdades essenciais da sua fé. A fé cristã, em sua totalidade, depende disto!

            Estes primeiros cristãos eram aprisionados, torturados e mortos porque diziam: “Jesus Cristo é o Senhor”. As autoridades tentavam fazer com que eles dissessem: “César é Senhor”. Como os cristãos não faziam isto, eles eram jogados aos leões, queimados, enforcados. Portanto, esta expressão era para aqueles cristãos absolutamente essencial!

            Esta expressão nos lembra da grande questão que ocupou a atenção da Igreja Cristã nos 3 primeiros séculos. A verdade a respeito da divindade e da humanidade de Cristo foi a principal discussão no início da igreja, sofrendo vários ataques poderosos, com o objetivo de ridicularizar esta verdade essencial da fé cristã. Devido a este fato, Concílios foram promovidos para provar e defender estas verdades da Palavra de Deus. O resultado foram os Credos e Confissões que temos hoje em mãos.

            Semelhantemente, o apóstolo Paulo precisava defender esta verdade no início de sua epístola, afinal, tudo que ele vai falar depende da crença na verdade de que Jesus Cristo foi completamente humano e completamente Deus.

            A defesa desta verdade pode ser vista em outras epístolas de Paulo, como é o caso de Filipenses, quando o apóstolo declarou: “Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que é sobre todo nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor” (Fp. 2:9-11).

            Paulo nos lembra com estas palavras que não há no céu lugar mais grandioso que aquele que Ele ocupa! Todas as coisas do céu, da terra e debaixo da terra, estão no controle do Senhor Jesus! Paulo gostava da idéia de Jesus Cristo como Senhor! Será que nós também gostamos desta idéia?

            Os incrédulos não conhecem absolutamente nada desta verdade. Consideram Jesus um homem desprezível. Outros o vêem como alguém digno de pena, de misericórdia. Já outros até tem respeito por Ele, mas como Senhor, não conseguem o enxergar! Paulo diz em I Coríntios 2:8 que se os homens o conhecessem realmente “nunca crucificariam o Senhor da glória”. Portanto, é nosso dever mostrar às pessoas que Cristo é o Senhor!

            Jesus é Senhor não apenas do universo, mas Senhor também das nossas vidas. Ele nos comprou, Ele nos adquiriu!“Não sois de vós mesmos, fostes comprados por preço”. (I Cor. 11:19,20) Cristo é o nosso proprietário. Foi isto que Paulo quis dizer quando afirmou que ele era “servo de Jesus Cristo”.

 

“Por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado por amor do seu nome, para a obediência por fé, entre todos os gentios”. (v.5)

 

            Fortalecendo a idéia de Jesus Cristo como Senhor, Paulo nos lembra que crer no evangelho não é mera questão intelectual. Crer no Evangelho significa obedecer ao que o evangelho propõe. Inclui o intelecto, mas inclui principalmente, a obediência; inclui um elemento de entrega, de submissão. O homem completo está envolvido. Não seremos salvos se apenas professarmos que cremos em Jesus. Além de professar, precisamos praticar aquilo que professamos.

            Jesus nos advertiu sobre este assunto quando disse: “Um homem tinha dois filhos, e, chegando-se ao primeiro, disse: Filho, vai trabalhar hoje na vinha. Ele respondeu: Sim, senhor; mas não foi. Chegando-se, então, ao segundo, falou-lhe de igual modo; respondeu-lhe este: Não quero; mas depois, arrependendo-se, foi”. (Mt.21:28-30) O segundo filho falou que não ia, mas arrependeu-se e foi. Já o primeiro falou que ia, mas não foi. O ato de ir faz parte do arrependimento! Se o segundo filho se arrependesse do que falou, mas não fosse, seu arrependimento era duvidoso, ele teria agido da mesma maneira que o primeiro que disse que ia e não foi. Obediência significa ação e não apenas um sentimento triste. Significa não apenas aceitar com o intelecto, mas, principalmente, obedecer na prática!

            O Cristianismo é basicamente um relacionamento com Jesus, e não um conjunto de idéias sobre a pessoa de Jesus. Ninguém será salvo simplesmente por crer num conjunto de idéias; toda a ortodoxia do mundo não é capaz de introduzir uma pessoa no céu. Precisamos viver aquilo que cremos! Precisamos nos relacionar de verdade com aquele que é a fonte de todas estas doutrinas!

            O que fazemos com aquilo que cremos é fundamental para provar se realmente cremos como dizemos que cremos. Uma fé digna de ser crida é uma fé digna de ser vivida. O que fazemos com a fé é muito importante. Se você não vive o que crê, você não crê de verdade. Fé garante ação. A sua doutrina é aquilo que você é quando você para de falar e começa a agir.

            O elogio aos heróis da fé não se deve àquilo que Deus fez por eles, mas o que eles, pela fé, fizeram por Deus. Diz a Bíblia que eles ofereceram sacrifícios, obedeceram, dedicaram filhos, viveram como peregrinos, renunciaram a riqueza e posições, conquistaram reinos, entregaram-se ao martírio. Eles não se tornaram heróis porque foram muito abençoados, mas porque abençoam a muitos. Estes homens nos revelam a verdade de que não devemos desejar uma fé que espera Deus trabalhar a nosso favor, antes, devemos suplicar pela fé que nos faz trabalhar no reino de Deus.

            Precisamos praticar – obedecer – aquilo que cremos, afinal como diz Tiago: “a fé sem obras é morta”. Uma fé digna de ser crida é digna de ser defendida, e viver a fé é o melhor argumento que os crentes têm em favor de sua fé. A maneira como lutamos é tão importante quanto o conteúdo de nossos argumentos. Podemos vencer com a nossa lógica e perder com a nossa vida. Afinal, como dizia Cícero: "O que você é fala tão alto que eu não consigo ouvir o que você diz”.

 

“De cujo número sois também vós, chamados para serdes de Jesus Cristo”.(v.6)

 

            Paulo não se satisfaz em meramente descrever-se, ele sente a necessidade de descrever os romanos também. Um dos grandes propósitos do apóstolo ao escrever-lhes é mostrar-lhes o que eles são como cristãos, e Paulo os descreve como “chamados para serdes de Jesus Cristo”.

            Esta é uma declaração muito significativa. Os cristãos pertencem a Cristo por predestinação, redenção e chamamento. Os discípulos de Jesus não se tornam crentes por sua escolha voluntária, a salvação deles tem sua origem no chamado eficaz de Deus. Somos ensinados pelas Escrituras que os homens são incapazes de salvar a si mesmos devido a sua natureza degenerada, desta maneira, cabe a Deus prover os meios para salvá-lo. No capítulo oito encontramos o apóstolo nos lembrando desta verdade ao dizer: “E aos que predestinou a estes também chamou (8:30). Deus não somente elegeu, ele também chamou àqueles que Lhe agradou eleger.

            Em vários outros momentos nas Escrituras encontramos esta doutrina sendo ensinada. “Todo o que o Pai me dá virá a mim” (Jo.6:37). “Todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim” (Jo.6:45). “Aprouve a Deus que desde o ventre de minha mãe me separou, e me chamou pela sua graça”. (Gl.1:15). “Para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pe.2:9). “E o Deus de toda graça, que em Cristo Jesus vos chamou à sua eterna glória” (I Pe.5:10).

            Se não existir um chamado interior maior que nossa vontade, mais poderoso que nossa natureza, jamais seremos salvos! Jesus nos disse: “Vós não quereis vir a mim para terdes vida” (Jo. 5:40). É preciso que aconteça um chamado poderoso e irresistível para que venhamos a crer! O famoso escritor C.S.Lewis, comentando a sua experiência de conversão, afirmou o seguinte: “Deus encostou-me na parede”.

            Os arminianos defendem a idéia de que nós podemos rejeitar ao convite de Cristo. Biblicamente isto é impossível! Em João 6:44, encontramos Jesus dizendo o seguinte: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer”. O verbo “trouxer” no grego é a palavra “elko”, que significa "compelir por irresistível superioridade". No Novo Testamento existem outros textos onde encontramos esta mesma palavra, por exemplo: “Mas vocês têm desprezado o pobre. Não são os ricos que oprimem vocês? Não são eles os que os arrastam (elko) para os tribunais?” (Tg. 2:6). Os ricos não convidavam os pobres, eles os arrastavam para os tribunais! Em Atos 16:19, encontramos: "Percebendo que a sua esperança de lucro tinha se acabado, os donos da escrava agarraram Paulo e Silas e os arrastaram (elko) para a praça principal” (At.16:19). Paulo e Silas não foram convidados e sim forçados, arrastados para irem à praça! O texto de João 6:44 diz que: “ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o arrastar (elko)” Não existe a mínima possibilidade de resistirmos a chamada de Deus! Ela é irresistível!

            Algo parecido pode ser percebido quando lembramos do nosso próprio nascimento. Qual foi a sua participação no seu nascimento físico? Você foi consultado acerca desta questão? Alguém lhe perguntou se você queria nascer homem ou mulher, rico ou pobre, feio ou bonito, no Brasil ou no Japão, negro ou branco? Não, claro que não! Foi a soberana vontade de Deus que nos trouxe à existência sem nos perguntar nada a respeito! Da mesma maneira acontece em nosso nascimento espiritual, Deus não nos consultou, Ele nos trouxe à vida eterna mediante o Seu próprio poder soberano. E glória a Deus por isso! Afinal, se Ele nos deixasse a nossa própria sorte estaríamos todos eternamente perdidos. Mas Ele nos predestinou, nos justificou e nos chamou! Não é a ovelha perdida que encontra o pastor, é o pastor que encontra a ovelha perdida!

 

“A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. (v.7)

 

            Além de “chamados para serdes de Jesus Cristo”, Paulo faz outra descrição dos romanos: “amados de Deus”. Esta verdade aplica-se a todo discípulo de Cristo espalhado por todo este universo.

            Esta é uma verdade gloriosa a qual muitas pessoas não conseguem alcançar a sua profundidade e grandiosidade. Daí a necessidade de, antes de prosseguirmos, analisar a natureza do amor divino direcionado ao coração do homem.

            A Bíblia nos diz que o amor divino é imune de influencias externas. O amor das criaturas umas pelas outras se deve a algo existente entre elas. Por que é que amamos algumas pessoas e outras não? Alguma coisa nos levou a amarmos aquilo que amamos. O amor de Deus não é assim. Ao contrário do amor humano, o amor divino não depende de seu objeto. Não há nada no homem que possa atrair, impulsionar ou forçar o amor de Deus em sua direção. O Criador não amou o homem amou porque este o amava; antes, Ele os escolheu e amou quando eles ainda eram pecadores. Deus amou o homem quando não havia nada de bom para ser visto nele, quando não existia nada de bom para ser dito sobre ele.

            O que existia no homem era para repelir e não atrair o amor de Deus. Se Deus amasse ao homem em resposta ao amor dele por Deus, então o amor divino não seria espontâneo. A única razão pela qual Deus ama alguém acha-se em Sua vontade soberana! Diz as Escrituras que o amor de Deus é gratuito, espontâneo, não é causado por absolutamente nada. A única base do amor de Deus é seu próprio amor. “O Senhor não tomou prazer em vós, nem vos escolheu porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos: mas porque o Senhor vos amava”. (Dt.7:7,8)

            Deus ama porque é Sua natureza fazer isso, afinal, “Deus é amor”. Deus amou porque quis amar. E por quê desejou amar? “Porque assim foi do teu agrado”.

            A segunda característica do amor divino encontrado nas Escrituras, é que este amor é eterno. Se o amor faz parte da natureza de Deus e se Deus é eterno, logo, Seu amor também é eterno! Como Deus, o Seu amor não teve princípio e jamais terá fim. Em Jeremias, encontramos Deus dizendo: "Com amor eterno eu te amei” (Jr.31:3). Deus nos amava, muito antes de existirmos!Esta é mais uma prova de que Seu amor é espontâneo.

            A terceira característica do amor divino encontrado nas Escrituras, é que este amor é soberano. Dizer que alguém é soberano é afirmar que este ser não deve obrigação a ninguém. O soberano é a sua própria lei, age de acordo com a sua própria vontade. Assim, pois, se Deus é amor e se Deus é soberano, logo, Seu amor também é soberano. Isto significa que Deus ama a quem lhe apraz! Como Paulo vai nos lembrar no capítulo 9 desta epístola: "Amei a Jacó e aborreci a Esaú”. (Rm. 9:13) Jacó tinha alguma vantagem sobre Esaú para receber o amor de Deus? Óbvio que não! Pelo contrário, se alguém não merecia receber amor, este era Jacó, um homem enganador, mentiroso, suplantador. Paulo nos diz em Efésios que: “Em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade”. (Ef.1:5) Deus ama há alguns e a outros não! Amou a Jacó e odiou Esaú! Por quê? Porque o Seu amor é soberano!

            A quarta característica do amor divino encontrado nas Escrituras, é que este amor é imutável. Se o amor faz parte da natureza de Deus e se Deus é imutável, logo, o amor de Deus é imutável. Jacó é um dos maiores exemplos do amor imutável de Deus. Apesar de tudo o que fez, Deus continuou amando Jacó. Apesar de tudo o que os discípulos fizeram na noite da crucificação, Jesus continuou os amando! “Havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim!”. (Jo. 13:1).

            A quinta característica do amor divino encontrado nas Escrituras, é que este amor é santo. O amor de Deus não é regulado por capricho, paixão ou sentimento, mas por princípio! O amor de Deus nunca entra em conflito com sua santidade. É por isto que “o Senhor corrige ao que ama e açoita a qualquer que recebe como filho”. (Hb.12:6) Deus não tolera o pecado, mesmo daqueles a quem ama!

            A sexta característica do amor divino encontrado nas Escrituras, é que este amor é cheio de graça. Jesus morreu, não para fazer com que Deus nos amasse, mas porque Deus já amava o seu povo. A conseqüência de Deus ser amor é que Quem muito ama, muito dá, sendo assim, Deus “deu o seu Filho unigênito”. Todos conhecemos o ditado que diz: “você pode dar sem amar, mas você não pode amar sem dar”. O Pai não apenas enviou Seu Filho ao mundo, Ele deu o Seu Filho pelo mundo. O ato de enviar mostra a encarnação, o ato de dar demonstra a encarnação do amor.

            Uma das melhores maneiras de medirmos a profundidade do amor é percebermos a disposição do sacrifício. O grande rei Davi disse: “não oferecerei sacrifício que não me custe nada”. (I Cr. 21:24). O amor de Davi por Deus podia ser visto no preço que ele estava disposto a pagar. Deus não abriu mão de qualquer coisa, Ele deu Seu único Filho! Seu Filho amado, em que Ele se compraz. Aquele que era um com Ele mesmo. Portanto, Deus deu de Si mesmo. O que mais Ele poderia dar?

            Qual é o pai ou a mãe que daria seu filho para morrer por seus inimigos? Nenhum ser vivo abre mão facilmente da sua prole. Portanto, a prova do amor está em sua capacidade de sofrer pelo objeto de sua afeição.

            Deus nos amou de tal maneira que parece ter nos amado mais do que o Seu próprio Filho. Ele não poupou Seu único Filho para que pudesse nos poupar! Ele permitiu que Seu Filho perecesse “para que todo aquele que nele crê não pereça”. (Jo. 3:16).

            A grandiosidade do amor divino pode ser percebia no fato de que este amor foi derramado sobre um mundo perdido, arruinado e culpado. O que é que existia no mundo para que Deus o amasse? Não havia nada nele que fosse digno de amor. Inimizade para com Deus, ódio à sua verdade, desprezo à Sua Lei, rebelião contra os Seus mandamentos. Estes eram os espinhos e abrolhos que cobriam a terra devastada. Nenhuma flor perfumada crescia nesse deserto árido. Nada desejável e agradável existia no mundo quando Deus o amou.

            Este contexto abriu espaço para a manifestação do amor de Deus. Entre as ruínas da humanidade havia espaço para que o Senhor demonstrasse o quanto Ele amava os homens. A enfermidade do homem ofereceu oportunidade para a revelação do remédio divino. O negro pano de fundo do pecado deu um brilho especial ao amor de Deus! “Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm. 5:8).

            A grandiosidade do amor divino pode ser percebida na maneira como Deus doou o Seu Filho. O Pai enviou o herdeiro de todas as coisas para labutar numa oficina de carpinteiro, usando o martelo, a serra e a plaina, para o meio de escribas e fariseus que o açoitaram com calúnias do mais baixo nível, para sofrer fome e sede, para viver em pobreza tal que não tinha onde reclinar a cabeça, para ser torturado, maltratado e morto como um criminoso, para se tornar maldição em nosso lugar.

            A grandiosidade do amor divino pode ser percebida na época em que Deus ofereceu o Seu Filho ao mundo. O tempo está vinculado com Seu amor. Quando foi que o Pai entregou o Filho? Diz a Escritura que o Cordeiro foi morto antes da fundação do mundo. A promessa de que Jesus seria enviado foi feita no Jardim do Éden, logo após a queda de Adão. Através dos tempos o Pai se manteve Fiel à Sua promessa! Cada animal morto dentro do sistema de sacrifícios, era um prenúncio do Cordeiro que seria entregue. Cada sacrifício era uma confirmação de que Deus não voltaria atrás de Sua decisão.

            Imagine que uma mãe soubesse a data exata da morte de um filho. Como ela viveria ano após ano, mês após mês? Esta situação lançaria uma sombra sobre cada dia e hora do futuro. E, se ela soubesse não apenas o dia, mas a maneira (como um criminoso) como o filho morreria? Isto certamente traria uma amargura ainda maior. Se esta mãe pudesse evitar esta situação, ela não o faria? É claro que sim! No entanto, o Pai não poupou o seu próprio Filho, antes por todos nós o entregou! Ele fez isto, milênio após milênio, século após século, ano após ano, por amor! Amor “que muitas águas não podem sufocar” (Ct. 8:7). Amor eterno, inconcebível, infinito, imutável!

            Este dom do Pai se refere não apenas as eras que precederam à morte de Jesus, mas as eras posteriores também. Deus deu e continua dando o Seu Filho nos dias de hoje. O Pai oferece Jesus neste momento a todos que precisam dEle. Àqueles que precisam de Jesus como o Cristo, o enviado de Deus para salvá-los. Àqueles que precisam de Jesus como Guia diário para suas vidas.

            Eis que grandioso amor! Ofereceu Seu Filho desde eras passadas e jamais revogou esta dádiva! Sempre foi fiel a promessa! Deu, está dando e continuará a dar sempre o Senhor Jesus Cristo! E junto com o Filho, o Pai concede todos os dons inestimáveis inerentes a Ele. (Rm. 8:32)

            Será que nós conseguimos perceber como é preciosa a expressão “amados de Deus”? Nosso dever é, a cada dia, agradecer, louvar e adorar a Deus por tão grandioso amor derramado sobre nós!

“Graça e paz”. (v.7)

 

            Paulo uniu os modos grego e hebraico de saudar. “Graça” era a saudação comum dos gregos, eles diziam "Chaire" que significa “alegra-te”. O apóstolo trocou a palavra Chaire por "Charis" que significa "graça". Além de graça, Paulo os saudou com “paz” que era a saudação comum dos judeus. Os israelitas saudavam uns aos outros com "Shalom" que quer dizer “paz”.

            Paulo reuniu esses dois termos e os deu um sentido cristão único, terno e precioso. A graça e a paz. A graça veio significar misericórdia para quem não a merecia e bênçãos dispensadas por Deus. É a fonte original do amor redentor de Deus e nos redime do pecado. Já a paz, veio significar todas as bênçãos espirituais desejadas pelo homem. É a conseqüência da atuação do amor redentor de Deus em nossos corações, acalmando a nossa consciência.

            Outro detalhe que podemos perceber é "Graça e paz”, é sempre nesta ordem. E como diz o Dr. M. Lloyd-Jones, "a seqüência bíblica sempre tem algo a nos ensinar". Neste caso a seqüência nos ensina que ninguém pode desfrutar de paz verdadeira sem antes conhecer a graça de Deus. Em Filipenses 3:6,7, Paulo nos lembra que a paz só virá depois que conhecermos e vivermos a graça.

A paz oferecida pelo mundo é diferente da oferecida por Cristo. “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo. 14:27). Esta paz não pode ser oferecida pela polícia, pelo dinheiro, pelo poder, nem sequer pelas Organizações das Nações Unidas. A paz de Cristo é diferente da paz do mundo porque ela é vinculada a graça.

            Esta é a fórmula habitual com que Paulo se dirige a todas as igrejas. Naturalmente ele faz isto, pois dizendo isto não existe mais o que dizer. Quando você deseja a alguém a graça e paz de Deus, você já lhe desejou tudo. Você está desejando a pessoa todas as bênçãos que são possíveis ao cristão experimentar!

            A única vez em que a saudação “graça e paz” é modificada é em I e II Timóteo que é adicionada a palavra misericórdia. Talvez seja porque esta é uma carta pastoral e os pastores além de graça e paz precisam de muita misericórdia.   

 

Primeiramente dou graças ao meu deus, mediante Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”.(v.8)

 

            Segundo as Escrituras, qualquer pedido ou súplica ao Pai, deve ser mediado por Jesus Cristo. Não apenas nossas súplicas, nossa gratidão também deve ser através do Filho. Paulo nos mostra que tanto súplica como gratidão ao Pai precisam ser intermediados pelo Filho. Não podemos nem mesmo agradecer se não for através do Filho.

            O apóstolo dos gentios nos mostra que qualquer tipo de acesso ao Pai só pode acontecer através do Filho. Ninguém pode nos conduzir ao Pai, seja para o que for, a não ser Jesus Cristo. Só há conhecimento e acesso a Deus por meio exclusivo de Jesus.         

            Não é cristão aquele que afirma que existe outro meio de chegar ao Pai que não seja pelo Filho. Não existem caminhos, apenas um único Caminho!

            Não pode ser considerado cristão a pessoa que não pensa desta maneira. Devemos respeitá-los e ter misericórdia delas, no entanto, não podemos considerá-los nossos irmãos. Não podemos cair na besteira do Ecumenismo! A tendência do meio evangélico nos dias de hoje é de ir pelo caminho do ecumenismo. “Sempre que a heresia aparece, ela vem montada no lombo da tolerância”. (John MacArthur) A heresia nos diz: “Vamos ser um, vamos ter unidade, Jesus orou pela unidade. A doutrina divide, não vamos ser divididos. A teologia de um homem é a heresia de outro homem. Não vamos discutir teologia, vamos simplesmente nos amar”. Isto é mortal!

            É um erro grosseiro afirmar que a doutrina causa disputa e divisão. A doutrina não causa divisão, ela une as pessoas! A Igreja Primitiva uniu as pessoas com uma variedade de experiências culturais, socioeconômicas e étnicas. Como ela uniu estas pessoas? Através da doutrina! O que as uniu não foi a cultura nem a ideologia, mas um credo comum!

            O maior dano que o movimento carismático proporcionou ao meio evangélico não tem nada a ver com falar em línguas, com as reivindicações de curas ou com os milagres. O maior dano promovido pelos pentecostais, foi criar uma atmosfera de tolerância para todos os pontos de vista.

            A verdade quando aparece, ela sempre pede para ser testada! Assim foi com os Bereanos. Paulo exortou aos crentes em Tessalônica a “Examinar tudo cuidadosamente” (I Tes. 5). João nos disse que deveríamos “Testar os espíritos”. Não devemos ter medo ou qualquer receio, a verdade sempre passa pelo teste!

            Infelizmente, existem pessoas que entendem que “não há necessidade de negativas, devemos estar contentes com uma apresentação positiva da verdade; um espírito de amor é incompatível com a denúncia crítica e negativa dos erros gritantes; devemos sempre ser positivos”. Para estas pessoas lembramos que todo falso ensinamento deve ser odiado e combatido. O Novo Testamento nos diz que assim fez nosso Senhor e todos os apóstolos. Eles se opuseram e advertiram as pessoas contra os falsos ensinamentos. A resposta mais simples a tal atitude é que o Senhor Jesus Cristo denunciou o mal e os falsos mestres. Jesus os denunciou como “lobos vorazes” e como “sepulcros caiados” e como “guias cegos”. O apóstolo Paulo disse de alguns deles: “o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia”. Esta é a linguagem das Escrituras. A Igreja está como é hoje porque não seguimos o ensinamento do Novo Testamento. Deixamos de lado as exortações bíblicas e nos restringimos ao chamado “Evangelho simples”. Fracassamos em acentuar negativas e críticas. O resultado é que as pessoas não reconhecem o erro, quando se defrontam com ele. Aceitamos aquilo que aparenta ser bom, mas que na realidade é doutrina de satanás.

             Não é agradável ser negativo. Ter que denunciar e expor o erro não dá alegria. Mas qualquer pastor que sinta a responsabilidade que Paulo sentia e que queira o bem estar espiritual de seu povo, é forçado a fazer estas advertências.

 

“Dou graças ao meu Deus... porque em todo o mundo é anunciada a vossa fé”. (v.8)

 

            Paulo se alegra pelo fato de que em vários lugares é pregado que em Roma existiam cristãos. Roma era a capital mundial, tudo de grande, de belo, de moderno, de maravilhoso, estava nesta cidade.

            Muitas vezes pensamos que o Evangelho não chega nestes locais. Não acreditamos que o Evangelho possa alcançar empresários, cientistas, pessoas importantes. Paulo nos lembra que no local mais famoso do mundo, existiam cristãos! O Evangelho alcança pessoas que nós jamais imaginávamos!

            Outro detalhe que não deve passar despercebido é que, naquela época não existia telefone, Internet, jornal ou revista; e, mesmo assim, o Evangelho foi anunciado em todo o Império Romano. Isto nos lembra que avivamento, não requer publicidade. Quando o Espírito de Deus atua, Ele é a própria propaganda. Ninguém precisa fazer propaganda da obra do Espírito Santo. Os avivamentos jamais solicitaram publicidade. Eles se divulgavam por si! Foi exatamente isto que aconteceu naquele período da história!

            O Cristianismo era difundido pelo testemunho pessoal. E crescia assustadoramente! A melhor propaganda do Evangelho é o nosso testemunho! Paulo vai dizer que os convertidos são “cartas vivas” do Senhor: “Será que precisamos, como alguns, de cartas de recomendação para vocês ou da parte de vocês? Vocês mesmos são a nossa carta, escrita em nosso coração, conhecida e lida por todos. Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos”. (II Cor.3:1-3)

            É possível que isto aconteça nos dias de hoje? Basta vivermos dignamente em casa, no serviço, na faculdade. Basta mostrarmos as pessoas que nos cercam, Jesus Cristo em nós! Uma fé digna de ser crida é uma fé digna de ser difundida!

 

“Dou graças ao meu Deus”. (v.8)

 

            Ingratidão é assunto sério! Deus é honrado pelas ações de graça e desonrado pela ausência delas. Uma coisa é sentir-se agradecido, outra coisa é expressar isto. Precisamos expressar nossa gratidão em grandes oportunidades e em pequenos gestos realizados à nossa pessoa.

            A Bíblia está cheia de expressões de agradecimento ao Senhor pelas copiosas e imerecidas bênçãos que Ele nos proporciona a cada momento. “Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós e por isto estamos alegres.” (Sl.126:3) “Em tudo daí graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.” (I Tes.5:18).

            Cícero dizia que “a gratidão não é somente a maior de todas as virtudes, mas a fonte de todas as demais virtudes”. Infelizmente, o senso de direito e posse vem tirando da humanidade sua memória e sua enorme dívida de gratidão, fazendo com que este sentimento torne-se cada vez mais raro entre nós. Ao que parece, isto já acontecia nos tempos de Jesus, quando Ele curou os dez leprosos, apenas um voltou para agradecer.

            O individualismo fez com que as pessoas perdessem a consciência da dívida que elas tem para com Deus e a humanidade. Albert Einstein, falando para a Liga Alemã de Direitos Humanos, em 1932, disse o seguinte: “Estou sempre inquieto pelo fato de que minha vida é baseada num conjunto extenso de trabalhos dos seres humanos, e estou consciente da minha impagável dívida para com eles”.

            Na maioria das vezes nos esquecemos disto que Einstein afirmou. Paulo disse a mesma coisa quando advertiu a igreja de Corinto da seguinte forma: "E que tens tu que não tenha recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se não tiveras recebido?” (I Cor. 4:7). Paulo nos lembra que a vida e tudo o que temos recebido com ela não tem sua origem em nós mesmos.

            A gratidão é fundamental no desenvolvimento do caráter cristão. A gratidão nos leva a ter um coração mais aberto às surpresas da graça de Deus. Por outro lado, a ingratidão nos mantém cativos e olhando numa única direção. A gratidão nos liberta da sensação constante de falta; já as pessoas ingratas são, naturalmente, insatisfeitas. Para estas pessoas, há sempre algo faltando, o que possuem nunca é suficiente; por isso é que, na maioria das vezes, pessoas ingratas são pessoas egoístas. A gratidão desenvolve em nós uma sensação de plenitude, realização e satisfação. A pessoa grata foca seu olhar em Deus e não em si mesma, ela presta mais atenção nas mãos generosas do Criador do que nas suas necessidades.

            Certa vez, Mathew Henry (comentarista bíblico) foi assaltado, e escreveu em seu diário sobre o episódio: “Senhor ajuda-me a ser agradecido. Primeiro porque eu nunca antes havia sido assaltado; segundo, porque os assaltantes levaram apenas a minha carteira de dinheiro, mas não me ameaçaram a vida; terceiro, porque levaram tudo que eu possuía em dinheiro, mas não era muito; e quarto, porque fui eu o assaltado e não quem praticou o roubo”.

            A gratidão nos faz perceber as ações de Deus onde nunca imaginamos que isto fosse possível. Como disse Chesterton: "A maior frustração de um ateu é contemplar um pôr-do-sol e não ter a quem agradecer". Quando temos um coração agradecido, somos capazes de provar a graça de Deus em todas as coisas!

            Salvador Dali, falecido pintor surrealista espanhol, era uma pessoa espalhafatosa tanto na vida real quanto na sua arte. Exibindo seu longo bigode e aproveitando cada chance para promover sua imagem pública, produziu pinturas e orquestrou um estilo de vida que ultrapassou as convenções. Sua tendência de provocar tem raízes profundas em sua própria história.

            O relacionamento de Dali com seu pai sempre foi turbulento e confuso. Certa vez, após uma discussão com seu pai que terminou com violências e agressões, o jovem Dali deixou a casa paterna e, ao chegar em sua própria casa, masturbou-se, colocou o sêmen dentro de um envelope e o endereçou a seu pai, e, como se estivesse pagando a conta de luz ou telefone, escreveu no envelope: “Dívida paga”.

            O que leva uma pessoa a achar que pode pagar por aquilo que é impagável? O que faz com que uma pessoa ignore a soma de tudo aquilo que recebeu? Como podemos pagar por tudo que nossos pais, mestres, amigos, conselheiros fizeram por nós? Como recompensar as contribuições dos grandes compositores, cientistas, artistas, missionários? O que fazer para recompensar um pôr-do-sol ou a beleza de um girassol? Como respondemos àquilo que recebemos determina a natureza da vida e dos nossos relacionamentos

            Gratidão significa abrir a alma para a generosidade de Deus; é dar, ao invés de somente receber; é ir ao encontro do outro, ao invés de esperar que ele nos encontre; é  oferecer a mão, o ombro, o carinho, a compaixão, ao invés de lamentar a solidão e o abandono Ao invés de buscar a bênção, tornar-se bênção para o outro.

            “Dou graças ao meu Deus” disse o apóstolo. Precisamos aprender com Paulo a ter um coração agradecido!

 

Deus, a quem sirvo de todo o coração pregando o evangelho de seu Filho, é minha testemunha de como sempre me lembro de vocês em minhas orações; e peço que agora, finalmente, pela vontade de Deus, seja-me aberto o caminho para que eu possa visitá-los”. (v.9,10)

 

            Paulo apela para o testemunho divino a fim de provar o seu desejo de estar com os romanos. Ele afirma que Aquele que não pode mentir e que sonda os corações sabe que ele é sincero no que diz. Deus sabe que os sentimentos de Paulo por aquela igreja eram verdadeiros.

            Esta expressão “Deus é minha testemunha”, constitui uma forma de juramento. Paulo, em várias oportunidades, emprega juramentos colocando Deus como testemunha.“Invoco a Deus como testemunha de que foi a fim de poupá-los que não voltei a Corinto” (II Cor.1:23). “Vocês bem sabem que a nossa palavra nunca foi de bajulação nem de pretexto para ganância; Deus é testemunha” (I Ts.2:5). Isto nos mostra que jurar não é uma prática errada quando realizada com reverencia e santo propósito. O que Deus condena é o jurar falso, profano e sem responsabilidade.

 

“Sempre me lembro de vocês em minhas orações”. (v.9)

 

            Paulo constantemente pediu a Deus pelo bem-estar dos romanos. Ele se preocupava com o crescimento na graça daqueles irmãos.

            Isto é algo que nós precisamos imitar. Será que nos preocupamos com o crescimento espiritual dos nossos irmãos? A inércia espiritual dos outros nos incomoda? Uma das maneiras mais claras de sabermos se amamos alguém, é perceber se oramos por ela. Uma prova da afeição de Paulo pelos romanos era sua constante intercessão por eles.

            Orar sempre pelos nossos problemas e esquecer dos outros é egoísmo. Estar sempre intercedendo pelos outros irmãos é sinal de maturidade espiritual. Paulo intercedia por todos os seus filhos na fé. Ao que parece,  ele se preocupava em oração mais com outros do que consigo mesmo.

 

“Deus, a quem sirvo de todo coração”. (v.9)

 

            Todo serviço a Deus deve ser feito de coração! Qualquer coisa que venhamos a fazer no Reino de Deus precisa ter o caráter de culto. Desde trocar uma lâmpada do templo até entoar louvores, tudo deve ser feito como adoração. O pastor, o tesoureiro, o zelador, todos devem encarar seu serviço como adoração a Deus. É por isto que a Bíblia nos diz que “maldito é aquele que faz a obra do Senhor relaxadamente”.

            Spurgeon dizia de pessoas que na reunião de oração oravam como santos e na assembléia falavam como demônios. Na reunião de oração sentiam-se “prestando culto a Deus”, na assembléia entendiam que estavam tratando de uma reunião de negócios. Infelizmente, nestes encontros o temor, a reverência, o louvor e a adoração são esquecidos por completo!

            “Servir a Deus de coração” possui pelo menos duas características claras segundo a Bíblia. Primeiro, servir de coração, é ser sincero naquilo que se faz. Servir de coração é colocar todo o seu ser naquilo que se está fazendo. O homem como um todo está envolvido, não existem partes que não estão de acordo. Não existe, portanto, a possibilidade de hipocrisia. Paulo fala de pessoas que pregavam a Cristo sendo insinceros: “É verdade que alguns pregam Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o fazem de boa vontade”. (Fp. 1:15)

            Podemos fazer muitas coisas no reino de Deus e não sermos sinceros e honestos naquilo que fazemos. A prova pela qual toda conduta será finalmente julgada é o motivo. Como a água não pode subir mais alto do que o nível da sua fonte, assim a qualidade moral de um ato nunca pode ir mais alto do que o motivo que o inspira. Nenhum ato procedente de um mau motivo pode ser bom, ainda que algum bem possa parecer provir dele. Toda ação praticada por ira ou despeito ver-se-á afinal que foi praticada pelo inimigo e contra o reino de Deus.

            Muita coisa pode ser feita em nome da raiva, da inveja, da ambição, da vaidade e da avareza. Tudo que for feito desta maneira é essencialmente mal, e como tal será avaliada no julgamento.

            Nesta questão das intenções, como em muitas outras coisas, os fariseus dão-nos claros exemplos. O problema daqueles homens estava na qualidade dos seus motivos religiosos. Eles oravam, mas para serem ouvidos pelos homens; deste modo, o seu motivo arruinava as suas orações e as tornava inúteis e más. Contribuíam generosamente para o serviço do templo; contudo, o faziam para escapar do seu dever para com os seus pais, isto era um mal terrível! Eles condenavam o pecado e se levantavam contra ele quando o viam nos outros; mas o faziam por sua justiça própria e por sua dureza de coração. Assim era com quase tudo o que faziam. Suas atividades eram cercadas de uma aparência de santidade, e, essas mesmas atividades, se realizadas por motivos puros, seriam boas e louváveis; contudo, a intenção deles não era pura!

            Fazer coisas certas por motivos errados é algo seriíssimo. Os fariseus continuaram em sua cegueira até que crucificaram a Jesus sem um pingo de noção da gravidade do seu crime . Atos religiosos praticados por motivos vis são duplamente maus. Maus em si mesmos e maus porque praticados em nome de Deus. Isso é equivalente a pecar em nome dAquele Ser que é sem pecado, a mentir em nome dAquele que não pode mentir, a odiar em nome dAquele cuja natureza é amor.

            Os cristãos, especialmente os muito ativos, devem sondar as suas almas para certificar-se dos seus motivos. Muito solo é cantado para exibição, muito sermão é pregado para mostrar talento, muita igreja é fundada como uma bofetada nalguma outra igreja, mesmo a atividade missionária pode tornar-se competitiva. Os fariseus eram grandes missionários, e circundavam mar e terra para fazer um converso; mas apenas por causa da competição que existia entre eles!           

            Para evitar a atividade religiosa vazia, devemos nos lembrar sempre da mensagem de I Coríntios 13. Esta é sem dúvida uma das mais belas passagens da Bíblia, no entanto, este texto também é um dos mais severos de toda as Escrituras Sagradas. Paulo toma o serviço religioso mais elevado e o rebaixa à futilidade, a menos que seja motivado pelo amor. Sem amor, profetas, mestres, oradores e mártires são despedidos sem recompensas.

            Podemos afirmar que, diante de Deus, somos julgados, não tanto pelo que fazemos, mas por nossas razões em fazer. Dá para perceber como é importante servir a Deus de coração?!

            A segunda maneira de servir a Deus de coração segundo as Escrituras, é não servir na carne. Algumas versões trazem: “Deus a quem sirvo no meu espírito”. Servir a Deus em espírito é não servi-lo segundo a carne. A essência da carnalidade é a auto-exibição. A carne sempre quer mostrar-se e gabar-se. Servir em espírito, ao contrário da carne, é não colocar a atenção em si mesmo. É saber que o serviço espiritual não possui a atitude de atrair as luzes para si mesmo. Na verdade, evitamos buscar as glórias para nossa pessoa!

            Paulo fala sobre isso em II Corintios 4:5: “Mas não pregamos nós mesmos, mas a Jesus Cristo, o Senhor”.

 

“Porque muito desejo ver-vos, a fim de repartir convosco algum dom espiritual, para que sejais confirmados”.(v.11)

 

            Embora um homem possa ser convertido, ele pode estar em perigosas condições. A conversão não elimina dúvidas, problemas e dificuldades que as pessoas possuem. A conversão nos ajuda a ter uma outra visão dos problemas e dificuldades. Passamos a encarar a vida de outro ângulo, contudo, os problemas continuam existindo. Por isto, mesmo o convertido, precisa constantemente, de consolo e conforto. Paulo desejava fazer isto com os romanos.

            Esta atitude de Paulo com os romanos era muito importante, afinal, eles eram muito perseguidos. Muitos cristãos romanos morreram e foram torturados devido a sua fé. Eram lançados aos leões; suas casas eram incendiadas, centenas eram torturados. Todavia, eles resistiam com coragem e fé. Isto só era possível porque eles sabiam em quem criam e no que criam. Para isto era preciso que fossem “confirmados” como diz Paulo neste versículo. Os mártires são homens que sabem no que crêem. Dá para perceber como é importante sabermos as doutrinas? São as doutrinas que nos dão sustento em todos os momentos de nossa vida!

            Muitas vezes o nome de Deus é envergonhado porque as pessoas não foram confirmadas. Tiveram um momento de emoção, acharam que tinham se convertido e depois abandonaram o Evangelho. Precisamos de provas claras e inequívocas para afirmar que uma pessoa realmente se converteu. Isto, normalmente, só aparece com o tempo. Não podemos sair divulgando que uma pessoa se converteu simplesmente por uma decisão de momento. Não vamos dizer que a pessoa não se converteu, mas também não vamos dar total crédito a uma decisão instantânea. Deixemos que o tempo nos mostrará. Deixemos esta pessoa ser confirmada!

            Paulo disse aos crentes de Éfeso que: “oro para que, com as suas gloriosas riquezas, Ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espírito, para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; e oro para que, estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus”. (Ef. 3:16-19)

            É por isto que não devemos ter pressa em realizar batismos. Primeiro precisamos discipular a pessoa, verificar a sua fé, confirmar a sua conversão! Precisamos perceber se ela realmente está arraigada e alicerçada em sua fé em Cristo!

            Por não estar certo do que crê, muitos envergonham o Evangelho. Vimos no verso oito que o maior meio de publicidade do Evangelho é a vida dos convertidos. Por outro lado, a maior desonra do Evangelho é aqueles que se dizem cristãos e não o são! O joio, os bodes, os falsos crentes colocam o Evangelho em descrédito!

            Aqueles que não são confirmados trazem sérios prejuízos para o Reino de Deus. Ao longo da história os exemplos são os mais variados. A Igreja Católica Apostólica Romana queimou milhares de pessoas na fogueira da Inquisição em nome de Cristo. Jesuítas e padres devastaram as culturas maia e asteca em nome da Coroa Portuguesa. O Cristianismo calou quando Salazar governou em Portugal, Franco na Espanha e Somoza na Nicarágua. Muitos cristãos apoiaram o comércio de escravos. O que falar da Guerra das Cruzadas? E o anti-semitismo, a opressão às mulheres, o racismo na África do Sul e o banho de sangue na Irlanda do Norte entre Protestantes e Católicos? Se já não bastasse, ainda existem os escândalos sexuais, morais e financeiros de líderes evangélicos. O nosso testemunho no trabalho, na faculdade, na rua e em casa, prova que fomos confirmados?

            Uma grande parte da decepção com Deus tem raízes na desilusão com outros cristãos. Como disse Nietzsche a um líder evangélico: “Seus discípulos tem de parecer mais salvos para que eu creia em seu Salvador” (Nietzsche). Gandhi reforçou o coral quando afirmou: “Se não fossem os cristãos eu teria me tornado cristão”. Infelizmente, o mundo julga Deus por aqueles que levam o Seu nome. Muitas pessoas que rejeitam a Deus na verdade não estão rejeitando a Deus, elas estão rejeitando a caricatura dEle apresentada pela igreja.

            Aqueles que não são confirmados trazem sérios prejuízos para o Reino de Deus!

            Paulo desejava que os crentes ali em Roma fossem confirmados. Isto aconteceu no passado e precisa acontecer hoje e sempre.

 

Isto é, para que, em vossa companhia, reciprocamente nos confortemos por intermédio da fé mútua, vossa e minha”.(v.12)

 

            Paulo é humilde ao reconhecer que os romanos também possuem muita coisa para ensiná-los. Não é apenas o apóstolo que tem algo a ensinar, os romanos também tem muito a contribuir com o apóstolo. Paulo diz que existirá uma espécie de intercâmbio onde s dois lados serão encorajados. Assim como Paulo será um incentivo para os romanos, os romanos serão um incentivo para Paulo.

            Todos têm contribuições a dar. “Não há ninguém tão pobre na igreja de Cristo que não possa compartilhar conosco algo de valor”. (Calvino) O homem que pensa que não tem nada para aprender com os outros é um tolo. Ninguém sabe tudo, ninguém é dono da verdade.

            Aqui vemos a diferença de Paulo com o Papa. Segundo a Igreja Católica, o Papa é infalível, não comete erros, está acima de todos os mortais. Paulo não é semelhante ao Papa. Ele diz que tem muito a aprender com os outros cristãos. Paulo não se coloca numa postura arrogante esperando que aqueles crentes desejem ter uma audiência com ele. Paulo vai estar com eles, ser um deles, aprender com eles. Paulo vai abençoar e ser abençoado.

            Paulo sabia, apesar de todos os títulos que possuía, que não era dono da verdade. Normalmente, quanto mais conhecimento uma pessoa possui, maior a humildade. A humildade cresce junto com o conhecimento. Na época de Sócrates existia uma disputa entre os filósofos para saber qual deles era o maior. Perguntaram a Sócrates se ele se achava superior aos demais, e ele respondeu que sim. Quando indagado sobre o porque de sua resposta ele disse: "eu me considero superiores a eles, porque eu sei que nada sei, e eles ainda não consideraram isto".

            Estamos diante do maior apóstolo da igreja, que mesmo assim é humilde, modesto e submisso! “Para que juntamente convosco eu seja consolado pela fé mútua”.

            Infelizmente, a grande maioria dos pastores tem medo de dizer estas coisas. Esta verdade – pastores aprendendo com ovelhas – para alguns, pode soar como perda de autoridade. É por esta razão que no meio evangélico existe todo um cerimonial e uma cultura para fazer com que o pastor tenha “autoridade”. A cadeira que o pastor senta é diferente do assento dos crentes. A roupa que o pastor usa é diferente da roupa das ovelhas (Terno e gravata)

            Quem dá autoridade a um pastor não é a igreja, a posição, a roupa ou um “pr” antes do nome. A autoridade de um pastor vem diretamente dos céus, é a presença do Espírito Santo na sua vida! É por isto que o mesmo apóstolo tão humilde, modesto e natural, foi o mesmo que disse: “Sede meus imitadores”.

            Todo este cerimonial para fazer do pastor um ser diferente dos demais tem o intuito de afastá-lo das pessoas. Este cerimonial afirma que o pastor não deve e não pode ter muita intimidade com as pessoas; que o pastor deve mostrar-se um ser diferente dos demais, daí a idéia: “O pastor deve dar o exemplo”. As ovelhas também precisam dar exemplo!

            O único momento em que o pastor deve se ausentar de perto das pessoas é quando ele vai ouvir a voz de Deus. Moisés subiu ao monte – saiu do meio do povo – para ouvir a voz de Deus. Jesus refugiava-se em lugares solitários para ter comunhão com o Pai. O pastor também precisa ausentar-se do meio do povo para ouvir a voz de Deus. Até porque se ele não fizer isto, ele pode confundir a voz do povo com a voz de Deus, e a voz do povo não é a voz de Deus!

            Esta expressão paulina também nos lembra que a igreja não é um lugar onde um homem faz tudo e os outros não fazem nada. É vital na vida da igreja que exista este intercâmbio mencionado por Paulo. “Pela fé mútua”, significa que existe doação e recebimento de ambos os lados. Todos têm algo a dar, a oferecer, a compartilhar!

 

Porque não quero, irmãos, que ignoreis que, muitas vezes, me propus ir ter convosco (no que tenho sido até agora impedido), para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre outros gentios”. (v.13)

 

            Se existe algo que nos deixa irritado é querer fazer alguma coisa e não poder. Ficamos chateados, irritados, zangados quando algo que tanto desejamos está fora do nosso alcance. Uma viagem que gostaríamos de fazer e não podemos. Algo que iríamos comprar e as circunstâncias nos proibiram. Quando não somos os donos da situação, isto nos traz um profundo pesar! Quando as coisas não acontecem do jeito que idealizamos ficamos extremamente irritados. Planejamos determinadas coisas e na hora em que elas vão se realizar algo acontece impedindo. Situações como estas trazem-nos sentimentos nada agradáveis!

            Algumas coisas contribuíram para impedir o apóstolo de compartilhar o evangelho com os romanos. Primeiro, Paulo tinha tantos lugares para evangelizar que não lhe sobrava tempo de estar em Roma. Isto fica muito claro quando ele fala das suas viagens missionárias.“É por isso que muitas vezes fui impedido de chegar até vocês. Mas agora, não havendo nestas regiões nenhum lugar em que precise trabalhar, e visto que há muitos anos anseio vê-los, planejo fazê-lo quando for à Espanha”.(Rm. 15:22, 23)

            Outro obstáculo que normalmente impedia a Paulo de estar nos lugares desejados era sua saúde. Paulo disse a igreja de Corinto que desejava estar com eles, porém a doença o impediu. Nesta ocasião Paulo quase morreu. Ele disse que “até da vida quase desesperamos!”

            O terceiro obstáculo que encontramos na Bíblia que impedia o apóstolo de estar onde desejava era o poder de Satanás. “Quisemos visitá-los. Eu mesmo, Paulo, o quis, e não apenas uma vez, mas duas; Satanás, porém, nos impediu”. (I Tes.2:18)

            O quarto obstáculo que Paulo encontrou para compartilhar o evangelho foi o próprio Espírito Santo. “Paulo e seus companheiros viajaram pela região da Frígia e da Galácia, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na província da Ásia Quando chegaram à fronteira da Mísia, tentaram entrar na Bitínia, mas o Espírito de Jesus os impediu”. (At.16:6,7)

            Apesar de todas as dificuldades que Paulo encontrava para pregar o Evangelho, ele não ficava amargurado. Ele aceitava os obstáculos a ele impostos como sendo à vontade de Deus. Ele entendia que não deveria ficar irritado quando as coisas não saíam do modo planejado. Ele se submetia absoluta e completamente à vontade de Deus.

            O caso da Ásia é um grande exemplo disto que estamos falando. Pregar a Palavra era correto, existia uma porta aberta, à vontade e a razão de Paulo consentiam com este propósito, as circunstâncias pareciam propícias; contudo, o Espírito o impediu! Deus queria que Paulo saísse de onde estava e fosse pregar na Europa. Paulo pensava uma coisa, mas Deus tinha outros planos para ele! "Muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor”. (Pv. 19:21).

            Aprendemos com Paulo que não devemos ficar zangados quando as coisas não saem do jeito que planejamos. Pode ser que Deus esteja obstruindo o nosso caminho para o nosso próprio bem. Os obstáculos podem ser a maneira de Deus guiar-nos e dirigir-nos. Certa vez um pregador afirmou o seguinte: “Se eu tivesse o poder de Deus eu mudaria muita coisa no mundo. Mas se eu tivesse a sabedoria de Deus, eu deixaria tudo como está!”

            Conta-se que certo súdito sempre lembrava seu rei desta verdade. Em todas as situações ele dizia: “Meu rei, não desanime, porque Deus é bom!”. Um dia, o rei saiu para caçar juntamente com seu súdito, e uma fera da floresta atacou o rei. O súdito conseguiu matar o animal, porém não conseguiu evitar que sua Majestade perdesse o dedo mínimo da mão direita. O rei, furioso pelo que havia acontecido, e sem mostrar agradecimento por ter sua vida salva pelos esforços de seu servo, perguntou a este: "E agora, o que você me diz? Deus é Bom? Se Deus fosse bom eu não teria sido atacado, não teria perdido o meu dedo!”.

            O servo respondeu: "Meu rei, apesar de todas essas coisas, somente posso dizer-lhe que Deus é Bom e que mesmo isso, é para o seu bem".

            O rei, indignado com a resposta do súdito, mandou que fosse preso, e na cela mais escura mais e mais fétida do calabouço.

            Após algum tempo, o rei saiu novamente para caçar e aconteceu dele ser atacado, desta vez por uma tribo de índios que viviam na selva. Estes índios eram temidos por todos, pois sabia-se que faziam sacrifícios humanos para seus deuses. Mal prenderam o rei, passaram a preparar, cheios de júbilo, o ritual do sacrifício. Quando já estava tudo pronto, e o rei já estava diante do altar, o sacerdote indígena, ao examinar a vítima, observou furioso: "Este homem não pode ser sacrificado, pois é defeituoso!” "Falta-lhe um dedo!” E o rei foi liberado.

            Ao voltar para o palácio, muito alegre e aliviado, libertou seu súbito e pediu que viesse em sua presença. Ao ver o servo, abraçou-o afetuosamente, dizendo-lhe: “Meu caro, Deus foi realmente bom comigo! Você já deve estar sabendo que escapei da morte justamente porque não tinha um dos dedos. Mas, ainda tenho em meu coração uma grande dúvida": Se Deus é tão bom, por que permitiu que você ficasse preso da maneira como ficou... Logo você que tanto o defendeu?

            O servo sorriu e disse: “Meu rei, que bom foi Deus comigo ao me esconder! Se eu estivesse livre e junto contigo nessa caçada certamente teria sido sacrificado em teu lugar, pois não me falta dedo algum!".

            É importantíssimo que as nossas vontades sejam inteiramente submissas à vontade de Deus. Devemos sempre seguir o conselho de Tiago que nos diz: “Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. Ao invés disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. (Tg.4:13-15)

            Devemos fazer nossas petições a Deus da mesma maneira que Jesus: "Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc. 22:42). O que deve prevalecer sempre é a vontade de Deus. Afinal, aquilo que Deus não nos dá, não presta! Só existe um lugar de segurança, paz e alegria: o centro da vontade de Deus.

            Paulo foi impedido várias vezes de fazer o que desejava. Contudo, ele não ficava amargurado, ele entendia que aquele impedimento poderia ser Deus preservando-o de algo pior, conduzindo-o por outros caminhos, fazendo com que a vontade divina prevalecesse sobre a vontade humana.

 

Pois sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes”.(v.14)

             

            Quando Paulo fala de “gregos e bárbaros” ele está se referindo a todas as pessoas do mundo. Naquela época o mundo era divido entre gregos e bárbaros. As pessoas estavam nesta ou naquela categoria. A humanidade era classificada não pelo critério de nacionalidade, mas de acordo com o entendimento. Aqueles que eram esclarecidos ou tinham algum tipo de conhecimento, eram gregos. Já os que não possuíam qualquer capacidade eram tidos como bárbaros.

            Os romanos eram considerados gregos, pois a cultura grega influenciou o mundo romano. Quando a Bíblia foi escrita o império que dominava o mundo era o Império Romano. Contudo, a língua mais falada, na qual o Novo Testamento foi escrito era o grego. Embora Roma tenha dominado a Grécia, foi a cultura e filosofia grega que dominaram Roma.

            Portanto, quando Paulo fala de “gregos e bárbaros” ele está classificando toda a humanidade nestes dois grupos. Com isto, Paulo nos informa que o evangelho deve estar acessível a todas as pessoas. O evangelho não é só para determinado grupo de pessoas. Todos precisam ter acesso aos ensinamentos de Jesus! A pregação não pode visar apenas um grupo específico de pessoas. É muito perigosa a idéia de se desejar alcançar apenas um determinado grupo de pessoas. Isto é fazer acepção de pessoas!

            Paulo diz “sou devedor”, ou seja, "preciso compartilhar com outros as bênçãos que eu recebi". Precisamos contar as pessoas sobre as conseqüências da morte de Cristo na cruz! Quando o Evangelho inunda os nossos corações de verdade, nós temos o mesmo sentimento de Paulo. Sentimos que somos devedores, ou seja, que é obrigação compartilhar do amor de Deus!

            Jesus deixou isto claro em suas parábolas. O pastor que achou a ovelha perdida: “Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente nos ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida” (Lc.15:4-6). A mulher que achou sua moeda perdida: “Ou, qual é a mulher que, possuindo dez dracmas e, perdendo uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura atentamente, até encontrá-la? E quando a encontra, reúne suas amigas e vizinhas e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha moeda perdida” (Lc. 15:8,9). O pai que perdeu o filho e depois o encontrou: “O pai disse aos seus servos: Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Coloquem um anel em seu dedo e calçados em seus pés. Tragam o novilho gordo e matem-no. Vamos fazer uma festa e alegrar-nos. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado” (Lc. 15:22-24).

            Se não pregamos o evangelho aos outros, é porque não cremos como dizemos que cremos!

 

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá da fé”.(v.16,17)

 

            Começamos aqui uma nova divisão do capítulo. No verso 15 Paulo chegou ao fim das suas referências a si próprio e à sua vocação. Nos seis primeiros versos ele fez uma exposição geral sobre a sua vocação como apóstolo. Depois, até o verso 15, ele falou de si mesmo e da sua relação com os crentes em Roma. Tendo tratado destas coisas, Paulo vai adiante e passa a tratar do grande tema da Epístola.

            Estes dois versos que vamos analisar foram os “responsáveis” pela Reforma Protestante. Foram eles que mostraram a Lutero os erros da igreja católica e as bênçãos da graça de Deus.

 

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo”. (v.16)

 

            O tipo de expressão, a figura de linguagem que Paulo emprega aqui é chamada de “litotes”, que significa uma afirmação feita na forma de negação. Em vez de dizer que “se orgulha”, o apóstolo diz que “não se envergonha” do evangelho. Dizer que não se envergonha é outra forma de dizer que se gloria nele.

            Paulo faz uso desta linguagem porque naquela época existiam cristãos que se envergonhavam do evangelho. Parece que até Timóteo, em algum momento, caiu neste erro: “Portanto, não se envergonhe de testemunhar do Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro dele”. (II Tm.1:8) Talvez a coisa mais grandiosa que Paulo tenha dito sobre Onesíforo foi que:“O Senhor conceda misericórdia à casa de Onesíforo, porque muitas vezes ele me reanimou e não se envergonhou por eu estar preso; ao contrário, quando chegou a Roma, procurou-me diligentemente até me encontrar”. (II Tm.1:16,17)

            Muitos ainda se envergonham do evangelho de Cristo. Se envergonham na faculdade, no emprego, ou com os vizinhos. Tem vergonha de serem honestos, sinceros, verdadeiros, corretos em suas vidas. Não podemos cair no terrível erro de termos vergonha de defender a fé que possuímos! Se isto acontecer, estaremos encrencados, pois vejam o que disse Jesus sobre isto:“Aquele que me negar diante dos homens, eu também o negarei diante do meu Pai que está nos céus”. (Mt. 10:33).

            Na época em que Paulo escreveu estas palavras, além de cristãos que se envergonhavam do Evangelho, existiam ímpios que escarneciam do Evangelho. Devido a crucificação as pessoas zombavam do Cristianismo. A dificuldade dos céticos era compreender como uma pessoa de mente sadia poderia adorar como Deus um homem morto? Como reverenciar um criminoso submetido à forma mais humilhante de execução? A combinação de morte, crime e vergonha colocava Jesus muito além do respeito. O que falar então da adoração?

            Os primeiros inimigos do cristianismo ridicularizavam a reivindicação cristã de que o Ungido de Deus e Salvador dos homens foi parar numa cruz. O quadro mais antigo da crucificação encontra-se no Museu Kirscherian de Roma. Sua data é do segundo século, muito perto da época de Jesus. Foi descoberto no monte Palatino em Roma. Estava na parede de uma casa que foi usada como escola para os pajens imperiais. No desenho grosseiro, esticado numa cruz, está um homem com a cabeça de um burro. Este era o conceito das pessoas acerca do cristianismo: uma religião que presta culto a um burro, pessoas que adoram àquele que foi exposto ao ridículo.

            Paulo antecipa uma objeção que ele poderia sofrer por parte de algumas pessoas de Roma. Ele declara de antemão que não se deixava intimidar pelos escárnios dos ímpios. Quais seriam os motivos pelos quais Paulo não se envergonhava do evangelho que pregava? Primeiro, a própria palavra “evangelho” era, naturalmente, motivo de orgulho para Paulo. “Evangelho” significa “boas novas”. Estas novas possuem a maior mensagem que um ser humano pode ouvir. Elas falam da eternidade e da vida após a morte; do livramento que o homem pode ter sobre a culpa que o atormenta; do sentido para a vida que cada ser humano busca freneticamente!

            Apesar do evangelho estar banalizado nos dias de hoje, ele contém a maior notícia do mundo! É verdade que muitos não querem sequer ouvir o que temos para dizê-los sobre Deus. Devido aos escândalos que envolvem os evangélicos nós caímos em descrédito. Contudo, Paulo também passou por problemas semelhantes ao nosso. Não foi por isto que ele desanimou ou se envergonhou. Antes, ele o defendia com orgulho e alegria! Nós também precisamos fazer isto, afinal, esta é a maior notícia do mundo! Paulo sabia que ele era arauto da mensagem mais majestosa que existia!

            O segundo motivo pelo qual o apóstolo não se envergonhava do evangelho é que, ele nos informa da possibilidade de nos reconciliarmos com o Criador. Deus está irado com o homem, de tal maneira que tudo que ele faz é condenável aos olhos do Senhor. Se este homem não se reconciliar com Deus, ele irá passar a eternidade toda no inferno. O evangelho mostra a este homem que é possível sair de debaixo da condenação e ser salvo. O homem que era culpado, imundo, escravo e perdido; com o evangelho, ele torna-se justificado, santo, livre e salvo!

            O terceiro motivo pelo qual o apóstolo não se envergonhava do evangelho é que ele é o poder de Deus. É o poder de Deus produzindo salvação em nós! Não há nada no mundo que possa ameaçar este poder. Mais na frente Paulo vai dizer que Deus predestinou, chamou, justificou e glorificou. Aquele que nos predestinou é poderoso para nos guardar até a glorificação. Ou seja, este poder é eficiente e eficaz! Não temos o que temer! Ele funciona e certamente produzirá o resultado final!

Pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. (v.16)

 

            Constantemente ouvimos alguém dizer: “Tomei minha decisão por Cristo há tantos anos, e nunca me arrependi”. A pessoa que fala desta maneira está querendo dizer que o evangelho a fez uma pessoa diferente. Ela agora é mais feliz, não faz mais as coisas erradas que fazia anteriormente, vê as coisas de uma maneira diferente, tem sobre si um olhar diferente das pessoas que percebem nela uma mudança enorme.

            O interessante é perceber que as pessoas que se convertem ao espiritismo, ao budismo e a outras religiões possuem as mesmas reações. Os convertidos de outras religiões também possuem testemunhos maravilhosos! E o que acontece com eles é verdadeiro!

            Paulo se orgulhava do Evangelho não porque ele tenha feito algo na vida de Paulo. O orgulho de Paulo pelo evangelho vinha do fato do que este evangelho significava! Ou seja, a glória do evangelho não deve terminar em nós, mas naquilo que ele significa! Paulo não se envergonhava do evangelho porque “Ele é o poder de Deus para a salvação”, porque “nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé”. A perspectiva é outra! Eu me glorio não por aquilo que ele fez em mim, eu me glorio por aquilo que ele significa! A nossa razão para não nos envergonharmos do evangelho deve ser sempre peculiar ao evangelho!

            É importante que possamos dar o motivo certo pelo nosso orgulho do evangelho. Afinal, todos os outros motivos podem ser imitados pelas outras pessoas. O nosso orgulho do evangelho deve vir do fato do que ele significa e não daquilo que ele faz!

             

“Primeiro do judeu, e também do grego”.  (v.16)

 

            Esta expressão deve ser entendida cronologicamente, isto é, quanto à relação de tempo. Jesus disse a mulher samaritana: “a salvação vem dos judeus”. E assim realmente acontecia. O Salvador veio da semente de Davi, segundo a carne. A comissão dada pelo nosso Senhor aos apóstolos foi: “ser-me-eis testemunhas... em Jerusalém” (At.1:8). Enquanto esteve na terra, o Senhor limitou-se às “ovelhas da casa de Israel” (Mt. 15:24). Historicamente a salvação começou com os judeus. Todavia, não ficou só com os judeus. A salvação foi de Jerusalém para Samaria, e depois “até os confins da terra”. Portanto, primeiro é para o judeu nesse sentido, como uma questão histórica!

 

“Para a salvação de todo aquele que crê”. (v.16)

 

            Será que conseguimos perceber o que significa esta expressão? Esta expressão nos lembra que o Evangelho está acessível a todos os homens! Os piores sujeitos da sociedade, o maior mau caráter que existe, ao nosso pior inimigo, a pessoa que nos humilha, nos despreza, nos ironiza.

            Muitas vezes somos como Jonas, não queremos que outras pessoas recebam a bênção do Evangelho. Na parábola dos trabalhadores da vinha, o patrão empregou àqueles que passaram o dia todo na praça. Ninguém quis empregar àqueles homens, afinal eles passaram o dia todo sem emprego. Provavelmente, eram trabalhadores que nenhum empregador desejou, pessoas que ninguém teria como companhia: prostitutas, publicanos, malfeitores. Ao lermos os Evangelhos, fica nítido que estes eram os “preferidos” de Jesus. “A graça, assim como a água, corre para as partes mais baixas”. (Philip Yancey)

            A salvação estar acessível a todo aquele que crê nos mostra a humilhante verdade que Deus concede sua graça a quem quer, na hora que quer e como quer.

 

“Porque nele se revela a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: o justo viverá da fé”. (v.17)

 

            Muitos séculos antes de Paulo escrever estas palavras, Jó tinha feito a seguinte pergunta: “Como pode o homem ser justo diante de Deus?” (Jó 9:2). Como alguém pode apresentar-se diante de Deus de forma justa? Afinal, antes de alguém poder ser justo para com Deus ele deverá ter honrado a lei em todos os seus aspectos, ser libertado e estar livre da condenação da lei, estar isento da ameaça de castigo da lei. Cumprir a lei significa jamais tropeçar em qualquer um dos Dez Mandamentos. Mediante estas exigências como alguém pode ser justo diante de Deus?

            Esta era a grande questão que atormentava Lutero: “sempre desejei que Deus não tivesse dado a conhecer o Evangelho, porque esta revelação mais completa da justiça de Deus fazia-me sentir totalmente desesperado e desamparado, e eu não sabia o que fazer comigo mesmo; a justiça de Deus bloqueava o caminho”.Lutero sabia que homem nenhum no mundo era capaz de cumprir a Lei em sua totalidade. E se falharmos em um único item, somos culpados de todos!

            É exatamente neste contexto que entra o evangelho revelando ao homem como ele pode tornar-se justo diante de Deus. O Evangelho nos diz que Jesus satisfez a lei de Deus em nosso favor, perfeitamente em todos os seus sentidos. Ele nasceu de mulher, ou seja “sob a lei”. Durante sua vida prestou perfeita obediência a esta lei. Cumpriu cada jota e cada til da lei. Jesus não falhou em nenhum aspecto.Ele tomou sobre si a nossa culpa e o castigo que estava direcionado a nós. É por isto que Jesus é chamado de Cordeiro sem defeito ou mácula. Portanto, não há mais nada que a lei possa exigir. Jesus satisfez todas as necessidades!

            A lei nos diz o que devemos fazer, e isso nos leva ao desespero de satisfazermos o padrão de Deus. Então o evangelho nos diz o que Deus já fez em Cristo. Em Cristo, a lei foi satisfeita e agora somos considerados justos por causa de Jesus! Por isto o apóstolo quando escreveu a igreja de Filipos disse: “Para ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé”. (Fp. 3:9).

            Este é o cerne da salvação. Isto é justificação pela fé. Aquilo que Jesus cumpriu é atribuído a mim. A justiça de Cristo agora é a minha justiça. Depois que conseguiu entender esta verdade Lutero disse o seguinte: “Como eu odiava a expressão justiça de Deus, agora comecei a considerá-la como a minha palavra mais amada e mais consoladora; e assim esta expressão de Paulo tornou-se para mim, na mais plena verdade, uma porta do Paraíso”.

            Que transformação! Um miserável e desprezível monge que vivia contando as contas do rosário, rezando os aves Maria e o Pai Nosso, jejuando, orando e suando para receber a salvação, se flagelando para receber misericórdia. E fazia tudo isto cônscio do seu fracasso. Deste monge infeliz ao arauto da Reforma, ao glorioso pregador do Evangelho! Tudo isto aconteceu pelo entendimento de Romanos 1:17. A experiência de Lutero mudou sua visão da Escritura. A partir de então, a Bíblia tornou-se um livro de luz e alegria para aquele monge.

            Percebam, o Evangelho responde a pergunta de Jó! Afinal, o Evangelho nos faz justos aos olhos de Deus, tornar-nos aceitáveis a Deus, capacita-nos a estar de pé na presença de Deus!

 

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade pela injustiça”. (v.18)

 

            Paulo começa neste verso, outra parte de sua epístola. Ele  vai falar do pecado até o verso vinte do capítulo três. O apóstolo vai utilizar um longo espaço de sua carta aos crentes de Roma falando sobre o pecado, talvez porque ele soubesse que opiniões superficiais sobre o pecado acabam distorcendo a graça. Por isto sua ênfase em mostrar àqueles crentes a natureza do pecado.

            Quando lemos esta parte da Palavra de Deus podemos entender porque o mundo está como está. Não devemos nos surpreender pela depravação do mundo, a tendência humana é sempre de buscar as coisas erradas, isto é o que nos lembra a doutrina da Depravação Total. Portanto, não se surpreenda com as coisas absurdas que você tem visto por aí.

            Paulo não fala apenas do Evangelho, ele mostra como este evangelho deve ser anunciado. Encontramos aqui o método Paulino de evangelização. A maneira não apenas do apóstolo Paulo, mas de toda a Escritura de expor o Evangelho, é falando inicialmente da ira de Deus e não das necessidades das pessoas. Isto nos lembra que verdadeira função do evangelho não é encher as igrejas, mas reconciliar os homens com Deus. Antes de qualquer coisa é preciso mostrar as pessoas que Deus está irado com elas! Portanto, não podemos transmitir o Evangelho prometendo prosperidade, saúde, paz, conforto e segurança. Ao evangelizar alguém, devemos mostrar a sua situação diante de Deus!

            Tudo isto nos mostra que não basta conhecer corretamente o evangelho. É preciso que os métodos de evangelização estejam de acordo com o das Escrituras!

            Paulo começa falando que “do céu se revela a ira de Deus”. Esta não é uma boa tática a ser utilizada nos dias de hoje. Afinal, é preciso tornar o evangelho atraente para as pessoas. E este tema não pode ser considerado atraente! Contudo, não há nada na mensagem cristã que seja tão odiado e sofra tanta objeção como esta doutrina. Este é o tema exposto o tempo todo nas Escrituras!

            As epístolas paulinas tocam neste assunto em várias oportunidades! Em Romanos. “Por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento”. (Rm. 2:5).“Haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça”. (Rm. 2:8).“Mas, se a nossa injustiça ressalta de maneira ainda mais clara a justiça de Deus, que diremos? Que Deus é injusto por aplicar a sua ira? (Estou usando um argumento humano.)”. (Rm.3:5). “Porque a Lei produz a ira. E onde não há Lei, não há transgressão”. (Rm. 4:15).“Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus”. (Rm. 5:9). “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição?”. (Rm. 9:22).“Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: Minha é a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor”. (Rm. 12:19).

            Em Coríntios. "Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um”. (I Cor. 3:12, 13). O Dia, significa o dia do juízo, onde a ira de Deus será mostrada como nunca antes!“Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas, quer sejam más.  Uma vez que conhecemos o terror ao Senhor”. (II Cor. 5: 10,11) “O terror do Senhor” não é algo difundido em nossos dias!

            Em Efésios. “Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos por natureza merecedores da ira”.(Ef. 2:3). "Ninguém os engane com palavras tolas, pois é por causa dessas coisas que a ira de Deus vem sobre os que vivem na desobediência”. (Ef. 5:6).

            Em Colossenses.“É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência”. (Cl. 3:6).

            Em Tessalonicenses.“O dia do Senhor virá como ladrão à noite”. (I Tes. 5:2). “Quando o Senhor Jesus for revelado lá dos céus, com os seus anjos poderosos, em meio a chamas flamejantes. Ele punirá os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus”. (II Tes.1:7,8)

            Além de Paulo, alguém mais fala da ira de Deus na Bíblia? O livro de Hebreus também dá a sua contribuição. “Por isso é preciso que prestemos maior atenção ao que temos ouvido, para que jamais nos desviemos. Porque, se a mensagem transmitida por anjos provou a sua firmeza, e toda transgressão e desobediência recebeu a devida punição, como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação?”. (Hb. 2:1-3) “Se continuarmos a pecar deliberadamente depois que recebemos o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados,mas tão-somente uma terrível expectativa de juízo e de fogo intenso que consumirá os inimigos de Deus”. (Hb. 10: 26,27). “Pois o nosso Deus é fogo consumidor”. (Hb.12: 29).

            Tiago nos diz que “O Juiz já está às portas”. (5:9). Outro apóstolo, Pedro, também toca no assunto: “Pois chegou a hora de começar o julgamento pela casa de Deus; e, se começa primeiro conosco, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?” (I Pe. 4:17). Nos capítulos 2 e 3 Pedro fala de anjos que experimentaram a ira de Deus.

            O livro todo de Apocalipse é dedicado ao juízo e a ira de Deus. As figuras utilizadas – portas fechadas, toque das trombetas, taças derramadas - mostram a ira de Deus em atuação!

            A mensagem de Jesus no sermão do Monte estava cheia de julgamento! As duas casas, a rocha e a areia, os dois tipos de profetas, os verdadeiros e os falsos, o exame da árvore - bons frutos e maus frutos. É sempre julgamento!

            Jesus ainda vai dizer o seguinte:go, meus amigos: Não tenham medo dos que matam o corpo e depois nada mais podem fazer. Mas eu lhes mostrarei a quem vocês devem temer: temam aquele que, depois de matar o corpo, tem poder para lançar no inferno. Sim, eu lhes digo, esses vocês devem temer.” (Lc.12: 4,5). “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês tivessem sido realizados em Tiro e Sidom, há muito tempo elas se teriam arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas eu lhes afirmo que no dia do juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês”. (Mt.11: 21,22). “Quem crê no Filho tem a vida eterna; já quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele”. (Jo. 3:36).“Se a sua mão o fizer tropeçar, corte-a. É melhor entrar na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga, onde o seu verme não morre, e o fogo não se apaga”. (Mc. 9:43,44)

            Será que a Bíblia fala alguma coisa sobre a ira de Deus? As Escrituras não fazem nenhuma questão de ocultar a realidade da ira divina. Existem mais referências na Bíblia à indignação, à cólera e à ira de Deus, do que ao Seu amor e ternura. Portanto, a ira de Deus é uma realidade e está em constante atuação!

            Em tempos onde esta doutrina é tão negligenciada e desprezada, é relevante lembrarmos de algumas verdades sobre ela. Primeiro, não devemos confundir ira com raiva. Ao pensarmos em ira lembramos de seres humanos com raiva, descontrolados, desequilibrados. Não é isto que significa a ira de Deus. Qualquer coisa deste tipo no caráter de Deus é algo inimaginável! A ira divina significa o ódio de Deus ao pecado. Se Deus ama tudo que é reto e bom, e tudo que se conforma ao Seu caráter moral, então, não é de espantar que Ele odeie tudo o que se opõe ao Seu caráter. O caráter de Deus é santo, por isto Ele odeia o pecado. Porque odeia o pecado, Sua ira inflama-se contra o pecador.

            Além disso, devemos lembrar que a ira divina é algo tão sério que durará para sempre, basta lembrarmos do inferno. Algumas pessoas tentam defender a idéia de que o inferno não é eterno. Isto é uma tremenda heresia! Se o inferno não fosse de infinita duração, todo o evangelho estaria arruinado. Se alguém que não possui a fé em Cristo pode ser livre do inferno, então o pecado não é um mal infinito. Desta maneira, não haveria necessidade de Cristo expiá-lo. O inferno tem de possuir infinita duração, de outra forma, ele deixaria de ser inferno. Ser destituído de esperança é uma das características deste local. Se o inferno não é eterno, o céu também não é eterno! A eternidade do céu e do inferno se mantém de pé ou caem juntas. Na Bíblia, a mesma linguagem é utilizada a respeito de ambas. A própria natureza de Deus faz do inferno uma necessidade tão grande como o próprio céu. Portanto, o inferno com sua eternidade, é a expressão máxima da ira de Deus!

            Em terceiro lugar, devemos lembrar que a ira de Deus é perfeitamente coerente com a Sua bondade. Algumas pessoas pensam que é impossível um Deus de amor se irar. Contudo, o amor e a ira de Deus são emoções reais e essenciais em Deus. A existência de uma necessita da existência da outra. Se não houver amor pela justiça, não haverá ódio pelo pecado. Se não houver ódio pelo pecado, não haverá amor pela justiça. A coexistência destes sentimentos é continuamente ensinado na Bíblia:“Vós que amais o Senhor, detestai o mal”. (Sl. 97:10).

            Ainda sobre a ira, devemos lembrar que os crentes genuínos não devem temer a ira de Deus. Embora fossemos “por natureza filhos da ira, como os demais” (Ef. 2:3), Jesus morreu em nosso lugar. Desta forma, Ele “nos livra da ira vindoura”. (I Ts. 1:10).

            E, por fim, devemos lembrar que o moinho de Deus mói devagar, mas mói fino e com eficiência. A paciência e a generosidade de Deus são coisas admiráveis. No entanto, terrível e insuportável é a fúria divina. Podemos perceber esta verdade utilizando a figura do mar. Nada é mais brando do que o mar em sua calmaria; porém, quando se agita em forma temporal, nada é mais furioso.

            Devemos estar constantemente meditando sobre a ira de Deus, afinal ela leva os nossos corações a ficarem devidamente impressionados com a ojeriza de Deus pelo pecado, ela produz em nossas almas um verdadeiro temor por Deus e ela nos induz ao louvor quando percebermos que estamos livres de sua influência e poder.

            Nos dias de hoje a tendência é de considerar o pecado de uma forma superficial e relativa, de encobrir a podridão e a maldade do pecado, de fugir das nossas responsabilidades pelos erros cometidos. Num mundo como este precisamos pregar com alta voz que “terrível coisa é cair nas mãos de um Deus irado”.

            Devemos louvar e agradecer a Deus pela Sua ira. O que ou quem Deus seria se não odiasse o pecado? Se Deus se deleitasse ou simplesmente não se abalasse com o pecado que Deus seria Ele? Tal Deus não seria digno da nossa adoração, pois o pecado é odioso e digno de ser detestado! Como poderia Aquele que é a soma de todas as excelências olhar com igual satisfação para  a virtude e o vício? Como seria possível Aquele que é santo ficar indiferente ao pecado, negando-se a manifestar seu juízo? É concebível que Aquele que só tem prazer no que é puro e nobre, deixar de detestar e odiar o que é impuro e vil?

            No final das contas, é devido a ira de Deus que a justiça será aplicada sobre todas as pessoas más, que Satanás pagará por todo o mal que cometeu durante os séculos de opressão ao homem, que o pecado será aniquilado da vida daqueles que são justificados por Cristo, que Deus se torna Deus de verdade.

 

Porque do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade pela injustiça”. (v.18)

 

            Deus não deixa de manifestar a sua ira! Isto é muito atemorizante, mas também muito confortante! Atemorizante porque nós podemos sofrer as conseqüências desta manifestação; Confortante porque podemos saber que a justiça será feita àqueles que são maldosos!

            De que maneira Deus manifesta e revela a sua ira?

            Primeiro. Deus manifesta sua ira nas conseqüências do pecado. O homem colhe certas coisas que ele planta, e isto faz parte da manifestação da ira divina. Certas conseqüências dolorosas permanecem na vida de algumas pessoas por toda a vida. O alcoólatra que tem cirrose, o fumante que contrai um câncer no estômago, o mulherengo que pega AIDS. Todos pecados possuem conseqüências! A conseqüência do pecado é uma manifestação da ira de Deus!

            Segundo. O estado geral da natureza é uma revelação da ira de Deus. Espinhos e cardos na criação são um resultado do pecado. Eles fazem parte da punição imposta ao pecado. Constituem uma parte da ira de Deus contra o pecado. Isto pode ser visto diariamente em todo o mundo. Apanhem o mais belo jardim do mundo e deixem três meses sem cuidado. Ervas daninhas e coisas indesejáveis irão aparecer ali. Rapidamente aquele belo jardim se transformará num terreno selvagem. Paulo fala sobre isto no capítulo oito:“A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto”. (Rm. 8:19-22). Sem dúvida que o estado atual da natureza faz parte da manifestação da ira divina!

            Terceiro. A universalidade da morte faz parte da revelação da ira de Deus. Se não tivéssemos nenhuma outra evidência, só esta bastaria! Paulo vai tratar deste assunto no capítulo cinco. Paulo lembra aos romanos que o fato de que a morte reinou de Adão até Moisés é sinal da ira de Deus. A morte atingindo diariamente a vida dos homens é sinal claro, visível e inequívoco da ira de Deus!

            Quarto. Na história bíblica vemos a manifestação da ira de Deus. A expulsão do primeiro casal do paraíso mostra Deus manifestando a sua ira! A partir dali eles foram forçados a ganhar o pão com o suor do seu rosto. É bom lembrar aqui que o trabalho não faz parte da ira de Deus. Vemos que o trabalho foi instituído por Deus antes da Queda, quando Adão estava cuidando dos animais. As dificuldades do trabalho é que fazem parte da ira e da maldição de Deus. Além disso, a mulher passou a conceber os filhos com dor e aflição, o que deixa claro que as dores do parto e as dificuldades da gravidez fazem parte da ira de Deus.

            Além da história do paraíso, vemos Deus manifestando sua ira nas Escrituras no sinal que Ele pôs em Caim como prova de sua ira pelo pecado de assassinato. No dilúvio, encontramos Deus punindo e derramando a sua ira sobre toda uma geração. A torre de Babel é outro exemplo da manifestação da ira de Deus. As diversas línguas que temos e que atrapalham a nossa comunicação faz parte da ira de Deus. A destruição de Sodoma e Gomorra é um exemplo claríssimo do juízo de Deus!

            Vemos a ira de Deus nas Escrituras, derramada na vida de indivíduos. Saul pagou com a sua vida por ter desobedecido a Deus. Davi, apesar de ser amado por Deus, viu a manifestação da ira divina na morte de seu filho. Nabucodonozor experimentou a ira de Deus quando se transformou num animal. Paulo tinha razão, Deus manifesta “sua ira contra toda impiedade dos homens”. Os cativeiros pelos quais a nação de Israel passou, são conseqüência da ira de Deus!

            Quinto. A Cruz de Cristo é a maior manifestação da ira de Deus! Deus odeia tanto o pecado e a certeza de que Ele o punirá é a cruz de Cristo. A atitude de Deus para com o pecado exigiu a morte do Seu Filho unigênito. Ao gritar: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparastes?”, Jesus estava experimentando a ira de Deus. Isto nos lembra que antes de vermos o amor de Deus na cruz, precisamos ver a Sua ira! Somente quando compreendemos a profundidade da ira é que podemos perceber a grandeza do amor. Isto é algo fantástico! Afinal, Deus descobriu um meio de expressar-se contra o pecado, sem que o pecador fosse destruído! Pelo contrário, por este meio o pecador foi justificado! Aquele que era para receber o juízo e a ira recebe o livramento e o amor! Louvado seja Deus por esta manifestação da sua ira!

            Sexto. O Juízo Final será uma grande prova da manifestação da ira de Deus. Naquele dia, os anjos e os homens serão julgados por seus delitos e pecados. Tudo aquilo de injusto e vil que foi praticado na terra terá a sua recompensa. Este dia fará com que aqueles que aparentemente não receberam o seu castigo, receba o que merecem. Muitos são maldosos ao extremo, e parecem não ser julgados por Deus. Este é o dilema do salmista no salmo 73. Contudo, eles também não escaparão! No dia do grande juízo a sentença deles será decretada! O juízo pode não vir de imediato na vida de algumas pessoas, mas certamente virá!

            Sétimo. Vemos Deus manifestando sua ira ao deixar os homens vivendo como bem desejam, e, depois colhendo as conseqüências. Paulo vai dizer que Deus “os entregou” (v.24). “Entregar” possui o mesmo significado de “abandonar”.Uma das manifestações da Graça Geral é a restrição do pecado ou inibição do mal. Para que o mal não aumente de tal maneira que leve o homem à extinção, Deus faz inibição do mal. Deus limita as pessoas para que elas não sejam tão más quanto poderiam ser. Um claro exemplo disto é a força da consciência: “De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os” (Rm. 2:14,15).

            O senso comum (discernimento de certo e errado) é fruto da graça geral. Os incrédulos aprovam padrões morais que refletem os padrões morais das Escrituras. Culturas que não tem acesso à Bíblia, praticam ensinamentos bíblicos como a proibição do roubo, o respeito pelo matrimônio e a proteção da vida humana. A ira de Deus retira até mesmo a graça geral da vida destas pessoas. Os homens então, caem nos piores e mais sórdidos pecados! É isto que Paulo quer dizer quando afirma que “Deus os entregou”. Paulo vai ser bem específico com isto.Ele vai ressaltar esta verdade três vezes nos versos 24, 26 e 28.

            Este tipo de manifestação da ira de Deus deve ser analisado com mais atenção. Deus manifesta sua ira desta maneira porque os homens não quiseram reconhecer quem Ele é. “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus”. (v.21) Os homens deliberadamente desejaram excluir Deus de suas vidas! Já que eles tomaram esta decisão, Deus também os abandona! Deus faz com a humanidade exatamente o que a humanidade fez com Ele. Deus os abandona! Não existe maior castigo ou maldição do que o abandono de Deus. Isto pode ser visto no abandono do Pai ao Filho ali na cruz.

            Portanto, Deus revela sua ira se ausentando da vida das pessoas. Desta maneira, eles estão livres para fazer aquilo que sempre desejaram. Desta forma, tais pessoas caem nos piores tipos de pecados existentes.“Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam.  Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam”. (Rm.1: 26-32)

            Dá para perceber as conseqüências do abandono de Deus? Alguém já disse que “Deus dá como castigo o que os homens buscam como prazer”. O que eles tanto queriam Deus os concede!

            Certa vez o povo de Israel reclamou que não tinha carne para comer. Reclamava que era pão todo dia e o dia todo. Então eis o que o Senhor fez. "Diga ao povo: Consagrem-se para amanhã, pois vocês comerão carne. O Senhor os ouviu quando se queixaram a ele, dizendo: ‘Ah, se tivéssemos carne para comer! Estávamos melhor no Egito!’ Agora o Senhor lhes dará carne, e vocês a comerão. Vocês não comerão carne apenas um dia, ou dois, ou cinco, ou dez ou vinte, mas um mês inteiro, até que lhes saia carne pelo nariz e vocês tenham nojo dela, porque rejeitaram o Senhor, que está no meio de vocês, e se queixaram a ele, dizendo: ‘Por que saímos do Egito?” (Nm. 11:18-20)

            A realização dos desejos de algumas pessoas é manifestação da ira de Deus! “Deus dá como castigo o que os homens buscam como prazer”. “Vocês não queriam? Então vocês vão ter!”. Deus concede o que queriam, e depois os abandona! A pior coisa que pode acontecer a um homem é Deus permitir que a vontade humana domine sobre a divina.

            Devemos ter um cuidado enorme quando insistimos demais para que Deus nos conceda algo que Ele já negou. Pode ser que Ele nos dê, não para nossa bênção, mas para nossa ruína e maldição. Quer sexo? “Vou te dar sexo e ele será a sua ruína!” Quer dinheiro? “Vou fazê-lo prosperar financeiramente, e isto será a pedra que vai te derrubar”. Quer liberdade? “Vou deixá-lo livre para sua própria condenação”.

            Ai de nós se a ira de Deus vier desta maneira sobre a nossa vida! Ai de nós se deixarmos de ser o alvo da atenção divina! Ai de nós se Deus nos entregar aos nossos desejos e vontades!

            Esta situação é o contexto do inferno! Como disse C.S. Lewis: “Inferno é um lugar que as pessoas escolhem e continuam escolhendo mesmo quando vão para lá”. Quem entra numa situação desta não tem volta! Não tem volta porque as suas mentes estão completamente corrompidas. “Deus os entregou a uma disposição mental reprovável”. (v.28) Sem a ajuda de Deus e sem consciência da situação que se encontra, não tem jeito. Os nossos pedidos, sonhos, desejos e vontades podem ser a nossa maior ruína! Nossa maior desgraça pode ser Deus nos conceder aquilo que tanto desejamos. Por isto a importância da oração: “Seja feita a tua e não a minha vontade”.

 

Porque do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade pela injustiça”. (v.18)

 

            Até aqui estivemos considerando em termos gerais como e quando a ira de Deus é revelada. Agora devemos considerar o próximo ponto que Paulo coloca diante de nós. O apóstolo nos mostra contra o que se revela a ira de Deus. Primeiro ele falou como e quando, agora ele nos mostra contra o que esta ira é revelada.

            Paulo nos diz que a ira é revelada “contra toda impiedade e injustiça dos homens”. Ele está nos mostrando com esta afirmação a natureza de todo pecado. Alguém deseja saber o que é o pecado, Paulo responde nesta afirmação. Existe alguma dúvida sobre o que é e o que não é pecado? Aqui Paulo nos mostra aquilo que constitui todo e qualquer tipo de pecado.

            Existem muitas definições de pecado, mas a que Paulo nos mostra aqui é que pecado é toda violação da lei de Deus. De que lei Paulo está falando aqui? Dos 10 Mandamentos! A lei consiste em duas tábuas, elas dividem-se do seguinte modo: a primeira tábua refere-se à nossa relação com Deus, são os 4 primeiros mandamentos: "Não terás outros deuses diante de mim"; "Não farás para ti imagem de escultura"; "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão"; "Lembra-te do Dia do Sábado para o santificar". Estes mandamentos referem-se a nossa atitude para com Deus e à nossa relação com Ele. Eles nos mostram que fomos criados para servir a Deus.Aquele que não vive para servir a Deus é ímpio ou impiedoso, vive na prática da impiedade.

            O que é praticar a impiedade? É tudo aquilo que eu faço que não seja para servir, honrar e glorificar a Deus. Talvez a melhor definição de piedade é aquela encontrada nas palavras de Jesus quando disse: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a sua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças”. O que se espera de nós é que amemos a Deus com todo o nosso ser! Não amá-lo deste jeito é impiedade, é pecado! Qualquer transgressão da primeira tábua entra na categoria de impiedade, afinal, não estamos honrando e amando a Deus como deveríamos.

            A segunda tábua refere-se à nossa relação com os nossos semelhantes. São os 6 últimos mandamentos: "Honra teu pai e tua mãe"; "Não matarás"; "Não adulterarás"; "Não furtarás"; "Não dirás falso testemunho"; "Não cobiçarás".  Tudo o que fazemos afeta os que estão a nossa volta. Sendo assim, a segunda tábua trata de nossos relacionamentos humanos. Falhar em nossa relação com o próximo constitui-se injustiça. Deus na primeira tábua, o homem em geral na segunda. Toda impiedade e toda injustiça, a primeira e a segunda tábua. Toda transgressão de qualquer das duas tábuas constitui-se pecado.

            É interessante observar que a injustiça só acontece por causa da impiedade. Não se pode ter injustiça sem impiedade. A injustiça é uma conseqüência da impiedade. Se nossa atitude para  com Deus fosse sempre correta, jamais praticaríamos a injustiça. Se cumpríssemos a primeira tábua a segunda seria observada normalmente. Enquanto a relação com Deus permanece correta, nossa conduta permanece correta. O adúltero trai sua esposa porque sua relação com Deus não existe. O político é corrupto porque ele não sabe o que é o temor do Senhor. Somos fofoqueiros, mentirosos e orgulhosos, porque o amor por Deus não invadiu nossos corações.

            A injustiça só acontece porque somos impiedosos, porque não amamos a Deus como deveríamos. Este é o fator determinante! Podemos perceber isto na vida de Adão e Eva. Enquanto eles mantinham o contato com Deus, tudo ia bem. Quando eles falharam, o contato com Deus foi cortado e eles caíram em atos de transgressão. Já o Senhor Jesus, nunca praticou a injustiça, foi justo, porque nunca caiu na impiedade.

            Será que foi por acaso que Paulo colocou a impiedade antes da injustiça? Entender esta verdade é muito interessante para convencermos o homem de que ele é pecador. A única maneira de convencer determinadas pessoas de pecado é colocar a impiedade antes da injustiça. Algumas pessoas afirmam abertamente que não se acham pecadoras. Elas acreditam nisto, pois elas jamais praticaram qualquer pecado da segunda tábua. Portanto, elas não se consideram injustas e pecadoras. É o caso do jovem rico. Ele disse a Jesus: “Tudo isto tenho observado”. Mas quando Jesus citou a primeira tábua, ele “retirou-se triste”.

            Precisamos mostrar as pessoas que pecado não se trata apenas de injustiça. Pecado é antes de tudo uma questão de impiedade. Se o ser humano não ama a Deus com todo o seu ser, tudo que ele faz é impiedade, é pecado. É por isto que como disse o sábio em Provérbios,“até a lavoura do ímpio é pecado”. É por isto que “quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, façam tudo para glória de Deus”.                             

            Não basta deixar de fazer o que é errado. É preciso fazer a coisa certa com os motivos corretos! E aqui, todos os seres humanos são culpados diante de Deus! Todos tropeçam neste ponto!

            O pecado está banalizado nos dias de hoje porque os homens esqueceram-se desta seqüência. Durante décadas os homens têm buscado somente a justiça, mas não a piedade. Isto faz com que surja uma religião sem Deus, uma moralidade sem Deus, uma justiça sem santidade. Nos dias de hoje existe uma moralidade social, mas não existem princípios éticos. Existe ainda um resquício de bom comportamento por causa da graça geral. Mas a verdade é que a sociedade e o governo são ímpios, imorais, injustos e moralmente falidos!

            Jamais teremos moralidade, a não ser como produto da piedade. É impossível se ter um lugar justo, honesto e amigável a não ser como produto da piedade. É por isto que a Genebra de Calvino é exemplo ainda hoje para muitos governos e nações.

            Servimos a Deus por justiça ou por piedade? Amamos a Deus verdadeiramente ou apenas cumprimos um contrato religioso? Nos alegramos em servir e em buscar a Deus ou fazemos as coisas do Seu reino por obrigação?

            Me parece que algumas pessoas se relacionam com Deus na base da justiça e não da piedade. Buscam e servem a Deus por obrigação, por uma questão de justiça. Tais pessoas buscam a Deus diariamente por alguma força que os diz que isto precisa ser feito. É o exemplo dos pais que ficam no pé dos filhos até que eles façam sua “devocional”; da ovelha que busca ao Senhor por causa das advertências feitas pelo pastor e não pelo prazer de estar na presença de Deus.

            Milhares de pessoas buscam a Deus impulsionadas pela culpa e não pelo amor. Freqüentam os ambientes de culto pelo compromisso que assumiram. Sua presença muitas vezes é uma questão de responsabilidade e não de afeto. Vão até os encontros públicos de adoração porque precisam ir. Se lhes fosse dado a oportunidade de escolher, elas jamais apareceriam ali. Estas pessoas estão se relacionando com Deus na base da justiça sem a piedade. Este é um dos graves erros que um ser humano pode cometer.

            Ou o nosso coração se enche de alegria, de amor, de prazer em servir a Deus, ou não adiante de nada! “Servi ao Senhor com alegria”. “Alegrei-me quando me disseram vamos à Casa do Senhor”. “Se não tiver amor não adianta de nada”. Se o amor e a piedade estiver dentro de nossos corações, a preguiça, o desânimo e outros sentimentos sumirão. Agora, se buscamos a Deus por obrigação e justiça, tudo ficará extremamente complicado!

 

Porque do céu se manifesta a ira de Deus contra toda impiedade e injustiça dos homens que detém a verdade pela injustiça”. (v.18)

 

            Até aqui vimos contra o que esta ira é revelada. Aprendemos que a ira de Deus se manifesta contra toda impiedade e injustiça; ou seja, a ira de Deus se manifesta contra a natureza do pecado. Aprendemos que o nosso relacionamento com Deus deve ser, antes de tudo, na base da piedade. Se tentarmos nos relacionar com Deus na base da justiça (não fazer o que é errado) estamos perdidos. Vimos também que pecado não se trata apenas de injustiça. Pecado é antes de tudo uma questão de impiedade. Veremos agora a segunda razão pela qual Deus manifesta a sua ira.

            Deus manifesta sua ira não apenas pela natureza do pecado (impiedade e injustiça). Deus fica irado e demonstra este sentimento por causa da inescusabilidade do pecado. Não apenas porque o pecado é o que é, mas porque ele está completamente sem desculpa. Quando alguém erra conosco e não tem uma boa desculpa, ficamos indignados, zangados, irados. Dizemos o seguinte: “É bom que você tenha uma boa desculpa para me dar”. Da mesma maneira, Deus se ira com o ser humano, pois não existe desculpa para o pecado. Não existe uma justificativa para o pecado! E, como vamos ver, este é um motivo que faz com que Deus manifeste a Sua ira.

            Ao considerar a inescusabilidade do pecado devemos lembrar que Paulo está falando de todos os seres humanos. Paulo não se restringe ao judeu, grego ou romano. É uma espécie de denúncia universal. Paulo vai mostrar aos romanos que o pecado é indesculpável por dois motivos.

            Primeiro. A humanidade não pode alegar inocência na questão do pecado. Aquela velha história de que o índio é inocente é descartada por Paulo. Os homens não podem alegar ignorância na questão da impiedade e injustiça. Paulo prova isto quando diz que: “eles detém a verdade pela injustiça”. Os homens estão restringindo a verdade, o que implica que eles a conhecem! Não se pode restringir algo a respeito do que não se tem nenhum conhecimento.

            Paulo vai mostrar várias vezes que os homens conheciam a verdade sobre Deus. “Tendo conhecimento de Deus”. (v.21) Houve um tempo em que eles conheceram Deus como Deus. “Por haverem desprezado o conhecimento de Deus”. (v.28) Eles tinham o conhecimento e desprezaram! Portanto, para Paulo, a humanidade conhecia a verdade, e eles a restringiram deliberadamente. Isto significa que homem nenhum pode alegar inocência nesta questão; afinal, eles tiveram conhecimento de Deus e abafaram, desprezaram, restringiram propositadamente.       

            É importante ressaltar que quando Paulo fala de “verdade” aqui, ele não está pensando na verdade bíblica. O sentido de verdade aqui é aquela acerca de um Criador. Não é a verdade especial concernente a salvação procedente de Deus. Contudo, existe uma revelação fora da Bíblia que mostra aos homens que existe um Deus (v.19).

            Quais seriam estas maneiras, extrabíblicas, pelas quais Deus se deu a conhecer ao homem. “O que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta”. É um fato universal que há na humanidade um senso de Deus. Não importa quando ou onde, todo ser humano possui dentro de si um senso do Ser supremo. “Deus colocou a eternidade no coração do homem” disse Salomão em Eclesiastes, um desejo naturalmente humano pelo sobrenatural. Calvino trabalha muito bem esta idéia no primeiro livro de suas Institutas. Antropólogos confirmam que todo homem possui este senso de Deus, sejam os aborígines da Austrália ou os pigmeus no coração da África. Como disse Dostoievski: “O homem possui um vazio do tamanho de Deus”.

            Até mesmo o ateu possui dentro dele este senso de Deus. Por mais que ele tente sufocar, ridicularizar e reprimir isto, ele possui este senso do divino. Para negar a existência de Deus ele precisa argumentar contra, e ele argumenta contra exatamente porque ele possui este senso da existência de Deus. “O que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta”.

            Deus se manifestou não apenas interiormente, mas exteriormente também (v.20). Este é o argumento usado em várias outras partes da Bíblia: no Salmo 147, no discurso de Paulo em Listra e na defesa de Deus a Jó. A natureza, segundo as Escrituras, é testemunha que existe um Criador! “Nas gerações passadas, permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos, contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos do céu chuvas e estações frutíferas”. (At.14:16,17)

            Deus se manifestou na providência, estruturando, organizando e controlando todo este mundo. Existe uma série de questões que possibilitam existir vida no planeta Terra. Se apenas uma delas falhar, acaba a vida neste planeta. Existe uma infinidade de combinações no nosso corpo que faz com que ele continue funcionando. Um pequeno problema em nosso organismo e estamos mortos. Existe uma complexidade enorme nas órbitas dos planetas. Os cientistas não entendem como é que eles não saem de sua trajetória em momento nenhum. Sabemos que Deus cuida de todas as áreas da nossa vida, tanto as pequenas como as grandes. Portanto, o homem pode perceber que existe um Ser Supremo controlando todas estas coisas. Deus não criou o mundo e o abandonou como sugerem os deistas.

            Paulo deixa claro que Deus não deixou ninguém sem conhecimento. Deus deu aos homens a necessária evidência de sua existência na criação, na consciência e na providência. Sendo assim, o primeiro motivo pelo qual o pecado é indesculpável é que ninguém pode alegar inocência. Todos sabem que existe um Ser supremo.

            No entanto, que tipo de revelação, de conhecimento seria este? Esta revelação é aquela que os teólogos denominam de “revelação geral”. Nos versos 16 e 17 Paulo falou da revelação especial de Deus. O Evangelho para a salvação do homem. Nos versos 19 e 20 Paulo faz a transição da revelação especial para a revelação geral.

            Para entendermos melhor vejamos o que ele nos diz no verso 20: “Os atributos invisíveis de Deus, o seu eterno poder e a sua divindade, claramente se vêem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”. (v.20)

            Segundo Paulo, o que pode ser percebido neste tipo de revelação é a grandeza, a majestade, a glória, o poder de Deus. A criação, a consciência e a providência mostram ao homem que existe um Deus! “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”.

            Contudo, estas características de Deus não são suficientes para salvar o homem de seu pecado. A revelação geral não é capaz de salvar o homem, mas é suficiente para/ condená-lo. Na revelação geral não há conhecimento suficiente para salvar o homem. O amor, a graça, a misericórdia e a compaixão de Deus não são transmitidas nesta revelação. A revelação geral é suficiente para condenar o homem, mas insuficiente para salvá-lo. Como disse Calvino: “Este conhecimento de Deus só serve para impedir que os homens se justifiquem, ele difere grandemente do conhecimento que traz a salvação”.

            Tudo isto é mais uma prova de que Deus elegeu pessoas para salvação. Deus só se revelará de maneira especial àqueles que Ele desejar!“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e instruídos e as revelastes aos pequeninos”. (Mt. 11:25). “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus usar a sua misericórdia”. (Rm. 11:16).

            O primeiro motivo nos leva ao segundo motivo pelo qual o pecado é indesculpável: Os homens conheceram a verdade e a rejeitaram: “Eles detêm a verdade pela injustiça”. Ou seja, eles reprimiram, sufocaram, distorceram a verdade que vos foi revelada. “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus”. (v.21)

            Por que é que os homens agiram desta maneira? Por que é que eles rejeitaram a verdade? Paulo também nos responde: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos” (v.22). Orgulho intelectual. É impressionante como a Bíblia é atual! A dificuldade humana continua sendo a mesma. Esta atitude de soberba intelectual fez com que estes homens trocassem a revelação de Deus por suas próprias ideologias, substituíssem os preceitos de Deus por suas vontades e pensamentos, abandonassem os mandamentos de Deus, colocando no lugar seus raciocínios e imaginações. Tudo isto foi feito de forma propositada e deliberada. “Tendo o conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus”. (v.21)

            A ausência de verdade sempre assegura a presença do erro. Os homens rejeitaram a verdade de Deus e imediatamente abraçaram a mentira! A mente do homem nunca é um vácuo religioso. Se houver a ausência do que é verdadeiro, sempre haverá a presença do que é falso.

            Percebam a seqüência proposta por Paulo. Começa-se com o orgulho. Por causa do orgulho, coloca-se a revelação divina de lado. A revelação desprezada dá lugar a ideologias humanas. As ideologias humanas obscurecem o coração do homem. Um coração obscurecido é capaz de cometer as maiores atrocidades (v.23-27). A ordem lógica, a linha de raciocínio de Paulo é fantástica! Paulo resumiu o capítulo 1 de Romanos em Efésios 4:17-19: “Não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram a dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza”.

            Será que conseguimos perceber como é perigoso nos afastarmos de Deus? Como é tolice nos gabarmos de nossa sabedoria e conhecimento? Nossas vontades, sonhos e desejos precisam estar de acordo com a vontade de Deus, do contrário, sofreremos demasiadamente, cairemos no mesmo erro que estes homens caíram. Não podemos jamais negligenciar a verdade de Deus!

 

Porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou”.(v.19)

 

            Temos visto desde o verso dezoito que Deus manifesta sua ira. Isto acontece por causa da natureza do pecado (impiedade e injustiça) e da inescusabilidade do pecado. O pecado é indesculpável por dois motivos. Primeiro, porque a humanidade não pode alegar inocência na questão do pecado, afinal, Deus se revelou através da consciência, da natureza e da providência. Segundo,  porque os homens conheceram a verdade e a rejeitaram. Paulo disse que o homem “detêm a verdade pela injustiça”. Os seres humanos reprimiram, sufocaram, distorceram a verdade que vos foi revelada. Portanto, Deus manifesta sua ira não apenas pela natureza do pecado, mas porque ele está completamente sem desculpa.

            A partir do verso dezenove até o restante do capítulo, Paulo vai mostrar como a humanidade se tornou culpada, e isto, tanto na questão da impiedade como na questão da injustiça. Paulo vai desenvolver esse ponto em todos os seus horripilantes pormenores. O apóstolo vai nos mostrar que a humanidade afastou-se deliberadamente de Deus, preferindo a injustiça e se gloriando nela. Paulo também vai mostrar que a injustiça é inescusável, as conseqüências resultantes desta escolha humana e tudo aquilo que Deus fez a respeito de tudo isto.

            Vamos então, analisar mais detalhadamente, cada expressão e pensamento do apóstolo nestes versículos.

 

 

 

“O que de Deus se pode conhecer”. (v.19)

 

            O conteúdo deste conhecimento é definido no verso vinte. Paulo deixa subentendido que não podemos compreender plenamente a Deus, em toda a Sua grandeza. Existem limites dentro dos quais os homens precisam se manter. É impossível ao homem conhecer a Deus em Sua totalidade, até porque, se soubéssemos tudo de Deus, ele deixaria de ser Deus! Um copo não pode conter dentro de si todo o oceano.

            Contudo, é muito estimulante saber que podemos, mesmo que parcialmente, conhecer a Deus. Muitos dariam qualquer coisa para conhecer alguém que admiram, atletas famosos, artistas conhecidos, políticos... Se tivéssemos a oportunidade de conhecê-los ficaríamos felizes, até eufóricos. Por que isto não ocorre em relação a Deus?

            É muito triste percebermos como o conhecimento de Deus nos dias de hoje é algo cada vez mais raro. Vivemos em dias de um imenso analfabetismo bíblico. As pessoas não conhecem a Bíblia, não sabem citar a Bíblia, não tem intimidade com as Escrituras. É impressionante como a concepção de Deus por parte das pessoas é pobre, pequena e mesquinha. Infelizmente, nos dias de hoje, “o que de Deus se pode conhecer” não é conhecido em lugar nenhum.

 

"Porque Deus lhes manifestou”. (v.19)

 

            O homem jamais teria condição de saber qualquer coisa concernente a Deus se Ele não revelasse ao homem. É muito importante atinarmos para o fato de que a iniciativa é de Deus! “O que de Deus se pode conhecer, Deus lhes manifestou”. Se não fosse Deus o homem ficaria completamente ignorante quanto à divindade. Não é o homem que vai até Deus, é Deus que vai até o homem! Este é o principio e a diferença do Cristianismo para todos os outros "ismos".  Cristianismo é Deus vindo até o homem, e isto é graça; já os outros "ismos" é o homem tentando ir até Deus na base das obras.

 

Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis”. (v.20)

 

            Paulo não nos diz quais atributos são estes. Ele nos fala apenas de eternidade, poder e divindade. Sem dúvida que estes já caracterizam a soma total das perfeições divinas. O poder e a eternidade incluem muitos dos atributos invisíveis de Deus.

            Paulo nos diz que eles são “invisíveis”. Isto quer dizer que eles não podem ser percebidos pelos sentidos, mas eles podem ser reconhecidos pela mente e razão humana. Talvez por isto Paulo utiliza aqui duas maneiras de dizer a mesma coisa. “Claramente se reconhecem” – “sendo percebidos”. O primeiro verbo se refere à inteligência e o segundo a visão física. Os dois verbos nos mostram que o homem pode evitar confundir o Criador com a criatura. A contemplação das obras de Deus é capaz de impedir este erro. Erro este que se chama idolatria, ou seja, adorar a criatura ao invés do Criador.

            Portanto, as obras visíveis da criação manifestam as perfeições invisíveis do Criador. Através das coisas perceptíveis ao sentido podemos ter o reconhecimento das perfeições invisíveis. Em outras palavras, as obras visíveis mostram a criatura a existência do Criador, que é invisível. Sendo assim, somos lembrados pelo apóstolo que Deus deixou suas “impressões digitais” manifesta a todas as pessoas! “Porque Deus lhes manifestou”.

 

 

 

“Sendo percebidas por meio das coisas que foram criadas”. (v.20)

 

            É impossível olhar para a natureza e não perceber que existe um Criador! Paulo tinha razão quando sabiamente afirmou que os atributos de Deus são percebidos “nas coisas criadas”. Com esta expressão, somos convidados a observar as maravilhas da natureza. Eis alguns exemplos: a ordem fixa dos corpos celestes em seus cursos, a perfeição de uma flor e do arranjo das folhas ao redor do caule, o ciclo das obras aquáticas divinamente criadas (Evaporação – formação das nuvens – destilação – formação de rios), o mistério da germinação da semente e da formação da planta, a habilidade das aves em construir seus “lares” sem jamais ter recebido lições de engenharia - quem ensinou o João de Barro a fazer casas daquele jeito? -, a adaptação das criaturas ao seu hábitat - as bases flexíveis dos pés dos camelos para as fofas areias do deserto, as cobras que desenvolvem venenos mais poderosos para não permitir que suas presas fujam, o camaleão que se camufla quando em perigo.

            Poderíamos ainda citar inúmeros exemplos da fantástica criação de Deus. Será que o homem não pode perceber por meio das coisas criadas que existe um Criador? É claro que sim! É por isto que Paulo vai dizer no próximo versículo que “tendo conhecimento de Deus”. Todo homem sabe que o Criador é real!

            Contudo, diz Paulo no verso 21: “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus”. Em vez de glorificar a Deus por todos os Seus benefícios, tais pessoas se tornaram fúteis e amargas. Não atribuíram glória e honra que são devidos somente a Deus. Permaneciam num plano horizontal, mantendo diálogo apenas entre elas.

            Nós também, nos dias de hoje, podemos cair neste erro! Podemos ter o conhecimento de Deus e não o glorificar como Deus. Nosso Senhor muitas vezes tem sido várias coisas nas nossas vidas, menos Deus. Ele tem sido um socorro quando as circunstancias apertam, um alívio no meio das angustias e dores, um oásis onde podemos descansar dos desertos da vida. No entanto, na hora de O reconhecermos como Deus e Senhor isto não acontece!

            Paulo diz mais: “Nem lhe deram graças”. Ainda eram mal agradecidos! Não existe ninguém que não esteja endividado com a misericórdia de Deus. Todos, sem exceção, são inadimplentes diante da bondade de Deus! Portanto, todos precisam render-lhe graças!

            Então percebam: “O que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus o manifestou”. (v.19) É manifesto através dos “Atributos invisíveis de Deus” e “do seu eterno poder”, “Como também da sua própria divindade”. Estas coisas são manifestas ao homem “desde o princípio do mundo”. E elas são “percebidas por meio das coisas que foram criadas”. Isto significa que os “homens possuem o conhecimento de Deus”. Apesar disto, os homens “não o glorificaram como Deus”. E mais, “não lhe deram graças”. Por causa destas coisas, diz Paulo que “Tais homens são, por isso, indesculpáveis”

            A condenação dos homens é o propósito ou a conseqüência da revelação geral? Como propósito, ela existe especificamente para condenar o homem. Como conseqüência, ela simplesmente existe, não tem o intuito de condenar ninguém. Contudo, o homem a despreza, e por isto ele é condenado. Uma coisa é Deus criá-la exclusivamente para servir de condenação, outra coisa é Ele simplesmente criar, o homem a desprezar e ser condenado.

            As duas alegações são verdades. A condenação dos homens como propósito da revelação geral: ela existe para que o homem não tenha desculpa e seja lançado no inferno. A condenação dos homens como conseqüência da revelação geral: Deus deu a revelação geral, o homem a desprezou e por isto está condenado.

            Existe um detalhe muito interessante aqui. A condenação dos homens como propósito da revelação geral, mostra a soberania de Deus. A condenação dos homens como conseqüência da revelação geral, mostra a responsabilidade humana. A indesculpabilidade reside no fato de que, possuindo o conhecimento, eles não renderam a Deus glória e gratidão. O conhecimento que possuíam deveria tê-los constrangido a terem tal atitude com Deus, e, contudo, eles não tiveram!

            E quando cada um de nós chegar diante de Deus, qual será a nossa desculpa? Qual será a nossa justificativa para escaparmos da condenação e da ira de Deus? A única desculpa que temos é que “o homem é justificado pela fé”. (Rm.3:28) E isto só acontece porque “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores”. (5:8)

            Será que temos algum motivo para agradecer a Deus? Devemos reconhecer que se Deus não se revelasse de forma especial, todos nós estaríamos perdidos? Precisamos diariamente louvar a Deus por tudo o que Ele fez por nós? Esta doutrina pregada por Paulo possui alguma relevância para as nossas vidas? Devemos refletir com mais profundidade nestas palavras de Paulo aos crentes de Roma?

            Devemos nos agarrar profundamente a estas verdades! Afinal, são elas que nos capacitam a viver o puro evangelho, nos orientam em momentos de crise e agonia. Foram estas verdades que guiaram grandes homens de Deus ao longo da história para mais perto de Deus. Elas foram reveladas por Deus ao apóstolo Paulo para nos abençoar.

 

“Porquanto, tendo o conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-lhes o coração insensato”.  (v.21)

 

            O verso 21 é uma ampliação do verso 18. Este versículo confirma a afirmação de que, pela injustiça, os ímpios abafam a verdade de Deus. E eles fazem isto deliberada e continuamente. Conseqüentemente, são indesculpáveis.

            "Tendo o conhecimento de Deus”. Paulo deixa claro mais uma vez que os homens têm o conhecimento sobre Deus. “O que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles”. É manifesto de três maneiras diferentes: na consciência (senso comum) – “neles se manifesta”; na Revelação Geral (natureza) – “sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”; na providência (Deus sustentando tudo que Ele criou e que acabou de ser descrito).

            “Os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder, sua divindade, claramente se reconhecem”. Calvino disse que: “Deus demonstrou sua existência por meio das coisas criadas para forçar o homem a ver àquilo que por sua vontade própria ele não desejaria conhecer, ou seja, a existência de Deus”. Mesmo não querendo, o homem é obrigado a reconhecer a existência de Deus. Não tem como fugir! Os fatos e provas são irrefutáveis e convincentes demais. Todos os dias, o tempo todo, a natureza é testemunha da existência de Deus.

            Portanto, o argumento de que Deus se deixou sem testemunho é tombado por terra pelo apóstolo. Ninguém pode alegar inocência nesta questão!

            Apesar disto, diz Paulo que os homens “Não o glorificaram como Deus”. É impossível ao homem diminuir um milímetro da glória de Deus. Contudo, é seu dever reconhecer e, desta maneira, glorificar a Deus.

            O homem precisa entender que ele foi criado para glorificar a Deus. “Fomos criados para o louvor da sua glória”. (Ef. 1:12). O homem, em toda a natureza, é o único que falha em desenvolver o seu papel. Toda a natureza cumpre o seu dever de glorificar a Deus (Sl. 104). Somente o homem se rebelou contra este seu dever. Por isto o salmista termina dizendo: “sejam eliminados da terra os pecadores”.

            Aquele que foi destinado a manifestar a glória de Deus acima de todos os outros seres é o único que não o faz! “Tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus”. Esta é a essência de todo pecado, não glorificar a Deus (impiedade).

            Por que é que Deus faz questão de que nós o glorifiquemos? Porque Ele quer nos dar o melhor, e não existe nada no mundo melhor do que Ele! É impossível ao homem ser feliz enquanto ele não cumprir o propósito para o qual ele foi criado. Como disse Agostinho: “Fizeste-nos para ti, ó Deus, e nossa alma não encontrará repouso enquanto não descansar em ti”. C.S. Lewis disse algo parecido quando afirmou o seguinte: “Deus nos criou do mesmo modo como um homem inventa um motor. Ora, um automóvel feito para andar com gasolina não andará bem com nenhum outro combustível; e Deus projetou a máquina humana para andar à base dele mesmo. Ele é o combustível que o nosso espírito foi projetado para queimar, o alimento que fomos feitos para consumir; não há nenhum outro. É por isso que não adianta pedir a Deus que nos deixe ser felizes à nossa maneira, sem termos de nos preocupar com ‘religião’. Deus não pode nos dar uma felicidade e uma paz independentes dele, simplesmente porque elas não existem”.

            João Cabral de Mello Neto em seu livro Morte e Vida de Severina, afirmou que: “as pessoas não tem medo de morrer; elas, na verdade, tem medo de morrer sem saber por que viveram”. Não há nada no mundo melhor do que glorificar a Deus como Deus. Relacionar-se com Aquele que é o Criador e Sustentador de nossas vidas é o nosso dever e maior prazer.

            Aqueles que possuem o conhecimento de Deus, precisam, para o seu próprio bem, aprender a glorificá-lo como Deus. Este foi o erro que Paulo desejou que os romanos não praticassem. Este é o erro que eu você podemos de uma hora para outra cair. Portanto, verdadeiramente creia nas palavras tão conhecidas do apóstolo Paulo:“Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, faça tudo para glória de Deus!”

 

“Nem lhe deram graças”. (v.21)

 

            Ingratidão é assunto sério! É muito constrangedor nos relacionarmos com pessoas ingratas. É muito triste vermos pessoas ingratas. É muito revoltante ver pessoas ingratas.

            A gratidão sempre foi uma virtude muito rara. Na época de Jesus já era assim; dos dez leprosos apenas um voltou para agradecer. Atualmente esta tendência tem se tornado mais forte. O senso de direito e posse vem tirando da humanidade seu senso de gratidão. O individualismo fez com que as pessoas perdessem a consciência da dívida que elas tem para com Deus e a humanidade.

            A gratidão é algo raro também pelo fato de que ela pressupõe que o outro fez alguma coisa em nosso favor. Reconhecer nossa dependência, e conseqüentemente, nossa inferioridade em alguma área, não é fácil. Portanto, para ser grato, é preciso ser humilde, e humildade é algo que não nos atrai de jeito nenhum.

            Se o homem não reconhece a Deus como Deus, porque ele lhe renderia graças? Para o homem, Deus não é Deus. Portanto, não existe nenhum motivo de gratidão! Nossa ingratidão pode revelar exatamente isto, a nossa falha em reconhecer a Deus.Estamos constantemente sendo abençoados por Deus, e nos esquecemos de agradecê-lo. Achamos que é obrigação dEle nos conceder o sol, a chuva e a comida. Constantemente estamos ignorando a misericórdia e providência de Deus em nossas vidas. Portanto, não ter um coração agradecido também é ter conhecimento de Deus e não o glorificar como Deus!

            Precisamos aprender a estar constantemente agradecendo a Deus pelas preciosas dádivas que Ele nos concede. A Bíblia, em vários momentos, nos orienta a expressarmos nossa gratidão ao Senhor. Por exemplo: “Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós e por isto estamos alegres.” (Sl.126:3). "Em tudo daí graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco.” (I Tes.5:18) Deus é o doador de “toda boa dádiva e todo dom perfeito” (Tg. 1:17) e o “Pai das misericórdias”. (II Cor. 1:3). Mesmo assim, insistimos em não agradecê-lo por tantas coisas boas que Ele tem nos dado. Infelizmente, é verdade o que disse Donald Grey Barnhouse: "Como é estranho que o Senhor tenha de insistir com aqueles que salvou do abismo, para que eles lhe demonstrem gratidão”.

            Além de não glorificar a Deus e não lhe render graças, o homem ainda julga e condena a Deus. “Não se importaram de ter o conhecimento de Deus”. (v.28) Eles não quiseram manter Deus em seu conhecimento. Uma outra versão diz: “Eles não se dispuseram a reconhecer a Deus”. O sentido do verso é: “Eles não aprovaram a Deus”. A palavra grega utilizada por Paulo era utilizada para testar e provar metais. É como se alguém testasse um pedaço de ouro para saber se era ouro realmente. Este é o sentido da palavra que Paulo utiliza para “importar”. Ou seja, os homens avaliaram a Deus e o rejeitaram!

            Eles não pararam por aí, no lugar de Deus eles colocaram os seus próprios deuses. Os homens não descartaram a idéia de divindade completamente. Lembram que eles têm um vazio enorme dentro deles? Lembram que eles possuem uma necessidade enorme de adorar alguém ou alguma coisa? O que acontece é que eles não aceitaram a Deus como Deus é, e a conseqüência foi que eles: “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis... Mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram e serviram a criatura em lugar do Criador”. (v.23, 25). Eles “mataram” o Deus imortal, rejeitaram o Deus glorioso, expulsaram o Deus onipresente!

            Diz o apóstolo que no lugar de Deus, os homens fizeram deuses para si. Tudo aquilo que toma o lugar de Deus é conhecido como idolatria. O homem sempre quis tomar o lugar de Deus. Isto aconteceu lá no Éden quando Adão ouviu a proposta da serpente: “sereis como Deus”. O primeiro mortal suspirou à igualdade com Deus. Desta maneira, negou o fato fundamental de sua própria existência: seu caráter de criatura. Adão deixou seu papel de criatura de lado, querendo se igualar com o Criador! A mesma atitude destes homens que Paulo descreve aqui.

            Ao recusar reconhecer a Deus como Deus o homem perde a sua identidade, afinal, o homem só pode saber quem é (criatura) se souber que existe um Criador.

            Então, percebam. O homem teve o conhecimento de Deus. Não o glorificou como Deus. Não lhe rendeu graças. Julgou, condenou, e descartou a existência de Deus. No lugar do Deus incorruptível o homem colocou deuses corruptíveis. Este homem é um louco! Esta é a conclusão a que Paulo e qualquer outra pessoa normal chegaria!

            Paulo nos mostra que a preferência do homem pela idolatria é a maior evidência da sua tolice e loucura. Os idólatras, segundo a Bíblia, são loucos: “Disse o louco no seu coração: não há Deus” (Sl. 53:1). É por isto que Paulo vai dizer que: “Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos!”. (v.22) Trocar a glória do Deus incorruptível por uma cópia irreal da imagem do homem é tolice das grandes!

            O mais incrível é que os homens acham que é sabedoria proceder desta maneira: “Dizendo-se sábios”. Atualmente, não é sábio acreditar em Deus, mas é sábio acreditar em duendes, cristais, pedras energizadas, astrologia e horóscopo, teorias científicas que são apenas teorias e nunca foram comprovadas. Os incrédulos não acreditam em milagres, mas cultuam a homens que possuem grandes talentos como desportistas, filósofos, políticos, escritores, pensadores. O homem afirma que adorar a Deus é pedir demais, contudo, criam fã clubes onde seus ídolos são ovacionados, louvados e adorados; deliram por causa de celebridades; tratam os artistas como verdadeiros deuses.

           

Mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível”.(v.23)

 

            Esta é a sabedoria humana! Sabedoria que segundo Paulo é loucura, insensatez, estupidez! E é esta loucura e estupidez que os homens adoram e celebram!

            É interessante que a loucura não para por aí. Não se sentindo satisfeitos com tão profunda ofensa, eles ainda desceram as mais vis bestialidades. O homem se rebaixou ainda mais! Ele passou a adorar “pássaros, quadrúpedes e répteis”. Lembram do bezerro de ouro? “Trocaram a Glória deles pela imagem de um boi que come capim”. (Sl. 106:20) Várias religiões adoram coisas que são inimagináveis!

            Ao que parece, quanto mais elevado o avanço das nações em filosofia, maior a degradação e loucura de sua religião. Quanto mais inteligente e soberba uma pessoa, maior a sua loucura na área religiosa. É por isto que Paulo vai dizer que eles: “Se tornaram nulos em seus próprios raciocínios”.

            Quando a verdade é banida da mente do homem, a luz que está dentro deles se torna em trevas!“Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!” (Mt. 6:23). A ausência de verdade sempre assegura a presença do erro. Os homens rejeitaram a verdade de Deus e imediatamente abraçaram a mentira. A mente do homem nunca é um vácuo religioso. Se houver a ausência do que é verdadeiro, sempre haverá a presença do que é falso.

            Como conseqüência, “Obscurecendo-lhes o coração insensato”. O coração que já é insensato, agora fica obscurecido, e o coração obscurecido afeta o homem em todo o seu ser! Todas as áreas da vida deste homem ficam comprometidas. Casamento, profissão, relacionamentos... tudo é visto com as lentes do pecado. Vejam se não é assim com os nossos conhecidos. Tudo que eles dizem, fazem, crêem e propõem, gira em torno do pecado. Não tem jeito, coração obscurecido sempre vai correr para as coisas erradas!

            Nenhum conhecimento independente é possível para o homem. Tudo que o homem sabe, ele sabe a partir de Deus. E, quando ele insiste em reconhecer esta fonte, ele entra em terríveis apuros.

            Renato Russo dizia numa de suas músicas: "Venha, meu coração está com pressa. Quando a esperança está dispersa só a verdade que liberta. Chega de maldade e ilusão". Percebam o vazio que existia no coração deste homem! Uma pessoa completamente infeliz! Parou de tomar os remédios propositadamente desejando morrer. Um homem que ansiava por algo mais em sua vida, que percebeu que o homem é um ser miserável e que precisa de significado, que entendeu que deveria existir alguma coisa melhor além deste mundo. Contudo, parou por aí, não foi além, não glorificou a Deus como Deus; a revelação especial não alcançou seu coração. E hoje ele percebe, na prática, qual é a maior estupidez humana: ficar longe de Deus.

            Renato Russo tinha razão: “Quando a esperança está dispersa só a verdade que liberta”. Jesus nos disse: “Conhecereis a verdade, e a verdade os libertará”. (Jo. 8:32). Nos disse ainda: “Eu Sou a Verdade”. (Jo. 14:6). O que faltou a Rebato Russo e a muitas outras pessoas entenderem é que "Quando a esperança está dispersa só Jesus Cristo é que liberta”.

            "Porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis”. Que Deus nos livre de cair neste erro grosseiro e fatal.

 

Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos do seu coração, para a degradação do seu corpo entre si”.(v. 24)

 

            É muito interessante percebermos a estreita ligação entre idolatria (v.23) e imoralidade (v.24). A Bíblia mostra o tempo todo que a conseqüência imediata da idolatria é a imoralidade. No livro apócrifo, Sabedoria de Salomão encontramos o seguinte:“Porque a idéia de fazer ídolos foi o começo da fornicação, e sua invenção foi a corrupção da vida”. (14:12)

            Outra questão interessante, é que Paulo está escrevendo esta carta de Corinto. Cidade conhecida por sua notória imoralidade sexual e devassidão. A expressão “vier à moda corintia” significava “viver uma vida de degradação moral”. O templo de Corinto contava com mais de mil sacerdotisas que incentivavam a luxuria.

            A mulher Jezabel (Ap. 2:20) foi a própria incorporação do pecado mencionado por Paulo: “Contra vocês tenho isto: vocês toleram Jezabel, aquela mulher que se diz profetisa. Com os seus ensinos, ela induz os meus servos à imoralidade sexual e a comerem alimentos sacrificados aos ídolos”.

            É impressionante como que a Bíblia combate a imoralidade sexual. “Receio que, ao visitá-los outra vez, o meu Deus me humilhe diante de vocês e eu lamente por causa de muitos que pecaram anteriormente e não se arrependeram da impureza, da imoralidade sexual e da libertinagem que praticaram”. (II Cor. 12:21) “Ora, as obras da carne são manifestas: imoralidade sexual, impureza e libertinagem”. (Gl. 5:19).“Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza e de cobiça; pois essas coisas não são próprias para os santos”. (Ef. 5:3)“Porque Deus não nos chamou para a impureza, mas para a santidade”. (I Tes. 4:7) “Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria. É por causa dessas coisas que vem a ira de Deus sobre os que vivem na desobediência”. (Cl. 3:5,6)

            Ao mesmo tempo em que condena esta prática, Deus tem uma certa paciência com estes pecadores. Deus sempre concede um tempo para que a pessoa abandone o seu pecado. Aconteceu isto com a própria Jezabel.“Dei-lhe tempo para que se arrependesse da sua imoralidade sexual, mas ela não quer se arrepender”. (Ap. 20:21) Nos dias de Noé também foi assim, a perversidade era muito grande: “O Senhor viu que a perversidade do homem tinha aumentado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal”. (Gn. 6:5). E mesmo assim Deus teve paciência:“Há muito tempo desobedeceram, quando Deus esperava pacientemente nos dias de Noé, enquanto a arca era construída”. (I Pe. 3:20)

            Outro exemplo da paciência de Deus pode ser vista naquele homem que foi entregue a satanás. Deus fez isto para que a ação disciplinar o conduzisse ao arrependimento. No próprio contexto de Romanos vemos que Deus se revelou para que os homens o obedecessem. Mas eles rejeitaram a Deus, e a misericórdia não correspondida produz ira! A paciência divina sem resposta favorável da parte do homem resulta no derramamento da indignação divina. Sendo assim, o verso vinte e quatro diz, “Por isso”. Por Deus ter tido paciência, por Deus ter se revelado a este homem mostrando quem Ele era. “Por isso”, Deus enviará juízo, porque o homem teve o seu tempo e não se arrependeu!

            Quando a paciência de Deus termina, e Ele começa a exercer juízo, “sai de baixo”. Deus não apenas permite que os homens caiam em pecado. Mas Deus ordena que, mediante a decisão que tiveram anteriormente, eles sejam conduzidos ao erro! Já que não quiseram glorificá-lo, render-lhe graças, antes, o condenaram, agora, serão forçados a arcar com a sua loucura, sofrerão as conseqüências de sua decisão, receberão a justa punição pelo seu erro. Esta é a idéia de “Deus os entregou” dos versos 24, 26 e 28. Já que não se arrependeram no tempo certo, agora o próprio Deus impedirá que o arrependimento aconteça!

            É intrigante perceber que Deus ordena que determinadas pessoas permaneçam no erro. Deus impede as pessoas de saírem do estado de lama em que se encontram. O texto de II Tessalonicenses. 2:9-12 é um destes textos perturbadores que confirmam esta verdade: “Deus lhes manda a operação do erro... para darem crédito a mentira... a fim de serem julgados por não darem crédito a verdade”.

            Será que Deus é soberano? Será que Ele faz o que bem entende? Dá para perceber que Ele realmente faz um vaso para honra e outro para desonra? É maravilhoso perceber que Deus ordena que determinadas pessoas acreditem na verdade! Haleluia!

 

 

 

 

Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. amém”. (v. 25)

 

            Paulo repete o que havia dito no verso 23. Ele queria fixar esta verdade profundamente na mente dos romanos, afinal, esta verdade mostra que o homem é responsável por seus delitos e está condenado exclusivamente por sua recusa em adorar a Deus. Ao mencionar o Criador, Paulo acrescenta uma doxologia, uma ação de graça: “que é bendito para sempre. Amém”. Este era um costume judaico quando o nome de Deus era mencionado. Ao estudar a vida de Paulo percebermos que ele sempre fazia isto quando tinha Deus em mente. Sempre que analisava a grandiosidade e os feitos de Deus, Paulo introduzia o louvor! Nós precisamos aprender com Paulo a, em tudo, glorificar a Deus!

 

Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza”. (v. 26)

 

            O que era insinuado no verso 24 é agora explicitado nos versos 26 e 27. A degeneração moral do mundo antigo é retratada neste horrível catálogo de vícios sexuais. Pecados que a religião pagã, ao invés de restringir, promovia ativamente.

            A ligação entre o v. 26 e o verso 25 é a mesma que existe entre o verso. 24 e os versos. 22 e 23. Em cada caso, o pecado é mencionado antes, depois vem o resultado.

            Paulo não trata mais da imoralidade sexual em termos gerais, como no verso 24. O apóstolo agora é específico, ele focaliza a atenção numa das mais repugnantes manifestações da imoralidade: a homossexualidade obstinada.

            Paulo vai dizer que os homens e as mulheres trocaram a relação natural do sexo. Não é de se espantar que aqueles que abandonaram o Autor da natureza, abandonassem também a ordem natural das coisas. Quando deixamos Deus de lado, perdemos os padrões da vida. Portanto, esta “troca” mencionada aqui pelo apóstolo, nos lembra a “troca” dos versos 23 e 25. O homem trocou o Deus imortal por uma imagem de homem corruptível.

            Paulo está abertamente condenando o homossexualismo! A Bíblia faz isto em várias oportunidades. “Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte”. (Lv. 20:13)“Ainda não tinham ido deitar-se, quando todos os homens de toda parte da cidade de Sodoma, dos mais jovens aos mais velhos, cercaram a casa. Chamaram Ló e lhe disseram: Onde estão os homens que vieram à sua casa esta noite? Traga-os para nós aqui fora para que tenhamos relações com eles. Ló saiu da casa, fechou a porta atrás de si

e lhes disse: “Não, meus amigos! Não façam essa perversidade!”. (Gn. 19: 4-7).

            Alguém se lembra porque é que Deus destruiu Sodoma? "Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante”. (Lv. 18:22).“Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos”. (I Cor. 6:9). “Sabemos que a Lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada. Também sabemos que ela não é feita para os justos, mas para os transgressores e insubordinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreverentes, para os que matam pai e mãe, para os homicidas, para os que praticam imoralidade sexual e os homossexuais, para os seqüestradores, para os mentirosos e os que juram falsamente; e para todo aquele que se opõe à sã doutrina”.  (I Tm. 1:8-10). “Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram à imoralidade e a relações sexuais antinaturais e.estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo”. (Jd. 7)

            Precisa-se de mais alguma base bíblica para percebermos que o homossexualismo é condenável por Deus? O homossexualismo não pode ser natural, ele é “contrário à natureza”. Não podemos cair na besteira de acreditar que isto é uma doença. Segundo as Escrituras, isto é imoralidade!

            A ciência está batalhando para provar que a moralidade é autodeterminada em nossos genes. Se a moralidade é autodeterminada em nossos genes por que ficamos indignados quando ouvimos que um casal “jogou fora” um pai ou uma mãe que sofre de Alzheimer? Por que nos revoltamos quando crianças empurram um colega de 5 anos pela janela do prédio? Quando um atirador dispara contra estranhos? Quando uma menina de 10 anos é estuprada num corredor? Quando uma mãe afoga o seu filho porque este atrapalha seu estilo de vida? Não deveríamos ficar chocados ou nos surpreender, afinal estas coisas fazem parte do nosso DNA.

            Será que conseguimos perceber que quando o homem abandona a Deus seu coração fica obscurecido, seu raciocínio torna-se nulo, e eles acabam pensando que são sábios, quando na verdade são loucos?

 

Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão”. (v. 27)

 

            Receberam, portanto, o justo salário pela sua perversão. C.S. Lewis faz uma impressionante afirmação sobre este princípio da retribuição divina: “Os perdidos gozam para sempre da horrível liberdade que sempre pediram, e, portanto estão escravizados por si mesmos”.

            Infelizmente, as igrejas estão cheias de homossexuais, e isto não é pregado e condenado! Aliás, a sexualidade como um todo é assunto totalmente evitado em nosso meio. À semelhança das outras doutrinas, quando não se é esclarecido, surgem os erros.

            Ao longo dos anos a igreja ficou conhecida como a maior rival da sexualidade humana, tratando o sexo como uma grave ameaça, um rival da espiritualidade. A igreja nunca teve a sabedoria de perceber a relação que existe entre sexualidade e espiritualidade. Entre os séculos III e X, as autoridades eclesiásticas emitiam éditos proibindo a prática sexual: Às quintas-feiras, era dia da prisão de Cristo; às sextas-feiras era o dia da morte de Cristo; aos sábados era em honra a virgem Maria; aos domingos, em honra aos santos falecidos; às quartas-feiras de vez em quando era incluída na lista. Fora os períodos de 40 dias que antecediam a Páscoa, o natal e o Pentecostes. Somam-se a isso os dias de jejum, dos apóstolos e a menstruação da mulher. A lista foi aumentando até restar apenas 44 dias por ano disponíveis para o sexo conjugal. Tudo isto por motivos religiosos! Sendo a natureza humana o que é, essas prescrições da igreja eram entusiasticamente ignoradas.            O motivo por trás destes editos é ridículo! No Éden, mesmo em perfeita comunhão com Deus, o celibatário Adão sentia solidão e um desejo que só encontrou alívio depois que Deus criou Eva. Em vez de posicionar a sexualidade e a espiritualidade como rivais entre si, deveríamos perceber a relação existente entre elas.

            “Todo homem que bate à porta de um bordel está procurando por Deus”. (G. K. Chesterton) A obsessão pela sexualidade nada mais é do que uma sede por transcendência. Isto pode ser percebido na conversa de Jesus com a samaritana junto ao poço. Jesus usou a sede de amor da mulher para lhe apresentar a Água da Vida.

            Atualmente o sexo mostra uma qualidade mística, quase sagrada. Escolhemos as personalidades mais sensuais e as alçamos à posição de deuses e deusas. Bajulamos os detalhes de suas vidas, divulgamos suas medidas, as cercamos de fotógrafos e os recompensamos com dinheiro e status. Tudo isto prova que o sexo tornou-se um fim em si mesmo, um substituto para o sagrado. Por isto, Chesterton estava certo no que disse.

            Não podemos olhar para a sexualidade como um perigo, uma ameaça, um rival da espiritualidade e da igreja. Afinal, como é possível uma religião que inclui um texto como Cantares entre seus escritos sagrados ser conhecida como inimiga do sexo? Precisamos aprender a tratar, com sabedoria e maturidade os nossos distúrbios sexuais!

             No livro de Jó existe uma declaração bem analítica sobre a trajetória do envolvimento sexual (Jó 31) Jó sempre professou sua integridade em todos os campos. Jó nos diz que “fiz aliança com os meus olhos”. Ele firmou um acordo com seus olhos para que não se entregasse à luxúria: “Como, pois, os fixaria numa donzela?”. O olhar devasso seria visto por Deus. Certamente este olhar conduziria à falsidade e ao engano (v.5)

            Ser sexualmente correto diante de Deus é ser precisamente como Jó. É ser uma pessoa que tem uma estratégia firme e detalhada de não envolver: O corpo, as percepções, os pensamentos e os desejos em devaneios, licenciosidade e excitação sexual. Em outras palavras, é alguém que sabe sufocar e mortificar suas fantasias sexuais. Afinal, para o cristão, o sexo não é um fim, mas um dom de Deus. Como todos os dons divinos, deve ser administrado de acordo com as regras de Deus, e não com as nossas.

            Por que foi que o homem caiu neste terrível estado que Paulo descreve? Toda esta perversão de onde vêm? Tudo surge de idéias erradas a respeito de Deus. “Tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus”. “Se tornaram nulos em seus próprios raciocínios”. “Obscureceram-lhe o coração insensato”. Percebam, o erro começa inicialmente em nossas mentes, em nossos pensamentos, em nossas idéias! Cedo ou tarde, são as idéias, não o capital, que são perigosas para o bem ou para o mal. Os acontecimentos do mundo e da vida das pessoas navegam sobre as águas de um mar ideológico. Existe um pensamento que diz que: “As matanças no Camboja procedem de discussões filosóficas em Paris”.

            Precisamos influenciar as ideologias de nossos filhos, amigos e parentes. Se quisermos influenciá-los precisamos entrar em suas mentes! Aqui também fica um alerta. Se não somos nós, quem é que está influenciando a mente das pessoas que amamos? Eles estão sendo influenciados, quer para o bem, quer para o mal. Será que é a Internet, os amigos, os livros, os valores bíblicos? Não brinque nem seja negligente com algo tão importante na vida daqueles que você ama! Lá na frente você irá lamentar ou agradecer. Tudo depende das ideologias que hoje estão influenciando a mente dos seus amados.

 

“Visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam”.(v.28)

 

            Nos versículos anteriores, a condenação foi feita somente em cima de pecados sexuais. Daqui em diante, não existirá mais referência a este tipo de pecado, o tema já foi tratado nos versos anteriores. A partir do verso 28, Paulo mostra que o abandono de Deus não se dá apenas àqueles que cometem pecados sexuais. A partir daqui Paulo vai fornecer um catálogo de outros pecados aos quais os homens também praticam. Todos eles provenientes da atitude humana de ter excluído Deus de sua vida.

            Os homens julgaram Deus desqualificado para ocupar lugar em suas mentes. Como conseqüência, Deus lhes deu uma justa retribuição. Como o homem não quis que Deus estivesse presente em sua vida, Deus faz exatamente o mesmo. Existe um jogo de palavras neste verso 28. Como eles não quiseram manter Deus em seu conhecimento, Deus não quis mantê-los, logo: “os entregou”. Eles abandonaram a Deus, Deus os abandonou! Será que quem é que sai perdendo nesta história?

            Indiretamente, Paulo nos mostra que quem preserva a moralidade no mundo é Deus. Se Deus retirar sua misericórdia, a graça geral e sua bondade do mundo, este se torna um caos. Não existe lei humana nenhuma que seja capaz de preservar a moralidade.

            Thomas Hobbes, teórico absolutista que viveu na Inglaterra no séc. XVII durante a famosa Revolução puritana, escreveu o famoso livro “O Leviatã”, que defendia um Estado forte para garantir a segurança do povo. Este estado forte precisava existir afinal, diz Hobbes, “o homem é o lobo do homem”. É por isto que Dostoievski vai dizer que “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Ao olhar para a lista de pecados feita por Paulo alguém tem dúvida disto? Quando o homem deixa Deus de lado seu futuro é certo: a destruição!

            “Deus os entregou”. O inferno é justamente o que está sendo descrito aqui nesta passagem! Com um detalhe, permanecerá por toda eternidade. O inferno é uma condição na qual a vida é vivida longe de Deus. Todas as restrições impostas pela santidade de Deus são abolidas. Os homens sem nenhum controle, finalmente abandonados por Deus.

 

Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. são bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem”.  (v.29-32)

 

            Em outros lugares Paulo também faz uma lista de pecados cometidos pelos homens. (I Cor. 5:9-11; 6:9, 10; II Cor. 12:20, 21; Gl. 5:19-21; Ef. 4:19; 5:3-5; Cl. 3:5-9; I Tes. 4:3-7). De todas as listas, a de Romanos é mais longa das epístolas paulinas. São 21 vícios mencionados por Paulo nesta epístola. Eles têm sido divididos pelos teólogos em três grupos.

            Primeiro grupo de vícios contendo 4 pecados. Injustiça: É a partir dela que surgem todos os outros pecados como vimos no verso 18. Maldade: Pessoas que se deleitam em fazer o que é errado. Ganância: É a avidez por ter cada vez mais posses, não importando como são obtidas. Depravação: Perversidade em geral, parecida com maldade.

            Segundo grupo de vícios contendo 5 pecados. Inveja: O intenso desgosto de ver alguém possuir algo que você não tem e muito deseja. Homicídio: Normalmente a inveja conduz ao homicídio. Foi assim com Caim e Abel. Foi a inveja que impulsionou os líderes judeus a exigirem a crucificação de Jesus. Foi a inveja que fez com que os irmãos de José planejassem sua morte. Rivalidades: Uma disposição interna para brigas e contendas. Engano: Astúcia, traição. Malícia: Malignidade, rancor, desejo de prejudicar alguém.

            Terceiro grupo de vícios contendo 12 pecados. Bisbilhoteiros: São difamadores que pecam em secreto. Caluniadores: O que os mexeriqueiros fazem secretamente, os caluniadores fazem publicamente. Inimigos de Deus: Rebelam-se propositadamente contra os princípios divinos. Insolentes: Pessoas presunçosas que tratam o próximo com desdém. Arrogantes: Parecem com os insolentes, com uma diferença, além de ver o outro com inferioridade, ele se acha o melhor de todos. Inventores de males: Se deleitam em inventar métodos criativos de pecados. A indústria da pornografia está cheia de pessoas assim! Desobedientes aos pais: Filhos rebeldes, cheios de si, insubmissos. Insensíveis: Pessoas indispostas e incapazes de fazer o bem ao próximo. Desleais: Não são fiéis, por isto, indignos de confiança. Destituídos de amor: Sem afeição natural. Homens e mulheres que não respeitam a vida do próximo. Destituídos de misericórdia: Homens cruéis, implacáveis. Homens como o sacerdote e o levita da parábola do bom samaritano. “Passaram de largo”, e não prestaram socorro ao necessitado.

            Qual é o seu pecado, em que grupo você se encaixa? Todos nós fazemos parte de algum grupo! Todos nós cometemos muitos ou alguns destes pecados listados por Paulo.

            Paulo deixa o ponto máximo para o final. “Também aprovam os que assim procedem”. Aqui o homem chega no ápice de sua pecaminosidade! Quando alguém sabe o que é errado e patrocina o erro, ela chegou no limite da maldade. Tais pessoas, aplaudem as coisas erradas que os outros fazem, estimulam o homem a cair em erros cada vez piores.“Abandonam as veredas retas para andarem por caminhos de trevas, têm prazer em fazer o mal, exultam com a maldade dos perversos”. (Pv. 2:13,14).

            John Murray disse certa vez que: “A condição mais digna de condenação não é a prática da iniqüidade, por mais que esta evidencie o quanto temos desprezado a Deus e o quanto temos sido abandonados ao pecado; a pior condição é aquela em que, juntamente com a prática, há também o apoio e o encorajamento de outros na prática do mal”.

            Podemos aprovar as práticas erradas consentindo abertamente ou simplesmente nos omitindo. “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, está pecando”. Quando temos a oportunidade de mostrar a pessoa o seu erro e não o fazemos estamos pecando! Somos sal e luz do mundo ou não?!

            Ao olhar para um texto como este e para a realidade que nos cerca nossa tendência é de lamentar e ficar indignado. Temos o hábito de lamentar a deterioração dos padrões do mundo com um farisaico ar de grande desalento. Criticamos a violência, desonestidade, imoralidade, desrespeito com a vida humana; dizemos abertamente que: “O mundo está se afundando cada vez mais”. Contudo, de quem é a culpa? Quem é responsável por isso? Se a casa fica escura ao cair da noite, não faz sentido algum culpar a casa. Isto é o que normalmente acontece quando o sol se vai. A pergunta a ser feita é: “onde está a luz?”. Se a carne se estraga e não dá mais para comer, culpar a carne não faz sentido algum. Isto é o que acontece quando se permite que as bactérias se desenvolvam. A pergunta a ser feita é: “onde está o sal?”.

            Se a sociedade se decompõe a tal ponto que ela acaba se tornando como uma noite escura ou um peixe malcheiroso, é um contra-senso culpá-la. É exatamente isto que acontece quando os homens “caídos” são deixados entregues à própria sorte, quando o egoísmo humano não é questionado, quando a imoralidade sexual é tolerada e aplaudida em nosso local de trabalho, quando incentivamos as pessoas a consumir cada vez mais, esquecendo da viúva, do órfão e do necessitado, quando a maledicência passa por nós e não fazemos nada para mortificá-la, quando filhos desobedecem a seus pais e não lhes falamos do Quinto Mandamento, quando permitimos que o orgulho, a petulância e a arrogância germine em nossos corações, quando a inveja pela roupa, pelo carro, pelos bens, pela beleza do outro inunde nossos sentimentos, quando não amamos os nossos inimigos e nem os nossos irmãos que são problemáticos, quando praticamos as mesmas coisas que os pagãos cometem, quando por medo ou conveniência, não denunciamos as coisas erradas que diariamente presenciamos, quando cada um daqueles pecados listados por Paulo chega até nós e não fazemos absolutamente nada! Deixamos de ser sal e luz num mundo sem gosto e envolto em trevas!

            Não podemos, como Paulo nos exorta, aprovar os que assim procedem! É pura hipocrisia da nossa parte erguer as sobrancelhas, sacudir os ombros ou cerrar o punho. Se a escuridão e a decomposição existem, a falha é nossa, e temos que assumir a culpa! Se o sal deixa de ser sal, não presta para nada. Se a luz deixa de brilhar, perde o efeito. Se nós, que nos dizemos seguidores de Cristo, não fazemos diferença, o que esperar deste mundo?

            Pode ser que ao olhar esta lista feita pelo apóstolo, somos levados a perguntar: qual destes pecados é o pior? A ganância é pior que a inveja? Os presunçosos terão um juízo mais severo que os sem afeição natural? Ou será que aquela velha história de que "não existe pecado, pecadinho e pecadão" é verdade? Existe diferença de pecados, graus de pecados? Será que alguns são piores e mais odiados por Deus do que outros?

            A Bíblia ensina que se pecarmos contra um ponto da lei, pecamos contra toda a lei. Será que isto não implica que pecado é pecado e que, em última análise, não há graus? O problema é que pecar contra um ponto da lei é diferente de pecar contra cinco pontos da lei. Existem alguns pecados que automaticamente geram outros pecados.

            A lei do Velho Testamento tinha distinções e provisões de penalidades para diferentes níveis de criminosos. Alguns pecados eram punidos com morte, outros com penalidade física e outros com taxação de encargos. O Novo Testamento nos ensina aberta e claramente que no julgamento será levado em conta tanto o número (quantidade) quanto a severidade (qualidade) dos pecados. Os que cometeram grandes pecados receberão uma punição grandiosa. Se não fosse assim onde estaria a justiça de Deus em aplicar o mesmo castigo para Hitler e para um pagão comum? Ninguém pecou com mais consciência que Lúcifer. A situação do diabo é a mais crítica de todas as criaturas!

            Portanto, as diferenças serão determinadas pelo grau de fidelidade ou de depravação que a pessoa demonstrou na terra. As penas serão justas, concisas e proporcionais à ofensa. No inferno existirá graus de sofrimento. Alguns receberão muitos açoites, outros receberam poucos açoites. (Lc. 12:47, 48). De Corazim e Betsaida será mais cobrado do que de Sodoma e Gomorra. (Lc. 10:12-14).“Eu lhes digo: Naquele dia haverá mais tolerância para Sodoma do que para aquela cidade. Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque se os milagres que foram realizados entre vocês o fossem em Tiro e Sidom, há muito tempo elas teriam se arrependido, vestindo roupas de saco e cobrindo-se de cinzas. Mas no juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidom do que para vocês”. Ou seja, quanto mais luz, mais condenação. É por isto que “a Palavra jamais volta vazia!”.

            O “Catecismo Puritano com Provas”, compilado por Spurgeon na sua 66a pergunta diz assim: “Todas as transgressões da lei são igualmente odiosas?”. A resposta diz o seguinte: "Alguns pecados em si, e através de vários agravantes, são mais odiosos à vista de Deus do que outros". Qual a base bíblica de Spurgeon? “Jesus respondeu: Não terias nenhuma autoridade sobre mim, se esta não te fosse dada de cima. Por isso, aquele que me entregou a ti é culpado de um pecado maior”. (Jo. 19:11).“Se alguém vir seu irmão cometer pecado que não leva à morte, ore, e Deus dará vida ao que pecou. Refiro-me àqueles cujo pecado não leva à morte. Há pecado que leva à morte; não estou dizendo que se deva orar por este”. (I Jo. 5:16).         Tudo isto nos leva a entender que Deus será justo. Ele medirá o número, a severidade e as circunstâncias atenuantes que estão presentes em nossos pecados.

            Quero encerrar a análise deste verso lembrando que a única coisa no mundo que rouba a nossa alegria é o pecado. É o pecado que nos desumaniza, que acaba com nossa natureza, que impede de sermos quem deveríamos ser. É por isto que o pecado é o castigo pelo pecado. “Deus os entregou”, não existe castigo pior do que este! O que os homens buscam como prazer, Deus lhes dá como castigo! Quanto mais prefiro o pecado, cedendo aos mais vis impulsos, mais sofro! Mesmo que nunca seja pego, mesmo que ninguém saiba! Afinal, o pecado já é uma tragédia para o homem! Jesus não veio apenas para nos salvar do castigo do pecado, mas do pecado em si. O pecado em si já é uma tragédia enorme!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO II

 

Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.(v.1)

 

            Ao longo dos anos têm existido divergências entre os intérpretes sobre a identidade das pessoas mencionadas aqui. Quem é o “homem” a quem Paulo está se referindo aqui? Qual é o grupo de pessoas a que o apóstolo se dirige nesta primeira parte (v.1-16) do capítulo dois? Lembre-se que a igreja de Roma era constituída de gentios e judeus.

            Definir que grupo de pessoas é este ao qual Paulo está se dirigindo é algo muito importante. Em alguns momentos da epístola Paulo vai falar particularmente aos judeus, em outros aos gentios. Em outros momentos ele vai falar a raça humana como um todo. Nos capítulos de 9 a 12 Paulo está se referindo a quem? Os arminianos vão defender a idéia de que ali Paulo está falando apenas para os judeus. Se isto é verdade, toda argumentação da predestinação dos gentios é jogada por terra. Dá para perceber como é importante definirmos sobre quem Paulo está falando?

            Alguns intérpretes  têm argumentado que nestes versos Paulo fala em termos gerais. Ou seja, é uma palavra dirigida tanto a judeus quanto aos gentios. Outros têm defendido a idéia de que Paulo tem em mente apenas os judeus nestes primeiros versos. Tendo descrito a situação dos gentios (1:18-32), agora ele se volta para os judeus. Embora não o faça expressamente pelo nome, senão a partir do v.17.

            Existem várias razões para se acreditar que aqui Paulo está se referindo aos judeus. Primeiro, a tendência de julgar os gentios por causa de sua perversão moral e religiosa era característica dos judeus. Então a expressão “ó homem, quando julgas, quem quer que sejas”, identificaria o judeu. Isto devido a uma característica da nação israelita.

            Segundo. O grupo aqui mencionado era participante da “riqueza de Sua bondade, e tolerância e longanimidade”. (v.4) Embora os gentios participassem da bondade de Deus, a expressão indica as riquezas da graça especial. Os judeus desfrutavam desta graça como parte do privilégio do pacto.

            Terceiro. Paulo mostra que privilégios especiais não isentam ninguém do juízo de Deus. (v.3,6,11). Os judeus alegavam ter certos privilégios que ninguém mais no mundo teria, somente eles.

            Quarto. No verso 17 Paulo se refere diretamente aos judeus. Se Paulo não tivesse os judeus em mente, e no verso 17 os mencionasse abruptamente, seria algo contrário àquilo que ele costuma fazer. Por outro lado, se são os judeus que ocupam a mente de Paulo nos versos iniciais, a identificação deles no verso 17 é algo que acontece de maneira natural.

            Esta é a maneira como devemos procurar entender e interpretar as Escrituras. Não somente esta passagem, mas todos os outros textos da Bíblia. Devemos buscar na própria Bíblia as respostas para nossas perguntas. A Bíblia interpreta a própria Bíblia.

            É muito importante aprender a analisar o contexto, a entender o cenário do texto que estamos estudando, a ter uma visão geral de toda a passagem em questão, a descobrir qual é o grande tema daquele texto. Depois, procurar as suas generalidades. Após isto, perceber suas particularidades e tentar entender qual é a intenção do autor ao escrever o que ali está escrito. Seguindo estes e outros passos de hermenêutica, evitaremos muitos erros doutrinários!

            Alguém pode afirmar o seguinte: “Há mais isto é coisa para o pastor”. Puro engano! Deus se revelou em sua Palavra apenas para os pastores, teólogos e pensadores cristãos? Todos precisam aprender a maneira correta de estudar a Bíblia. O problema é que como você tem um pastor, você descansa nele; basta um telefonema para dissipar uma dúvida. Cria-se com isto uma prática errada, estimulando uma preguiça mental. O intérprete da Bíblia deixa de ser você. Isto pode ser bom como pode ser muito prejudicial.

            No primeiro verso do capítulo 2, Paulo condena os judeus por estarem julgando as coisas erradas. Eles exerciam um juízo condenatório contra os pecados cometidos pelas outras pessoas. O apóstolo então os repreende por esta prática, segundo ele, incorreta. Os judeus são acusados por Paulo pelo que não existia no caso dos gentios, acusação de erros. Não era isto que Paulo estava requerendo no verso 32 do capítulo 1?

            Quem pode entender? Uma hora ele condena a omissão, a falta de julgamento. Logo a seguir, ele condena aquilo que ele solicitou no verso anterior. Paulo acusou os gentios porque eles não repreendiam os erros. Aparecem os judeus condenando o erro, e Paulo também os exorta! Isto é um paradoxo, um mistério ou uma contradição?

            A acusação feita contra os judeus não é que eles julgavam os outros por causa dos pecados cometidos. A acusação é porque eles julgavam os outros por causa de coisas que eles mesmos praticavam. Condenar as coisas erradas estava certo. O problema é que para julgar alguma coisa você não pode praticar este erro. Os judeus estavam condenando algo que eles também praticavam! Havia cegueira e hipocrisia na condenação que os judeus estavam fazendo.

            Olhando este versículo e este contexto, somos levados a pensar: julgar os outros é correto ou errado?  “Não julguem, para que vocês não sejam julgados”. (Mt. 7:1). Esta recomendação de Jesus tem sido mal interpretada, ultimamente. A maioria das pessoas a usa para refrear opiniões a respeito de outras pessoas. Mas não é isso que Jesus pretende! Na verdade, neste mesmo texto, Jesus recomenda que se tenha opinião e insiste na necessidade de observar e chegar a conclusões a respeito dos outros. Devemos tomar cuidado com os falsos profetas que se aproximam disfarçados de ovelhas. Para discernir um lobo disfarçado de ovelha é necessária boa observação.

            O que precisamos entender é que desmascarar é diferente de julgar. Desmascarar é imprescindível à sobrevivência espiritual. Seguir um lobo é perigoso; cair na sua armadilha, fatal. Jesus nos proibiu de julgar, mas nos estimulou a discernir. Julgar é estabelecer um veredicto. Discernir é buscar uma compreensão. Julgar é prerrogativa divina. Já observar para discernir é responsabilidade humana.

            Um dentista pode examinar os dentes do paciente e dizer: “Vejo que você não está escovando os dentes regularmente... A gengiva está com placa bacteriana... Existe uma cárie aqui do lado direito inferior”. Ao fazer isso, o dentista está de fato julgando a condição dos dentes do paciente, a regularidade da sua higiene bucal. O dentista está discernindo, vendo e contando o que vê. Nenhum de nós é louco de afirmar que o dentista está condenando o paciente, seus dentes e gengivas. Ele está apenas avaliando as suas condições em comparação com outras condições, mais desejáveis. Este é o trabalho do dentista! O que não é trabalho do dentista é odiar e desprezar o paciente por causa de suas cáries. Neste caso ele estaria banindo ou excluindo o paciente. Só que nenhum dentista faz isto!

            Da mesma maneira que o dentista, não devemos julgar; mas precisamos discernir. Devemos cobrar responsabilidades das pessoas e discutir com elas suas falhas. Em alguns casos, devemos administrar penalidades, caso sejamos seus superiores. Neste processo não devemos atacar o seu valor de seres humanos nem rejeitá-las. Em Mateus 7 Jesus nos ensina que não podemos abrir mão do discernimento! Não devemos nos aventurar a separar o joio do trigo. Contudo, também não podemos misturar alhos com bugalhos. Não devemos julgar para dar veredictos; contudo, não podemos nos isentar de discernir para saber a quem seguir e o que fazer em determinadas situações.

            Uma boa ilustração sobre esta questão do julgamento pode ser feita com o código de barras. O código de barras, que muitos cristãos consideram o sinal da besta, por enquanto é apenas um extraordinário sistema de catalogação. Ao passar no caixa do supermercado, a máquina leitora identifica o produto, dá baixa no estoque, registra o preço e facilita a vida de todo mundo, a começar daqueles que estão na fila. Contudo, como toda máquina, a leitora do código de barras, a tal pistola, tem uma inteligência limitada à sua programação. Se alguém substituir o selo do código de barras de uma caixa de sucrilhos por sabão em pó, a máquina faz a leitura do sucrilhos como se fosse sabão em pó. A pistola não faz a comparação entre o selo do código de barras e o produto. Nesse caso, o sucrilhos sai do supermercado disfarçado de sabão em pó. A máquina leitora de código de barras que existe no portão do céu é bem mais inteligente do que as do supermercado A pistola do céu é capaz de compatibilizar o selo com o produto, de verificar a coerência entre a identificação visível e o produto em si.

            Certa vez, Samuel foi instruído quanto aos julgamentos de Deus. Ele aprendeu que Deus não vê como vê o homem. O homem vê o que está diante dos olhos, mas Deus vê o coração (I Sm. 16:7). O homem vê o código de barras, mas Deus enxerga o que tem dentro da caixa. Por esta razão Jesus disse que “Nem todo que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus”. (Mt. 7:21) Declarações verbais, caridade, orações, obras sociais... podem impressionar as massas. Mas elas não têm nenhum valor diante de Deus se não forem feitas com a intenção correta.

            Paulo avaliou a situação daquelas pessoas e deu um veredicto a eles. Paulo não foi omisso e nem deixou de dizer o que precisava dizer! Paulo discerniu o seu contexto, analisou a vida daquelas pessoas, e concluiu que eles eram indesculpáveis. Paulo se posicionou! E nem por isso deixou de amá-las e de ter misericórdia deles.

             Nos dias de hoje discernir as atitudes das pessoas é algo muito complicado. Primeiro porque não estamos acostumados a fazer isto de maneira sábia e bíblica. Segundo porque os objetos de nosso discernimento não sabem receber a nossa avaliação. Eles imediatamente entendem isto como um ataque pessoal. Vivemos numa época em que as pessoas andam desesperadas atrás de aprovação. Sendo assim, qualquer avaliação negativa de sua pessoa é visto como algo indesejável. Se reprovamos a atitude das pessoas, elas acreditam que as estamos rejeitando como um todo. Só que não é isto o que acontece.

            Independentemente do contexto difícil em que vivemos e da pouca receptividade das pessoas, precisamos cumprir a ordem bíblica de discernir os tempos e as pessoas que estão ao nosso redor. Seja em casa, na igreja, no serviço, na faculdade, onde quer que estejamos!

            João recomendou a seus leitores que não dessem crédito a qualquer espírito. João reconhece a presença de falsos profetas na espiritualidade da igreja. São espíritos que simulam a verdade, fantasiam a realidade, criam experiências mentirosas, alimentam sentimentos confusos, mantêm as pessoas cativas, dependentes, viciadas, imaturas, infantis, transformam o falso em verdadeiro e o verdadeiro em falso, indiretamente, negam a Cristo, a Palavra de Deus e a obra da cruz.

            Se formos fiéis a ordenança bíblica, teremos ao nosso lado o Espírito Santo, que guia a toda a verdade (Jo. 16:13). Ele abrirá os nossos olhos de modo a percebermos coisas que ninguém mais percebe. Ele nos orientará no discernimento de questões extremamente complicadas. Ele nos iluminará onde existem as mais densas trevas.

 

Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.(v.1)

 

            A palavra “portanto” nos mostra que o apóstolo vai continuar dizendo algo que já vinha afirmando, ou que, o que ele vai dizer daqui a diante é resultado daquilo que ele disse anteriormente. Sendo assim, o capítulo dois está diretamente ligado com a mensagem do capítulo um.

            Já vimos que Paulo está se dirigindo aos judeus que faziam parte daquela igreja em Roma. E os judeus daquele tempo dividiam o mundo em dois grupos: judeus e não-judeus. De um lado estava o povo escolhido de Deus, os judeus; do outro lado estavam os cães, os forasteiros, os que não tinham a lei, os chamados de gentios.

            Por causa desta divisão que os judeus faziam, evangelistas primitivos tinham um enorme problema com eles. O judeu achava que não precisava de salvação, afinal, ele já fazia parte do povo de Deus. Quanto aos gentios, não tinha como eles serem salvos, uma vez que não havia nenhuma ligação deles com Deus. Sendo assim, os judeus se opunham ao Evangelho por estas duas razões: primeiro porque o pregador cristão dizia que ele, judeu, precisava ser salvos, e, segundo, porque o evangelista dizia que o gentio poderia ser salvo.

            O contexto do texto que estamos analisando nos mostra que Paulo fala que a ira de Deus se revela contra toda impiedade e injustiça no caso dos gentios (1:18-32). Ouvindo isto, os judeus dizem: “Paulo você está correto!”. Paulo então diz: “Vocês não podem falar absolutamente nada, vocês são culpados dos mesmos erros!”: “No que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas”.

            Os judeus achavam que Paulo estava expondo a ira de Deus sobre os gentios apenas porque eles eram gentios. Ou seja, a ira de Deus vinha sobre os gentios por causa de sua nacionalidade, e não pela perversão! A condenação divina era baseada na nacionalidade e não na depravação humana. Se esta tese dos judeus fosse verdade, eles estariam livres para pecar, afinal, uma vez que eram judeus, já estavam salvos, fizessem o que fizessem, fossem o que fossem. Nada do que Paulo diz dos gentios se aplicava a eles, simplesmente porque eram judeus. Eles certamente seriam salvos, independentemente de como eles vivessem. Por outro lado, os gentios estavam completamente condenados e perdidos. Independentemente do que fizessem, eles estavam arruinados simplesmente porque eram gentios!

            Os judeus não pararam por aí, eles foram além! Se não já não bastasse a nacionalidade, eles apelaram para duas coisas mais. Primeiro: “Deus nos deu a lei”. Isto, segundo eles, seria uma prova inequívoca de que eles eram o povo de Deus. Ninguém, a não ser eles, possuíam a Lei de Deus! Segundo: “Deus fez um pacto conosco, a circuncisão”. Eles descansavam neste pacto que apenas a nação de Israel possuía com Deus. Portanto, esta era a situação, os judeus achavam que estavam numa categoria inteiramente diferente dos demais. Eles jamais deveriam ser igualados com qualquer outro povo.

            Sabendo disto, Paulo vai tratar destas três questões no capítulo dois. Do verso 1 ao verso 16, o apóstolo vai tratar do argumento da nacionalidade. Do verso 17 ao 24 ele vai tratar do argumento da lei. Do verso 25 ao fim do capítulo ele toma o argumento acerca da circuncisão.  Paulo examina esses três argumentos separada e detalhadamente em todo o capitulo 2.

            Paulo passa a relatar o terrível caráter do pecado. No capítulo um parecia que estávamos percorrendo as sarjetas da vida, tais foram às perversões descritas pelo apóstolo. No capítulo dois, Paulo vai mostrar a sutileza do pecado. Pecados sutis que os judeus cometeram e que nós também podemos cometer!

            Paulo nos mostra que os judeus só enxergavam nas Escrituras aquilo que eles queriam ver. Os judeus condenavam os outros, mas não percebiam o mar de lama em que estavam. E não percebiam porque a leitura que faziam das Escrituras era equivocada. Eles olhavam para a Bíblia e entendiam que somente eles receberiam a salvação. Ou seja, só enxergavam aquilo que queriam ver!

            Nós também podemos cair neste terrível erro dos judeus. Podemos ir até as Escrituras buscando algo para validar nossos desejos, preconceitos e pecados. Já temos uma idéia pré-estabelecida e buscamos na Bíblia apenas uma base para sustentar esta idéia. Assim, os textos bíblicos serão direcionados para aquilo que desejamos!

            Isto tem acontecido demais nos dias de hoje. As pessoas só enxergam aquilo que elas querem ver, e ignoram as demais doutrinas. Os homens ouvem um sermão e selecionam o que desejam, descartando o restante; começam a ler a Bíblia não para serem iluminados, mas para confirmar suas teorias e ideologias.

            Os judeus acharam que a ira de Deus estava somente sobre os gentios. Devido ao seu preconceito não foram capazes de perceber que a ira de Deus viria sobre eles também. Afinal, acharam que o derramar da ira de Deus era uma questão de nacionalidade e não de perversão. Fizeram uma leitura preconceituosa, e por isto, errada da Palavra de Deus.

            Sobre este erro, Lutero certa vez afirmou o seguinte: "Se você crê somente no que gosta do Evangelho, não é no Evangelho que você crê, mas em si mesmo”.

            Outro erro cometido pelos judeus que podemos perceber no texto, é que eles aplicavam a verdade bíblica às outras pessoas, mas não a eles mesmos. Os judeus acharam que a condenação era somente para os gentios e que eles estavam livres desta penalidade. Quantas vezes ao ouvir uma mensagem pensamos: “fulano precisava ouvir isto”. Parem com isto! A mensagem bíblica é antes de tudo para você!

            Paulo nos lembra que os judeus negaram a justificação pela fé. Eles estavam acreditando que seriam salvos pela nacionalidade, pela lei e pela circuncisão. Toda vez que colocamos nossa confiança em qualquer coisa que não seja Jesus Cristo estamos negando a grandiosa doutrina da justificação pela fé somente.

              Muitos acreditam que irão para o céu por que realizam boas obras, porque são pessoas devotas e estão constantemente em oração, porque são piedosas, caridosas, moralistas, porque pertencem  a uma igreja e vivem no meio dos convertidos. Paulo durante muito tempo acreditou que tinha requisitos suficientes para ser salvo, até que ele descobriu que: “Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível. Mas o que para mim era lucro, passei a considerar como perda, por causa de Cristo. Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por quem perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo  e ser encontrado nele, não tendo a minha própria justiça que procede da Lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé”. (Fp. 3: 4-9).

            O homem é tão egocêntrico e tão orgulhoso que anseia existir algo para contribuir com Deus na salvação. Esta história de que tudo depende de Deus para sermos salvos não nos é muito atraente! Esta doutrina fere o nosso ego e nos mostra quem somos de verdade: pecadores falidos e miseráveis!

            Dr. M. Lloyd-Jones conta a história de uma mulher que fora criada na fé reformada e um dia ouviu um arminiano pregar. No fim do culto ela disse: “Graças a Deus, afinal de contas há algo para fazermos!”. Alegrou-se porque, segundo aquele pregador, existia algo a ser feito pelo homem na salvação. Nós temos dentro de nós a tendência desta mulher. Queremos de alguma maneira contribuir com Deus em nossa salvação. Mas não podemos cair neste erro que os judeus e milhares tem caído ao longo dos anos! Precisamos lembrar que estamos espiritualmente falidos e quebrados. Além de não termos um único centavo em nossas contas, estamos afundados em dívidas! Além de termos uma carência de fundos, temos uma abundância de débitos.

            Esta é a nossa situação diante de Deus! Para quitarmos nossa conta com Deus precisamos pagar todos os nossos débitos e, depois, conseguir uma linha completa de créditos. Deus requer ambos. Negativamente, não devemos ser culpados de pecado algum. Positivamente, devemos ser tão moralmente perfeitos, justos e santos como o próprio Deus. O copo não apenas deve estar vazio de injustiça, ele deve estar cheio de justiça. Portanto, não basta não pecar, é preciso ser perfeito como o próprio Deus!

            Quem de nós é capaz de cumprir as exigências de Deus? Ninguém! É por isto que Paulo vai dizer lá na frente: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”. (3:10-12) “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus”. (3:23,24).

            Os judeus não conseguiram perceber esta verdade!     Mas nós temos acesso a ela. Precisamos reconhecer e valorizar o sacrifício de Cristo por nós na cruz. Somente através dele é que temos a redenção de nossos pecados.

 

“No que julgas a outro, a ti mesmo te condenas”. (v.1)

 

            Possuímos dentro de cada um de nós uma tendência enorme de ver o erro na vida do outro e de esquecer o nosso. Este foi o erro cometido por aqueles judeus que Paulo estava condenando. Eles conseguiam enxergar os pecados dos gentios, mas os seus próprios erros eram esquecidos.

            É impressionante o poder que possui o pecado de nos cegar para os nossos próprios erros! Conseguimos enxergar claramente o pecado na vida dos outros, mas na nossa vida o mesmo pecado passa despercebido! Isto aconteceu com o homem segundo o coração de Deus. Natã falou ao rei sobre o homem cruel que, para poupar o rebanho, matou a única cordeirinha de um homem pobre para atender a um hóspede inesperado. Davi encheu-se de ira e disse: “Isto é terrível! Esta pessoa terá que ser morta!”. Davi acreditava plenamente no que estava dizendo! Davi foi absolutamente honesto e sincero no que estava defendendo e dizendo. Então o profeta disse ao rei: “Tu és o homem!”. Quando se tratava de alguém tomar uma ovelha, Davi podia ver o problema claramente. Mas quando o caso foi de tomar a mulher alheia, ele não pôde vê-lo. Isto aconteceu porque ele foi o homem que cometeu o pecado.

            O nosso pecado nos cega para os nossos erros! Davi não estava sendo hipócrita. Ele simplesmente não tinha percebido o erro que cometeu! Realmente não tinha o visto a gravidade do problema em que se meteu.

            Quando somos nós que erramos, há sempre algo diferente no nosso caso. “Mas a minha situação é diferente”. “Esta situação é completamente oposta àquela que estamos falando”. Meus irmãos o pecado nos cega, ele paralisa nossa percepção das coisas!

            Estamos tão prontos a denunciar os outros que não percebemos que estamos fazendo o mesmo! De maneira diferente praticamos os mesmos erros! Condenamos a fofoca, a cobiça, e a inveja. Mas também somos, de maneira diferente, maledicentes, avarentos e invejosos! Foi por isso que Jesus nos alertou: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados. Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. (Mt. 7:1,2). Foi por isso que Jesus certa vez afirmou: “Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão”. (Mt. 7:5) “Por trás do cadáver no reservatório, por trás do ressentimento em uma relação, por trás da senhora que dança e do homem que bebe de forma insana, por trás do olhar de fadiga, da crise de enxaqueca e do suspiro, há sempre outra história, há mais do que nos chega aos olhos”. (W. H. Auden).

            O sábio certa vez disse o seguinte:“A respeito do que os teus olhos viram, não te apresses a revelar, pois, ao fim, que farás, quando o teu próximo te puser em apuros?”. (Pv. 25:7, 8).

 

“Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas”.(v.2)

 

            “Bem sabemos”. Se trata de uma verdade inquestionável! Não há dúvidas, não se deve hesitar sobre isto. É algo incontestável!

            “Juízo” aqui não é o ato de julgar, e sim a sentença condenatória e definitiva. Não é avaliar uma situação, é decretar o destino e a sentença de alguém. O júri pode julgar, mas é o juiz quem dá a sentença final. E aqui, juízo significa o decreto, a ordem, a sentença, o juízo final de Deus!

            “É segundo a verdade”. O que será que Paulo quis dizer com esta expressão? Ao analisá-la, podemos aprender preciosas verdades.

            Primeiro, Deus não possui padrões diferentes. Os judeus achavam que Deus possuía padrões diferentes ao julgar, entendiam que o julgamento divino para eles era de uma maneira e para os gentios era de outra forma. Contudo, Deus não tem favoritos e nem preferência! Se por acaso Deus tivesse algum favorito, este seria Davi, o homem segundo o Seu coração. No entanto, quando ele pecou, Deus o advertiu severamente! O que Pedro disse para Cornélio era verdade: “Deus não faz acepção de pessoas”. Embora Israel fosse o povo formado, criado e escolhido por Deus, Ele o rejeitou! No capítulo onze veremos que os judeus eram os “ramos naturais” da oliveira, mas pecaram, sendo assim, Deus os arrancou e enxertou novo ramo, os gentios.

            Ao contrário de Deus nós temos preferência no julgar e avaliar as pessoas. Temos a tendência de ter os nossos favoritos. Usamos um padrão para os nossos filhos e outro padrão para os filhos doso outros. Somos tolerantes e parciais quando se trata de avaliar aqueles que amamos. Carregamos dentro do nosso coração um enorme desejo de livrar do castigo os nossos preferidos. Com Deus não é assim! O padrão divino, “segundo a verdade”, é sempre o mesmo! Em todos os séculos, continentes, condições, circunstâncias, sempre segundo a verdade!

            Além disso, nossos juízos são prematuros. Por só conseguir ver o exterior o homem fica limitado, e muitas vezes erra ao fazer um juízo de alguém. Nossas avaliações não conseguem ir além de uma visão simplista e temporal.

            A segunda verdade que podemos extrair da expressão “é segundo a verdade”, é que Deus tudo sabe e tudo vê. Uma das maiores idiotices humanas é pensar que pode esconder alguma coisa de Deus. Fazemos isto indiretamente quando pecamos camufladamente. No nosso íntimo achamos que podemos impedir a Deus de saber dos nossos erros. Como disse o autor de Hebreus: “A palavra de Deus é viva e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e julga os pensamentos e intenções do coração”. (Hb. 4:12) Não há nada que seja oculto para Deus! “Todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos de Deus”.

            Esta verdade é ao mesmo tempo um consolo e um alerta. Consolo, porque as coisas erradas e injustas que acontecem neste mundo não ficaram sem um julgamento! Pessoas que sofreram injustiças serão recompensadas por Deus. Aqueles que enganaram a muitos serão desmascarados e julgados pelo Juiz supremo. Homens e mulheres que pensaram que passariam impunes, receberão o que merecem! O autor de Hebreus nos diz que “Deus não é injusto para esquecer do vosso trabalho”.(Hb. 6:10).Deus não vai se esquecer de julgar as coisas que aqui aconteceram.

            Nos serve de alerta para não pensarmos que vamos ficar sem ser julgados por Deus! Este é o motivo pelo qual muitas pessoas assumem uma postura solitária e a defende até o final. Homens que remaram contra a maré. Mulheres que foram contra tudo e todos, pois sabiam que a maioria estava errada. Pessoas que são cativas da sua consciência e não se vendem por nada neste mundo. Elas sabem que se fizerem isto, terão que prestar contas ao Juiz supremo. Este é um julgamento pelo qual elas não querem passar! Por saber desta verdade, Lutero quando estava diante do Imperador e dos lideres da ICAR disse:“A menos que seja convencido pela Bíblia, não aceito a autoridade papal, nem os concílios de tradição católicos. Todos eles se contradizem. Minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Tudo que posso fazer é não negar os meus livros, pois não posso ir de encontro a minha consciência”.

            Se sabemos que Deus tudo sabe e tudo vê, e que irá nos julgar, por que continuamos pecando em secreto? Uma das melhores coisas da vida é ficar em paz com a própria consciência! Saber que não temos “culpa no cartório” é algo importantíssimo para vivermos saudavelmente. No depoimento de Renilda (mulher de Marcos Valério, participante do escândalo do Mensalão no governo do presidente Lula) o último deputado a questionar esta mulher na CPI, disse o seguinte: “Eu sei que você não vai dizer a verdade, portanto, não vou lhe fazer nenhuma pergunta. Vou apenas lhe informar que você perdeu uma grande oportunidade de ficar em paz com a sua consciência, de poder se olhar no espelho com dignidade, de poder mostrar aos seus filhos, amigos, parentes e a nação que você resolveu interromper este ciclo de corrupção que existe no país. Mas você optou por entrar para a história como mais uma pessoa que participou do maior esquema de corrupção desta nação. Amanhã, quando ficar provado tudo que está sendo investigado, você e seus filhos terão vergonha de sair na rua, o mesmo que acontece com os filhos e netos de PC Farias. Vocês nunca mais poderão olhar nos olhos das pessoas com honra e dignidade de uma pessoa de bem”. Após a fala deste deputado, a sessão foi encerrada devido ao choro compulsivo de Renilda.

            O moinho de Deus mói devagar, mas mói fino. Sua paciência e generosidade são admiráveis, contudo, terrível e insuportável é a fúria divina. Podemos perceber esta verdade utilizando a figura do mar. Nada é mais brando do que o mar em sua calmaria. Porém, quando se agita em forma temporal, nada é mais furioso.

            Duas são as ocasiões em que Deus “jura”: quando faz promessas (Gn.22:16) e quando faz ameaças (Dt.1:34) Na primeira jura com misericórdia dos Seus filhos. Na segunda jura para aterrorizar os ímpios.

            O apóstolo Paulo ao analisar esta questão, escreveu: "Não vos enganeis, de Deus não se zomba, pois tudo o que o homem semear, isto também ceifará”.(Gl. 6:7) Esta verdade pode ser percebida na vida de muitas pessoas.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida do famoso John Lennon. Ao dar uma entrevista a uma revista americana, Lennon disse:"O cristianismo vai se acabar, vai se encolher, desaparecer. Eu não preciso discutir sobre isso. Eu estou certo. Jesus era legal, mas suas disciplinas são muito simples. Hoje, nós somos mais populares que Jesus Cristo (1966)". Tempos depois de ter dito o que disse, ele recebeu cinco tiros de seu próprio fã.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida do presidente brasileiro Tancredo Neves. Na campanha presidencial Tancredo disse o seguinte: “Se eu tiver 500 votos do meu partido (PDS), nem Deus me tira a presidência da república”. Os votos ele conseguiu, mas o trono lhe foi tirado um dia antes de tomar posse.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida de Leonel Brizola. No ano de 1990, quando houve outra campanha presidencial, Brizola afirmou o seguinte: “Eu aceito até o apoio do demônio para se tornar presidente”. Quando terminou as eleições o vencedor foi Fernando Collor. Brizola que começou como favorito, não ficou nem em segundo lugar.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida do construtor do navio Titanic. Na ocasião em que foi construído, apontaram-no como o maior navio de passageiros da época. No dia de entrar em alto mar, uma repórter fez a seguinte pergunta para o construtor: “O que o senhor tem a dizer para a imprensa concernente a segurança do seu navio?". O homem, com um tom irônico, disse: "Minha filha, nem se Deus quiser ele afunda o meu navio". O resultado foi o maior naufrágio de um navio de passageiros no mundo.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida Marilyn Monroe Esta mulher foi visitada por Billy Graham durante a apresentação de um show. Depois de ouvir a mensagem do Evangelho, disse: "Não preciso do seu Jesus”. Uma semana depois foi encontrada morta em seu apartamento.

            O juízo de Deus pôde ser percebido na vida de Bon Scote, ex-vocalista do conjunto AC/DC. No ano de 1979 ele cantava uma música com a seguinte frase: "Não me impeça, vou seguir o caminho até o fim, na auto-estrada para o inferno".  No dia 19 de fevereiro de 1980, Bom Scote foi encontrado morto, asfixiado pelo próprio vômito.

            O juízo de Deus é segundo a verdade e como disse o autor de Hebreus é vivo e eficaz; mais afiado que qualquer espada de dois gumes; penetra até o ponto de dividir alma e espírito juntas medulas; julga pensamentos e intenções do coração. Juízo segundo a verdade nos mostra que todas as mentiras serão reveladas e os mentirosos serão desmascarados. Ai de mim! Ai de você! Ai de todo aquele que pensa que pode brincar com a justiça e o juízo de Deus!

                       

 

 

"Tu, ó homem, que condena os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus?”.(v.3)

 

            Lembremos de que neste capítulo Paulo está conscientizando os judeus, de que eles, como os demais, estavam sob a ira de Deus. Portanto, a única esperança de salvação para eles estava na justiça de Cristo, que era recebida pela fé. Para mostrar esta verdade aos judeus, Paulo lhes mostra que eles são culpados das mesmas coisas que condenam nos outros (v.1) e que o juízo de Deus, segundo a verdade, certamente virá sobre os que praticam iniqüidade, afinal, Deus não seria Deus se não punisse o pecado. Sendo assim, é certo que haverá e que terá que haver um julgamento do pecado.Ø A punição que Deus disse que imporá ao pecado, terá que se imposta! Se isto não ocorrer, Deus jamais será fiel à Sua própria Palavra e não julgará segundo a verdade.

            Ainda bem que Deus pune o pecado! Se não houvesse punição do pecado jamais seríamos salvos! Deus só pôde nos perdoar porque puniu o pecado ali na cruz! Não podemos nos enganar, ninguém escapará do justo juízo de Deus!“Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más”. (II Cor. 5:10).

 

“Pensas que escaparás do juízo de Deus?” (v.3)

 

            O argumento de Paulo procede do menor para o maior. Se nossos pecados se acham sujeitos ao juízo dos homens (2:1), muito mais estarão sujeitos ao juízo de Deus, que é o único verdadeiro Juiz de todos!

            O homem sempre acreditou que é possível escapar do juízo de Deus. Por que algumas pessoas acreditavam nisto, o autor de Hebreus afirmou o seguinte: Como escaparemos, se negligenciarmos tão grande salvação?”. (Hb. 2:3). João Batista disse aos fariseus:“Quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?”.

            Por acreditar ser possível escapar da ira de Deus, o homem levanta argumentos para provar sua tese. Ele acredita que pode escapar, então apresenta um argumento. Quando este argumento é derrubado, ele levanta outro. Quando este outro também é tombado por terra, ele levanta outro... e assim por diante.

            É exatamente isto que os judeus estão fazendo aqui em Romanos capítulo 2. Primeiro eles falaram que não estavam condenados por causa da sua nacionalidade. Depois eles falaram que a Lei estava do lado deles. E, por fim, eles apelaram para a circuncisão com prova do favor de Deus para com eles. Paulo tombou cada argumento deste por terra. Com estes argumentos os judeus não podiam mais contar. Então eles levantam um outro argumento para fugir do juízo de Deus. É sobre isto que Paulo vai tratar no v.4, o próximo argumento levantado pelos judeus.

 

Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento?”. (v.4)

 

            Este argumento levantado pelos judeus é muito inteligente e astuto: o argumento da bondade de Deus. Este sem dúvida é o argumento mais levantado pelas pessoas ao longo da história contra o juízo de Deus.Os homens se baseiam na bondade de Deus para fugirem da ira, do juízo e da condenação divina.

            Eis alguns argumentos clássicos usando a bondade de Deus contra o Seu juízo. Primeiro, se Deus realmente punisse o pecado, ele teria que fazer isto imediatamente, e, no entanto, Ele não o faz. Devemos lembrar, no entanto, que Ele não faz instantaneamente por causa da sua misericórdia e tolerância. Mas no tempo certo, Ele o fará! O moinho divino mói devagar, mas mói fino.

            Segundo: "A história da humanidade é uma prova de que Deus não vai nos punir". Devemos lembrar das palavras do apóstolo Pedro: “Nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e seguindo suas próprias paixões. Eles dirão: O que houve com a promessa da sua vinda? Desde que os antepassados morreram, tudo continua como desde o princípio da criação”. (II Pe. 3: 3,4). Tais homens estão zombando do juízo prometido de Deus. Eles dizem: “Já passou tanto tempo, você acha que Deus realmente vai nos punir?”. Os judeus estavam constantemente apresentando este argumento para se defender. Eles usaram este argumento com João Batista. Foi por isto que João precisou dizer-lhes o seguinte: “Não comecem a dizer a si mesmos: Abraão é nosso pai. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão”. (Lc. 3:8). João estava dizendo que Deus não iria ser bom com eles simplesmente porque eles eram filhos de Abraão. “Não recorram a isto, isto não vai ajudá-los!”.

            Paulo então vai dizer que os que assim procedem estão menosprezando a bondade de Deus: “Desprezas a riqueza da bondade de Deus”.

            Quem acredita que não vai ser julgado por causa da bondade de Deus, despreza esta bondade. Usar a bondade de Deus para fugir do juízo de Deus é fazer pouco caso dela, é barateá-la. Pensar deste jeito é tratar com superficialidade este tremendo atributo de Deus. Isto acaba sendo uma atitude de zombaria e desprezo para com o próprio Deus, afinal, os atributos de Deus não podem ser separados de Deus. Portanto, sustentar esta idéia da bondade de Deus é equivalente a desprezar o caráter de Deus. Poucas coisas ofendem tanto a Deus como dizer que Ele é indulgente para com o pecado!

            Paulo diz mais, ele afirma que quem acredita que a Bondade de Deus o livrará do julgamento divino, jamais entendeu a bondade de Deus.  Jamais entendeu porque a bondade conduz o homem ao arrependimento, e eles não se arrependeram!“A bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento”. (v.4). Ao avaliar a bondade de Deus corretamente, o homem fica constrangido e acaba se arrependendo. Como aqueles homens não se arrependeram, isto prova que eles não sabem o que é esta bondade!

 

Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus”.  (v.5)

 

            Os judeus ao invés de serem levados pela bondade de Deus ao arrependimento fazem exatamente o contrário. Na hora em que deveriam se arrepender, é o exato momento em que se tornam mais duros! Ao invés de se dobrarem ao governo de Cristo, se rebelam contra Ele. É a mesma verdade encontrada no capítulo um verso vinte e um: “Tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se".

            Percebam que aqui no capítulo dois, Paulo fala do coração duro e impenitente, enquanto que no capítulo um o apóstolo falou do coração insensato que fica obscurecido. Isso nos lembra que o problema humano é um problema do coração. O autor de Hebreus adverte as pessoas as quais está escrevendo alertando-as da seguinte forma: Cuidado, irmãos, para que nenhum de vocês tenha coração perverso e incrédulo, que se afaste do Deus vivo”. (Hb. 3:12). Jeremias já dissera que “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso: quem o conhecerá?” (Jr. 17:9). Jesus certa vez também alertou para este mal: “Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt. 15:19).

            O problema humano é um problema no coração! É o coração (os sentimentos e afetos) que dirige a espiritualidade do homem cristão. Foi por isto que o sábio disse em provérbios 4:23: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida”. Este é o ensinamento central da vida cristã!

            Nossa sociedade desde cedo nos ensina a guardar a nossa auto-imagem, o “status” social. Quem nunca ouviu uma pessoa dizer: “O que as pessoas vão dizer?”. Além da auto-imagem, o mundo valoriza demais as conquistas pessoais. Apresentamos nossas vitórias e camuflamos nossas derrotas. Contudo, não conseguimos entender que se o coração não for guardado nada disto adiantará! É do “coração que procedem as saídas da vida!”.

O centro da nossa espiritualidade está em nossos afetos, que nascem do coração.      Quando Jesus chamou Pedro para o pastorado, Ele não lhe perguntou o quanto Pedro conhecia de Deus. A única pergunta de Jesus para Pedro era se ele o amava. Era o afeto de Pedro que interessava a Jesus! Ao que parece, Deus não se preocupa tanto em ser analisado, ele deseja principalmente é ser amado.

            A aposta de satanás com Deus em relação a Jó não envolveu o conhecimento e as experiências de Jó. O Diabo não tinha dúvida alguma quanto ao conhecimento e as experiências que Jó tinha sobre Deus. Porém, satanás duvidava do amor de Jó para com Deus.

            Isto não significa que o conhecimento ou a experiência são irrelevantes. Mas se estes não são traduzidos em afetos e não atingem o coração, eles não valem de nada. Devemos lembrar das palavras paulinas aos crentes de Corinto: “Ainda que eu... se não tiver amor não presta”. O conhecimento e a experiência precisam estar aliados ao amor!

            É este amor, que nasce do coração, que determina os segredos da espiritualidade. Ricardo Barbosa, pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto afirmou o seguinte: “A vida espiritual é aquela que nos leva a tirar do coração o que há de mais precioso e oferecê-lo ao Senhor, a buscar nos compartimentos mais secretos da alma os sentimentos mais nobres e dedicá-los a serviço da adoração. A partir do momento em que o homem for capaz de adorar e servir a Deus por nada, simplesmente porque este é Deus e não porque o cobre de benefícios, aí ele encontra o sentido maior da sua devoção, o centro da sua espiritualidade, o coração como fonte dos afetos mais puros e genuínos da alma humana”.

            Paulo nos mostra que os judeus não foram constrangidos pela bondade de Deus, antes, a bondade os levou a ter um coração endurecido. Aquilo que se destinava a amolecer o coração das pessoas é exatamente o que as faz ficar endurecidas. A bondade de Deus ao invés de levar tais pessoas a se arrependerem, as conduz para ira de Deus. Ao desprezar a bondade de Deus o judeu acumula ira contra si mesmo.

            O mesmo sol que derrete o gelo endurece o barro. A pregação ou amolece, ou endurece o coração humano. É muito triste ver pessoas com o coração endurecido. E estão com o coração desta maneira por causa do “engano do pecado”. Tais pessoas, segundo Paulo, estão acumulando ira para si. “Segundo a tua dureza, e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira”.

            Aquele que se depara com as verdades de Deus e não muda está estocando a ira de Deus! Melhor fora que não ouvisse nada do que está acostumado a ouvir. Seria menos doloroso para tal pessoa não entrar em contato com as verdades de Deus. Era mais proveitoso não saber das doutrinas bíblicas, afinal, quanto mais luz, mais condenação!

            A ira acumulada, certamente será executada! Este dia é identificado no verso 16 deste mesmo capítulo. “Isso tudo se verá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho”. (2:16).

 

Retribuirá a cada um segundo o seu procedimento”. (v.6)

 

            Este versículo fala de três características do justo juízo de Deus. Primeiro da universalidade do juízo: "a cada um”. Esta verdade é realçada nos versos 9 e 10.

            Isto nos lembra que o juízo de Deus será um julgamento individual. Cada ser humano que já existiu comparecerá a este julgamento. Este será um julgamento universal, pessoal, individual. Cada um dará conta dos seus atos ao Juiz supremo. O pai não responderá pelos filhos. O marido não responderá pela esposa. O amigo não responderá pelo outro amigo. Isto significa que espiritualmente falando, precisamos caminhar sozinhos. Será que seus filhos se morressem hoje poderiam responder a Deus o que é preciso? Será que aqueles que amamos saberiam como proceder no tribunal celestial? Será que estamos caminhando com as nossas próprias pernas na esfera espiritual?

            Isto é algo muito sério! Por adorarmos a Deus coletivamente, pensamos que seremos julgados coletivamente. Isto não vai acontecer! Algum dia estaremos frente a frente com o Juiz supremo, e Ele nos perguntará: “E agora?”.

            A doutrina da maldição hereditária é uma tentativa humana de camuflar este julgamento individual de Deus. Quem crê neste absurdo tenta transferir seus pecados para outras pessoas. Não são capazes de assumir a culpa pelos erros cometidos. Era isto que os judeus estavam fazendo na época de Ezequiel. O profeta denunciou o erro do povo ao afirmar o seguinte: "Esta palavra do Senhor veio a mim: O que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam?Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o Senhor, que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá”. (Ez. 18:1-4).

            A segunda característica que podemos observar no juízo de Deus é o critério pelo qual ele será executado: “segundo o seu procedimento”. O fato de que cada pessoa será julgada “segundo seus feitos” é ensinado por toda a Escritura.“Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento”. (Ec. 11:9).“Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mau”. (Ec. 12:14).“Pois o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com o que tenha feito”. (Mt. 16:27).“Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados”. (Jo. 5:28,29).“Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um”. (I Cor. 3:12, 13).“Pois todos nós devemos comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba de acordo com as obras praticadas por meio do corpo, quer sejam boas quer sejam más”. (II Cor. 5:10) “Matarei os filhos dessa mulher. Então, todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e retribuirei a cada um de vocês de acordo com as suas obras”. (Ap. 2:23).

            Existe alguma dúvida sobre esta verdade? As recompensas e os castigos serão distribuídos de acordo com a fidelidade ou infidelidade de cada um. Contudo existe uma questão que precisa ser analisada aqui. Se Deus julga a cada pessoa “segundo seus feitos” como pode a salvação ser exclusivamente pela graça? Na questão da condenação o homem é responsável! “Acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira”. O homem é o responsável pela sua condenação e as conseqüências desta. Na questão da salvação, Deus é o responsável, é Ele quem redime o homem do pecado. Nos que se perdem, Deus age com justiça; nos que se salvam, Ele age com graça!

            Os redimidos por Cristo terão a retribuição de suas obras, não com a salvação, mas com o galardão, recompensas que Deus dará a cada salvo lá no céu de acordo com a sua conduta aqui na terra."Os ímpios serão punidos por causa das suas obras, e de acordo com as suas obras; os justos serão recompensados não por causa de suas obras, mas de acordo com as suas obras”. (Hodge).

            A terceira característica que podemos observar no juízo de Deus é a distribuição indubitável e verdadeira da recompensa: “que retribuirá”. A retribuição divina tem dois aspectos, o negativo e o positivo. O dia da ira para os ímpios e o dia em que se concretizarão as aspirações dos justos. Neste dia serão conferidas aos justos: glória, honra e paz (v.7-10). Ninguém ficará sem receber aquilo que merece, seja o bem, seja o mal.

            Este texto é uma exortação para estarmos atentos a tudo aquilo que fazemos ou deixamos de fazer. Nossos atos, por mais banais que possam parecer, possuem um profundo significado. O que plantamos em vida, colhemos na eternidade.

 

Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego; mas glória, honra e paz para todo o que pratica o bem: primeiro para o judeu, depois para o grego. pois em deus não há parcialidade”. (v.7-11)

 

            Paulo divide a raça humana em dois grandes grupos, à semelhança do que fez Jesus certa vez. O primeiro grupo consiste de todos quantos perseveram em fazer o que é certo. Tais pessoas fazem o que é correto não aos olhos de outras pessoas. Algo que Paulo acabou de condenar nos versos 1-3. Tais pessoas fazem o que é certo aos olhos de Deus. Perseveram nos feitos que glorificam a Deus. Almejam obter glória, honra e imortalidade. Estão desejosos da ressurreição da vida incorruptível e indestrutível. Buscam ansiosamente as bênçãos infindáveis do novo céu e da nova terra.           Este grupo de pessoas alcançará, segundo Paulo, a vida eterna.

            O segundo grupo consiste de pessoas que fazem aquilo que lhes agrada. Em vez de obedecerem à vontade de Deus, inclinam seus ouvidos a tudo quanto desonra a Deus. Para estes haverá constante ira e indignação. Isto será provado principalmente no dia do juízo final. Contudo, tais pessoas continuarão provando o desprazer e a indignação divina para sempre!

            O agudo contraste entre o destino eterno de ambos os grupos pode ser comparado com as descrições do Apocalipse. A bem-aventurança dos salvos:“Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede. Não os afligirá o sol, nem qualquer calor abrasador, pois o Cordeiro que está no centro do trono será o seu Pastor; ele os guiará às fontes de água viva. E Deus enxugará dos seus olhos toda lágrima”. (Ap. 7:16, 17). A miséria dos perdidos:“Nunca mais se ouvirá em seu meio o som dos harpistas, dos músicos, dos flautistas e dos tocadores de trombeta. Nunca mais se achará dentro de seus muros artífice algum, de qualquer profissão. Nunca mais se ouvirá em seu meio o ruído das pedras de moinho. Nunca mais brilhará dentro de seus muros a luz da candeia. Nunca mais se ouvirá ali a voz do noivo e da noiva”. (Ap. 18:22, 23).

            É interessante observar a forma que Paulo utiliza para descrever a verdade que ele tem em mente. Nos versos 7 e 8 o obediente é mencionado antes do desobediente. Nos versos 9 e 10 acontece o oposto. Nos versos 7 e 8, a descrição da pessoa vem antes da menção do castigo. Nos versos 9 e 10 acontece o oposto, a menção do castigo vem antes da descrição da pessoa. Isto nos mostra o cuidado, a prudência, a inteligência, a maneira de argumentar de Paulo. Ao transmitir um ensinamento ou ao repreender alguém não podemos fazer isto de qualquer jeito, isto é muito bem ilustrado na repreensão de Natã a Davi.

            O texto também nos mostra aquilo que determinará o destino de cada pessoa no juízo final. Paulo nos diz que o destino de cada pessoa não depende daquilo que a pessoa pensa de si mesmo. O importante na hora do julgamento é aquilo que a pessoa é aos olhos de Deus! Aos nossos olhos somos retos, obedientes, corretos... “tropeçamos uma vez ou outra, mas nada grave”. Mas será que é assim que Deus nos vê? As pessoas de Mateus capítulo 7 pensavam uma coisa sobre a moral delas, Deus enxergava algo completamente oposto! Os amigos de Jó tinham um certo conceito a respeito dele, Deus olhava para Jó de maneira bem diferente dos seus mui amigos. Os fariseus se achavam corretos, santos e irrepreensíveis, Jesus os chamou de “Sepulcros caiados”.

            O importante não é a minha visão de mim mesmo, mas aquilo que Deus vê em mim! E quando Deus vê o seu interior, será que Ele se agrada daquilo que vê? Podemos enganar aos homens, mas Deus jamais será ludibriado por nossas artimanhas.

            Existe arrependimento, fé, santidade, amor e oração de mentira. Falso arrependimento pode ser visto na vida de Saul, Acabe, Herodes e Judas. Falsa fé pode ser vista na vida de Simão o mago. Santidade mentirosa pode ser vista na vida do rei Joás que parecia santo e bom; contudo, ele se comportava assim apenas enquanto o sacerdote Joiada estava vivo. O amor não-genuíno pode ser visto nas palavras de João: “Não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade”. Oração mentirosa pode ser vista quando nosso Senhor condenou o pecado dos fariseus. Jesus disse que era por aparência e presunção que eles faziam longas orações.

            Estas coisas devem nos fazer pensar se nosso Cristianismo realmente é autêntico. Várias parábolas de Jesus falam do contraste do verdadeiro com o falso crente. As parábolas do semeador, do joio, das bodas e das dez virgens mostram o perigo de um cristianismo superficial e não-genuíno.

 

“Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade”. (v.7)

 

            O termo “glória” é usado com freqüência por Paulo para descrever o alvo da esperança do crente, ele aponta para a transformação que será realizada quando os crentes forem conformados a imagem do Filho. Neste momento, refletiremos por completo a glória de Deus e se cumprirá o que o apóstolo disse no capítulo, verso trinta: "Aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou”.

            “Buscam honra”. Tais pessoas estão preocupadas unicamente com a honra que procede de Deus. Os justos devem buscar a honra que vem de Deus e não as bajulações humanas. Jesus exortou certas pessoas sobre isto quando afirmou: “Como vocês podem crer, se aceitam honra uns dos outros, mas não procuram a honra que vem de Deus?”. (Jo. 5:44).

            “Buscam imortalidade”. Aquele estado em que os justos serão perfeitamente puros e santos. Uma existência que jamais terá fim, que será vivida inteiramente na presença de Deus, longe do pecado e perto do Santo dos santos.

            Estas três características distinguem os justos dos injustos. No entanto, nem sempre é fácil buscar estas coisas em nossas vidas. Muitas vezes somos tentados a buscar nossa própria glória e deixar de lado a glória que em nós a de ser revelada, a valorizar as honras e bajulações humanas, desprezando a honra de Deus, a voltar os nossos pensamentos para esta vida esquecendo o que nos aguarda lá no céu.

            Em meio às lutas, dificuldades, problemas, investidas de Satanás, somos tentados a desistir de lutar por estas coisas. Paulo então diz que tais pessoas recebem a vida eterna não apenas por buscarem a glória, honra e a imortalidade. Os justos recebem o seu galardão porque “persistem em fazer o bem”.

            A outra característica de uma pessoa justa, diz Paulo, é a persistência em fazer o bem. Eles não apenas começam, mas perseveram em fazer o que é correto. Apesar do mundo, da carne e do diabo, eles continuam avançando. Eles possuem uma paciente persistência, uma resistência perseverante em fazer o bem. Os justos são como os heróis da fé de Hebreus 11 que tinham tudo contra eles, porém, mantiveram-se firmes! Aqueles homens lutaram contra muitas coisas, mas principalmente contra o desejo de desistir. Foi por isto que o autor de Hebreus nos diz que: “Passamos a ser participantes de Cristo, desde que nos apeguemos até o fim à confiança que tivemos no princípio”.(Hb. 3:14). Ao escrever aos Gálatas o apóstolo Paulo disse: "E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se não desanimarmos”. (Gl. 6:9). Os que desfalecem diz Paulo, não colhem coisa alguma!

            Persistência em fazer o bem, em defender aquilo que se crê, em viver de acordo com a fé que uma vez nos foi entregue. Paulo nos diz que esta é uma característica da pessoa justa que alcança a vida eterna.

            Infelizmente algumas pessoas desistem muito fácil daquilo que sabem ser a verdade. O famoso primeiro ministro inglês, Winston Churchill disse aos pilotos ingleses que partiam para enfrentar os pilotos alemães na Segunda Guerra Mundial: “Nunca, nunca, nunca, desistam”. Ele tinha razão, afinal, o segredo dos que triunfam é começar sempre de novo.

            Perseverar não é fácil, mas é uma característica dos grandes homens da história. O mundo admira a perfeição anatômica de Leonardo da Vinci. Contudo, poucos sabem que Leonardo em certa ocasião pintou mil mãos. O mundo exalta a genialidade de Thomas Edison o inventor da lâmpada elétrica. No entanto, poucos sabem que ele só conseguiu depois de mais de mil tentativas frustradas. Thomas Edison disse mais tarde que: “Foi uma forte determinação que deu ao mundo a lâmpada incandescente e não o gênio criativo do inventor”.

 

“Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. Haverá tribulação e angústia para todo ser humano que pratica o mal: primeiro para o judeu, depois para o grego”.  (v.8,9)

 

            Paulo nos fala de pessoas que são facciosas. Tais pessoas são aquelas que gostam de brigar, que tem prazer em disseminar contendas. Elas debocham de Deus com os seus pecados, zombam do Criador com sua vulgar e insensível indiferença, recusam-se a se sujeitarem a Lei do Senhor. Por causa disto eles acabam caindo na escravidão do pecado. “Desobedecem a verdade e obedecem à injustiça”. “Ira e indignação” constituem a retribuição dada a essa desobediência!

            "Tribulação e angústia".  Tribulação é problema, aflição, pressão sobre a pessoa. A origem da palavra é bem didática e nos ajuda a entender o que Paulo está dizendo aqui.

            Na antiguidade, os homens usavam grandes manguais (chicotes) para separar o trigo da palha. Neste processo, o trigo era muito ferido ao ser separado da palha. Estes manguais, por fazer o que faziam, recebiam o nome de “tribulum” de onde veio o termo “tribulação”. Ou seja, a palavra tribulação traz consigo a idéia de algo que está sendo golpeado. Ainda hoje, a palavra tribulação possui este sentido. As pessoas são golpeadas pelas adversidades, batidas, espancadas e machucadas pelas coisas que nos sucedem na vida. Segundo Paulo, é isto que vai acontecer com estas pessoas que ele está descrevendo. Por toda a eternidade elas passarão por tribulação, serão constantemente espancadas e feridas!

            A tribulação, nos lembra o apóstolo, pode conduzir à angústia. Angústia significa dor, sofrimento, não no corpo, mas na alma. É um sofrimento proveniente da tribulação.

            Paulo junta estas duas palavras de maneira interessante em II Coríntios 4:8: “Em tudo somos atribulados, mas não angustiados”. Segundo o apóstolo, os crentes verdadeiros terão tribulação, mas não ficarão angustiados! Mas estes infelizes aqui de Romanos, consignados ao inferno não terão apenas tribulação, terão angústia também!

            Paulo ainda nos lembra que assim como a verdade e a justiça andam juntas, a verdade e a injustiça são opostas entre si. “Desobedecem à verdade e obedecem à injustiça”. (v.8). A injustiça sempre será sustentada pela mentira. Por sua vez, a justiça só pode prevalecer onde reina a verdade!

 

“Ao judeu primeiro e também ao grego”. (v.9)

 

            Esta expressão não significa que Deus tratará o judeu de forma mais generosa. O juízo de Deus segundo a verdade (v.2) já descartou esta possibilidade. O verso onze realça e fortalece a idéia de que Deus não possui favoritos. Os judeus serão julgados primeiro, visto que eles possuíam a Lei. Ou seja, visto que receberam o Evangelho antes dos gregos, serão julgados primeiro que eles.

 

 

 

“E paz a todo aquele que pratica o bem”. (v.10)

 

            Conta-se que Dante (poeta italiano) ao ser exilado de seu lar em Florença, decidiu caminhar da Itália até Paris em busca do real sentido da vida. Uma noite, já tarde, parou em frente ao portão de um mosteiro franciscano pedindo guarida. O frei que lhe abriu o portão lhe perguntou: “O que deseja?”. E em uma palavra, Dante respondeu: “Paz”.

            Todos nós ansiamos por paz! Paz nos relacionamentos, nas amizades, no casamento, no serviço, enfim, na vida! A guerra, seja ela militar, ideológica ou sentimental, sempre é algo extremamente doloroso. A paz é aquilo que mais desejamos nas nossas vidas! É promessa de Deus que aqueles que buscam fazer o que é correto, que praticam o bem, obterão paz!

 

“Porque para com Deus não há acepção de pessoas”. (v.11)

 

            Percebam o contexto em que este versículo está inserido. Paulo está, o tempo todo neste capítulo, mostrando que não existe diferenciação entre judeus e gentios. Deus considera a todos de maneira semelhante. O juízo de Deus será igual para todas as pessoas. Enfim, o apóstolo está mostrando que aquela diferenciação de povos que os judeus acreditavam existir é mentira.

            Paulo argumenta o tempo todo que para Deus todas as nações são iguais. É neste contexto que Paulo vem e diz que “Deus não faz acepção de pessoas”. O correto seria dizer que: “Deus não faz acepção de povos”. Este é o sentido verdadeiro do texto!

            O outro sentido deste versículo, também auxiliados pelo contexto, é que Deus não faz diferenciação de pecados. Paulo está tratando aqui dos pecados dos homens. Neste contexto Paulo nos lembra que o pior dos pecadores pode ser aceito por Deus. Deus não faz acepção de pessoas devido a gravidade de seus pecados.       Portanto, Deus não faz acepção de povos e de grandes pecadores. Este é o sentido do versículo. É errado apanhar este verso e tentar provar que a predestinação não é bíblica. Os arminianos adoram este versículo. Eles alegam que se Deus escolheu, Ele está fazendo acepção de pessoas. Sem dúvida que sim! Contudo, o texto nos fala que Deus não faz acepção de povos e de pecadores. O mesmo acontece com os outros textos que tem esta mensagem.

            Deus não fazer acepção de pecadores miseráveis possui um nome muito encantador: Graça. Louvado, exaltado, engrandecido e adorado seja o nome de Deus porque Ele não faz acepção de pecadores. Se não fosse deste jeito todos nós estaríamos perdidos!

            É muito encantador perceber este versículo no contexto em que ele se encontra. No meio de tanta condenação, de uma promessa de julgamento, do relato da ira de Deus, Paulo diz: “Deus não faz acepção de pecadores”. Deus pode perdoar e salvar estes pecadores! Mesmo o mais vil, caso venha a arrepender-se, será aceito no Reino de Deus!

            A idéia e a proposta da graça de Deus é algo meio perturbador e contraditório. Por um lado, eu fico completamente feliz e aliviado, afinal, sem ela eu estaria perdido e condenado. Por outro lado, eu fico completamente zangado e revoltado, afinal, porque é que Deus oferece perdão há determinadas pessoas? Será que Deus não poderia me colocar como um alvo da Sua graça, e depois fazer acepção de algumas pessoas?

            Ainda bem que é Deus que dispensa Sua graça! Porque se dependesse da gente, a graça só teria um alvo: nós mesmos! Na verdade, nós não a dispensaríamos nem mesmo àqueles que mais amamos! Se conhecêssemos as pessoas como elas realmente são, nós as desprezaríamos! Se as pessoas nos conhecessem como realmente somos, elas nos desprezariam! Se o marido conhecesse o íntimo da esposa, ele a abandonaria. E ela faria o mesmo! Mas Deus, que conhecesse o interior de cada um de nós, não fez isto. Deus que sonda as mentes e os corações, que conhece aquilo que vai no mais íntimo do nosso ser, que julga segundo a verdade, que sabe discernir a intenção de todas as pessoas, este Deus não nos desprezou! Pelo contrário, Paulo nos diz que Ele nos amou quando ainda éramos pecadores! E isto, segundo o apóstolo, é a prova de tão grandioso amor! “Mas Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. (5:8).

            Na Parábola da vinha e dos trabalhadores, o dono da vinha empregou àqueles que passaram o dia todo na praça. Ninguém quis empregar àqueles homens. Provavelmente, eram trabalhadores que nenhum empregador desejou. Além disso, aquele empregador contratou empregados faltando apenas uma hora para o final do expediente. Ninguém cometia uma loucura como esta, era um prejuízo enorme! Isto nos lembra que Deus salva pecadores que não realizaram nada para o Seu aqui na terra. O empregador ainda pagou aos da última hora o mesmo que receberam aqueles que trabalharam o dia inteiro. Aparentemente isto não era justo. Mas se Deus usar de justiça quanto a salvação todos estaríamos perdidos!

            Deus é completamente soberano em tudo o que faz! Reconhecer e conviver com um Deus soberano, que faz o que quer com o que é seu não é fácil. É complicado relacionar-se com um Senhor que abre portas para uns e não para outros, que responde às orações de alguns de forma surpreendente, deixando outros em compasso de espera, que cura alguns e não cura outros. Isto gera em nós uma sensação de injustiça, a mesma sensação que aqueles trabalhadores contratados na primeira hora sentiram.

            Não é fácil reconhecer que Deus não faz acepção de pecadores. Muitas vezes não é agradável perceber que o Pai jamais permitirá que os ramos mais antigos olhem com desdém para os ramos mais jovens. O muçulmano é tão aceito por Deus quanto o mais tradicional batista brasileiro. A prostituta desfrutará dos mesmos benefícios que aquela que nasceu num lar evangélico. Os trabalhadores da hora undécima receberão o mesmo que aqueles que trabalharam o dia inteiro!

            Só existe uma coisa no mundo que faz com que Deus faça acepção de pecadores: o pecador que não se arrepende. Segundo Paulo, tais pessoas possuem um coração duro e impenitente, estão acumulando ira contra si mesmo para o dia do juízo, provarão da ira e da indignação de Deus, desobedecem à verdade e obedecem à injustiça, sofrerão tribulação e angustia, receberão o desprezo e a acepção por parte de Deus.

 

Assim, pois, todos os que pecaram sem lei também sem lei perecerão; e todos os que com lei pecaram mediante lei serão julgados; no dia em que deus, por meio de Cristo Jesus, julgar os segredos dos homens, de conformidade com o meu evangelho”.(v.12, 16)

 

            Lembremos de que Paulo está aqui neste texto, levando os homens a compreensão de que eles estão debaixo da ira de Deus. Ou seja, ele vem tratando de várias objeções levantadas pelas pessoas para fugir da ira divina. Desta maneira, o apóstolo tomba por terra cada argumento levantado pelos judeus e gentios. Ele faz isto para mostrar ao homem a necessidade de basear-se apenas na justiça de Cristo.

            Mas o objetivo de Paulo não é apenas destacar a culpa do judeu. Paulo também deseja provar que Deus é imparcial e justo ao realizar o seu juízo. Para provar isto, o apóstolo dos gentios vai mostrar que o juízo de Deus será proporcional à luz possuída pelos homens. Nesta nova parte de sua argumentação, o escritor sagrado vai destacar esta única verdade nos versos 12 e 16. E, nos versos 13, 14 e 15 ele elabora a sua argumentação. A verdade dos versos 12 e 16 é sustentada pelos argumentos dos versos 13,14 e 15.

            Aqui no verso 12, Paulo novamente classifica a humanidade em dois grupos, aqueles que estão debaixo da lei e os que estão fora da lei. Ele fala disto também em I Coríntios 9: 20,21:“Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, para ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei. Aos sem lei, como seu eu mesmo o fosse, não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei”.

            Paulo novamente divide o mundo entre judeus e gentios. Aos gentios não foi dada a Lei escrita de Moisés. Sendo assim, eles não serão julgados mediante esta lei, serão julgados com base naquilo que eles são. O gentio que pecou “sem lei”, sem ter conhecimento da lei escrita dada por Moisés, será julgado e será punido como alguém que não teve o benefício dessa lei escrita.

            Já os judeus tiveram a lei escrita mediante Moisés. Para eles esta lei era uma grande vantagem e uma grande benção. Paulo vai falar disto no capítulo 3: “Qual é, pois, a vantagem do judeu?... Muita sobre todos os aspectos”. (3:1, 2). O judeu recebeu esta lei, e, mediante ela será julgado! Isto nos mostra que o homem que nunca ouviu o evangelho não será julgado como se o tivesse ouvido. Isto não significa que ele será salvo por que nunca ouviu o evangelho. Significa apenas que se ele nunca ouviu o evangelho, ele não será julgado como se tivesse ouvido.

            O que Paulo nos mostra é que o homem é julgado de acordo com a situação em que se encontra. Se ele estiver fora do âmbito da lei escrita, será julgado como alguém que está fora da lei. Por outro lado, todos os que pecaram “debaixo da lei” serão julgados pela lei.      

            Entender isto é muito importante! O que Paulo está mostrando é que o que importa no juízo não é a posse ou não da lei, e sim, o pecado. Não importa se os judeus ou os gentios possuem ou não a lei. O que importa é que eles são pecadores e é isto que conta na hora do juízo. O juízo, diz o apóstolo, só se preocupará e se interessará pelo pecado. Se você pecou, não importa quem você é... isto não faz diferença! Não faz diferença se é judeu, gentio, batista, reformado... o que importa é o pecado! Isto mostra definitivamente a imparcialidade de Deus e que Ele “não faz acepção de pessoas”. (v.11)

            Os que pecaram, diz Paulo “perecerão”. Esta sempre foi e sempre será a punição pelo pecado. Não tem jeito! A promessa de que a pessoa vai colher pelos seus atos está em toda a Escritura. É certo que aquele que pecou perecerá!

            Percebam a importante e significativa mudança que Paulo faz no verso 12. Os que sem lei pecaram, perecerão. E aqueles que com lei pecaram, também perecerão? Não! Tais pessoas “pela lei serão julgadas”.Por que existe esta diferença? Por que é que o judeu será julgado pela lei, enquanto o gentio apenas perecerá? Por que o gentio apenas perecerá e não passará pelo julgamento do judeu?

            Este é um ponto importante e interessante de ser observado. O texto deixa bem clara a verdade de que o padrão que Deus aplica ao judeu é mais alto e mais severo que o padrão aplicado ao gentio. Isto não faz nenhuma diferença quanto ao destino final deles; mas indica que existirá diferença de punição. Deus exige mais do judeu do que do gentio, porque lhe deu a lei!

            Quando analisarmos os versos 13-15 veremos que o gentio possui uma lei fundamental em sua mente e em seu coração: a revelação geral. Contudo, o gentio nunca recebeu esta lei de maneira explícita, clara, externa e objetiva. Ele tem conhecimento da lei, mas não da mesma forma que o judeu. O judeu, por sua vez, recebeu esta lei de maneira clara e inequívoca. Ele recebeu ensino, preparação, instrução quanto a lei de Deus. Portanto, o judeu está numa posição mais privilegiada que o gentio. Sendo assim, o padrão aplicado a ele será mais alto do que no caso dos gentios!

            A questão é a seguinte: o judeu não é salvo pela lei, mas tem uma responsabilidade enorme por causa dela. Ele não escapa do julgamento por ser judeu e por possuir a lei. No entanto, o julgamento sobre ele será mais severo pelo fato dele ser judeu e possuir a lei! Grande privilégio sempre traz maior responsabilidade. E se este privilégio for negligenciado, maior será a punição! Esta é a mensagem de Lucas 12:35-48, na parábola do servo vigilante.

            O gentio pecador e o judeu pecador irão juntos para a perdição, contudo, o judeu sofrerá mais do que o gentio. O judeu teve grande vantagem, ampla oportunidade, maior luz. Por isso, será julgado de acordo com a luz que teve. Era melhor não ter a lei nem ser judeu!

            O princípio se aplica a cada um de nós nos dias de hoje. Quanto mais luz, mais condenação! Toda vez que ouvimos o Evangelho, a nossa responsabilidade aumenta! Quanto mais progredimos na graça e no conhecimento do Senhor, mais seremos cobrados. Ao julgar as pessoas Deus levará em conta o conhecimento que elas possuem. João endossa o coro que prega esta mensagem, ele diz:“Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor... pois as suas obras os acompanham”. (Ap. 14:13) As nossas obras nos acompanharão! Não vão determinar a nossa salvação, mas irão fazer uma diferença enorme no porvir.

 

 “No dia em que Deus, por meio de Jesus Cristo, julgar os segredos dos homens”. (v.16)

 

            Paulo afirma que o julgamento será exercido por Jesus Cristo, ou seja, Jesus não é apenas Salvador, Ele também é o Juiz de todo homem. O próprio Cristo disse isto quando afirmou que: “O Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo”. (Jo. 5:22) “Porque, como o Pai tem a vida em si mesmo, assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo. E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem. Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal, para a ressurreição da condenação”. (Jo. 5:26-29).

            Jesus vai determinar o destino final dos dois grupos, e isto acontece porque Ele precisa ser recompensado por tudo aquilo que Ele passou. Paulo transmite esta idéia de maneira mais clara quando escreve aos filipenses: “A si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo... a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte... pelo que Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes”. (Fp. 2:7-9). Ele é o Juiz como um prêmio por Sua humilhação.

            Este Juiz, segundo Paulo, julgará “os segredos dos homens”. As intenções mais íntimas, que se acham escondidas no recôndito do coração, serão, então, trazidas à luz. “Ele manifestará os desígnios do coração”. (I Cor. 4:5). Deus julgará não só os atos públicos, mas até mesmo os segredos de cada pessoa.“Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más”. (Ec. 12:14).“Tudo o que dissestes às escuras será ouvido em plena luz; e o que dissestes aos ouvidos no interior da casa será proclamado dos eirados”. (Lc. 12:3).

            Não devemos nos surpreender por Deus julgar inclusive àquilo que foi feito às escondidas e ninguém nunca soube. Afinal, como diz o salmista: "Até as próprias trevas não te são escuras, as trevas e a luz são iguais para ti”. (Sl. 139:12). Como disse o autor de Hebreus: “Todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar”. (Hb. 4:13). Nossos pensamentos e intenções para Deus, são semelhantes aos atos dos participantes do Big Brother, vigiados e registrados o tempo todo!

            Esta verdade denuncia a nossa insensatez e tolice ao tentar esconder dos homens os nossos pecados. Aqueles judeus estavam fazendo isto, e Paulo os advertiu afirmando que isto era tolice. “Deus julgará os segredos dos homens!”. Seremos julgados, não somente pelos nossos feitos e por nossas ações. Todo pensamento, imaginação, tudo o que nutrimos na mente e no coração será julgado! Este é o ensino das Escrituras, “os segredos dos homens”.

            O padrão usado para julgar aqueles que estão debaixo da lei, será “segundo o meu evangelho”. Mas como pode ser isto? Julgamento, condenação, pessoas perecendo e sendo disciplinadas eternamente? Isto faz parte do Evangelho? O julgamento de Deus sobre os segredos dos homens é uma das partes principais do evangelho! A menos que preguemos a ira de Deus e o dia do juízo, não estaremos pregando todo o evangelho. E como disse Paulo aos Gálatas: “Não existe outro evangelho”. E se alguém pregar outro evangelho que “seja anátema”.

            Não é fácil e nem agradável ouvir estas coisas. Mas é necessário! Quanto mais luz, maior será a condenação! Portanto, tenha cuidado ao falar o que fala, ao fazer o que faz, ao ser aquilo que você é. Deus julgará tudo, inclusive os nossos segredos mais íntimos! E o juízo será muito mais severo para aqueles que o conhecem melhor. Sendo assim, se você não quer abandonar os seus pecados melhor seria não fazer parte de uma igreja, não ler a Bíblia, não buscar conhecimento teológico através dos livros, não ouvir as mensagens que são pregadas. Era melhor para o judeu não ter nascido judeu e não ter acesso a Lei.

            Contudo, a única maneira de abandonar o pecado, é tendo contato direto com a Palavra de Deus. É por isto que a “a Palavra jamais volta vazia”. Se ela não servir para salvação, ela servirá para condenação. Como tem acontecido com você? Ela está te santificando ou está te condenando ainda mais? Lembre-se: quanto mais luz, maior a condenação!

 

Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se”.(v. 13-15).

 

            Paulo está aqui (v.12-16) mostrando que o juízo de Deus será proporcional à luz possuída pelos homens. Dos judeus que tinham a lei será mais cobrado do que dos gentios que não possuíam a lei. Contudo, os gentios também perecerão, visto que também são culpados devido ao seu pecado. Paulo destaca esta verdade nos versos 12 e 16. E, nos versos 13, 14 e 15 ele elabora a sua argumentação sobre esta verdade. É disto que vamos tratar agora.

            Paulo começa mostrando que o simples fato de um homem conhecer a lei não quer dizer absolutamente nada! O conhecimento por si só, não possui nenhum valor. O que a lei requer é que ela seja obedecida. O homem sabe que é contra a lei roubar o banco, mas mesmo assim ele o faz. O conhecimento da lei não adianta de nada se o homem não o cumprir. Paulo está dizendo que ouvir a lei e conhecê-la não basta, é necessário cumpri-la e praticá-la!

“Os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados”. Isto se aplica a cada um de nós nos dias de hoje. Apenas conhecer sobre justificação, redenção, Trindade, Predestinação... não adianta de nada! Muitos teólogos e filósofos conhecem tais doutrinas melhor do que muitos de nós. Contudo, tais doutrinas só fazem parte de suas mentes. Elas não entraram em seus corações.

            Ter conhecimento e não praticar àquilo que se aprende só serve de condenação. Portanto, precisamos perdoar aquele que nos ofende, amar aquele que nos persegue, ser paciente e tolerante com as manias e idiossincrasias dos outros, ter domínio próprio quando as circunstâncias nos levam a ficar irritados, ser humildes, generosos, bondosos uns com os outros, parar de falar mal das outras pessoas. Não são estas coisas que nos são ordenadas na Palavra de Deus?

            Cristianismo é como aquele fenômeno da natureza conhecido como piracema. Numa determinada época do ano, os peixes nadam contra a correnteza para ter seus filhotes perto da nascente. Deve ser muito complicado para estes peixes nadar contra a força da correnteza, contudo, é melhor ser um peixe vivo subindo do que um peixe morto descendo.

            Ao falar de conhecimento da lei, Paulo está se dirigindo, logicamente, ao judeu. Depois, nos versos 14 e 15 ele vai se dirigir aos gentios. Ele está sendo coerente com aquilo que ele falou nos versos 9 e 10: "primeiro o judeu e também o grego”.

            Nos versos 14 e 15 Paulo vai responder a objeção: “É certo alguém ser condenado por uma lei que nunca conheceu?” Esta é a objeção que muitos levantam ainda nos dias de hoje. Como pode Deus condenar alguém que não teve acesso a Sua Palavra? Como pode Deus enviar para o inferno aquelas pessoas que nunca ouviram o evangelho? Ouvimos este argumento inúmeras vezes.

            A resposta de Paulo mostra que os gentios não são inocentes. É verdade que tais pessoas nunca tiveram acesso a Revelação especial, a lei dada mediante Moisés. Contudo, isso não significa que eles estão livres. Eles são tão culpados quanto os judeus que possuíam a lei. O verso 14 nos fala sobre isto:“Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos”. Eles nunca tiveram acesso a lei, contudo eles possuem uma “consciência moral”, ou seja, eles assim “procedem por natureza”. Esta consciência os torna responsáveis diante de Deus. Neste sentido, diz Paulo, eles “servem de lei para si mesmos”. Sendo assim, eles não estão subordinados a lei de Moisés, mas estão presos a lei interna da sua consciência.

            Paulo usa três argumentos para provar sua tese. Primeiro:“Eles mostram a norma da lei gravada no seu coração[.1] (v.15). Esta afirmação do apóstolo merece um exame cuidadoso e atencioso de nossa parte. Paulo não diz que eles mostram “a lei” escrita em seus corações. O que Paulo afirma é que eles mostram “a norma da lei” em seus corações. Isto é completamente diferente! Ter a lei é uma coisa, possuir a norma ou o padrão da lei é outra coisa.

            A antropologia prova que toda raça, tribo, etnia ou povo possui regras, normas, leis a serem seguidas. Por mais ignorante que seja um povo, eles punem o assassinato, roubo, adultério... Quem é que ensinou estas coisas a estas pessoas? Onde é que eles aprenderam valores como estes? Muitas destas tribos são pagãs, ímpias e politeístas, eles não possuem nenhum conhecimento de Deus!

            É isto que Paulo quer dizer com a “norma da lei”. Estes valores não são valores humanos, são padrões instituídos pelo Criador! Ao praticarem estas coisas sem nunca terem acesso a Lei de Deus, tais pessoas provam o que Paulo diz. A “norma da lei”, sem dúvida foi gravada em seus corações pelo Criador. Paulo já tinha dito isto anteriormente quando afirmou que:“Conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem”. (1:32).

            Os gentios sabem o que é certo e o que é errado, pois possuem a “norma da lei” gravada no coração. A cultura, os hábitos, os costumes destes povos provam que eles conhecem a “norma da lei”. E embora saibam disto, eles praticam e aprovam aqueles que assim procedem! Portanto, são culpados e serão julgados com base na “norma da lei gravada em seus corações”.

            Paulo então passa ao seu segundo argumento para provar que os gentios não estão subordinados a lei de Moisés, mas estão presos a lei interna da sua consciência: "Testemunhando também a consciência”. Além da norma da lei gravada em seus corações, a consciência deles dá testemunho do que é certo e do que é errado. A consciência é uma voz presente em todos os seres humanos. É um monitor interno que nos diz que certas coisas são erradas e que não devemos praticá-las. Gostemos ou não, ela está ali, expressando sua opinião e nos condenando quando erramos.

            Paulo diz que por mais que alguém seja ignorante, tal pessoa sabe o que é ser acusado pela consciência. Todos nós sabemos muito bem que isto é verdade. Quantas vezes passamos por corretos para algumas pessoas, mas não enganamos nossa consciência. Ludibriamos aos outros, mas a nós mesmos isto é impossível! Esta é uma prova irrefutável, diz Paulo, de que os gentios conhecem um padrão que deve ser seguido. Ao passar por cima deste padrão, eles sabem que estão cometendo um delito. Portanto, mesmo que não tenham a lei de Moisés, eles poderão ser julgados mesmo assim. Serão julgados baseados neste padrão interno que eles possuem!

            Paulo então utiliza seu terceiro e último argumento:“E os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os”. A palavra “pensamentos” seria melhor traduzida por “arrazoados”. “Arrazoados” traz o sentido de “debate, acusação”. Ou seja, os gentios acusam-se mutuamente quanto a sua conduta. Ao serem acusados, eles também se defendem! Eles mantêm discussões, debates, arrazoados entre eles sobre aquilo que é certo e errado! Nenhum deles faria isto se eles não tivessem um padrão entre eles. Portanto, este fato também prova a existência desta consciência moral que eles possuem.

            Portanto, Paulo está mostrando aqui que o judeu será julgado mediante a guarda da lei. O gentio será julgado de acordo com a sua consciência moral. Mesmo não possuindo a lei de Moisés, eles não estão fora da ira e do julgamento de Deus.

            Vamos passar há uma outra questão nestes mesmos versículos. Existem pessoas que apanham estes versículos (13-15) para sustentar heresias, utilizam estes textos fora do seu contexto para ensinar erros terríveis. Vejamos alguns erros levantados com base nestes versículos.

            Primeiro, salvação pelas obras. Certas pessoas afirmam que a salvação é dada por Deus mediante o cumprimento da lei. Qual a base que eles utilizam? “Os que praticam a lei hão de ser justificados”. (v.13). Ou seja, a justificação virá sobre aqueles que praticarem a lei, as boas obras. Não é isto que o texto parece dizer quando o retiramos do seu contexto? Lendo-o de forma isolada é isto que ele parece afirmar! A primeira questão para refutar esta heresia é lembrar que Paulo não está falando aqui de justificação ou salvação. Paulo não está falando da maneira como judeus e gentios serão salvos. Pelo contrário, Paulo está falando de condenação, do juízo e da ira divina!

            Segundo, Paulo vai falar daqui a pouco que homem nenhum jamais cumpriu a lei, nem é capaz de cumpri-la. Nestes capítulos iniciais Paulo está provando que ninguém é capaz de ser justificado diante de Deus. “Não há justo, nenhum sequer”. (3:10), “Ninguém será justificado diante dele por obras da lei” (3:20), “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (3:23).Portanto, se ele diz que aqueles que cumprirem a lei serão justificados, ele estará entrando em contradição. A Bíblia seria mentirosa e Paulo um néscio. Nós sabemos que a Bíblia não é mentirosa e que Paulo é um excelente pensador.

            Terceiro. Paulo não fala nada sobre aquilo que é preciso fazer, ele está falando do que a lei exige. O que a lei quer saber não é se a pessoa a ouviu ou não. O que a lei pergunta é se tal pessoa cumpriu ou não a lei. Este é o argumento a ser utilizado com alguém de boa moralidade (pessoas corretas e moralmente impecáveis).“Moisés descreve a justiça que é pela lei, dizendo: o homem que fizer estas coisas viverá por elas”. (Rm. 10:5) A lei não afirma que o homem que ouvir estas coisas viverá por elas. O que a lei afirma é: “O homem que fizer estas coisas”, Portanto, para alguém ser justificado é preciso cumprir a lei. Qual é esta lei que é preciso cumprir, e que, cumprindo-a, a pessoa será justificada? Jesus nos deu a resposta, quando um advogado foi vê-lo e lhe perguntou: “Mestre qual é o grande mandamento da lei?”. Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Esse é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mt. 22:36-39). Este é o sumário que Jesus fez da lei.

            Portanto, qual é o judeu, o gentio ou a pessoa de grande moral que tenha cumprido a lei? Alguém consegue amar a Deus da maneira como Jesus descreveu? Alguém consegue amar ao próximo como a si mesmo? Tiago fecha ainda mais o cerco, ele nos diz que: “Se cumprirdes, conforme a Escritura, a lei real: amarás a teu próximo como a ti mesmo, bem fareis. Mas, se fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, e sois redargüidos pela lei como transgressores. Porque qualquer que guarda toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos. Porque aquele que disse: não cometerás adultério, também disse: não matarás. Se tu, pois, não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei”. (Tg. 2: 8-11).

            Ninguém neste mundo é capaz de guardar a lei! Todos são transgressores da lei, e como tal merecedores da pena máxima, a morte eterna. É isto que Paulo está mostrando aos crentes ali de Roma, a mim e a você.

            Contudo, há uma esperança! Jesus Cristo cumpriu a lei em sua totalidade! E aquilo que Ele conquistou, Ele oferece a mim e a você. Isto se chama Justificação! Por causa de Cristo nós que éramos transgressores, agora somos considerados justos diante de Deus. É isto que Paulo vai dizer ao afirmar que:“Todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus”. (3:23, 24). Sendo assim:“Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou”. (8:1, 37).

            Será que conseguimos perceber a grandiosidade da doutrina da justificação pela fé? Que somos eternamente devedores a Cristo pelo que Ele fez por nós? Que éramos transgressores perdidos e culpados e agora somos justos redimidos pelo sangue de Cristo?

            Foi por perceber estas coisas, que ao final da sua argumentação Paulo exclamou em adoração a Deus: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm. 11:33-36)

 

Porque os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus, mas os que praticam a lei hão de ser justificados. quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se”.(v. 13-15).

 

            A quarta e última heresia sustentada por algumas pessoas neste texto, é o argumento de que “O contexto diz que se vivermos à altura da luz que temos, seremos salvos”.

            Como já vimos anteriormente, ninguém vive à altura da luz que possui. A luz que o judeu possui é a luz da lei dada por Moisés. Paulo mostra que nenhum judeu viveu ou vive de acordo com esta lei. A luz que o gentio possui é a sua consciência moral. Nenhum gentio cumpre os padrões internos colocados nele pelo Criador. Paulo diz,  portanto, que: “todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Ninguém vive nem pode viver à altura da luz que possui!

            Existe dentro do homem uma tendência enorme e constante de querer salvar a si mesmo, o que denominamos de auto-suficiência. Todos nós somos assim! A cultura em que vivemos reforça a cada dia esta idéia dentro do homem. O tempo todo somos recompensados de acordo com o nosso desempenho. As notas na escola dependem do estudo. Os elogios dependem do grau de sucesso que temos na vida. Ganhamos dinheiro em função do nosso trabalho. A idéia da auto-suficiência é alimentada o tempo todo pela sociedade ao nosso redor. O que acontece é que transportamos estas idéias para dentro do Reino de Deus. Contudo, no Reino de Deus os valores são completamente diferentes! Foi por isso que o Jovem Rico pensou que o céu estava a um passo do pagamento que podia fazer. “Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?”. A frase revela sua incompreensão. Ele pensava que poderia obter a vida eterna da mesma forma como conseguia as demais coisas: pelo poder. “Que devo fazer?” pode ser interpretado por “Quais são as exigências Jesus?”, “Quanto preciso investir para ter certeza do meu retorno?”.

            Em Mateus sete as pessoas dizem a Jesus: “Em teu nome, fizemos isto e aquilo”. Estas pessoas estão diante de Deus exaltando a si mesmas, elas são auto-suficientes: “fizemos”.  É a mesma fala do Jovem Rico: “que preciso fazer?”. A grande trombeta soou e elas ainda estão tocando suas próprias cornetas. Em vez de entoar louvores a Deus, cantam em seu próprio louvor. Ao invés de adorar a Deus, elas estão lendo seus currículos!

            Isto é o que muitas igrejas têm feito por aí. Estão confiados mais em seus métodos do que no poder de Deus. Quando deviam estar caladas, elas falam. Na presença do próprio Rei elas se vangloriam. O que será que é pior, sua cegueira ou arrogância?

            Percebam, o homem é naturalmente auto-suficiente! E Paulo está aqui querendo destruir esta auto-suficiência humana! Será que não conseguimos perceber que é tolice sermos auto-suficientes diante de um Deus todo Poderoso? É insensatez de nossa parte querer agir com nossas próprias forças, resolver as coisas do nosso jeito, ter o controle da situação em todos os momentos!

            O homem precisa se conscientizar de que ele não é capaz de impressionar os técnicos da NASA com um avião de papel, de se vangloriar de seus desenhos a lápis na presença de Picasso, de se igualar a Einstein apenas porque sabe escrever H2O, de se justificar na presença do Eterno e Perfeito Deus.

            É esta tolice que Paulo está querendo mostrar àqueles crentes ali de Roma. Deus não nos salva por aquilo que fizemos ou podemos fazer. Somente um deus mesquinho poderia ser comprado com dízimos. Somente um deus egoísta poderia impressionar-se com nossa dor.Somente um deus temperamental poderia ficar satisfeito com sacrifícios. Somente um deus sem coração poderia vender a salvação aos que pudessem pagar mais caro. E, somente um Deus grandioso, faz por seus filhos aquilo que eles não podem fazer por si mesmos. Portanto, “o que é impossível aos homens é possível a Deus”. Aleluia!

            Esta é uma das mensagens da primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os humildes de espírito...”. A jóia da alegria é concedida ao pobre de espírito e não ao rico, influente e auto-suficiente. O deleite divino é recebido mediante a submissão, e não conferido mediante conquista. O primeiro passo para a alegria é um pedido de ajuda, a admissão de pobreza interior. Não se vangloriar, mas suplicar! Pedir a Deus que faça por nós o que não podemos fazer por nós mesmos.

            A vida de Paulo é o maior exemplo de tudo isto que estamos falando. Antes de se converter a Cristo, Paulo era um “herói”. Filipenses capítulo três nos mostra que poucos homens eram melhores do que Paulo. Se existisse “riqueza espiritual”, sem dúvida Paulo a possuía. Se alguém podia ser auto-suficiente este era Saulo de Tarso. Até que em uma de suas viagens para perseguir, massacrar e matar cristãos, ele foi jogado literalmente ao chão e encontrou-se com Aquele a quem perseguia. Entrou em profunda agonia e confusão de espírito. Foi parar num quarto emprestado, e ali Deus o deixou por alguns dias com os olhos vendados, de tal forma que, a única direção para a qual Paulo podia olhar era para dentro de si mesmo. E parece que ele não gostou do que viu, ele viu o pior dos pecadores, um legalista, um justiceiro que pesava a salvação de acordo com sua própria balança.

            Paulo nos diz que Jesus poderia tê-lo entregado às aves de rapina, ter mandado sua alma para o inferno, poderia destruir por completo com a sua vida. Contudo, Deus o enviou aos perdidos. Paulo chamou isto de “loucura”, depois de “pedra de tropeço”, mas terminou chamando de graça. Paulo estava um passo à frente do Jovem Rico, afinal, ele não tentou barganhar com Deus. Ele não apresentou desculpas, simplesmente clamou por misericórdia e foi atendido.

            Paulo nunca fez curso sobre missões, nunca reuniu-se com uma comissão de sucessão pastoral, nunca leu um livro sobre crescimento de igreja. Mas Paulo foi inspirado pelo Espírito Santo de Deus! Embriagou-se com o amor que torna aquilo que é impossível, possível: a salvação do homem.

            Paulo pregou sermões desafiadores; instruiu discípulos dedicados; viajou quase 10 mil quilômetros de estrada pregando o Evangelho; quando suas sandálias não estavam tocando o chão das estradas, sua pena estava escrevendo; quando não estava explicando os mistérios da graça, estava articulando a teologia que determinaria o curso da civilização ocidental.

            A vida de Paulo é o maior exemplo da verdade que ele está defendendo aqui em Romanos 2. Paulo nos mostra o seguinte: Mostre ao homem suas falhas sem Jesus, e o resultado será a sarjeta à beira da estrada. Dê religião ao homem sem lhe mostrar sua corrupção, e o resultado será a arrogância. Mas, reúna os dois no mesmo coração: Pecador para encontrar o Salvador e o Salvador para encontrar o pecador, e o resultado será um homem que se torna pregador e que incendeia o mundo com a mensagem do Evangelho. Paulo é a maior prova do: “meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.

            Ninguém pode viver à altura da luz que possui e ser salvo. Aqueles que crêem assim estão menosprezando o sacrifício de Cristo na cruz. Se podemos nos salvar, qual é a razão de Jesus ter se sacrificado em nosso lugar? A resposta de Jesus à pergunta do Jovem tinha o propósito de fazê-lo emudecer: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu”. Estas palavras deixaram o Jovem Rico triste e os discípulos confusos. A pergunta dos discípulos a Jesus foi: “Quem então pode ser salvo?”. A resposta de Jesus choca os ouvintes: “Aos homens é isso impossível!”. Jesus não diz improvável, não diz sequer difícil, Ele diz Impossível! Não há a menor chance! De modo nenhum! Não há esperança! É impossível atravessar o Atlântico a nado. É impossível ir à Lua na rabiola de uma pipa. É impossível escalar o Everest com uma bengala de passeio. A não ser que alguém faça alguma coisa, ninguém tem chance de ir para o céu. “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. (Rm.5:8)

 

Se, porém, tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; que conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma de sabedoria e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”.(v. 17-24).

 

            Vamos passar a terceira parte do capítulo dois. Na primeira parte (v.1-11) vimos que o juízo de Deus é segundo a verdade. Isto significa que Deus, ao julgar e exercer o seu juízo, não levará em conta nacionalidade, denominação, religião..., afinal, todos são iguais diante de Deus (v.11). Ninguém terá privilégios quando Deus se assentar para exercer seu julgamento. Ele “Retribuirá a cada um segundo o seu procedimento”. (v.6).

            Na segunda parte (v.12-16) vimos que Deus julgará de acordo com a luz que cada pessoa possui. O judeu será julgado mediante a lei que lhe foi dada e o gentio será julgado mediante a “norma da lei” gravada no seu coração pelo Criador.

            A terceira parte (v.17-24) é de aplicação de tudo aquilo que foi falado anteriormente. Paulo vai aplicar tudo aquilo que ele veio falando até aqui. Ele sai da teoria e entra na prática. A teoria é importante, mas sem a prática só serve para acumular juízo. A prática é importante, mas só será feita corretamente com uma teoria correta. Portanto, a união da teoria com a prática é fundamental e Paulo tem a sabedoria de fazer isto. Paulo vai aplicar à mente, ao coração, ao dia a dia dos seus ouvintes, a verdade ensinada. A aplicação se baseia nos versos 1, 3 e 13. “Vocês fazem as mesmas coisas que condenam nos outros”.

            Pela primeira vez na carta, Paulo se dirige direta e explicitamente ao judeu. “Tu, que tens por sobrenome judeu”. Ao se dirigir ao judeu, Paulo fala de 9 coisas que os judeus se orgulhavam:“Repousas na lei”, “te glorias em Deus”, “conheces a sua vontade”, “aprovas as coisas excelentes”, “sendo instruído na lei”, “estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas”, “instrutor de ignorantes”, “mestre de crianças", “tendo na lei a forma de sabedoria e da verdade”.

            Um currículo invejável! Qual era a nação que podia se orgulhar de ter uma lista como esta em seu relacionamento com Deus? Contudo, apesar de títulos tão importantes, Paulo os censura severamente! Ele diz que apesar de tudo isto, os judeus cometem os mesmos erros dos gentios. E, pior, condenam os gentios por fazerem aquilo que eles mesmos fazem (v.21-23). “Tenha o cuidado de evitar e vencer em você, aquelas coisas que, normalmente, lhe desagradam nos outros. Se observar qualquer coisa que mereça ser reprovada, cuide de não fazer o mesmo. E se em algum momento você o tiver feito, trabalhe rapidamente para melhorar”.(Tomas à Kempis)

            A essência da acusação de Paulo é a hipocrisia. Aqueles judeus exigiam das outras pessoas algo que eles mesmos não praticavam! Muitas vezes nós somos rígidos e hipócritas como aqueles judeus. Exigimos das pessoas o que elas não conseguem suportar, e, na verdade, nem mesmo nós conseguimos. Exigimos calma dos outros, mas nós somos impacientes, irritadiços e agressivos. Pedimos tolerância, mas nós somos implacáveis, excessivamente críticos e intolerantes. Queremos que todos sejam estritamente verdadeiros, mas nós simulamos nossos comportamentos. Desejamos que os outros valorizem o interior, mas somos consumidos pela estética social. Solicitamos o amor, mas não amamos as pessoas; antes, falamos mal dela com os outros.

            Em nenhuma outra parte, a Bíblia é tão dura com os hipócritas como aqui neste texto. A hipocrisia é um pecado que envolve todos nós! Quem não é falso em alguma área da sua vida? Quem é aquele que é verdadeiro em tudo aquilo que realiza? É algo que devemos estar constantemente vigiando em nossas vidas. Jesus nos deu uma ordem específica sobre este pecado: “Acautelai-vos primeiramente do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia”. (Lc. 12:1). Esta é uma exortação divina para a vigilância contra um veneno mortal. Portanto, Jesus erigiu uma placa sinalizadora para a igreja: “acautelai-vos”. O simples sinal de cuidado já é suficiente para fazer-nos parar. Assim é com o aviso “Cuidado com o cão”. Uma advertência que pode nos destruir rapidamente ou nos ferir.

            "Tu que tens por sobrenome judeu”. Ser chamado de judeu era uma das maiores coisas que poderiam acontecer a alguém. Os judeus eram o povo de Deus! Eram o povo escolhido, separado de todos os outros para propriedade especial de Deus. Eles faziam parte da família de Deus. Que privilégio! Era o mais alto privilégio que um homem poderia ter. Paulo sabia muito bem como que o judeu se gabava deste título e desta posição. Ele mesmo utilizou-se deste argumento várias vezes em sua vida: “hebreu de hebreus”.  (Fp. 3:5).

            “Repousas na lei”. Existe um sentido em que confiar na lei de Deus é a coisa certa a ser feita. O salmista (119) dizia que se deleitava na lei de Deus. A lei de Deus é o padrão segundo o qual a conduta de uma pessoa deve ser regulada. Contudo, existe um sentido em que confiar na lei é algo pecaminoso. É neste sentido que Paulo está censurando os judeus ali de Roma. Paulo está condenando o judeu por ter a atitude de descansar, de confiar, de repousar na lei. Eles descansavam no ritual, no cerimonial, no sistema mosaico, na posse da lei como segurança para salvação. O judeu fazia da lei um travesseiro, ele dizia: “Posso dormir feliz, afinal não corro risco como os outros povos”. Esta é a idéia que Paulo condena ao dizer: “repousas na lei”. 

            “Te glorias em Deus”. Eles se gabavam de sua relação com Deus. O problema é que eles achavam que tal relação tivesse sido gerada pelas obras, pelos seus méritos. Mais uma vez a glória estava no homem e não em Deus. E eles estavam tremendamente errados, afinal, como disse o próprio apóstolo: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”. (II Cor. 10:17). Gabar-se de possuir uma íntima relação com Deus é algo extremamente pecaminoso. Não sei até onde isto é possível. Afinal, aquele que tem genuína comunhão com Deus sabe que ele é um pecador miserável. No entanto, era isto que aqueles judeus estavam fazendo, se orgulhando do seu relacionamento com Deus.

            Isto serve de alerta para quando ouvirmos alguém se gabando do relacionamento que ela possui com Deus. Na grande maioria dos casos, tal relacionamento é uma farsa! Afinal, aquele que recebeu a graça, não se gloria disto, pois ele sabe que foi de graça! Uma coisa elimina a outra. O relacionamento com Deus elimina o orgulho, e o orgulho elimina o relacionamento com Deus.

            “Conheces a vontade de Deus”. Num certo sentido o judeu tinha motivo para gabar-se disto, afinal, ele tinha a lei de Deus. Talvez por isto ele “aprova as coisas excelentes”. Ou seja, ele sabe discriminar e discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Por causa disto ele está num nível mais elevado que o gentio. É por isto que Paulo também vai dizer que: “foi instruído na lei”.

            Havia um problema muito sério em tudo isto: estes títulos deixaram os judeus soberbos. “Estás persuadido” = Estás convencido, convicto, certo de que “És guia dos cegos”, “luz dos que se encontram em trevas”, "instrutor de ignorantes”, "mestre de crianças”. Os judeus ficaram extremamente convencidos, pedantes, orgulhosos, cheios de si. Os títulos listados por Paulo nos versos 17 e 18 levaram os judeus a se orgulharem: “te glorias na lei”. (v.23).

            Embora os judeus fossem privilegiados, eles não entendiam que tais bênçãos implicavam em obrigações. “Àquele a quem muito foi dado, muito lhe será cobrado”. (Lc. 12:48). Ao invés de ajudar as pessoas necessitadas, os judeus se orgulhavam diante destas mesmas pessoas.

            Nós também podemos cair neste erro que os judeus caíram. Podemos nos orgulhar dos títulos, tradições, família, entendimentos e doutrinas que possuímos. Em seu livro “5 Pecados que ameaçam os Calvinistas”, Solano Portela diz o seguinte: “Poderíamos definir o orgulho espiritual como sendo uma atitude de desprezo aos outros irmãos. Seria abrigar a sensação de se achar possuidor de uma visão superior. Seria o desenvolvimento de uma atitude de rejeição do aprendizado, contrária à humildade que Deus requer dos Seus servos. Seria achar que somos conhecedores de uma faceta de compreensão que os demais irmãos ainda não alcançaram”.

            Esta era a atitude daqueles judeus! Assim como os judeus, muitos possuem uma boa moral, nasceram num lar evangélico (acham que isto tem um peso enorme em questões espirituais), cresceram nos ensinamentos cristãos (acham que a sua cosmovisão da igreja, de Deus e do mundo é a única correta) foram batizados, ensinados, instruídos dentro de uma igreja (pensam que isto os afastará dos pecados capitais), participam da Ceia memorial (acreditam que isto coopera com graça em sua salvação), entregam fielmente o seu dízimo (acreditam estar quitando a mensalidade do terreno celestial), participam de ministérios (entendem que estão ajudando a Deus a realizar sua obra, pois sem a sua ajuda ficaria difícil para Deus).

            Nos enganamos ao pensar que Deus está nos abençoando, quando na verdade Ele está nos resistindo! Toda vez que Deus encontra um soberbo, Ele o resiste firmemente! Isto aconteceu com aqueles judeus, e pode acontecer com cada um de nós nos dias de hoje! Precisamos sondar os nossos corações e perceber se existe algum tipo de orgulho dentro dele. Se existir, não teremos a benção de Deus, pelo contrário, encontraremos a resistência divina.

            Cuidado com pessoas que falam muito de si mesmas. Quando um homem de Deus abre os seus lábios para falar deve ser para dizer o que o Senhor, em Sua infinita misericórdia tem feito por ele.Contudo, o religioso carnal está ansioso para que os outros saibam o que ele tem feito pelo Senhor.

            Não devemos e nem podemos ficar ostentando entre os outros aquilo que conquistamos ou possuímos! Nossos títulos, troféus, bens, conquistas e medalhas não devem ser exibidos pelas nossas mãos. “Seja outro o que te louve, e não a tua boca, o estrangeiro e não os teus lábios”. (Pv. 27:2).

            Portanto, não se coloque como padrão para outras pessoas. Paulo não se colocou como padrão quando disse: “sede meus imitadores como eu sou de Cristo”. O padrão ali era Jesus e não o apóstolo. Um tambor faz bastante barulho, mas é vazio por dentro!

            Conta-se que numa certa manhã, um pai convidou seu filho para dar um passeio no bosque. O pai se deteve numa clareira e depois de um pequeno silêncio perguntou ao filho: "Além do cantar dos pássaros, você está ouvindo mais alguma coisa?". O filho apurou os ouvidos e disse: "Estou ouvindo um barulho de carroça". "Isso mesmo", disse o pai, "e uma carroça vazia". Ao que o filho indagou o pai: "como pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos?". "Ora", respondeu o pai, "é muito fácil saber que a carroça está vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia a carroça maior é o barulho que faz".

            Quando vejo uma pessoa falando demais, gritando (no sentido de intimidar), tratando o próximo com grossura inoportuna, prepotente, interrompendo a conversa de todo mundo e, querendo demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, tenho a impressão de ouvir a voz daquele pai dizendo ao filho: “Quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz...”.

            Aqueles judeus faziam muito barulho com os títulos que possuíam, mas eram ocos, vazios por dentro. Não tinham um relacionamento interno com o Senhor. Tudo que possuíam eram apenas exterioridades e barulho.“Muitos proclamam a sua própria benignidade, mais o homem fidedigno quem o achará?” (Pv. 20:6). Que não venhamos a cair na armadilha que aqueles judeus caíram.

Se, porém, tu, que tens por sobrenome judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; que conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; que estás persuadido de que és guia dos cegos, luz dos que se encontram em trevas, instrutor de ignorantes, mestre de crianças, tendo na lei a forma de sabedoria e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não deve furtar, furtas? Dizes que não se deve cometer adultério e o cometes? Abominas os ídolos e lhes roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”.(v. 17-24).

 

            Depois de vermos as duas acusações indiretas de Paulo aos judeus (hipocrisia e orgulho), vamos analisar as perguntas que ele faz aos judeus. O apóstolo faz uma série de perguntas para o auto-exame dos judeus. Paulo diz: “já que você se apresenta como guia dos cegos, instrutor de ignorantes...”, então, por que é que você não pratica aquilo que ensina? Por que cobrar do outro algo que você não faz? Como exigir uma atitude da outra pessoa quando você erra naquilo que você condena?

            Paulo mostra aos judeus que ao ensinar os outros, eles tinham deixado de ensinar-se a si mesmos. O judeu, que se gloriava na lei, era a mesma pessoa que estava desonrando a Deus por sua transgressão da lei. O que o apóstolo está, ironicamente, dizendo ao judeu é: “Você que acredita ser tão bom, é melhor examinar-se um pouco mais!”.

            Jesus mostrou que a vida de muitos escribas e fariseus estava longe de harmonizar-se com o seu ensino:“Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa tradição... invalidando a Palavra de Deus pela vossa própria tradição, que vós mesmos transmitistes”. (Mc. 7: 9, 13). “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras, porque dizem e não fazem”. (Mt. 23:3). “Faça o que eu digo mais não faça o que eu faço”, o mal é velho! Por causa da velha dificuldade de se colocar em prática aquilo que se crê e se prega, Paulo diz: “O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa”. (v.24).

            Dentre outras coisas, Paulo está lembrando aos judeus do seu fracasso em transmitir as verdades de Deus. Normalmente associamos a palavra “missionário” ao Cristianismo. Contudo, os judeus do Velho Testamento eram todos, em certo sentido, chamados para serem missionários. Apesar disto, eles falharam na tarefa que Deus lhes delegou. O livro de Jonas é o maior exemplo disso. Quando pensamos em Jonas lembramos do grande peixe que o engoliu. Mas Jonas simboliza o fracasso de Israel em proclamar a sua mensagem missionária. Jonas foi chamado para pregar em Nínive, mas ele negou-se a ir até lá! Achava que os ninivitas mereciam a morte! Jonas é um bom exemplo do fracasso de Israel, mas ele não é o único. Ezequiel também fala do fracasso de Israel em sua missão:“Assim diz o Senhor Deus: Esta é Jerusalém; coloquei-a no meio das nações e terras que estão ao redor dela. Ela, porém, se rebelou contra os meus juízos, praticando o mal mais do que as nações, e transgredindo os meus estatutos mais do que as terras que estão ao redor dela”. (Ez. 5:5,6). Salomão quando edificou o Templo, declarou que ele seria a “Casa de oração de todos os povos”. Sabemos que não foi isto que aconteceu. Enfim, os judeus deviam ser um testemunho de Deus para as outras nações. Mas ao invés disso, fizeram exatamente o contrário!

            É sobre isto que Paulo está falando aqui! A imoralidade e os pecados de Israel levaram todas as outras nações a blasfemarem de Deus. Isto também acontece nos dias de hoje! Nós que deveríamos transmitir o nome de Deus estamos cada vez mais envergonhando este Nome. Sabe qual é o maior problema que um missionário enfrenta quando começa um ministério novo? Separar da mente das pessoas o verdadeiro Cristianismo daqueles missionários que já estiveram lá. As pessoas associam o Cristianismo com práticas terríveis de “missionários cristãos”. Livingston ao pregar na África enfrentou este sério problema. Os africanos associavam Cristianismo aos portugueses traficantes de escravos.

            Será que existem motivos para a humanidade duvidar da manifestação de Deus através da igreja? A Igreja Católica Apostólica Romana queimou milhares de pessoas na fogueira da Inquisição em nome de Cristo. Jesuítas e padres devastaram as culturas maia e asteca em nome da Coroa. O Cristianismo calou quando Salazar governou em Portugal, Franco na Espanha e Somoza na Nicarágua. O que dizer da Guerra das Cruzadas? E do racismo na África do Sul. Como explicar o banho de sangue na Irlanda do Norte (Protestantes e Católicos) e os escândalos sexuais, morais, financeiros de líderes evangélicos?

            Uma grande parte da decepção com Deus tem raízes na desilusão com outros cristãos. Muitos italianos odeiam a Deus, e muitos outros são ateus por causa da igreja. Como disse Nietzsche: “Seus discípulos tem de parecer mais salvos para que eu creia em seu Salvador”. Já Gandhi afirmou o seguinte: “Se não fossem os cristãos eu teria me tornado cristão”. Infelizmente, o mundo julga Deus por aqueles que levam o Seu nome. Muitas pessoas que rejeitam a Deus na verdade não estão rejeitando a Deus, estão rejeitando a caricatura divina apresentada pela igreja. Quando os cristãos têm determinado comportamento, ao invés de irradiarem luz estão disseminando a escuridão.

            Nossa situação é perfeitamente paralela àquela dos judeus ali de Roma e do Velho Testamento. Tanto os judeus daquela época quanto os cristãos de hoje falharam em testemunhar Deus para o mundo! Foi por isto que Ezequiel continuou falando que “Assim serás objeto de vergonha e ludíbrio, de escarmento e espanto às nações que estão ao redor de ti, quando eu executar em ti juízos com ira e indignação, em furiosos castigos. Eu, o Senhor, falei”. (Ez. 5:15).

            Que situação triste e humilhante! Lá estão as nações, elas deveriam estar olhando para Israel e vendo que Deus existe. Ao invés disso, Deus teve que julgar Israel! E Deus julgou a Israel através destas nações inimigas! Ao invés de olhar para Israel e reconhecer a Deus, eles destruíram Israel. Ao mesmo tempo em que acabaram com Israel, eles blasfemaram do nome de Deus!

            Tudo o que podia ser dito contra os judeus dos tempos de Paulo pode ser dito agora contra nós! Ao invés de sermos missionários, temos dado motivos de blasfêmia aos incrédulos! Não apenas deixamos de pregar a mensagem positiva da salvação, pregamos, ao invés disso, uma mensagem contrária de pecado com nossa vida depravada! Os incrédulos olham para a igreja e dizem: isto é ser crente? Estou fora!

            Indiretamente, Paulo está dizendo para os judeus daquele tempo e para cada um de nós: “Vocês deveriam ter vergonha! Há pessoas sem a Bíblia, sem as vantagens que vocês possuem, que vivem de maneira muito mais louvável que vocês!”. Como disse o comentarista bíblico: “Deus é desonrado pelas transgressões do seu povo, de uma maneira pela qual Ele não é desonrado pelas mesmas transgressões nos perversos, que não professam ser Seus”. (Haldane).

            A escritora Dorothy Sayers sabiamente afirmou o seguinte: “Deus submeteu-se a três grandes humilhações em seus esforços por resgatar a raça humana. A primeira foi a Encarnação, quando vestiu as limitações de um corpo físico. A segunda foi a Cruz, quando sofreu a ignomínia da execução pública. A terceira humilhação é a igreja; num impressionante ato de autonegação, Deus confiou sua reputação a pessoas comuns”.

            Sem dúvida que é muito difícil acreditar que Deus se manifesta nos dias de hoje através da igreja. Contudo, é isto o que a Bíblia nos diz! Quer queiramos, quer não! Em todo o Novo Testamento vemos que a Igreja simboliza Deus aqui na terra. Paulo fala da igreja como o Corpo de Cristo. O que a igreja faz, é como se Cristo tivesse feito. Encerrado numa gélida masmorra, Paulo voltou-se para Timóteo, pedindo-lhe que atendesse suas necessidades: “Traze a capa, bem como os livros, especialmente os pergaminhos”, “Toma contigo a Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério”.

            Numa outra oportunidade Paulo recebeu o “consolo de Deus” na forma de uma visita de Tito. Na sua conversão, Paulo ouviu a seguinte frase: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Jesus fora morto meses antes. Paulo estava atrás dos cristãos, não de Jesus. Mas Jesus, vivo de novo, informou a Saulo que aquelas pessoas eram de fato seu próprio corpo. O que machucava os crentes, machucava a Jesus. Paulo jamais esqueceu desta lição, por isto ele não fazia distinção do tipo “a igreja fez isso, e Deus fez aquilo”.

            Difícil de acreditar, mas a Bíblia diz que um Deus perfeito vive agora dentro de seres humanos imperfeitos. "Aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele”. (I Cor. 6:17) Deus delegou sua essência para nós! Deus trabalha agora através de seus filhos. “Em vós” – “por meio de vós”. (Fp. 2: 13) Como disse Cipriano: "Não pode ter Deus como seu Pai quem não tem a Igreja como sua mãe”. Bonhoeffer engrossou o coral: “A Igreja nada é mais do que um segmento da humanidade no qual Cristo verdadeiramente tomou forma”. Agostinho defendeu a Igreja quando disse: “Sem Deus, não conseguimos. Sem nós, Deus não fará”.  John Newton também deu sua contribuição: "Cristo levou nossa natureza para o céu para nos representar, e deixou-nos na terra com Sua natureza para representá-lo”.

            Mesmo com todos os seus defeitos, erros, problemas e dificuldades a igreja é que representa Deus aqui na terra. Em Efésios Paulo diz:“para/ que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida”. (Ef. 3:10). Possuir a Cristo e, ao mesmo tempo, desprezar a igreja, é uma intolerável contradição que ninguém pode suportar!

            É muito complicado, contudo, segundo a Bíblia, nos dias de hoje encontramos Deus na igreja. Que responsabilidade! Tanto para nós, como para o próprio Deus. Como disse Philip Yancey:  “A Igreja é o Risco de Deus!”. Deus delegou sua reputação para a Igreja. Assim como Ele confiou o seu nome à nação de Israel e o viu atirado à lama, agora Ele confia seu Espírito a seres humanos imperfeitos. Deus assumiu o risco de que daríamos uma péssima impressão dEle, de que Seu nome seria blasfemado por nossa causa! O interessante é que toda delegação implica riscos; pergunte a qualquer patrão. Contudo, Deus sabia perfeitamente de tudo o que está acontecendo e o que ainda irá acontecer. Se por um lado, o nome dEle é blasfemado entre os incrédulos por causa dos cristãos; por outro lado, parece que Ele considerou esse um jogo em que valia a pena apostar. Ao nos arrependermos, os anjos se regozijam; mediante nossas orações, montanhas são transportadas; Jesus exclamou com exuberância quando os 70 retornaram com relatórios positivos.

            “De alguma forma que nos é invisível, essas pessoas comuns, cheias do Espírito Santo, estão ajudando a restaurar o universo a seu devido lugar sob o domínio de Deus. Escolher para seu santo trabalho no mundo mentes aleijadas, desajustadas, intransigentes, pedantes, excêntricas, egomaníacas, acanhadas e libertinas foi loucura. Mais a loucura de Deus é mais sábia do que os homens”. (F. Buechner).

            Nossa esperança deve residir no fato de que não estamos sozinhos. Eis os títulos dados ao Espírito: Intercessor, Ajudador, Conselheiro, Consolador, Penhor. Todos estes títulos nos garantem que não estaremos sós em meio a todas as dificuldades!

            Que responsabilidade! É muito sério levarmos o nome de Deus a vergonha por causa da nossa vida! Por outro lado, é um privilégio quando podemos manifestar a “multiforme sabedoria de Deus”. Que Deus tenha muita misericórdia de cada um de nós!

 

Porque a circuncisão tem valor se praticares a lei; se és, porém, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão”.(v.25)

 

            Paulo está “encurralando os judeus”, perseguindo-os até o seu último esconderijo. Esta é a tática do apóstolo, tombar por terra tudo aquilo que os judeus utilizavam para validar sua salvação. Primeiro ele afirmou que a nacionalidade do judeu não conseguirá livrá-lo do julgamento divino: "Para com Deus não há acepção de pessoas” (v.11). Depois, o apóstolo prova que a lei que os judeus observam, não os salva, antes, os condena: “Todos os que com lei pecaram, mediante lei serão condenados”. (v.12), “os simples ouvidores da lei não são justos diante de Deus”. (v.13). E, por fim, Paulo chega ao seu golpe final, ele mostra ao judeu que a circuncisão também não poderá livrá-lo da ira de Deus.

            O judeu tinha uma última esperança, sua confiança na circuncisão como segurança contra a condenação; afinal, o sinal da circuncisão foi dado aos judeus, e a ninguém mais. A maioria dos vizinhos de Israel praticavam a circuncisão, contudo, a circuncisão destes povos não era sinal da aliança de Deus, como era a israelita.

            A circuncisão era mais antiga que a própria lei! A lei foi dada a Moisés, a circuncisão foi dada a Abraão. Foi dada a Abraão como uma promessa de que dele sairia o povo de Deus. Portanto, os judeus tinham certeza que a circuncisão fazia deles o povo de Deus! Só que mais uma vez, Paulo destrói completamente esta falsa esperança. O apóstolo mostra ao judeu que a circuncisão só seria válida se ele guardasse a lei. Pior, se ele guardasse toda a lei: “Testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a guardar toda a lei”. (Gl. 5:3). Como ninguém era capaz de guardar a lei em sua totalidade, falhando no cumprimento de sua responsabilidade, Paulo adianta: “Se és, transgressor da lei, a tua circuncisão já se tornou incircuncisão”.

            Paulo não para por aí, ele vai ainda mais longe. Ele não apenas reconhece a circuncisão como incircuncisão se desacompanhada da devoção do coração, ele reconhece a incircuncisão como circuncisão espiritual, se apesar disto, se presta obediência a Deus. “se, pois, a incircuncisão observa os preceitos da lei, não será ela, porventura, considerada como circuncisão?”. (v.26). Paulo está dizendo que se o incircunciso guarda a lei, ele é mais excelente do que o judeu com sua inútil circuncisão. Embora o gentio seja poluído por natureza, ele será santificado pela observância da lei.

            Contudo, é bom observar que Paulo usa um argumento hipotético: “se”. Paulo não está afirmando que o incircunciso pode guardar a lei, ninguém pode! Ele apresenta uma situação hipotética para mostrar ao judeu que a circuncisão sem a devoção é inútil! Paulo não está invalidando a circuncisão. Ele entraria em contradição se fizesse isto (Rm.3:1, 2). O que ele está transmitindo é que para o incircunciso de coração a circuncisão não tem nenhum valor.

            Se os judeus se apartassem de Deus no coração, sua circuncisão não era melhor do que a dos seus vizinhos. Sendo assim, foi-lhes dito o seguinte: “Circuncidai, pois, o vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”. (Dt. 10:16) A grande questão é o coração! A espiritualidade verdadeira é aquela que nasce do coração! É o coração (os sentimentos e afetos) que dirige a espiritualidade do homem cristão: “Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele depende toda a sua vida”. (Pv. 4:23) Este é o ensinamento central da fé cristã.

            “A vida espiritual é aquela que nos leva a tirar do coração o que há de mais precioso e oferecê-lo ao Senhor, a buscar nos compartimentos mais secretos da alma os sentimentos mais nobres e dedicá-los a serviço da adoração. A partir do momento em que o homem for capaz de adorar e servir a Deus por nada, simplesmente porque este é Deus e não porque o cobre de benefícios, aí ele encontra o sentido maior da sua devoção, o centro da sua espiritualidade, o coração como fonte dos afetos mais puros e genuínos da alma humana”. (Ricardo Barbosa)

            Todos os nossos ritos, tradições, costumes e práticas se não forem feitos debaixo da lei, são inválidos e inúteis. O que seria guardar ritos e tradições debaixo da lei? O que é a lei? Como devemos guardá-la? Certa vez um homem também fez esta pergunta a Jesus: “Mestre qual é o grande mandamento da lei?”. Jesus respondeu:“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Esse é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Mt. 22:36-39). Este é o sumário que Jesus fez da lei. Ou seja, tudo que nós fizermos, guardarmos e valorizarmos se não for feito por amor a Deus e ao próximo não presta! Paulo entendeu isto muito bem, por isto escreveu em I Corintios. 13 que "sem amor não adianta de nada!”.

            Pode ser que a maioria das coisas que nós fazemos sejam pura tolice. Se o nosso coração (amor) não estiver envolvido, não adianta. Sempre que a religião verdadeira declina, a tendência humana é de atribuir uma importância indevida a ritos exteriores. “A igreja cristã, quando perdeu sua espiritualidade, ensinou que a água batismal lavava o pecado, como é grande a quantidade de cristãos nominais que colocam todas as suas esperanças na idéia da eficácia inerente de ritos exteriores!”. (Hodge). Hoje ainda é assim! Continuamos atribuindo uma importância enorme a coisas sem valor como: “O pastor tem que pregar de terno e gravata”; “mulher não pode cortar o cabelo, usar batom e calça"; “existem instrumentos que são ‘santos’ e instrumentos que são ‘profanos"; "o pastor é obrigado a cumprimentar as pessoas após o culto lá na porta". Estas e outras inúmeras coisas não salvam ninguém, não santificam ninguém! Elas, pelo contrário, podem nos fazer adoecer cada vez mais!

            Os judeus também guardavam vários ritos e tradições sem saber porque estavam fazendo aquilo. Isto fez com que eles se afastassem do verdadeiro motivo pelo qual guardavam aquelas coisas. E Paulo os condenou por causa disto.

            Um dia, há muitos anos, um gato perdido passeava na Índia. Por acaso, entrou na área onde um guru e seus discípulos estavam sentados no chão, meditando. O gato gostou do guru e começou a se esfregar nas costas dele, ronronando sem parar. Depois de um tempo, o guru ficou aborrecido com a distração e, pegando um pedaço de corda dentro do bolso, achou um galho e nele amarrou o gato até o final de sua meditação.  Depois da meditação, observando sua filosofia de respeito por toda espécie de vida, o homem santo alimentou o gato, que logo se tornou um membro fixo do grupo. Portanto, para assemelhar-se ao guru, cada discípulo achou um gato. Em pouco tempo, já havia o ritual da amarrar um gato num galho antes da meditação. Essa sociedade para meditação adotou o nome e continuou a existir por gerações depois da morte do guru. Mas, no decorrer do tempo, o caráter da sociedade mudou em sua essência. Depois de alguns séculos, ele havia montado uma estrutura complexa para prevenção da crueldade contra os gatos. Continuavam seus períodos de meditação, mas ninguém sabia explicar por que ela sustentava sua estrutura de proteção aos gatos.

            Infelizmente, muitas vezes a igreja é muito parecida com essa sociedade indiana. Ela começa uma determinada prática numa determinada época, a praxe se torna uma tradição sagrada e a tradição determina valores e estruturas que ninguém se atreve a explicar ou questionar. Fazer algo simplesmente porque estamos acostumados a fazer ou porque todos fazem pode ser um grande erro.

            Paulo está mostrando aos judeus que as coisas que eles confiam – lei, circuncisão – não são capazes de salvá-los. O que Paulo está fazendo é preparar o judeu para a afirmação que ele vai fazer em breve: à parte da justiça gratuitamente outorgada por Deus, ninguém poderá jamais ser salvo!

 

Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus”. (v. 28,29)

 

            Este texto merece séria atenção em qualquer época. Mas ele merece especial atenção no contexto atual da igreja e do mundo. Nunca, desde que Jesus deixou a terra, houve tanto formalismo quanto há nos dias atuais. Mais do que nunca, precisamos examinar e investigar a nossa religião, ter certeza das verdades que constituem nossas crenças, decidir se o nosso cristianismo é formal ou é do coração.

            Não existe melhor meio de descobrir isto, do que retornando às Escrituras. O texto de Romanos que lemos nos mostra três verdades importantes. Primeiro, a religião formal não é religião: "não é judeu quem o é apenas exteriormente”.Sendo assim, um cristão formal é qualquer coisa, menos um cristão. Segundo, o coração é a base da verdadeira religião:“circuncisão a que é do coração”. Portanto, o verdadeiro cristão é aquele que o é no coração. Terceiro, a verdadeira religião nunca será popular: Ela não terá o louvor do homem, mas de Deus.

            A religião formal não é religião: "Não é judeu quem o é apenas exteriormente”. O que significa religião formal? Muitos não sabem nada a respeito. Sem um entendimento claro do que ela significa, tudo que eu vier a falar será inútil. Religião formal é aquela onde um homem professa e não pratica, encara o cristianismo como uma moda ou um costume.Este cristianismo não tem nenhuma influência no seu coração e na sua vida, ele possui a forma, a casca, a pele da religião, mas não possui seu conteúdo ou seu poder.

            Um religioso formal é aquele que não está familiarizado com as Escrituras, que não tem prazer em ler, em meditar, em estudar a Palavra de Deus. É aquela pessoa que não se separa do mundo, que não faz distinção entre crentes e incrédulos nos seus relacionamentos conjugais e de amizade. São homens e mulheres que são totalmente indiferentes àquilo que ouvem nas pregações. O religioso formal não é verdadeiro, nem caridoso, nem humilde, nem honesto, nem manso, nem gentil, não há substância nem frutos no cristianismo destas pessoas.

            A religião formal pode enganar a vizinhos, conhecidos, parentes, ministros e até a família. Contudo, ela não pode enganar a Deus! “Aquele que fez o ouvido, não ouvirá? Ou aquele que formou o olho, não verá?” (Sl. 94:9). Deus disse a cada anjo das sete igrejas, “Conheço as tuas obras, e o teu trabalho” (Ap. 2:2). Ninguém conseguiu perceber, mas Deus percebeu e falou ao homem sem as vestes nupciais:“Amigo, como entraste aqui, sem teres veste nupcial?” (Mt. 22:12) Deus jamais será enganado por uma pequena capa de religião externa.

            Poucas coisas são tão perigosas à alma humana quanto uma religião formal. O cristianismo externo destas pessoas não é capaz de confortá-las no dia de sua doença e na hora de morte. Um fogo pintado não pode esquentar, um banquete pintado não pode satisfazer fome e uma religião formal não pode trazer paz para a alma. Se você não deseja sofrer vergonha no último dia, cuidado com a formalidade.

            O coração é a base da verdadeira religião: “Judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração”. O coração é o real teste do caráter de um homem. Não é o que ele diz ou o que ele faz que revela quem ele realmente é. Todo homem pode dizer e fazer coisas certas, por motivos falsos e desmerecedores. O homem pode fazer grandes coisas, e enquanto isto seu coração está completamente errado. O coração é o homem, “porque, como ele pensa consigo mesmo, assim o é”. (Pv. 23:7).

            Como é seu coração? Esta é a grande questão!  É ele que Deus vê e sonda!“Porque o Senhor não vê como vê o homem, pois o homem olha para o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração”. (I Sm. 16:7). O coração é o lugar onde a religião salvadora tem que começar.“Também vos darei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne”. (Ez. 36:26). “Pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação”. (Rm. 10:10).

            O coração é a fonte da verdadeira santidade. Verdadeiros cristãos são santos porque seus corações são atingidos. Eles obedecem por amor, eles fazem a vontade de Deus de coração. Apesar de fracos, débeis e defeituosos, seus feitos agradam a Deus porque são realizados de coração. Jesus elogiou a oferta da viúva pobre, mais do que todos os oferecimentos dos ricos judeus; Ele fez isto, pois ele viu o coração.

            A arca era a coisa mais sagrada no tabernáculo judeu. Sobre ela estava a base da misericórdia. Dentro dela estavam as tábuas da lei, escritas pelo próprio dedo de Deus. Somente o sumo sacerdote, tinha permissão de entrar no lugar onde ela era mantida. Pensava-se que a presença da arca no acampamento trazia uma bênção especial. Os israelitas olharam para a arca como um ídolo e com o coração cheio de maldade. Desta forma ela era incapaz de trazer aos israelitas um bem melhor do que qualquer outra caixa de madeira comum. Os israelitas trouxeram a arca para o acampamento militar numa ocasião especial dizendo: “Tragamos a arca... para que nos livre da mão de nossos inimigos” (I Sm. 4:3). Quando ela entrou no acampamento, eles mostraram toda reverência e honra: “Rompeu todo o Israel em grandes brados e ressoou a terra” (I Sm. 4:5).

Mas tudo isto foi em vão. Eles foram duramente atingidos ante os filisteus. A própria arca foi levada. Por que isto aconteceu? Porque a religião deles era mera forma. Eles honraram a arca, mas não deram ao Deus da arca os seus corações.

            Da mesma forma, as coisas externas do cristianismo - batismo, Ceia do Senhor, caridade, ser membro da igreja e coisas semelhantes - nunca levam a alma de qualquer homem ao céu. Muitos reis de Judá e Israel fizeram muitas coisas certas à vista de Deus, mesmo assim nunca foram escritos na lista de homens santos e íntegros. Roboão começou bem e “durante três anos ele andou no caminho de Davi e Salomão” (II Cr. 11:17), mas depois “fez ele o que era mal, porque não dispôs seu coração para buscar ao Senhor” (II Cr. 12:14). Abias, disse muitas coisas que eram certas, e lutou com sucesso contra Jeroboão. Contudo, o veredicto geral é contra ele: seu coração não era perfeito para com o Senhor seu Deus” (I Rs. 15:3). Amazias teve o seu epitáfio da seguinte maneira: “Fez ele o que era reto perante o SENHOR, não, porém, com inteireza de coração (II Cr. 25:2). Jeú, rei de Israel, foi levantado pelo comando de Deus para derrubar a idolatria. Ele era um homem que tinha um zelo especial em fazer o trabalho de Deus. Mas infelizmente é escrito sobre ele que: “não teve o cuidado de andar de todo o seu coração na lei do Senhor Deus de Israel.” (II Rs. 10:31).

            Uma observação geral se aplica a todos estes reis: Eles eram interiormente maus. O problema deles, é que os seus corações não eram honestos nem íntegros para com Deus.

            Nos dias de hoje, existem lugares de adoração onde todas as coisas externas da religião são feitas com perfeição. O edifício é bonito, o culto é lindo, o louvor é arrebatador! Há tudo para satisfazer os sentidos. Olho, ouvido e o sentimentalismo natural são agradados. Mas em todo este tempo Deus não é agradado. Uma coisa está faltando, e esta carência estraga tudo. O que é isto que está faltando? É o coração!

            Podem existir, cabeças curvadas, joelhos dobrados, altos améns, mãos cruzadas, faces viradas para o alto... Todas estas coisas não são nada à vista de Deus, se os corações não são retos. Se Ele não vê corações convertidos, renovados, quebrantados, penitentes, tudo é em vão! Deus sabe que debaixo deste espetáculo todo, a forma está no lugar da substância. E, quando Ele vê isto, Ele não tem prazer.

            Por outro lado, quando o coração é reto, Deus pode observar muitas coisas defeituosas, e ainda assim, nos abençoar. Pode haver falhas de planejamento e debilidades na prática, contudo, se o coração está sadio no principal, Deus perdoará as imperfeições daquele que tem um olhar sincero.

            Jeosafá e Asa eram os reis de Judá que falharam em muitas coisas. Jeosafá era um homem tímido e irresoluto que não sabia dizer “Não”. Ele fez amizade com Acabe, o pior rei que Israel já teve. Asa era um homem instável que uma vez confiou no rei da Síria mais do que em Deus. Em outro momento enfureceu-se contra o profeta de Deus porque ele o reprovara (II Cr. 16:10). Contudo, ambos tiveram um ponto redentor em suas personalidades. Apesar de suas faltas, eles tiveram corações retos.

            A verdadeira religião nunca será popular: “Cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus”. O Cristianismo bíblico nunca será realmente popular. Ele nunca foi, e nunca será enquanto o mundo durar. Enquanto o homem for o que é, a maioria dos humanos gostará muito mais da religião formal, do que da religião do coração. As pessoas querem uma religião que não requeira muitos compromissos, que não incomode muito o seu coração, que não interfira muito em seus pecados, que não se intrometa com sua consciência e seu modo de viver.

            A religião do coração nunca será popular porque ela humilha o homem, ela não deixa para o homem natural nada do que se vangloriar, ela diz ao homem o que ele é de verdade: um pecador culpado, perdido, merecedor do inferno; alguém que precisa correr para Cristo a fim de ser salvo. Ela transmite ao homem a mensagem que ele está morto, diz-lhe que ele deve viver novamente e nascer do Espírito.

            A religião do coração nunca será popular porque ela é muito santa. Ela não deixará o homem natural quieto, ela interfere no seu mundanismo e nos seus pecados, ela requer dele coisas que ele abomina e das quais é avesso: conversão, fé, arrependimento, mente inclinada para coisas espirituais, leitura da Bíblia, oração. Ela ordena que o homem deixe muitas coisas que ele ama e se apega, e os homens não querem deixar estas coisas!

            A religião do coração era popular no tempo do Velho Testamento? Os profetas foram perseguidos e maltratados porque eles pregaram contra o pecado. Foram humilhados porque exigiram dos homens que dessem seus corações a Deus.             A religião do coração era popular no tempo do Novo Testamento? Os fariseus não toleraram uma religião na qual os princípios eram humilhação e santificação de coração.

            A religião do coração foi alguma vez popular na igreja de Cristo durante os últimos dezoito séculos? Quem protestava contra o formalismo era cruelmente denunciado como “perturbador de Israel”. Antes da Reforma, quem clamasse por um coração santo e pregasse contra a formalidade era tratado como herege, considerado um inimigo a ser derrotado, silenciado, excomungado, encarcerado ou condenado a morte. No tempo da Reforma, o trabalho de Lutero foi levado avante debaixo de muita calúnia e difamação. Simplesmente porque ele protestou contra o formalismo e ensinou a necessidade de uma religião proveniente do coração.

            Pouco significa o que homem pensa e o que ele louva. Aquele que nos julga é o Senhor. Os homens não nos julgarão no último dia. Os homens não se sentarão no grande trono branco. Os homens não examinarão nossa religião nem pronunciarão nossa sentença eterna. Somente àqueles que Deus louva é que serão louvados mediante a justiça de Cristo. Pode não ter o elogio do homem, mas tem “o louvor de Deus”. As palavras de Paulo são claras e inequívocas, é uma religião “cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Rm. 2:29).

            No último dia, Deus proclamará Sua aprovação à religião do coração diante de todo o mundo. Ele ordenará aos seus anjos que reúnam Seus santos, de toda parte do globo, em um só glorioso grupo. Todo aquele que serviu a Cristo com o coração, ouvirá a seguinte convocação:“Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”. (Mt. 25: 34; Lc 12:8; 22:28-29).

            Estas palavras serão ditas somente àqueles que deram seus corações para Cristo! Elas não serão ditas ao formalista, ao hipócrita, ao ímpio e ao descrente. Os formalistas, verão os frutos da religião do coração, mas não comerão deles. No último dia entenderemos completamente quanto melhor é ter o louvor de Deus do que o louvor do homem.

            Sua religião é uma questão de forma e não de coração? Se for, considere solenemente o imenso perigo no qual você está. Você não tem nada para confortar sua alma no dia do julgamento; você não tem nada que lhe dê esperança em seu leito de morte. A religião formal nunca levou qualquer homem ao céu. Seu coração o condena? Recorra ao Senhor Jesus Cristo sem demora e derrame ante Ele o estado de sua alma. Confesse a Ele sua formalidade do passado e Lhe peça que o perdoe. O Senhor Jesus é designado para ser o Médico da alma humana. Não há um caso difícil para Ele. Não há nenhuma condição da alma que Ele não possa curar. Não há nenhum diabo que Ele não possa lançar fora.

            Mesmo cauterizado e endurecido como o coração de um formalista pode ser, há bálsamo em Gileade que o pode curar e um Médico que é poderoso para salvar. Vá e clame ao Senhor Jesus Cristo ainda hoje, pois: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á”;

            Esteja atento com uma vigilância zelosa. A formalidade está sempre pronta a entrar em nós. Atente para a leitura da Bíblia; a oração; o seu temperamento; sua língua; sua vida familiar; Religião de domingo. Não há nada tão bom ou espiritual que não possamos transformar em meros hábitos. Não há ninguém tão espiritual que não possa sofrer uma triste queda. Portanto vigie e esteja em guarda, pois: "Judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus”. (Rm. 2:29).

CAPÍTULO III

 

            Em todo o capítulo dois Paulo defendeu a idéia de que o judeu, apesar de ter a lei, a circuncisão e fazer parte do povo escolhido, ele está debaixo da ira de Deus. Ou seja, o judeu está tão condenado quanto o gentio que não possui nenhuma destas coisas.

            Depois de ouvir tudo o que Paulo falou sobre nacionalidade, lei e circuncisão, alguém pode perguntar: Então, qual é a vantagem do judeu? Que “privilégios” são estes que os judeus possuem se eles servem apenas para aumentar a condenação? Era melhor não ter nenhum destes “privilégios”. Tal “vantagem” na verdade é uma desvantagem enorme! Será que quando Deus chamou Abrão e fez dele Abraão e uma nação, fez suas promessas e introduziu o selo da Aliança que é a circuncisão, formou uma nação para Si e lhe deu a Lei, será que tudo isto foi em vão? Foi tudo perda de tempo?

            As últimas palavras de Paulo no capítulo dois foram tão duras que alguém pode acabar concluindo que a circuncisão não possui nenhum valor. Esta é a inferência a que muitos chegam ao ler o verso vinte e sete do capítulo dois. Esta, sem dúvida, foi a conclusão a que muitos judeus ali de Roma chegaram. Paulo, então, se antecipa e responde as objeções que seus ensinamentos levantaram. Ele então diz:

 

“Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, sob todos os aspectos. principalmente porque aos judeus foram confiados os oráculos de Deus”. (v. 1, 2).

 

            Se alguém imagina, mediante as coisas que Paulo falou, que o judeu não possui nenhuma vantagem em ser judeu, é porque não entendeu absolutamente nada do que o apóstolo falou! Paulo nunca disse que o judeu não tinha vantagem em ser judeu. O que o apóstolo afirmou o tempo todo é que as vantagens que o judeu possuía não podiam salvá-lo. Em nenhum momento Paulo afirmou que os judeus não possuíam vantagens! Dizer que alguém não é salvo pela circuncisão, não significa dizer que não há proveito na circuncisão. Afirmar que a lei não aplaca a ira divina, não quer dizer que possuir a lei não seja importante.

            Enfim, Paulo nunca afirmou que não existe diferença entre judeus e gentios. O que Paulo ensinou em todo o capítulo dois, é que na salvação, todos são iguais! Neste capítulo Paulo mostrou que todos, sem exceção, são culpados diante de Deus. E, para isto, ele mostrou ao judeu que, nem mesmo os privilégios que ele possui podem livrá-lo!

            Sabendo que esta sua tese poderia trazer algumas dificuldades, Paulo já responde a pergunta que lhe fariam. “Qual é, pois, a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão”. Ele responde: “Muita, sob todos os aspectos”. Ou seja, existe uma tremenda vantagem em ser judeu, apesar desta vantagem não garantir a sua ida para o céu.

            Seria normal Paulo listar que aspectos são estes. Ele vai fazer isto apenas lá na frente ao afirmar que a Israel pertenciam “a adoração e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas”. (9:4). Contudo, Paulo contenta-se em citar um único aspecto, segundo ele, o principal e maior de todos os aspectos e vantagens que os judeus possuíam.

            Para Paulo, não existia privilégio maior do que possuir “os oráculos de Deus”. Nada, segundo ele, era mais nobre e mais grandioso do que isto. Mas o que será que significa esta expressão “os oráculos de Deus”. Ela aparece quatro vezes em todo o Novo Testamento Foi empregada por Estevão na sua apologia ao concílio que o condenou: “É este Moisés quem esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai e com os nossos pais,o qual recebeu os oráculos vivos para nos dar”. (At. 7:38). Moisés recebeu os “oráculos vivos” para dar ao povo. O escritor aos Hebreus ao admoestar os cristãos disse o seguinte: "Pois, com efeito, quando devíeis ser mestres, atendendo ao tempo decorrido, tendes, novamente, necessidade de alguém que vos ensine, de novo, quais são os princípios elementares dos oráculos de Deus”. (Hb. 5:12). A terceira vez em que esta expressão aparece é em I Pedro 4:11: "Se alguém falar, fale conforme os oráculos de Deus”. A quarta vez é neste texto que nós estamos estudando.

            Vejamos o que significa esta expressão. Estevão se referiu a lei dada por Deus a Moisés. O autor de Hebreus tem em mente a pregação da palavra de Deus. Pedro aplica esta expressão com a mesma intenção do autor de Hebreus. Aqui em Romanos é clara a idéia de que Paulo está falando do Velho Testamento, da revelação especial de Deus. Portanto, todas as vezes que a expressão “os oráculos de Deus”, aparece, ela se refere às Escrituras Sagradas.

            Paulo diz que esta é a maior vantagem que o judeu possui. O mais elevado dos privilégios do povo judeu era possui a posse permanente da Palavra de Deus! Isto era muito mais importante que a travessia do mar Vermelho, que a travessia do Jordão a pé enxuto, que a destruição do exército de Faraó, que a conquista de Jericó, que o maná que descia do céu diariamente, que a coluna de fogo e a nuvem guiando os israelitas no deserto. Mais importante que qualquer milagre ou pacto, era possuir “os oráculos de Deus”. As Escrituras eram o que os israelitas possuíam de mais precioso!

            Por que será que as Escrituras eram o maior privilégio que os judeus possuíam? Primeiro, não há maior privilégio para um homem do que ouvir Deus lhe falando diretamente. Nós não conseguimos conceber o que significa o Criador falar com a criatura. É algo extremamente espetacular o Senhor do universo revelar-se a nós!

            Infelizmente esta verdade está longe de ser entendida em sua plenitude por todos nós. O que pode nos ajudar um pouco a compreendê-la é a contrastarmos com o seu oposto. Se o maior de todos os privilégios que um homem pode ter é Deus falar com ele, o maior prejuízo para um homem é Deus deixar de se comunicar com ele. Esta foi a maior maldição que Jesus sofreu ali na cruz: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes?”. Nada assustava tanto a Jesus como o abandono do Pai! O que Jesus mais temia era que o seu relacionamento com o Pai fosse cortado. Deus disse através do profeta Amós que:“Eis que vêm dias, diz o Senhor Jeová, em que enviarei fome sobre a terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor”. (Am. 8:11). O homem ser abandonado por Deus, ser deixado a sua própria sorte, é a pior coisa que pode lhe acontecer! Este é um sinal da ira de Deus: “Deus os entregou”. (1: 24, 26, 28).

            O segundo motivo pelo qual as Escrituras eram o maior privilégio que os judeus possuíam era porque através dos oráculos de Deus, os judeus podiam ter esperança de que o Messias viria. As outras nações não possuíam esta esperança que os israelitas possuíam. Os judeus tinham uma luz no meio das trevas. Enquanto os outros povos morriam sem fé e viviam sem esperança, os israelitas aguardavam ansiosamente pelo grande dia em que o Messias viria.

            Viver sem esperança é uma das piores sensações que o homem pode enfrentar, afinal, é a esperança que faz o fazendeiro plantar sementes na primavera depois de três anos seguidos de seca; é a esperança que confere o poder de olhar para além das circunstâncias que nos parecem desesperadoras. Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto disse certa vez:: “A única coisa que mantinha os prisioneiros no campo de concentração vivos era a esperança”. Devido as Escrituras que possuíam, os judeus, diferentemente dos outros povos, vivia com esperança!

            O terceiro motivo pelo qual as Escrituras eram o maior privilégio que os judeus possuíam era porque ser o portador de mensagens celestiais não é algo concedido a qualquer pessoa. Os anjos desejaram esta missão, mas foi-lhe negada tarefa tão nobre. Os judeus foram os escolhidos por Deus para transmitir os valores do Seu reino aos outros povos. Este era um tremendo privilégio! Ser arauto, portador, representante, embaixador do evangelho não é pouca coisa!

            O quarto motivo pelo qual as Escrituras eram o maior privilégio que os judeus possuíam era porque é um privilégio ter todo o conhecimento das verdades que estão reveladas nas Escrituras. O pagão não sabia nada de pecado, graça, redenção, salvação, céu e inferno. Os judeus foram extremamente agraciados ao terem acesso a estas doutrinas e verdades. Os judeus podiam conhecer o caráter do Criador e, desta maneira, encontrar sentido para a vida!

            Será que dá para entender o que Paulo quis dizer quando afirmou: “muita, sob todos os aspectos”. Ter a circuncisão, a nacionalidade e a lei era algo importantíssimo. È certo que tais coisas não cooperavam com graça, mas traziam privilégios ao povo judeu. Contudo, o mais alto privilégio do judeu era que ele possuía o Velho Testamento.

            Será que nos damos conta que o nosso privilégio é ainda maior que o do judeu? Além do Velho Testamento, nós possuímos o Novo Testamento. Temos acesso as Escrituras no momento e no tempo em que desejarmos; possuímos milhares de livros que nos ajudam a entender e interpretar as doutrinas bíblicas; semanalmente podemos ouvir um ministro de Deus expor as Escrituras. Será que conseguimos enxergar quão grande é o privilégio que possuímos?

            Contudo, privilégios trazem junto com eles, responsabilidade. Se Deus condenou os judeus por sua falta de resposta adequada, que tenha misericórdia de nós! Nós somos mais condenáveis do que aqueles judeus do tempo de Paulo! Se existe um povo por toda a história que desesperadamente necessitou do Salvador, este povo somos nós! A nossa cristandade dos dias de hoje necessita urgentemente do Salvador!

            Algo semelhante a esta argumentação de Paulo é afirmar que os filhos de pais crentes possuem alguma vantagem. Sem dúvida que a criança que nasce num lar cristão tem vantagens sobre a que nasceu num lar pagão. Ela está constantemente em contato com as verdades espirituais; ela é ensinada desde cedo o caminho em que deve andar; ela sabe o que significa, pecado, condenação e inferno; conhece a graça, o perdão, a redenção e o céu. As vantagens que estas crianças possuem não podem salvá-las, elas precisam, sozinhas, entender que são pecadoras e que precisam da graça de Cristo. Contudo, depois de salvas, será que o lar evangélico não se torna para ela uma vantagem? É claro que sim!

            O maior privilégio dos judeus não eram os milagres, as teofanias, os pactos ou a circuncisão, eram as Escrituras! Isto mostra como que Deus valoriza a Sua Palavra! Ele também deve valorizar àqueles que a valorizam. Isto nos lembra que no reino de Deus não existe nada mais importante que a exposição das Escrituras. Sola Scriptura é algo que encontramos na própria Escritura. É algo que devemos sempre zelar e jamais esquecer.

 

“E daí, se alguns não creram, a incredulidade deles virá desfazer a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma! Seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem, segundo está escrito: para seres justificado nas tuas palavras e venhas a vencer quando fores julgado. mas, se a nossa injustiça traz a lume a justiça de Deus, que diremos? Porventura, será Deus injusto por aplicar a sua ira? (falo como homem). Certo que não. Do contrário, como julgará Deus o mundo? E, se por causa da minha mentira, fica em relevo a verdade de Deus para a sua glória, porque sou eu ainda condenado como pecador? E por que não dizemos, como alguns, caluniosamente, afirmam que o fazemos: pratiquemos males para venham bens? A condenação destes é justa”. (v. 3-8).

 

            Paulo mostrou aos judeus que as suas vantagens não podiam conduzi-los ao céu. Os judeus por sua vez, argumentaram: “então era melhor não ser judeu, afinal, nossa vantagem é desvantagem”. Paulo diz, que as vantagens não os salvarão, mas elas são muito preciosas! De todas as vantagens, a principal delas eram os “oráculos de Deus”. Contudo, alguém poderia perguntar: “O Velho Testamento não ajudou os judeus em nada, afinal, veja a incredulidade deles. A sua falta de fidelidade anulou todo o valor das promessas de Deus”.

            Paulo sabia que esta indagação poderia ser feita. Então ele diz: “e daí, se alguns não creram?”. Percebam como Paulo foi cuidadoso ao falar o que era preciso. Ele foi muito diplomático nesta sua palavra aos judeus ali de Roma.

            A grande maioria dos judeus não acreditou no Evangelho. Como que Paulo diz que foram apenas “alguns”? Era extremamente ofensivo dizer aos judeus que a grande maioria deles morreu condenada. Portanto, Paulo diz “alguns” para amenizar a aspereza da sua censura. "A incredulidade deles virá desfazer a fidelidade de Deus?”. Paulo deixa bem claro que o fracasso dos judeus não pode jamais afetar a fidelidade de Deus: “de maneira nenhuma!”. (v. 4).

            As promessas incondicionais de Deus não dependem da fidelidade do homem. Se fosse assim, ninguém seria salvo! É a despeito do seu povo que Deus leva avante os Seus grandes propósitos. O que Deus se propôs a fazer, Ele certamente fará, independentemente do homem!

            Talvez a maior prova da fidelidade de Deus, a despeito do pecado do homem, seja a igreja. Por estar nos planos de Deus, a igreja continua existindo. Quem sustenta a igreja é Deus, do contrário, ela já teria deixado de existir a séculos.

            O adultério de Davi foi um exemplo claro de que a fidelidade de Deus não é alterada pelo pecado humano. Portanto, a falta de fé de alguns não anula a fidelidade de Deus. Não foi porque os judeus não corresponderam à altura que os oráculos de Deus cairiam em descrédito.

            Paulo então diz: "Seja Deus verdadeiro, e mentiroso, todo homem”. A imagem aqui é a de um tribunal no qual Deus permite que Sua Palavra seja julgada. E Ele faz isto para que Sua Palavra seja publicamente defendida. Deus não tem medo de que sua Palavra seja investigada. A verdade passa pelo teste! Devemos estar abertos para os testes que são feitos contra a nossa fé. Não devemos temer a investigação racional, mas convidá-la. Se o Cristianismo é verdadeiro, temos algo a perder?

            Neste contexto, Paulo cita as palavras de Davi no salmo 51: “Segundo está escrito: para seres justificado nas tuas palavras e venhas a vencer quando fores julgado”. Após o seu pecado, Davi ficou um tempo sem se arrepender e sem confessar o erro que cometeu. Foi preciso que Natã viesse até ele e o mostrasse o grande mal que ele tinha praticado. Ao perceber a besteira que fez, Davi verbaliza isto que Paulo citou aqui em Romanos. O que ele estava dizendo era: “Deus está certo e eu estou errado”. É isto que Paulo está defendendo aqui. Quando o homem entra em confronto com Deus ele sempre sairá derrotado. O homem jamais poderá estar certo e Deus errado.

            Esta situação nos lembra a importância de valorizarmos e defendermos os absolutos de Deus. A fidelidade e a justiça de Deus são princípios absolutos. Toda vez que o homem questionar estes princípios, o homem estará errado! “Toda vez que o testemunho divino é contradito pelo testemunho humano, seja o homem considerado mentiroso”.(Haldane)

            Não podemos jamais abrir mão daquelas coisas que são consideradas absolutas na Palavra de Deus. O que seria algo absoluto? Tudo aquilo que faz parte da natureza e do caráter do Criador.“Qualquer doutrina que é de tendência imoral ou que conflita com os princípios da moral é falsa, não importa quão plausíveis possam ser os argumentos a seu favor”. (Hodge).

            Paulo vai dizer que o que acontece é exatamente o contrário! "Mas, se a nossa injustiça traz a lume a justiça de Deus, que diremos?”. Paulo faz uma afirmação através de uma pergunta. Ele nos mostra que a incredulidade do homem não coloca em dúvida a fidelidade de Deus. Antes, a incredulidade do homem mostra como é grande a fidelidade de Deus! Em vez de nossa falsidade e incredulidade destruírem a verdade de Deus, elas a tornam ainda mais evidente e mais proeminente! Deus utiliza até mesmo o pecado humano para Sua glória! Isto não significa que Ele se compraz com o pecado; significa que Deus é como um artesão habilidoso que sabe dominar nossa perversidade e direcioná-la rumo a outro propósito. “Se porventura alguns dos pecados humanos fizer sobressair a glória do Senhor, e se Ele for especialmente glorificado por sua verdade, então segue-se que até mesmo a falsidade humana serve para confirmar, em vez de subverter Sua verdade”. (Calvino).

            Paulo então se antecipa, novamente, e trata de um outro argumento que poderia ser levantado. Os judeus poderiam alegar o seguinte: “Se a minha incredulidade ressalta a fidelidade de Deus, vamos pecar!”. “Pratiquemos males para que venham bens”. (v.8). Eles poderiam alegar também: “Se meu pecado ressalta a graça e a fidelidade de Deus por que é que Ele vai me julgar?”. “Se por causa da minha mentira, fica em relevo a verdade de Deus para a sua glória, porque sou eu ainda condenado como pecador?”. (v.7).

            “Por que é que Deus vai me julgar se Ele está levando vantagem com o meu pecado?”. Esta objeção é tão idiota que Paulo pede desculpa, indiretamente, por ter que mencioná-la. Ele se desculpa quando diz: “falo como homem”. Ou seja, este é um argumento humano.

            A resposta para este questionamento é simples. Deus não pode ficar satisfeito com o pecado e nem levar vantagem com ele, pois Ele vai julgá-lo! Se isto acontecesse diz Paulo, “como julgará Deus o mundo?”. Deus é o Juiz de toda terra, o Regente moral do universo. Como é que Ele poderia deixar de exercer esta função, que é inseparável de Sua divindade? Além disso, o Deus que é fiel as suas promessas, também é fiel as suas ameaças. Como ficaria sua Palavra se Ele não cumprisse aquelas ameaças que Ele fez?

            O sentimento existente naquelas pessoas é o mesmo dos dias de hoje. A questão era a seguinte: “por que condenar o meu pecado se ele dá glória a Deus?”. Ou seja, o fim – a glória de Deus – é muito bom! Sendo assim, o meio – meu pecado – há de ser considerado errado? “Se Deus é glorificado através de nossa iniqüidade, e se nada é mais importante para o homem do que promover a glória de Deus, então, vamos pecar para o triunfo da glória de Deus!”. Em outras palavras, “os fins, justificam os meios”. Celebremos o pragmatismo!

            Percebam a conseqüência: “pratiquemos males para que venham bens”. Paulo diz o seguinte sobre este pensamento: “a condenação destes é justa”. Isto pode ser entendido de duas maneiras: “Condenar homens como estes não é injustiça” e “um argumento como este é condenado com total justiça”. Ao afirmar tal coisa, tais pessoas estão violando todos os princípios morais! Eles estão cometendo um suicídio intelectual e moral.

            Será que conseguimos visualizar e entender o que está acontecendo aqui em Romanos 1, 2 e 3? Paulo está começando a expor a doutrina da justificação pela fé somente. E ele faz isto para pessoas que a vida toda acreditaram que sua salvação dependia dos seus méritos. Aqueles judeus olhavam para a religião como uma questão de lei, de obras. Quando Paulo diz que é uma questão de fé, eles entram em “crise”. Eles não conseguem entender absolutamente nada! Eles distorcem o evangelho, compreendem mal esta doutrina. Eles dizem: “Já que não é uma questão de viver corretamente, vamos pecar!”.

            Eles ficaram tão revoltados que começaram a caluniar o apóstolo. Como alguns, "caluniosamente, afirmam que o fazemos". Não devemos nos surpreender se as pessoas nos caluniarem por aí. Isto é o que mais acontece com aqueles que defendem as Doutrinas da Graça. Muitos calvinistas são ofendidos e ouvem coisas terríveis por defenderem aquilo que crêem. Muitas vezes, não podendo desacreditar a doutrina, visto que ela é bíblica, os ímpios tentarão desacreditar nosso caráter.

            Paulo está aqui defendendo-se da acusação que certamente fizeram sobre ele. Acusação de que aquilo que ele pregava autorizava as pessoas a pecarem. Quando na verdade era exatamente o contrário. Paulo foi muitas vezes mal compreendido e caluniado. Nestas horas o que certamente o sustentava e que ele podia dizer e presenciar a verdade que "Eu sei em quem tenho crido e estou bem certo que é poderoso para guardar o meu tesouro até o dia final”.

 

Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado". (v.9)

                       

            Chegamos à segunda parte do capítulo três. Nos oito primeiros versículos, Paulo estava provando que havia vantagem em ser judeu, afinal, eles possuíam os oráculos de Deus, foram escolhidos por Deus para mostrar as outras nações quem Deus é de verdade. Contudo, estas vantagens não livravam os judeus da ira divina. Eles eram tão carentes da misericórdia divina quanto os gentios. É sobre isto que Paulo está tratando aqui no verso nove: “Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado”.

            Todos “estão debaixo do pecado”. É deste modo que a Bíblia vê a condição de todos os homens! Após a Queda, todos, sem distinção estão debaixo do pecado. É isto que Paulo vai defender de forma brilhante aqui neste texto. A Bíblia entende que todos os homens estão ou “debaixo do pecado” ou “debaixo da graça”. Isto significa que não existe aquela história de que “ele é um homem muito bom...”. As Escrituras não perguntam se alguém é respeitável ou se é moralmente correto, ela é taxativa: todos “estão debaixo do pecado”.

            Isto nos lembra que não devemos pensar sobre o homem em termos de ações ou intenções. Devemos lembrar da condição, do estado, da natureza do homem, e, todo homem é, por natureza, corrompido. A tia educada, prestativa e bondosa; a vovó querida, sincera e amável; o vizinho responsável, paciente e correto em suas ações; todos estão debaixo do pecado! Não é o que o homem faz ou deixa de fazer; não é o que o homem pensa ou deixa de pensar, é o seu estado, a sua situação, a sua condição diante de Deus! E diante de Deus todos estão arruinados! Todos estão debaixo do pecado! É o domínio a que cada um pertence que realmente importa e que realmente conta!

            Esta é a verdade a respeito de todos quantos nasceram neste mundo após a Queda. Todos nós nascemos debaixo de pecado. As crianças não nascem inocentes, nascem debaixo de pecado, nascem com a culpa e o pecado de Adão, nascem com a sua natureza corrompida. Somos pecadores não apenas por escolha, mas também por nascimento. Não nascemos numa zona neutra, mas como inimigos de Deus: “Por natureza, filhos da ira” (Ef. 2:3) Por esta razão, cada nascimento humano é, espiritualmente falando, o nascimento de uma criança morta. Não fazemos o mal, nós somos maldosos. O homem não é pecador porque peca, ele peca porque é pecador.

            O apóstolo expõe a doutrina, denominada pela teologia de "Depravação Total". A ideologia que afirma que todo homem sem exceção é pecador e ímpio, e está, naturalmente numa situação de rebeldia contra o Criador. Paulo expõe esta doutrina porque está preste a mostrar a necessidade do homem de ser salvo, de ser redimido. Paulo sabia que antes de mostrar os caminhos da salvação ele precisava mostrar o estado do homem.

            Esta doutrina é fundamental para que  o homem entenda corretamente a salvação. O pecador precisa ter uma avaliação correta da sua condição, afinal, uma perspectiva deficiente sobre o pecado nos leva a ter uma visão deficiente quanto aos meios necessários para a salvação do pecador.Perspectivas deficientes sobre o pecado nos conduzirão, inevitavelmente, a uma visão deficiente quanto aos meios necessários para a salvação do pecador. “Perspectivas erradas sobre uma doença sempre trarão consigo perspectivas erradas sobre uma cura. Perspectivas erradas sobre a corrupção da natureza do homem sempre trarão consigo perspectivas erradas sobre o grandioso antídoto e cura desta corrupção”. (J.C.Ryle)

            Se o homem não tiver alguma concepção do que realmente aconteceu na Queda lá no Éden, ele jamais terá uma verdadeira concepção do próprio evangelho, nem conseguirá compreender o motivo pelo qual foi necessária a vinda de Jesus a este mundo morrendo na cruz. Foi por isto que Paulo começou a apresentar o Evangelho pela Depravação Total. Esta é maneira correta de apresentarmos o plano de salvação. É correta porque é bíblica! A Bíblia nunca massageia o ego do homem para tentar trazê-lo para o Reino de Deus. A Bíblia sempre mostra ao homem a sua depravação e a sua situação diante de Deus, antes de mostrá-lo o caminho da salvação.

            Esta questão é tão séria que ela vai modificar a maneira de falarmos aos incrédulos do Evangelho. Não temos autoridade das Escrituras para anunciarmos que a conversão trará ao incrédulo um estilo de vida vitorioso e triunfante, sem problemas ou dificuldades, onde todos os seus sonhos serão realizados e suas necessidades satisfeitas.

            O método bíblico é mostrar ao homem que Deus está irado com ele por causa do seu pecado. Mostrá-lo que pecado não é apenas fazer coisas erradas, é deixar de amar a Deus de todo o seu coração, toda a sua força, alma e entendimento. É preciso conscientizá-lo de que ele está debaixo do juízo e da ira divina, desta maneira, ele precisa desesperadamente se reconciliar com Deus.

            Paulo não evangelizou aqueles homens de Roma perguntando se eles desejariam ser mais felizes. Aliás, não importa se alguém é feliz ou não. O que importa nesta questão de evangelização é a pessoa saber que ela está “debaixo do pecado”. É preciso convencer a pessoa da sua situação diante de Deus! “Não vou hesitar em afirmar que a evangelização que não começa com um chamado ao arrependimento e à convicção de pecado é antibíblica”. (M. Lloyd-Jones).

 

“Todos estão debaixo do pecado”. (v.9)

 

            Shakespeare imortalizou a frase: “Errar é humano”. No entanto, a resposta bíblica é: “Errar é o resultado da Queda humana”. Nós não estamos em nosso estado natural. Nós fomos criados perfeitos, mas o pecado nos tornou imperfeitos. O Fabricante não produziu o seu produto com defeito. “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. (Gn. 1:31). O problema foi o que a primeira criatura resolveu fazer com a liberdade a ela concedida.

            Adão incluiu a todos nós em sua decisão. Esta decisão foi fatal para toda a raça humana. Assim como as vítimas de uma transfusão de sangue contaminada, todos nós herdamos a corrupção de Adão. Isto é o que os teólogos chamam de “Pecado original”. A partir de então, nenhum ser humano veio ao mundo como uma folha em branco. Assim como não podemos separar nossa personalidade, aparência e identidade dos nossos ancestrais, não podemos separar o pecado deles do nosso. Já nascemos pecadores! O pecado é passado de pai para filho: “Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. (Rm. 5:12).

            Alguém pode alegar o seguinte: “Mas não é justo que eu pague pelo erro de Adão”. Adão foi apenas um representante humano. Se estivéssemos lá, teríamos feito exatamente o mesmo. Quando Paulo afirma que “Todos pecaram”, ele está nos lembrando que o pecado é individual.

            Depois da Queda o estado natural do homem é de depravação. A Queda afetou toda a personalidade do homem: mente, emoções, vontade, entendimento, sentimentos... A Bíblia ensina claramente que após a Queda o homem está espiritualmente: Morto (Rm. 5:12; Ef. 2:1); Agrilhoado (II Tm. 2:25, 26); Cego e surdo (Mc. 4:11, 12); Ignorante (I Cor. 2:14); Por natureza é pecador (Sl. 51:5); Por prática é pecador (Gn. 6:5).

            Quando não se diz ao homem quem ele realmente é, o evangelho é distorcido. Pessoas que não se reconhecem pecadoras irão confeccionar um evangelho que ofereça um modo de aliviar o stress em vez da culpa. A condição para qualificarmo-nos à graça de Deus é reconhecermos que não podemos nos qualificar! Se não conhecermos a seriedade do diagnóstico, não podemos apreciar a cura. Sabendo quem somos, o que é o pecado e o que merecemos, devemos valorizar a graça de Deus. A depravação total do homem mostra, por contraste, a glória da graça de Deus.

            Alguns hinos que cantamos proclamam esta verdade.

 

“Longe andava do meu Deus, longe do Salvador, mas raiou a luz do céu, luz do seu grande amor”.

 

“Perdido era eu, a graça me achou, tão grande pecador”. “Meu triste pecado, por meu Salvador, foi pago de um modo cabal; valeu-me o Senhor, oh mercê sem igual! Sou feliz! Graças dou a Jesus!”.

 

“Oh tão cego eu andei, e perdido vaguei, longe, longe do meu Salvador; mas da glória desceu e seu sangue verteu prá salvar um tão pobre pecador. Mas um dia senti meus pecados, e vi sobre mim o castigo da lei; mas depressa fugi, em Jesus me escondi, e refúgio seguro nele achei. Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia em vi meu pecado castigado em Jesus, foi ali pela fé que meus olhos abri, e eu agora me alegro em sua luz”.

 

            Dr. M. Lloyd-Jones disse sobre isto: “Através dos séculos na longa história da igreja, os homens que tiveram a mais elevada concepção da graça e do evangelho, e tiveram em seus corações a maior gratidão ao Senhor Jesus Cristo, sempre foram aqueles que tiveram a mais profunda consciência do seu pecado”.

 

"Como está escrito: não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus". (v.10,11)

 

            Depois de falar que todos pecaram, Paulo faz uma série de citações bíblicas para provar sua tese. O apóstolo não é tolo, ele precisava basear sua argumentação em algo que fosse relevante para os judeus, e, para os israelitas, nada era mais relevante e importante que as suas Escrituras, o Velho Testamento.

            Sendo assim, Paulo inicia seu argumento do seguinte modo: “como está escrito”. (v.10). O apóstolo introduz na sua argumentação uma cadeia de passagens veterotestamentárias. O material que ele cita é relevante, bem selecionado e inspirado. Isto lhe dá autoridade total.

            A maior parte do material citado por Paulo provém de Salmos e Isaías. A cadeia de citações (v.10-18) possui três estrofes. A primeira estrofe (v.10-12) é uma citação dos Salmos 14 e 53. A segunda estrofe (v.13, 14) é uma citação do Salmo 5:9 e do Salmo 10:7. A terceira estrofe (v.15-18) é uma citação de Isaías 59: 7,8.

            Paulo nos ensina de forma indireta, a verdade de que ao defendermos uma doutrina, nosso maior argumento deve vir ser sempre da Palavra de Deus. Argumentos filosóficos, morais, culturais e até sociais são válidos, mas não são decisivos. A palavra final sempre virá da Palavra de Deus. O argumento de maior peso será sempre aquele que vem das Escrituras. Até porque na hora da dor, só as realidades da graça podem consolar os corações. Encham de filosofia um coração enfermo, e vejam se sua agonia será aliviada. Vá à cabeceira dos moribundos e falem para eles dos pensamentos modernos. Vejam se isto trará paz aos seus corações? Precisamos levar as pessoas até as Escrituras! Diante da Bíblia os argumentos mais ousados e elaborados ficam silenciados. Somente a Bíblia é capaz de confortar, consolar, confirmar e convencer as pessoas. Sabendo disto Paulo argumenta da seguinte maneira: “Está escrito”.

            Podemos classificar estas citações de três maneiras diferentes. A primeira estrofe (v.10-12) é uma descrição e avaliação geral do homem em pecado. A segunda estrofe (v.13,14) demonstra o pecado em ação. A terceira estrofe (v.15-18) dá a causa geral de tudo isto: “Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

            Percebam como que Paulo é lógico na sua argumentação. Primeiro ele fala do estado em que o homem se encontra: “em pecado”. Lembremos que não devemos pensar sobre o homem em termos de ações ou intenções, devemos lembrar da condição, do estado, da natureza do homem. Depois, Paulo fala da conseqüência deste estado humano: “Não há um justo sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus”. Visto que todos os homens estão em pecado e não buscam a Deus: “Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis”.

            Paulo também vai afirmar que “Não há justo”. Devemos salientar o fato de que esta não é uma ideologia paulina, é um conceito bíblico. O Velho Testamento defende esta idéia em vários momentos. Isaías já tinha dito que: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho”.

            O que seria uma pessoa justa, não segundo os nossos conceitos, mas segundo a Bíblia? Nossa concepção de justiça não possui nenhuma relevância aqui. O que importa aqui é a idéia divina de justiça. Segundo as Escrituras, uma pessoa justa é aquela que não quebrou nenhum dos mandamentos. Isto significa não fazer nada de errado e fazer tudo para a glória de Deus: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração...”.

            Existe alguma pessoa justa? É claro que não! Todos, sem exceção, são injustos diante de Deus! Portanto, Paulo está certo em sua argumentação: “Não há um justo sequer”.

            Esta doutrina da universalidade do pecado é o maior e mais genuíno “nivelador” da humanidade. Diante de Deus todos são iguais, todos estão no mesmo nível! Isto deveria extirpar por completo nosso orgulho em relação ao próximo. Nesta questão não existe melhor ou pior, é tudo pior! Ninguém deveria se achar melhor do que ninguém, afinal, todos estão no mesmo nível diante de Deus! Nenhum de nós pode satisfazer os critérios de Deus. “Sede vós perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”. (Mt. 5:48). Alguém consegue atingir este patamar?

            Mesmo sabendo desta verdade, muitas vezes nos achamos melhores que os outros. Dizemos que não somos como aqueles que praticaram coisas tão terríveis aos olhos de Deus. E o que adianta, se praticamos outros males? “Abafamos” nossos “pequenos pecados” ao ressaltar os pecados capitais das outras pessoas. Utilizamos a estratégia universal da impunidade: “Se eu deixar papai mais bravo com meu irmão do que comigo, sairei livre”.

            Outra lição que podemos aprender desta verdade é a seguinte: Se todos são iguais diante de Deus, se todos estão no mesmo nível, não há nada que seja mais maravilhoso na salvação de uma pessoa do que na de outra. Sendo assim, os famosos “testemunhos” não é algo ensinado e incentivado pela Bíblia. Muitas vezes tal prática exalta mais o homem do que a Deus, fala mais do pecado do que da graça, chama mais a atenção para satanás do que para Jesus Cristo. A maneira como alguém foi salvo é irrelevante; a relevância está no poder e no amor de Deus!

            Compreender esta doutrina vai interferir diretamente na maneira como nos relacionamos com outras igrejas. Como cooperar na evangelização com pessoas que crêem que o homem não é tão mau assim como dizem, que o homem pode por ele mesmo ir até Deus, que o homem contribui com Deus na sua salvação. Tais pensamentos diferem completamente daquilo que temos visto aqui em Romanos. Ao nos unirmos com outros grupos na evangelização, não sabemos que Cristo tais pessoas estão proclamando, qual é o seu entendimento da justiça divina, o que eles entendem que é preciso fazer para o homem ser salvo.

            Em muitos aspectos fundamentais, é impossível caminharmos ao lado daqueles que não acreditam na Depravação Total do homem. A soteriologia influencia diretamente em práticas e maneiras de se viver o cristianismo. É muito complicado cooperar com outras pessoas que não possuem o mesmo entendimento de justificação. Esta doutrina é o eixo do Cristianismo. Nossas crenças e práticas são dirigidas e guiadas por ela. Todo nosso “corpo doutrinário” permanece de pé ou caiu diante desta doutrina.

            O apóstolo ainda vai reforçar seu pensamento com a expressão: "Nem um sequer”. Alguém acredita na possibilidade de existir pelo menos um homem justo diante de Deus? Abraão parece que caiu nesta besteira. (Gn. 18:22-33). Como Deus foi paciente com a insensatez de Abraão em acreditar que existia alguém justo. Abraão saiu de 50 e parou em 10. Contudo ele percebeu que não existia ali nenhum justo!Isto é tão certo que Deus não poupou a cidade!

            Paulo diz mais, ele afirma que: "Não há quem entenda”. O homem natural consegue entender as coisas do Espírito de Deus? O homem por si só, jamais conseguirá compreender os mistérios divinos. Se não for Deus misericordioso e condescendente com o homem, ele permanecerá nas trevas. Nicodemos não conseguia entender direito as doutrinas de Jesus: “Então, lhe perguntou Nicodemos: colmo pode suceder isto?” (Jo. 3:9). Jesus então ironiza e diz: “tu és mestre em Israel e não compreendes estas coisas?”. Não existe mestre, doutor, filósofo... ninguém pode entender! Como disse Jesus a Nicodemos: "Se alguém não nascer de novo não pode ver o reino de Deus”. (Jo. 3:3).

            Existiu um momento quando um grupo de fariseus considerou a possibilidade de Jesus ser o Messias (Jo. 9:16). Diz o texto que "Teve dissensão entre eles”. Mais tarde, estes mesmos fariseus chegaram perto de Jesus e lhe fizeram algumas perguntas. Jesus lhes respondeu o seguinte: “Vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas”. (Jo. 9:22-26).

            O homem que não é justificado jamais conseguirá entender as doutrinas e verdades de Deus! Não se admire do seu amigo, vizinho, parente... não conseguir enxergar o Evangelho. Podemos usar os melhores e mais brilhantes argumentos, se não for à soberana vontade de Deus para regenerá-lo, ele jamais conseguirá entender!          

            “Não há quem busque a Deus”. O homem procura muitas coisas nesta vida, bens, prazer, felicidade... mas jamais buscará a Deus. Toda nossa disposição é contra Deus! A nossa natureza depravada nos afasta constantemente de Deus! Sem a intervenção divina, é impossível ao homem buscar a Deus. Paulo já disse anteriormente que o pecado não é uma questão de fazer ou deixar de fazer. Está errado pensar sobre o homem em termos de ações ou intenções. A Bíblia fala da condição, do estado, da natureza do homem. Portanto, tudo que o homem faz é conseqüência daquilo que ele é! O homem sempre vai agir de acordo com a sua natureza, e a natureza humana não busca a Deus!

            Isto pode ser ilustrado da seguinte maneira: As ovelhas não comem lavagem, assim como um porco não se alimenta de grama. Não há qualquer problema físico – ambos possuem boca, dentes, orelhas e pernas. A razão pela qual a ovelha não come lavagem é sua natureza. Uma mangueira jamais dará maçã e uma figueira jamais dará jabuticaba. Isto não faz parte da natureza destas árvores. Da mesma maneira, a natureza corrompida do homem o impede de ir a Cristo!

            Mediante estas verdades, como as pessoas podem defender o livre-arbítrio? A Bíblia é clara ao afirmar que o homem é incapaz de escolher a Deus!  “Não quereis vir a mim para terdes vida”. (Jo. 5:40); “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi a vós” (Jo. 15:16); “É Deus quem opera em vós tanto o querer como o efetuar” (Fp. 2:13); “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer”. (Jo. 6:44). Percebam, não há quem busque a Deus!

            Será que é tão difícil perceber estas verdades? Por que é que as pessoas não conseguem enxergar tais doutrinas? Elas estão tão claras na Palavra de Deus! Poderíamos levantar inúmeros motivos pelos quais as pessoas não conseguem enxergar tais doutrinas. Mas gostaria apenas de citar o que ouvi de certo pastor: “Entender as doutrinas da graça é uma graça”. (Pr. Gilson Carlos).

            Não devemos desanimar por causa das perseguições e do preconceito. Os servos que cultivaram os talentos foram recompensados pelo seu Senhor. As virgens que levaram o azeite nas vasilhas receberão as bênçãos do Noivo. Aqueles que combatem o bom combate, completarão a carreira e guardarão a fé. Aqueles que forem fiéis receberão a coroa da vida. Deus, no Seu tempo, honrará àqueles que permanecerem fiéis a Sua Palavra.

           

"Todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não nem um sequer. a garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca eles a têm cheia de maldição e de amargura". (v.12-14)

 

            Paulo está baseando toda a sua argumentação em textos do Velho Testamento. Ele dividiu os seus argumentos em três estrofes. A primeira estrofe (v.10-12) é uma descrição e avaliação geral do homem em pecado. A segunda estrofe (v.13,14) demonstra o pecado em ação. A terceira estrofe (v.15-18) dá a causa geral de tudo isto: “Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

            Depois de falar que "não há um justo, nem um sequer,não há quem entenda, não há quem busque a Deus". (v.10,11), Paulo continua enumerando, com detalhes, os frutos da ausência de justiça. Ele vai dizer que

“Todos se extraviaram”. Esta é a conseqüência natural daqueles que não são justos, não entendem e não buscam a Deus. Existe aqui uma seqüência lógica. Paulo não escolheu estas declarações de qualquer jeito, ao acaso ou na sorte. É óbvio que ele tem em mente um esquema que está sendo desenvolvido.

            Percebam o seguinte: A Queda afetou a natureza humana corrompendo-a completamente. A partir de então ninguém é mais justo diante de Deus. O injusto é incapaz de entender e compreender as verdades de Deus. Se ele não consegue entender, ele é incapaz de buscar. Se ele não pode buscar, logo, ele vai se perder, se extraviar.

            “Todos se extraviaram” significa que todos “saíram do caminho”. Todos os homens voltaram às costas para Deus e seguiram em outra direção. Em vez de andarem pelo caminho estreito que conduz à vida, preferiram percorrer o caminho largo que conduz à perdição. Esta era a idéia de Isaías e Salomão quando disseram que: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas, cada um se desviava pelo seu caminho”. (Is. 53:6); “Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias”. (Ec. 7:29).

            Não há ninguém que ande no caminho correto, todos se extraviaram! Como uma ovelha que se desgarrou, o homem não vai pelo caminho de Deus.  O homem é incapaz de seguir pela estrada que o conduz ao céu. Paulo é taxativo e claro em afirmar: “Todos se extraviaram”.

            A crença que afirma que  “Todos os caminhos levam a Deus”, está completamente enganada. Todos os caminhos levam ao inferno! Homem nenhum é capaz de trilhar o caminho que o conduz a salvação.

            Paulo diz mais. Ele afirma que “à uma se fizeram inúteis”. Se o homem nasceu para o louvor da glória de Deus, e se ele se corrompeu, logo, ele tornou-se inútil. A palavra utilizada por Paulo para comunicar a idéia de inútil era a palavra usada para se referir ao leite que azedava. Naquela época o leite que azedava não servia para mais nada, ele se tornava inaproveitável, sem valor, inútil! Tal como o sal que perdeu o sabor ou como a fruta podre que não serve para mais nada, assim, todos os homens em pecado são vistos por Deus, como tendo se estragado.

            Paulo insiste: “Não há quem faça o bem”. Todo e qualquer ato de bondade de nossa parte está manchado pelo pecado. As ações dos homens estão poluídas na fonte. O pecado está no comando, ele arruína tudo. O homem natural não é capaz de realizar ações à altura dos padrões de Deus. Todo ato de bondade do homem está corrompido por algum sentimento pecaminoso. Jesus disse algo parecido quando afirmou o seguinte: “Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração; pois aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus”. (Lc. 16:15).

            Vamos entrar agora na segunda estrofe que mostra o pecado em ação. A primeira estrofe (v.10-12) foi uma descrição e avaliação geral do homem em pecado, agora vamos ver este pecado na prática. Para isto, o apóstolo faz a seguinte declaração: "A garganta deles é sepulcro aberto”.

            Talvez nada demonstre a perversidade do homem mais claramente que a sua língua. Afinal, “a boca fala do que está cheio o coração”.  (Mt. 12:34). Paulo seleciona o pecado da língua para ilustrar a universalidade da pecaminosidade humana. Com respeito a este mal, quem poderia alegar inocência?

            Paulo enfatiza a viciosidade da má garganta, mostrando como ela opera.         A garganta é comparada com um sepulcro aberto, o que sugere o desejo de devorar a vítima escolhida. Matamos, jogamos o outro dentro de uma cova ao falar mal dele!

            Diz o apóstolo que “Com a língua, urdem engano”. O sentido é de pessoas que falam falsidades, são bajuladoras, fingem, mentem ao elogiar alguém. Diz mais: “Veneno de víbora está nos seus lábios”. Paulo compara nossas maledicências ao veneno destilado pelas serpentes; algo que corrói, machuca, fere e mata! Ele não pára por aí, ele diz ainda que: “A boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura”. A humanidade inteira é culpada de imprecações, blasfêmias e maldições contra Deus.

            Paulo está nos versos 13 e 14 enfatizando terríveis pecados que são cometidos por esse pequeno órgão do nosso corpo que possui fogo do inferno! Tiago fala da língua como uma fonte que emite horrível amargor e coisas terríveis.

            Precisamos aprender a controlar a nossa língua! Não devemos falar mal de ninguém com ninguém! Isto é veneno de víboras! Isto é como jogar alguém numa cova! Isto é destilar maldição e amargura!

            Boatos, fofocas e maledicência não precisam de esclarecimentos, eles precisam é de arrependimento! Quem semeia fofoca, planta boato e fertiliza maledicência não precisa de informações, precisa de uma transformação de caráter, necessita de uma renovação de mente.

            A fofoca nunca nasce do respeito! A fofoca nunca reflete amor! Em vez de sustentar a carga uns dos outros, parecemos muitas vezes nos alegrar com elas. Muitos possuem um prazer secreto no infortúnio dos outros, para o seu próprio conforto. Paulo chama isto de “fruto da carne”. O Catecismo de Heidelberg fala disto como “assassinato oculto”.

            Cada vez que nos envolvemos em uma fofoca, estamos presumindo uma fraqueza nos outros que não consideramos em nós mesmos. Isto é uma falha em considerar o nosso próprio pecado de forma suficientemente séria. Não podemos ignorar o poder da língua em ferir e machucar as pessoas ao nosso redor!

            Em seu livro Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel Garcia Márquez nos mostra o poder que existe nas palavras. Ele conta a história do amor desesperado de Fiorentino Ariza por Firmina Dazza. Tudo começou quando eles eram muito jovens. Ele, um modesto escriturário numa firma de navegação, e ela, uma simples adolescente. Aqueles eram dias em que as filhas eram donas de seus sentimentos, não de seus corpos. Por causa disto, o amor de Fiorentino foi inútil. O pai de Firmina destinou um futuro mais promissor para sua filha, ele fez com que ela se casasse com o Dr. Urbino, próspero médico do local.

            Pobre Fiorentino quase enlouqueceu de amor a ponto de perder o emprego. Havia na cidade, uma praça onde rábulas e jovens advogados ganhavam um dinheiro extra escrevendo petições, requerimentos e documentos legais para o povo. Fiorentino não tinha inclinação nenhuma para escrever documentos legais, mas seu coração estava cheio de cartas de amor. E foi exatamente isto que ele se pôs a fazer. Coisa muito fácil de resolver: Se o freguês era homem, ele imaginava que a carta se dirigiria à sua amada Firmina; se fosse mulher, ele imaginava o tipo de carta que desejava receber.

            Um dia um jovem se aproximou e contou a sua história. Estava apaixonado por uma jovem com quem nunca havia conversado antes. Queria que Fiorentino lhe escrevesse a primeira carta. E assim se fez. Dias depois, uma jovem o procurou. Tinha uma carta em suas mãos. O homem que a havia escrito tinha de ser tão bonito quanto suas palavras. Ela estava apaixonada, mas não sabia o que escrever como resposta. Ela então passou a carta para as mãos de Fiorentino. A carta que aquela jovem recebera, era a carta que o próprio Fiorentino havia escrito dias antes.

            Desta forma, Fiorentino ficou por algumas semanas envolvido numa intensa correspondência amorosa consigo mesmo. À medida que as cartas passavam pelos namorados, elas realizavam o que diziam. Os amantes eram transformados segundo as imagens poéticas das palavras. A estória termina dizendo que eles, finalmente, se casaram. Passado algum tempo, descobriram o que havia acontecido e quando o seu primeiro filho foi batizado, Fiorentino foi o padrinho.

            Palavras de amor são imagens dentro do espelho: nós somos o espelho. A outra pessoa é bela porque vemos a nós mesmos belos. Somos espelhos falantes, como na estória da Branca de Neve. O personagem trágico da estória não é a menina, tolinha, que nada sabe, é a madrasta em seus diálogos com o espelho. Alguém que, no passado, lhe falara palavras que a refletiam bela, mas que agora lhe falava palavras que a faziam feia. E a bela mulher se metamorfoseou numa bruxa. E a madrasta quebrou o espelho. Pelo poder da palavra enfeitiçante, o belo se transforma em feio.

            Percebam como que as palavras possuem um poder enorme! “Quanto mais se tem consciência do valor das palavras, mais se fica consciente do emprego delas”. (Carlos Drumond de Andrade)

            Se existiu uma pessoa consciente do emprego das palavras, essa pessoa era Jesus. Ele era econômico e preciso no falar. Tudo o que falava tinha a precisão de uma cirurgia. Seus pensamentos escondiam verdadeiros tratados. Jesus sabia perfeitamente o que falava e quais as implicações de suas palavras.

            Nós também precisamos ter a sabedoria de falar apenas aquilo que vai edificar e abençoar o outro! Devemos lembrar do conselho do apóstolo Paulo: "A impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeie entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graça".

 

“São os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável diante de Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. (v. 15-20).

 

            Tendo-nos mostrado o pecado nas palavras, Paulo em seguida descreve o pecado em atos. “Os seus pés são ligeiros para derramar sangue”. Paulo nos lembra que todo homem é um assassino em potencial. Não somos assassinos de fato, mas a possibilidade existe.“Em seus caminhos há destruição e miséria”. Não existe descrição melhor para a humanidade. Destruição que leva à miséria e à desgraça: Causa e efeito. O pecado é essencialmente destruidor. Destrói o caráter e leva o homem a miséria. Vejam o poder destruidor da embriaguez, do vício, da avareza, do orgulho. Esta é a mais pura realidade! No caminho do pecado existe muita destruição e miséria!

            "Desconheceram o caminho da paz”. Paulo diz a mesma coisa de outra maneira. Devido conhecerem a destruição e a miséria, não conheceram a paz. Existem pessoas tão habituadas a atos de violência e injustiça, de selvageria e crueldade, que não sabem mais viver de forma humana e fraterna. Do seu coração jorram corrupção, maldade, violência, ódio, raiva... Salomão diz em Provérbios acerca dos justos: “Os seus caminhos são caminhos de delícias, e todas as suas veredas, paz”. (Pv. 3:17). Mas isto não acontece com os ímpios: “Os ímpios diz Deus, não tem paz”.

            Dante (poeta italiano), escritor da famosa “Divina Comédia”, ao ser exilado de seu lar em Florença, decidiu caminhar da Itália até Paris em busca do sentido da vida. Uma noite, já tarde, parou em frente ao portão de um mosteiro franciscano pedindo guarida. O frei que lhe abriu o portão lhe perguntou: “O que deseja?”. Em uma palavra, Dante respondeu: “Paz”. “Os ímpios diz Deus, não tem paz” (Pv. 3:17).

            "Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Aqui está a explicação para todos os males que Paulo descreveu anteriormente. Toda impiedade emana de uma desconsideração para com Deus. O temor de Deus é o freio pelo qual nosso instinto perverso é mantido sob controle. A remoção deste freio desencadeia uma série de reações impensáveis. As cobiças, as paixões, a aversão pela lei, tudo que Paulo citou é devido a falta de temor por Deus. A corrupção no Brasil jamais irá acabar: Falta o temor de Deus no coração dos políticos. A violência urbana jamais terá fim: Falta o temor de Deus no coração dos bandidos. Muitos crentes continuarão em seus pecados de estimação: Falta o temor de Deus no coração de tais pessoas!

            O sábio disse que: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Se não tivermos este alicerce como princípio, certamente que faremos tudo errado. Muitas práticas erradas e pecados cometidos é porque não há temor de Deus de nossa parte. Muitas vezes conhecemos o que é o correto e o que é errado, e fazemos o errado. Isto acontece porque não temos o temor de Deus. “A falta deste temor significa que Deus está excluído não apenas do centro de nossos pensamentos e decisões, mas de todo o horizonte de nossa mente; Deus não está em todos os nossos pensamentos. Figurativamente, Ele não está diante de nossos olhos. E isto é ateísmo puro e simples”. (John Murray).

            Existem vários tipos de ateus. Existem aqueles que não crêem em Deus por não encontrarem respostas para os dilemas da vida. Não conseguem compreender a existência de um Deus de amor com a presença do  sofrimento humano. Outros não crêem porque não encontram uma razão lógica e racional que explique os mistérios da fé: A criação do mundo, o dilúvio, o nascimento virginal, a ressurreição, céu, inferno. Diante de temas tão complexos, eles não conseguem crer em algo racionalmente absurdo. Estes dois tipos de ateus são "inofensivos". São apenas pessoas que buscam respostas. São honestas e não aceitam qualquer argumento barato como justificativa para suas grandes dúvidas. São sinceros e lutam contra uma incredulidade que os consome. Batalham contra uma falta de fé que nunca encontra resposta para os grandes mistérios da vida e de Deus.

            Contudo, há um outro tipo de ateu, mais dissimulado, que cresce entre os cristãos. É alguém que crê em Deus e não apresenta nenhuma dúvida quando aos mistérios da fé e da existência. Ele vai a igreja, canta, ora e chega até mesmo a contribuir. É religioso e gosta de conversar sobre os temas da religião. São ateus crédulos. O ateu moderno não é mais aquele que não crê, é aquele para quem Deus não é mais relevante: “Não há temor de Deus diante de seus olhos”. Este é o quadro que começa a ser pintado nas igrejas nos dias de hoje. Saem de cena os grandes heróis e mártires da fé do passado; entram em cena os apáticos e acomodados cristãos modernos.

            Os cristãos modernos crêem como os outros sempre creram, mas não se entregam como os outros se entregavam. Partilham das mesmas convicções, recitam o mesmo credo, cantam os mesmo hinos...mas o efeito é tragicamente diferente. É raro nos dias de hoje encontrar alguém em cujo coração arde o desejo de ver um parente, amigo da escola, vizinho, colega de trabalho convertido ao Senhor. Discipulado, conversão a Cristo e outras implicações, sumiram do nosso meio! Nossos filhos estão presenciando e aprendendo a viver desta maneira!

            O pior tipo de ateu é o ateu moderno! Citam o Credo Apostólico, mas o que crêem não tem nenhuma ligação com a forma como vivem. Jesus é apenas mais uma grife religiosa, não é uma pessoa que nos chama para segui-lo.

            O ateísmo moderno se caracteriza pela irrelevância da fé, do significado da igreja, da comunhão dos santos. Chamamos uma boa música de adoração, um convívio agradável de comunhão, uma moral sadia de santificação, assiduidade nos programas da igreja de compromisso com o Reino de Deus. “Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

            A verdade é que nos tornamos mais dependentes de nós do que de Deus. Acreditamos mais na eficiência do que na graça. Buscamos mais a competência do que a unção. Cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho. Deus se tornou irrelevante! O coração está cada vez mais abstrato, mais longe do Criador; centralizado naquilo que não é Deus; dependente das propagandas e estímulos religiosos; interessado no consumo espiritual do que numa relação com Deus. “Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

            O ateu hoje não é mais aquele que não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na sua rotina. A sutileza do novo ateísmo é que ele não precisa negar a fé, apenas cria substitutos para ela. Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador. “Não há temor de Deus diante de seus olhos”.

            Chegamos ao final da grande lista de citações que Paulo fez do Velho Testamento. Após isto, Paulo vai resumir tudo o que ele falou até aqui desde o verso 18 do capítulo 1. Ao mesmo tempo em que faz um resumo do que passou, ele faz uma introdução da doutrina da justificação pela fé.

            “Tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz”. Tudo o que o Velho Testamento afirma, ele o diz particularmente aos judeus. A lei que os judeus possuem provam que eles estão debaixo da ira de Deus. É isto que Paulo vai dizer no próximo verso: “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. O propósito da lei é expor o pecado do homem, é convencê-lo de sua culpa diante de Deus. Sendo assim, Paulo vai dizer que: “ninguém será justificado diante dele por obras da lei”. (v.20). Afinal o que a lei requer é impossível ao homem realizar.

            Paulo está dizendo o seguinte: “Eu provei para vocês, com a lei de vocês, que todos vocês são carentes da glória de Deus”. O motivo pelo qual Paulo faz isto ele mesmo nos oferece: “Para que se cale toda boca”.

            Paulo põe fim de uma vez por todas, a toda controvérsia e discussão acerca deste assunto da condenação dos judeus “Para que se cale toda boca”. Para que ninguém fale mais nada!

            Esta é a reação de todas as pessoas que realmente conhecem a sua pecaminosidade e quem é Deus de verdade. Jó no meio de sua dor começou a reivindicar o direito de se defender diante de Deus: “Ah, se eu soubesse, se eu soubesse onde o poderia achar. Então, me chegaria ao seu tribunal. Exporia ante ele a minha causa, encheria a minha boca de argumentos”. (Jó 23: 3, 4). Então chegou o momento em que Jó se viu na presença de Deus. Deus começou a falar com Jó, e qual foi a reação de Jó? “Sou indigno, que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca. Uma vez falei e não replicarei, aliás duas vezes, porém não prosseguirei”. (Jó 40: 4, 5). Isto aconteceu com o Jovem Rico. Ele chegou perto de Jesus cheio de si dizendo: “Todas estas coisas tenho observado”. “Sei de tudo sobre isto”. Estava a ponto de se autojustificar diante de Jesus. Jesus então lhe diz: “Ainda te falta uma coisa, vende tudo o que tens e dá aos pobres”. O jovem fica sem ter o que dizer, e sai contrariado em silêncio!

            Percebam o que Paulo expôs: Não há justo, nem um sequer; não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos de extraviaram, a uma se fizeram inúteis; Sua língua é sepulcro aberto, veneno de víbora, urdem engano, estão cheias de maldição e amargura; seus pés são velozes para derramar sangue; nos seus caminhos há destruição e miséria. Será que alguém ainda quer falar alguma coisa? Alguém tem a coragem de argumentar alguma coisa com Deus?

            No dia do juízo final Deus não vai precisar dizer nada! As pessoas irão reconhecer, sem nenhuma explicação, a sua pecaminosidade e a santidade de Deus. É por isto que todo joelho irá se dobrar. Os homens não vão ter o que falar. Todos os seus argumentos serão silenciados. Qualquer tentativa de desculpar-se será tombada por terra. As pessoas voluntariamente reconhecerão que Ele é o Senhor. Como o centurião elas irão entender “verdadeiramente este é o Filho de Deus”. Afinal, diante de Deus “Todo o mundo é culpável”  -  “Toda a boca se cala”.

            Quando todos estiverem em silêncio nós ouviremos uma voz que dirá: “Vinde a mim benditos de meu pai desfrutar por herança o Reino que tenho preparado antes da fundação do mundo”. Isto é justificação pela fé. Algo que Paulo vai começar a nos ensinar nos próximos versos.

 

“Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas”. (v.21)

 

            Até aqui Paulo demonstrou claramente que nenhum homem jamais poderá justificar-se na presença de Deus. Homem algum pode providenciar uma justiça que satisfaça as exigências de Deus. Este será sempre o primeiro passo na evangelização de qualquer pessoa: Demonstrá-la o seu pecado e o estado de condenação no qual ela se encontra. Ninguém pode tornar-se cristão de verdade a menos que entenda a sua falência espiritual. Não adianta falar em “vir a Cristo” se a pessoa não enxerga o seu desamparo.

            Diante deste fato, é complicado acreditar na grande parte das supostas conversões nos dias de hoje. Ninguém pode vir a Cristo em busca de algo como prosperidade, bênçãos, uma vida melhor...Para existir conversão bíblica, o homem precisa entender sua falência espiritual. Como entender isto se o pecado não é mais pregado nas igrejas? Como compreender esta realidade se o evangelho de hoje é hedonista? Como perceber tal verdade se as mensagens são fabricadas para massagear o ego humano?

            Uma mensagem que não mostre ao homem sua condição diante de Deus, não pode levar este homem a conversão. Uma perspectiva deficiente sobre o pecado e o pecador, conduz o incrédulo a uma visão deficiente quanto aos meios necessários para a sua salvação. O pecador precisa saber que é pecador para reconhecer sua necessidade de salvação.

            A Bíblia sempre inicia a evangelização a partir da convicção de pecado. Foi por isto que a Lei foi concedida antes de qualquer outra coisa, para revelar ao homem suas iniqüidades e pecados. Paulo vai dizer em Gálatas que “a Lei é o nosso aio para nos conduzir a Cristo”.Ou seja, ela nos mostra a nossa desesperada necessidade e, ao mesmo tempo, aponta para a vinda de Cristo. Um preceptor perfeito! Ela realiza as duas coisas que são essenciais: Convence do pecado e indica o caminho da salvação.

            Toda idéia de salvação que deixe de fora esta realidade é completamente defeituosa. Afinal, foi para nos salvar da condenação da Lei e da ira de Deus que Jesus veio e fez tudo o que fez. É por isto que Paulo inicia mostrando a verdadeira condição do homem diante de Deus.

             Tendo demonstrado esta verdade, o apóstolo passa a mostrar que há somente um meio de salvação. Ele diz: “Mas agora”. Graças a Deus porque na Bíblia sempre existe um “mas”. Sempre existe uma meia volta, uma metanóia. Existem situações de desespero e angústia em nossas vidas que parecem que não tinham volta, mas...  são revertidos por Deus. Os capítulos de 10 -15 de Provérbios fala muito destes “mas”.

            Estas duas palavras são usadas pelo apóstolo para introduzir o evangelho. Primeiro ele pinta aquele quadro de sombras e desesperança. Depois de fazer isso, ele diz “mas agora”. Ou seja antes eu estava perdido, “mas agora” estou salvo, justificado por Cristo; antes eu estava condenado, “mas agora” estou absolvido diante de Deus.

            Existe um hino de um homem chamado Matson que nos fala desta verdade que Paulo está descrevendo aqui.

Senhor, eu era cego; não podia ver

Em Teu desfigurado semblante a Tua graça.

Mas agora a beleza e o fulgor da Tua face

Em radiosa visão raiam sobre o meu ser.

 

Senhor, eu era surdo; não podia ouvir

A emocionante música de Tua voz.

Mas agora eu te ouço, e não como um algoz;

Todas as Tuas palavras são preciosas para mim.

 

Senhor, eu era mudo; não podia falar

Da graça e glória do Teu nome, e da sua fama.

Mas agora, tocados por divina chama,

Meus lábios teu louvor já podem entoar.

 

Senhor, eu estava morto; não podia ao Teu lado

Fazer chegar minha alma morta e destruída.

Mas agora que Tu me concedeste vida,

Eu saio da sombria tumba do pecado.

 

            Esta expressão é usada para ressaltar quem nós éramos e quem somos agora. Também salienta o aspecto histórico da questão. Paulo está lembrando que recentemente aconteceu algo que abriu uma nova possibilidade para o homem. Isto que aconteceu é algo que já estava escrito e “testemunhado pela lei e pelos profetas”. Este algo, é Cristo nos oferecendo Sua justiça através de Sua morte.

            Algumas indagações podem ser feitas quanto a esta questão, por exemplo: “As pessoas antes de Cristo tinham noção de que a Lei servia para revelar o pecado e não para redimi-las? Será que elas não tentavam cumpri-la acreditando que isto as levaria até o céu?”. Sem dúvida! Muitos tentavam cumprir a lei acreditando que isto as salvaria. Milhares nos dias de hoje fazem exatamente o mesmo! Milhares de pessoas do passado e do presente tentaram e tentam cumprir a lei, crendo que é isto que as salvará.

            Contudo, assim como hoje existem pessoas que possuem um correto entendimento bíblico, antes de Cristo também existiam pessoas com uma visão correta da lei e de justificação. Foi exatamente isto que Paulo afirmou quando disse que “foi testemunhado pela lei e pelos profetas”.

            Em várias partes do Velho Testamento percebemos a promessa divina da vinda de Jesus para justificar o homem. Vejamos alguns exemplos. Em Gênesis 3:15 encontramos a promessa acerca da semente da mulher que haveria de esmagar a cabeça da serpente. Na chamada de Abraão: “Abraão exultou por ver o meu dia”. (Jo. 8:56). O oferecimento de Isaque é uma representação de Cristo. Toda lei cerimonial do Velho Testamento aponta para Jesus; cada oferta queimada e sacrifício realizado era uma prefiguração do Cordeiro de Deus. O Salmo 22 é uma perfeita descrição da crucificação e morte de Jesus. Existem muitos outros salmos chamados de “messiânicos”. Em Isaías capítulo sete encontramos a profecia de que uma virgem daria a luz a um filho. Nos capítulos nove e onze encontramos outras profecias messiânicas. No capítulo quarenta, ainda de Isaías, encontramos a profecia sobre João Batista que iria preparar o caminho para o Messias. Em Jeremias encontramos o seguinte: “Este será o seu nome, com que o nomearão: O Senhor Justiça Nossa”. (Jr. 23:6), oi seja, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo.

            Todos estes exemplos demonstram a Lei dando testemunho da promessa de Deus que enviaria Jesus e os profetas predizendo o que Paulo está mencionando aqui. O próprio Jesus deu testemunho desta verdade: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras. A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprir tudo que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. (Lc. 24:27, 44).

            Tudo o que aconteceu com o nosso Senhor fora predito no Velho Testamento. As pessoas antes de Cristo não ficaram sem um testemunho da crucificação, não foram salvas pela Lei ou por suas obras, mas unicamente pela graça de Deus. Elas também foram justificadas pela fé (Rm. 4:2, 3). Mais á frente (3:31-4:22)  Paulo vai demonstrar como as pessoas que viveram antes dos dias de Cristo encontraram a salvação.

            "Sem Lei”. Que será que Paulo deseja transmitir com esta expressão? Algumas pessoas afirmam que Deus liquidou por completo com a lei. Isto ocorreu porque o homem não foi capaz de cumpri-la. Sendo assim, Deus providenciou algo mais fácil e simples para o homem. Agora é apenas uma questão de crer em Jesus, e pronto. A lei não se aplica mais a nós em nada. Tais pessoas afirmam que no Velho Testamento estamos debaixo da lei e no Novo Testamento estamos debaixo da graça.

            Tal pensamento está completamente equivocado! O verso 31 do capítulo 3 diz: “Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei”. A lei nunca desapareceu ou foi lançada para longe da vista de Deus. Não é isto que este verso significa. O que Paulo está querendo dizer com esta expressão é que a tentativa de cumprir a Lei de Deus como meio de salvação é uma farsa, é um engano! Não porque a Lei não seja mais importante ou não tenha nenhuma aplicação, mas porque outra pessoa prestou perfeita obediência à Lei em nosso lugar.

            “Se manifestou a justiça de Deus".  Esta expressão já empregada em 1:17 significa uma justiça providenciada por Deus, preparada por Deus, tornada acessível por Deus. O homem sempre tentou produzir uma justiça que satisfizesse os padrões de Deus. O jovem rico acreditou ter alcançado esta justiça: “Tudo isto tenho feito”. Paulo durante toda sua vida correu atrás desta justiça até cair do cavalo; depois ele percebeu que tudo que acumulou era como esterco perto da justiça de Cristo. Lutero vivia inquieto, cheio de temores de ser lançado no inferno; isto acontecia porque ele não conseguia satisfazer os padrões de Deus, até que ele descobriu que o “o justo viverá pela fé”. O homem sempre tentou salvar-se pelas suas próprias forças!

            Paulo diz que esta justiça, o próprio Deus é quem concedeu ao homem. Esse é o elemento grandioso da salvação: O homem não apenas tem os seus pecados perdoados, além disso, ele é revestido da justiça de Cristo. Ter os pecados perdoados não é suficiente para a salvação, isto não nos admitiria no céu. Precisamos ser considerados justos diante de Deus. É como se existisse um grande poço cheio de esterco. Nós precisamos retirar todo o esterco e enchê-lo de água pura e limpa. Por nós mesmos não conseguimos remover o esterco. Mas ainda que conseguíssemos remover todo o esterco, ainda assim precisaríamos enchê-lo de água. O problema é que nós não temos uma única gota de água para encher este poço!

            É aí que entra a justificação! Ter os pecados perdoados (limpar o esterco do poço) é importante, mas não basta! É preciso encher o poço com água limpa e pura: A justiça de Deus. Só assim seremos aceitos diante de Deus e poderemos entrar no céu. Foi isto que Jesus fez: Retirou o esterco (perdoou os nossos pecados) e encheu o poço de água limpa (nos concedeu a justiça que era dEle).

            O perdão por si só não basta! Antes de sermos admitidos no céu, precisamos ser revestidos da justiça divina. Do contrário seremos como aquele homem da parábola (Mt. 22) que estava sem vestes nupciais. Ele foi lançado fora, porque não estava vestido com a justiça de Cristo. Temos necessidade de uma justiça positiva, e esta justiça nos é concedida por Deus: “Se manifestou a justiça de Deus”.

            Se o amigo leitor percebeu, dividimos a expressão em duas. Primeiro falamos da expressão: “sem lei”, depois analisamos a expressão: “se manifestou a justiça de Deus”. Contudo, a verdade principal está na união das duas expressões. Para entender o que Paulo quer nos mostrar é preciso analisar a expressão na sua totalidade. Ao olhar para ela como um todo percebemos que a justiça divina vem sobre o homem independentemente do cumprimento da lei, ou seja “sem lei”. Em outras palavras, qualquer realização humana (sacrifícios, penitências, boas obras, cumprimento da lei) é capaz de contribuir para a sua justificação. Entender isto é muito importante, afinal, muitas religiões acreditam na graça que salva e santifica; no entanto, acreditam que o homem incrementa a justificação com boas obras. Ou seja, o homem contribui com alguma parcela neste processo. Ao afirmar que “sem lei, se manifestou a justiça de Deus”, Paulo deixa claro que na justificação não há qualquer contribuição humana. Tudo depende de Deus!

            “Testemunhada pela lei e pelos profetas”. Paulo iniciou esta epístola mostrando que o seu ensinamento não é exclusivo dele ou do Novo Testamento:“Separado para o evangelho de Deus, o qual foi por Deus, outrora, prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras”. (1: 1,2) Ou seja, tudo que o apóstolo crê e prega está baseado no Velho Testamento. Em 3:10-12 ele demonstrou novamente que seus ensinamentos estão baseados no Velho Testamento. Para evitar qualquer discrepância entre o passado e o presente, o apóstolo nos lembra que esta justiça de Deus fora testemunhada pela lei e pelos profetas. O Velho Testamento, da mesma forma que o Novo Testamento, mostra a condição perdida da humanidade e os meios de salvação. Não existe uma linha divisória entre o ensino do Velho e do Novo Testamento. A Bíblia contém uma única mensagem!

            Porque Deus resolveu justificar o homem pecador é um mistério que jamais seremos capazes de entender plenamente. Tal amor é infinito e incompreensível. Em II Coríntios 9:15, Paulo derrama o seu coração ao dizer que: “Graças a Deus por seu indescritivelmente precioso dom”. O Deus Triuno decidiu libertar o homem do maior mal e colocá-lo na posse do maior bem. Para que isto se realizasse, Ele pagou um preço muito alto: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. (II Cor. 5:21). Esta é uma questão que “os anjos desejam perscrutar”. (I Pe. 1:12). É algo tão maravilhoso que em Efésios, Paulo ora para que seus leitores pudessem: “Compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento”. (Ef. 3:18, 19).

 

“Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem, porque não há distinção”.  (v.22)

 

            Pela primeira vez na epístola, Paulo relaciona diretamente a justiça de Deus com a obra redentora de Cristo. Esta justiça, proporcionada por Jesus vem sobre cada homem: “Mediante a fé em Jesus Cristo”.

            Mas o que seria a fé? Esta pequena palavra possui um significado muito vasto. Centenas de livros tem sido escritos; seminários, palestras e conferências tem abordado este tema tão importante e discutido. Em nome da fé atrocidades têm sido cometidas.            Se não tivermos um correto entendimento da fé toda nossa doutrina da salvação ficará comprometida. Portanto, analisar algumas questões básicas da fé é fundamental.

            Dois versículos bíblicos nos mostram como é vã toda a atividade religiosa onde não existe a fé: “De fato sem fé é impossível agradar a Deus” (Hb. 11:6) ; “A palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé, naqueles que a ouviram” (Hb. 4:2).

            Se a fé não estiver em operação, Deus não é honrado e a alma não é edificada. O que o fôlego é para o corpo, a fé é para a alma. Para que Deus seja glorificado, a fé precisa estar presente em todas as atividades do cristão: Na leitura da palavra: “Estes, porém, foram registrados para que creiais” (Jo. 20:31); no ouvir da pregação: “A pregação da fé” (Gl. 3:2); na oração:Peça-a, porém com fé, em nada duvidando”. (Tg. 1:6); Na vida diária: “Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no filho de Deus” (Gl. 2:20).Em nossa partida deste mundo: "Todos estes morreram na fé” (Hb. 11:13).

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”. (v.23)

 

            Paulo afirma que a justiça de Deus que “foi testemunhada pela lei e pelos profetas” (v.21), vem sobre o homem “mediante a fé em Jesus Cristo”. Esta justiça “não faz distinção, pois todos pecaram”. Todo homem necessita desta justiça, afinal, “não há justo, nem um sequer”. (v.10).

            “Todos pecaram”. Quando foi que todos pecaram? No ato de Adão. Ele nos representava. Se estivéssemos no seu lugar, faríamos exatamente o mesmo:“Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. (Rm. 5:12).

            A prova maior de que “todos pecaram” é a morte. Se existisse um homem que não tivesse cometido pecado ele não morreria! Por que é que Jesus morreu? Em Gálatas 3:13 Paulo nos lembra que Jesus assumiu o pecado de todos nós. Este é um excelente argumento para provar que não existem bebês inocentes. Uma grande prova de que os nenéns não são inocentes é a possibilidade deles morrerem, afinal, só morre aquele que é contaminado pelo pecado, afinal:“o salário do pecado...”. Se os bebês morrem, logo, isto é um sinal claro de que eles já são pecadores!

            Os tempos verbais usados por Paulo neste verso englobam tanto o passado quanto o presente. No passado, todos pecaram; no presente, todos carecem. Primeiro uma expressão que fala de uma ação realizada de uma vez por todas. Depois uma ação que continua no presente.

            Imagine que Deus dissesse o seguinte: “Eu vou julgá-lo, com base no que você fez da sua vida até agora”. Nós provavelmente responderíamos: “Mas o que eu fiz foi pecar a vida toda”. Estaríamos completamente condenados! Mas se Deus disse o seguinte: “Tudo bem, eu ignoro o passado e passarei a julgá-lo de hoje em diante”. Ninguém é estúpido a ponto de achar que, daqui para frente não pecaremos mais. Ainda que começássemos hoje continuaríamos condenados! Não apenas pecamos no passado, continuamos pecando no presente e no futuro! Isto nos lembra da verdade da segunda parte do versículo: somos carentes da glória de Deus!

            A palavra utilizada por Paulo para “carecem” é a mesma utilizada por Jesus na parábola do Filho Pródigo. Após perder tudo quanto possuía, aquele garoto começou a “padecer necessidades”. Não tinha mais dinheiro, não tinha alimento, ele começou a “padecer necessidades”. Ou seja, ele tinha falta de tudo. O mesmo se aplica a esta passagem de Romanos. Todo pecador é um ser completamente falido espiritualmente. Os pecadores são pessoas que padecem necessidades, tem falta de tudo, carecem de Deus. Isto é o que cada homem precisa entender para ser salvo: Sua carência espiritual.

            A graça só é concedida ao que se reconhece necessitado. Um grande exemplo disto pode ser visto com Adão (Gn. 2: 19, 20). Deus criou todos os animais aos pares e o homem sozinho. Ao dar nomes aos animais, Adão percebeu os pares e “não encontrou uma ajudadora que lhe fosse idônea”. (v. 20). A melhor tradução diz que “o homem não encontrava o ser correspondente”.   Então surgiu no coração do homem o sentimento de necessidade, e aí Deus criou a mulher. Portanto, podemos afirmar que as mulheres são fruto da graça de Deus.

            É por isto que a Bíblia diz que é difícil um rico entrar no céu. Estas pessoas não se reconhecem necessitadas, por isso estão excluídas da graça. Já os pobres estão mais perto da graça de Deus porque são pessoas carentes e dependentes da vida. A menos que aprendamos esta verdade, jamais seremos alcançados pela graça de Deus. Todos nós carecemos da glória de Deus!

            Mas o que seria “a glória de Deus” que nos faz falta e da qual estamos destituídos? É difícil dizer exatamente o que Paulo tem em mente quando fala da “glória de Deus”. É complicado porque não existe uma expressão correspondente a esta em todo o Novo Testamento. Contudo, existem pelo menos três possibilidades. Primeiro: Deixar de render glória a Deus, de fazer aquilo que contribui para o louvor da sua glória. (Lc. 17:18; At. 12:23; I Cor. 10:31). Se esta fosse a interpretação correta seria normal Paulo usar o vocábulo “dar”. Vocábulo este que aparece em todos os versículos que nos ordena dar glória a Deus. Então o verso ficaria assim: “Todos pecaram e carecem de dar glória a Deus”. Segundo: Deixar de receber a glória, honra ou a aprovação que são proporcionadas por Deus. (Jo. 5:41, 44; 8:50; 12:43). Se esta fosse a interpretação correta seria normal Paulo dizer: “Todos pecaram e carecem da glória que vem da parte de Deus”. Terceiro: Ficar aquém do refletir a glória de Deus, não conformar-se a Sua imagem. (I Cor. 11:7; II Cor. 3:18). Quando pecamos, deixamos de refletir a glória de Deus. O pecado nos impede de mostrar ao mundo a glória do Criador. “Todos pecaram”, sendo assim, estão impedidos de refletir a glória do Senhor. Estamos carentes, destituídos daquela perfeição inicial que reflete a perfeição divina. Estamos destituídos da glória de Deus.

            “Todos pecaram”. O que seria o pecado? Millard Erickson em sua teologia sistemática define pecado como: “Qualquer falta de conformidade, ativa ou passiva, com a lei moral de Deus. Isso pode ser uma questão de ato, de pensamento ou de disposição”. A Bíblia apresenta uma série de imagens para definir o que é pecado: Um coração duro e uma cerviz endurecida; errar o alvo, desviar-se do caminho, afastar-se do aprisco; cegueira, surdez; ultrapassar a linha ou não conseguir alcançá-la; transgressão, incapacidade.

            Que salvação gloriosa é esta! Ela não apenas nos concede perdão e justiça, ela devolve-nos a glória roubada. “Aos que justificou a estes também glorificou”. (Rm. 8:30)

 

“Sendo justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus”. (v.24)

 

            Este é, sem sombra de dúvida, um dos grandes versículos da Bíblia. É uma declaração comparável a João 3:16. este verso é um ótimo resumo da fé cristã.

            A palavra justificação deve ser entendida sempre em seu contexto. Se ela não for entendida no contexto em que aparece problemas sérios podem acontecer; um exemplo disto é Romanos 3:28 e Tiago 2:24. Em Romanos 3:28 encontramos o seguinte: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”; já em Tiago 2:24: “Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé somente”.

            Se a palavra “justificado significa a mesma coisa em ambas as passagens, estamos diante de uma contradição. Dois escritores bíblicos ao tratar do nosso destino eterno estão entrando em contradição? Paulo nos diz que a justificação se efetua pela fé, sem as obras; Tiago nos informa que é pelas obras e não apenas pela fé. Para piorar a situação, Paulo nos diz em Romanos 4: 3, 9, que Abraão foi justificado quando creu na promessa de Deus, ou seja, Abraão foi justificado em Gênesis 15; já Tiago vai dizer que: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado quando ofereceu, sobre o altar, o próprio filho Isaque?”.(Tg. 2:21).Para Tiago, Abraão foi justificado em Gênesis 22.

            Este problema é facilmente resolvido quando examinamos a palavra justificação dentro do contexto em que ela foi escrita. Então vejamos, “justificação” pode significar: Confirmar (defender). Jesus certa vez disse o seguinte: “Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos”. (Lc. 7:35). Jesus está dizendo que a sabedoria restaura o homem à comunhão com Deus? Obviamente que não! Justificar neste texto possui o sentido comum e não o significado teológico de salvação. O significado da palavra justificação no evangelho de Lucas é que uma ação sábia produz (confirma) bons frutos, ou seja, a sabedoria é confirmada pelos resultados. Portanto, encontramos aqui uma referência da palavra justificação com o sentido de confirmar.

            É neste sentido que Tiago utiliza a palavra justificação. Ao examinarmos o contexto de Tiago percebemos que ele está tratando de uma questão diferente de Paulo. “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disse que tem fé, mas não tiver obras? Pode acaso semelhante fé salvá-lo?”. (Tg. 2:14). Tiago está levantando a pergunta sobre que tipo de fé é necessária para a salvação. Ele vai dizer que a fé verdadeira produz obras. Por outro lado, ele chama a fé sem obras de “fé morta”.

            Tiago deseja mostrar que algumas pessoas afirmam possuir fé, quando na verdade esta fé não existe! Tiago, então, mostra que a alegação de ter fé é justificada (confirmada) pelas obras. A justificação de Abraão foi justificada (legitimada, confirmada) pelos seus frutos. Os reformadores diziam o seguinte sobre isto: “Justificação só pela fé, mas não por uma fé que está só”.

            O segundo sentido da palavra justificação é: Restaurar a um estado de reconciliação com Deus aqueles que se encontram sob o julgamento da lei. É neste sentido que Paulo utiliza a palavra justificação.

            No Dia do juízo final seremos declarados justos diante de Deus. Mas não é sobre isto que Paulo está se referindo aqui. Pelo contrário, Deus nos garante, que agora, no presente imediato, somos declarados justos. No momento em que exercemos a fé, Deus nos declara justos. Desde o instante em que cremos, isto passa a ser uma realidade a nosso respeito. O verbo está no presente: “sendo”.

            A importância desta ênfase no presente transparece claramente na história de Lutero. Lutero foi criado no catolicismo romano, onde aprendeu que é impossível ter plena certeza da salvação. Por isso, ele tinha de depender da igreja e das diversas obras realizadas. Contudo, ao se deparar com esta doutrina de que a bênção é possível agora, Lutero teve sua vida completamente transformada!

            “Sendo justificados”, significa que neste exato momento nós somos vistos como pessoas justas aos olhos de Deus. Se não fosse deste jeito Deus não se relacionaria com nenhum homem. É impossível a um Deus santo se relacionar com pecadores miseráveis. Nossas orações são atendidas, nossos louvores são aceitos, nosso culto é cheiro suave ao Senhor, unicamente porque Deus já nos enxerga como pessoas justas diante dEle! Deus não se relaciona com nada que é manchado pelo pecado!

            Alguém pode alegar o seguinte: “Mas eu ainda sou pecador. Ainda cometo muitos pecados”. Mas isto não anula a verdade de que neste momento você já está justificado aos olhos de Deus. Vejam o que disse Paulo em no capítulo 8:1: Agora, pois, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. “Isto significa que eu posso continuar pecando, e mesmo assim, serei visto como uma pessoa justa diante de Deus?”. Quem pensa assim nunca entendeu o que é justificação. Aquele que usa este argumento prova claramente que nunca foi justificado.

            É neste momento que precisamos entender a diferença entre justificação e santificação. Embora não possam ser separadas uma da outra, elas devem ser diferenciadas em nossa mente.

            A justificação é um ato e a santificação é um processo. A justificação ocorre uma única vez, enquanto que a santificação é um longo processo que perdura até o final das nossas vidas.

            A justificação ocorre fora do homem, a santificação tem lugar no íntimo da pessoa. Metaforicamente falando, a justificação é o ato de um juiz; é aquilo que um juiz declara a nosso respeito. A santificação consiste no trabalho de um cirurgião; é algo feito em nosso interior.

            Ninguém cresce com a justificação, somente com a santificação.

            Na justificação somos passivos, na santificação temos uma parte de ação. Embora tudo proceda da graça de Deus, na santificação temos uma parte ativa. Compete-nos fazer uso dos meios de santificação: A Palavra de Deus, a oração, a obediência aos mandamentos, as ordenanças e a adoração. Certamente que Deus está ativo nos dois processos. É Ele quem concede vida a pessoa morta em delitos e pecados – justificação- (Ef. 2:1) É Ele quem concede a fé para esta pessoa crescer em Cristo (santificação): “Aquele que começou a boa obra em vós a de completá-la”. (Fp. 1:6).

            "Sendo justificados gratuitamente".Será que conseguimos enxergar como a Bíblia é clara com respeito à salvação? Se estas palavras de Paulo não mostram que a salvação só é possível através da graça, não existem outras palavras para provar esta verdade. Não existe nenhum texto mais claro do que este. Paulo é muito claro: “Justificados gratuitamente”. Para reforçar sua idéia Paulo nos diz que: “Justificados gratuitamente por sua graça”. Ele usa duas vezes a mesma expressão. Ele confirma o que já havia dito no verso 20: “ninguém será justificado diante dele por obras da lei”.

            Paulo não deixa margem para nenhum dúvida, a salvação é um dom de Deus! Não há condições a serem cumpridas, nem mérito a ser ganho. Não há pré-requisitos para que o pecador seja declarado “sem culpa”. Que condições Zaqueu, a samaritana, o carcereiro, o próprio Paulo cumpriram para serem justificados? "Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo há quantos hão de crer nele para a vida eterna". (I Tm. 1:16).

            Paulo foi justificado, sem merecer, como “um modelo” de justificação gratuita de Deus. Que condições o ladrão na cruz teve de cumprir para ser justificado? Ele era um notório pecador! Ele tinha razão para esperar uma resposta feliz ao seu pedido: “Lembra-te de mim?”. Sua justificação foi unicamente um ato de graça de Deus!

            Antes de tornar-se cristão, Paulo realizava muitas coisas acreditando que desta maneira ele seria declarado justo diante de Deus. O mesmo acontece com milhares de pessoas nos dias de hoje. Entendem que são as suas boas obras, que os colocarão numa boa condição diante de Deus. Contudo, ao cair do cavalo, Paulo percebeu que o processo é exatamente o oposto do que ele sempre acreditou. Primeiro Deus declara o homem justo, depois este homem trabalha para Deus. Deus declara o homem justo no início da jornada cristã, não no fim. Se Deus declara o homem justo no início do percurso, logo, não pode ser com base nas obras, afinal este homem ainda não realizou nenhuma obra!

            Esta verdade pode ser melhor percebida no texto de Romanos 5:8: “Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores”. Percebam, Deus justifica aos ímpios! Sendo assim, nosso perdão não pode ser resultado de nada que existia em nós! Afinal, éramos pecadores quando Deus nos justificou.

            Existem muitas outras passagens das Escrituras que provam que a justificação é somente pela graça: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. (II Cor. 5:21). É claro que Cristo não “foi feito pecado” por pecar realmente. Jesus não foi punido por algum pecado que Ele tenha cometido. O único modo pelo qual Jesus poderia tomar sobre Si os nossos pecados foi aceitá-los como Seus. Em outras palavras, nossos pecados foram imputados a Ele.

            Paulo afirmou que o mesmo método foi usado tanto para imputar o pecado como para imputar a justiça. Sendo assim, podemos deduzir que uma pessoa inocente (Jesus) só pode ser feita pecadora por imputação. Uma pessoa culpada (raça humana) só pode ser feita justa também por imputação. Da mesma forma, como nenhum ato criminoso da parte de Cristo O fez pecado, assim também, nenhuma atividade santa de nossa parte nos faz justos diante de Deus.

            Não somos justificados pela nossa própria justiça. Deus graciosamente imputa a nós a justiça de Cristo. É isto que Paulo está dizendo ao afirmar que somos “justificados gratuitamente”.

            “Por sua graça".  É isto que faz do Evangelho uma realidade que ultrapassa o entendimento e a compreensão do homem. É Deus, e unicamente Deus, quem providencia a nossa salvação. Aquele a quem temos desafiado, desobedecido e provocado. Aquele contra quem nos rebelamos e pecamos. É este Deus que nos reconcilia gratuitamente com Ele!

            “Mediante a redenção que há em Cristo Jesus”. A graça de Deus, a redenção, é gratuita para todos nós. Contudo, essa gratuidade não significa que ninguém tenha pago a conta. A ênfase sobre a graça gratuita não elimina o meio através do qual ela entra em operação. A razão de termos esta gratuidade deve-se ao fato de que Jesus pagou o preço! Ou seja, cada pecado foi pago! Deus não abriu mão de que a justiça fosse satisfeita! É de graça para nós, mas para Deus custou um “alto preço”. No capítulo 5 verso 9 Paulo vai falar que fomos “justificados pelos seu sangue”. Somos declarados justos por causa do valor da vida e da morte de Cristo a nosso favor. A própria palavra “redenção” traz a idéia de um resgate por meio de pagamento.

            Paulo falou do pecado (v.23) e agora falou da graça (v.24). Isto deve sempre ser assim, afinal, falar do pecado sem falar da graça é minimizar a ressurreição de Jesus e falar da graça sem falar do pecado, certamente não é melhor. Fazer isso é trivializar a cruz de Cristo, é baratear a graça de Deus que sempre vem a nós manchada de sangue.

 

“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”. (v. 25)

 

            “A quem Deus propôs”. Não podemos negligenciar o papel de Deus Pai em nossa salvação. Paulo apresenta o Pai como Aquele que tomou a iniciativa para a salvação do homem, a mesma verdade que encontramos em João 3:16: “Porque Deus amou o mundo”.“Quem entregou Jesus para morrer? Não foi Judas por dinheiro, não foi Pilatos por temor, não foram os judeus por inveja, mas o Pai por amor”. (Octavius Winslow)

            “Como propiciação”. Propiciação é o mesmo que apaziguar, aplacar, afastar a ira. A Arca da Aliança continha o vaso de ouro com o maná, a vara de Arão e as tábuas da Aliança. Em cada parte da Arca existia um querubim representando a presença de Deus. Entre os querubins e os objetos da arca existia uma tampa de ouro chamada de propiciatório. A Lei dada ao homem embaixo, Deus em cima olhando para esta lei e entre eles o propiciatório. Aquilo que para os judeus foi dado figuradamente, para o mundo foi exibido na realidade. Paulo nos lembra que mediante a cruz, Jesus aplacou a ira de Deus: “como propiciação”.

            Esta idéia de propiciação nos lembra que Deus, à parte de Cristo, está sempre irado conosco. Deus não nos odeia como seres viventes, o que Ele odeia é a impureza que retira do homem a imagem dEle. Quando esta impureza é removida (propiciação), então Ele nos ama como feituras suas. A maior prova desta verdade é a encarnação de Cristo: O fato de Deus ter se tornado totalmente humano salienta o fato de que o problema repousa não em nossa humanidade, mas na nossa pecaminosidade. Estamos em disparidade com Deus não porque somos humanos, mas porque somos humanos pecaminosos.

            “Para demonstrar a sua justiça".  Ao propor Cristo como propiciação, o Pai mostra sua retidão moral. Somente alguém perfeito em sua moral poderia servir como propiciação. Se Deus propôs a Jesus é porque Ele era perfeitamente reto em seus caminhos.

            “Por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos”. Paulo nos diz que antes da morte de Cristo, os pecados das pessoas foram tolerados por Deus até a cruz. Os sacrifícios de animais serviram apenas como um símbolo daquilo que Cristo iria realizar. Nenhum daqueles sacrifícios era capaz de perdoar a iniqüidade humana. É por isto que a redenção de Jesus tem eficácia prospectiva bem como retrospectiva.

            “Mediante a fé”. A morte de Cristo não é propiciatória para todos. Ela só abrange “os que crêem” (v.22), aqueles que exercem a fé. Paulo é claro ao demonstrar que Jesus não morreu por todos. A expiação limitada precisa ser uma doutrina mais defendida e pregada; afinal, se todos estão no caminho para o céu, qual é a vantagem em se lutar por santidade?       

            Se for verdade que Jesus morreu por todas as pessoas, teremos três problemas sérios para resolver com a Palavra de Deus. Primeiro, afirmar que Cristo morreu por todos os homens é a maneira mais rápida de provar que Ele não morreu por ninguém! Se Ele morreu em lugar de todos, e nem todos são salvos, então Ele falhou em seu objetivo. Como eu posso confiar que Ele vai me salvar? Se Ele morreu por um amigo meu que foi para o inferno, quem garante que eu também não vou? Alguém vai dizer: “Mas você acreditou nele”. Neste caso, o mérito está na minha fé e não no sacrifício de Cristo, eu fui salvo não porque Cristo morreu por mim, mas porque eu tive fé. Isto é salvação pelas obras (o homem produzindo fé) e não pela graça. Isto é blasfêmia! Se Cristo morreu por pessoas que vão para o inferno, não podemos chamar seu sacrifício de “obra redentora”.

            O segundo problema encontrado nas Escrituras ao afirmamos que Jesus morreu por todos os seres humanos é que se foi intenção de Cristo redimir todos os homens, Jesus é um derrotado! Quando Jesus morreu já existiam pessoas no inferno. Jesus estava derramando seu sangue por elas? Será que Jesus seria tão tolo? O Pai puniu o Filho por causa dos pecados dos eleitos: “Aquele que não cometeu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus”. (II Cor. 5:21) Como pode Cristo sofrer por aqueles que também irão sofrer no inferno por seus pecados? Isaías nos diz que Jesus “viu o fruto do seu trabalho e ficou satisfeito”. Como Ele pode ficar satisfeito se as pessoas pelas quais Ele morreu são lançadas no inferno?

            Terceiro, é incoerência afirmar que Jesus derramou seu sangue pelos pecados dos que perecem. Os que perecem, perecem porque são incrédulos. Em outras palavras, ou nas palavras dos arminianos, os incrédulos rejeitaram a Cristo. Incredulidade, segundo a Bíblia, é pecado. Cristo morreu por este pecado? Se Cristo morreu por todos os pecados porque esta pessoa é condenada? Ou será que Cristo morreu por todos os pecados menos o da incredulidade?

            A Bíblia é clara ao afirmar que Cristo não morreu em vão. Agora, se Cristo morreu por pessoas que irão para o inferno, Ele não morreu em vão? Repito, quando Cristo morreu, já existiam pessoas no inferno! O Deus da Bíblia não é tolo a ponto de sacrificar seu Filho por pessoas que Ele não vai salvar! “A doutrina da redenção universal é realmente o maior opróbrio à dignidade do Filho de Deus e do mérito do seu sangue”. (George Whitefield)

            Se Jesus morreu por todos os homens, então o evangelho deveria ter sido anunciado a todos estes homens. Contudo, sabemos que não é isto o que acontece. Nações inteiras já pereceram e ainda perecem sem nunca ter ouvido sequer o nome Jesus.

            Se Jesus morreu por todos os homens, então todos estão livres da ira e do julgamento de Deus. Contudo, nas Escrituras está claro que nem todos os homens estão livres da ira de Deus.

            Se Jesus morreu por todos os homens, então Deus seria injusto punindo ao mesmo tempo Jesus e aqueles que Ele substituiu com sua morte. Portanto, Cristo não pode ter sido o substituto de todos os homens.

            Em várias ocasiões a Bíblia nos mostra que Jesus não morreu por todos os homens. “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a sua descendência; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. (Gn. 3:15). Este é o primeiro versículo bíblico no qual Deus indica que há uma diferença entre o povo de Deus e seus inimigos. “Sua semente” (da mulher) significa Jesus Cristo e, portanto, todos os crentes em Cristo. A profecia sobre a semente da mulher é cumprida em Cristo e em seu povo. “Tua semente” (da serpente) significa todos os homens incrédulos do mundo. Desde que Deus prometeu inimizade entre a semente da serpente e a semente da mulher, fica óbvio que Cristo – a semente da mulher – não morreu pela semente da serpente – os incrédulos.

            “Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. (Mt. 7:23) Cristo declara que há pessoas que Ele jamais conheceu. Contudo, em outro lugar ele diz que conhece todo o seu povo: “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem”. (Jo. 10:14). Será que Jesus não conhece aqueles por quem Ele morreu? Se há alguns que Ele não conhece, então Ele não pode ter morrido por eles!

            “Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai; e ninguém conhece plenamente o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece plenamente o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. (Mt. 11:25-27). Estas palavras deixam claro que há alguns homens Deus esconde o Evangelho. Se é a vontade do Pai que o evangelho não seja revelado a eles, Cristo não pode ter morrido por eles. Precisamos notar também que, Jesus agradece ao Pai por fazer esta diferença entre os homens. Uma diferença que alguns homens se recusam a acreditar.

            “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a redenção dos nossos delitos, segundo as riquezas da sua graça”. (Ef. 1:7). Se o sangue de Cristo foi derramado por todos, então todos devem ter esta redenção e este perdão. Contudo, sabemos que esta não é a realidade!

            “Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me tens dado, porque são teus”. (Jo. 17:9). É claro neste texto que a intercessão de Cristo não é por todos os homens. Da mesma maneira, a sua morte também não o foi!

            “Vós, maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela”. (Ef. 5:25) O amor de Cristo por sua igreja é usado como exemplo de como o homem deve amar a sua esposa. No entanto, se Cristo amou outros tanto quanto a sua igreja, até o ponto de morrer por eles, então, os homens podem amar outras mulheres além de suas esposas!

            “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; a essas também me importa conduzir, e elas ouvirão a minha voz; e haverá um rebanho e um pastor. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão”.(Jo. 10:11, 15, 16, 27,28).Este texto do evangelho de João deixa claro que nem todos os homens são ovelhas de Cristo. A diferença entre os homens (salvos e perdidos) um dia será muito óbvia. As ovelhas de Cristo são identificadas como “aquelas que ouvem a voz de Cristo”. Quem não é ovelha de Cristo não ouve a sua voz! Alguns que ainda não são identificados como ovelhas já estão escolhidos e se tornarão conhecidos.Eles são designados como “outras ovelhas”. Cristo não morreu por todos, mas especificamente por suas ovelhas. Aqueles por quem Cristo morreu são os que Lhe foram dados pelo Pai. Ele não pode, então, ter morrido por aqueles que não Lhe foram dados.

            Será que conseguimos entender que Jesus não foi a propiciação para todas as pessoas? Ele aplacou a ira de Deus apenas sobre aqueles por quem Ele morreu. Aqueles que não tiveram a ira de Deus aplacada irão para o inferno.

            Alguém pode perguntar: "Por que eu? Por que Jesus resolveu me escolher para ser justificado gratuitamente por sua graça?". É algo que nossa mente não entende, mas que arde e brilha em nossos corações.

 

“A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos. Para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus”. (v. 26)

 

            “Por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”. O escritor de Hebreus estava desejoso de que os leitores entendessem a Antiga Aliança e os sacrifícios que o povo apresentava anteriormente. Eles precisavam entender que aqueles sacrifícios jamais foram capazes de produzir o perdão de pecados. O máximo que eles podiam realizar era a “purificação da carne”.  (Hb. 9:13). Ajudava na purificação cerimonial, habilitava as pessoas a continuarem orando a Deus, contudo, não havia, sob a Antiga Aliança, nenhum sacrifício que pudesse dar ao pecado o devido tratamento. Tudo que aqueles sacrifícios faziam era apontar para o futuro sacrifício que viria. Este sim poderia reconciliar o homem com Deus.

            Alguém pode dizer o seguinte: “Quer dizer então que os santos do Velho Testamento não tiveram seus pecados perdoados?”. Não é isto que Paulo está alegando aqui. É óbvio que eles foram perdoados e davam graças a Deus pelo perdão. Contudo, não foram perdoados por causa dos sacrifícios que eram oferecidos naquele tempo. As pessoas do Velho Testamento foram perdoadas porque olhavam para Cristo. Elas não entendiam perfeitamente, mas acreditavam no ensino, faziam suas ofertas pela fé. Tais pessoas acreditavam na Palavra de Deus, segundo a qual, um dia Ele providenciaria um sacrifício perfeito para remissão de seus pecados.

            Esta verdade nos deixa diante de um problema. Deus sempre se revelou como um Deus que odeia o pecado e que iria punir este pecado. Agora nos deparamos com esta tese que afirma que Deus, durante séculos voltou atrás em suas declarações, não estava punindo o pecado das pessoas, estava fazendo “vista grossa” ao pecado. Será que Deus realmente foi indiferente para com o pecado? Aqui está o grande problema!

            A explicação para este dilema, diz Paulo, encontra-se no Calvário. Ele diz isto quando utiliza a expressão “para demonstração”. Paulo afirma que Deus está dando um sinal evidente e público de algo. De que seria? “Da sua justiça”. Na cruz Deus concedeu uma demonstração pública do que Ele estivera fazendo durante os séculos anteriores. Ele reteve a Sua ira durante todo este tempo, para a derramar de uma só vez sobre Jesus. Ao punir o Seu Filho, o Pai estava punindo o pecado de todos os eleitos! A ira de Deus que deveria vir sobre cada um de nós, caiu sobre Jesus!

            Porque Deus sabia que iria fazer isto, Ele pôde passar por alto sobre os pecados cometidos anteriormente. Deus sempre soube que Jesus iria receber sobre Si toda a ira para que a justiça fosse satisfeita. Este foi um plano que se originou na eternidade. Por isto a importância do “Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo”. (Ap. 13:8).

            Deus só foi tolerante com os pecados passados por causa da “manifestação da sua justiça no tempo presente”. Ou seja, Deus só tolerou o pecado das pessoas antes de Cristo por causa do sacrifício que iria acontecer. O mesmo não pode ser dito em relação aos anjos que pecaram. Como não havia nenhum sacrifício substitutivo para eles, imediatamente após o pecado deles veio o juízo divino sobre cada anjo rebelde.

            Se o Cordeiro de Deus não tivesse sido morto antes da fundação do mundo, Deus acabaria com a raça humana! Sendo assim, Deus permanece Justo e agora se torna o Justificador dos injustos que crêem em Cristo. Este era o problema. A Bíblia afirma que Deus é Santo e Justo, isto significa tratar e punir o pecado. Como tratar e punir o pecado e, ainda assim, perdoar o pecador? Como pode Deus ser justo e justificar os injustos? Como vimos, a resposta só pode ser encontrada no Calvário! Na cruz, Deus fez o que disse que iria fazer, puniu o pecado. Desta forma, Ele demonstrou publicamente que é Justo: “Para demonstração da sua justiça”.

            Deus justifica o injusto. Ao punir outro em nosso lugar, Deus pode perdoa-nos gratuitamente (v.24). “Ele levou sobre Si o castigo que nos traz a paz”. Por isto Ele é ao mesmo tempo, Justo e Justificador daqueles que nele crêem. Cristo ocupa uma posição singular. Ele é o representante de Deus junto ao homem e o representante do homem junto a Deus. Como homem representativo, Ele absorve o juízo a que ficou sujeito o pecado humano. Como representante de Deus, Ele comunica aos homens a graça perdoadora de Deus.

            Esta é uma grande, gloriosa e maravilhosa declaração! No Calvário Deus abriu um caminho de salvação para que fôssemos perdoados. No entanto, era preciso que Ele o fizesse de forma que não violasse o Seu caráter. Glória a Deus pela cruz, a justificação de Deus.

            Muito se tem dito ao longo dos séculos sobre o verdadeiro sentido da cruz. Existe uma multidão de teorias competindo umas com as outras quanto ao que realmente aconteceu na cruz. Qual foi o sentido da cruz? As pessoas que testemunharam a crucificação de Cristo compreenderam aquele evento de diversas maneiras. Algumas pessoas presentes pensavam estar acompanhando a justa execução de um criminoso. Caifás, o sumo-sacerdote, acreditava que a morte de Cristo era para o bem da nação, era um ato de apaziguamento político. O Centurião acreditou na filiação de Cristo ao Pai Celestial: “Verdadeiramente este era o Filho de Deus”. (Mt. 27:54). Pilatos e os dois ladrões tiveram concepções diferentes daquilo que a cruz significava.

            No entanto, o apóstolo Paulo está nos falando de como Deus, o Pai encarou a crucificação. Para o Pai, a cruz foi o momento de “manifestar a sua justiça”. Existe um outro texto, também escrito por Paulo que nos mostra a visão do Pai sobre a cruz: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl. 3:13).

            Neste texto de Gálatas percebemos a interpretação de Deus sobre a crucificação. Paulo discute em todo este capítulo o significado da cruz. Num único versículo, ele resume o ensino inteiro do capítulo: “Fazendo-se ele próprio maldição”. Jesus Cristo tornou-se em maldição! Ele se tornou a própria encarnação do pecado! Todos os pecados do mundo estavam sobe ele: Adultério, assassinato, roubo, estupros, obscenidades, calúnia, egoísmo, orgulho. Na cruz, Jesus se tornou a mais imunda e grotesca pessoa da história do mundo. Em si mesmo, Cristo era um cordeiro sem defeito, impecável, perfeito e majestoso. Mas por imputação, toda a feiúra da violência humana se concentrou sobre Sua pessoa. Este foi o momento que o Pai o abandonou: “Deus meu por que me desamparastes?”. Se Deus não o abandonasse não existiria maldição; afinal, maldição significa ausência da presença de Deus. Sem o desamparo, não haveria maldição! O Pai, naquele momento, no espaço e no tempo, voltou às costas para o Filho. Naquele momento Deus apagou as luzes. O mundo foi literalmente envolvido pelas trevas.

            No final das contas, não era o escárnio dos homens nem a lei e o julgamento de Roma que Jesus temia, era o abandono do Pai. Naquela noite Jesus estava completamente sozinho! Nem mesmo o Pai foi seu amigo. Ninguém amou o Filho naquele momento. O coração de Jesus, um reservatório sem limite de regozijo e amizade, estava ferido. Jesus tornou-se o inimigo de sua criação má e de seu Pai justo. A razão pela qual Jesus estremeceu ao pensar na crucificação teve pouco a ver com a tortura física. A principal razão foi saber que Ele se tornaria aquilo que Ele mais odiava: em pecado. Ele, que era a verdade, iria se tornar o mentiroso mais inveterado do mundo; Ele, que era demasiadamente puro para olhar para uma mulher com luxúria, tornaria-se o adúltero mais promíscuo da história; o único homem que sempre amou com altruísmo puro, tornaria-se o vilão mais desprezível do universo de Deus, tornaria-se um racista, um assassino, um bisbilhoteiro, difamador, ladrão, tirano. Ele se tornaria tudo isto não em si mesmo, mas como o substituto carregador do pecado por nós.

            Naquele momento Deus virou sua face de ira em direção ao seu Filho que estava sangrando e morrendo. O Pai o fez beber do cálice da rejeição até a última gota. Este foi o preço da nossa redenção! Deus teve que odiar seu único Filho sem pecado, a alegria de seu coração eterno. Tudo isto para que pudesse amar cada um de nós justamente. O Pai teve que se tornar o inimigo do Filho. Tornou-se o anjo vingador que massacra o Primogênito na escura noite egípcia do seu cativeiro. Naquele momento, com o pecado do mundo esmagando sua alma, Jesus procurou pelo Pai. Aquele com quem Jesus havia gozado de intimidade eterna e amor indescritível, este não foi encontrado para confortá-lo! A cruz foi o cálice do castigo eterno, destilada da ira que estava armazenada desde o pecado de Adão. O Filho bebeu o cálice da ira para que pudéssemos beber o cálice da salvação. E quando Ele terminou o seu cálice, não sobrou uma só gota para nós.

            Que ironia, o Seu inferno obteve o nosso céu, Sua maldição assegurou nossa bênção, Sua aflição incalculável nos trouxe alegria imensurável, ao se fazer inimigo de Deus na cruz, Ele nos fez amigos. O autor de Hebreus disse que o sangue de Cristo fala uma palavra melhor do que a de Abel. Isto porque um clama, segundo a terra, dia e noite por vingança; enquanto o outro clama, segundo o céu, dia e noite pela misericórdia e graça de Deus. Tudo isto ocorreu porque era necessário a “manifestação da sua justiça neste tempo presente”.

            Karl Barth disse que a palavra mais importante de todas do Novo Testamento é a expressão: “em favor de”. A morte de Jesus ocorreu em favor de nós. Ele tomou sobre si a maldição da lei, em favor de mim e de você.

 

“Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé”.  (v.27)

 

            Após ter explicado o método de Deus para salvar o homem, Paulo pergunta: “Onde está o orgulho do homem?”. A pergunta tem aplicação a todos os homens. Contudo, ela possui um sentido especial para o judeu que se gloriava nos seus privilégios. Esta pergunta deixa claro que ninguém pode se orgulhar na presença de Deus. A salvação é inteiramente pela graça, não há nenhum espaço para as obras.

            Este verso nos lembra do pecado do orgulho, do pedantismo, da vaidade, da jactância; primeiramente na questão da salvação, mas também em outras áreas de nossas vidas. Existe há possibilidade de nos orgulharmos, de nos jactarmos por algo que exista em nós? Este pecado é extremamente sutil! Quando o “eu” é sacrificado numa forma, surge noutra. Existe o fenômeno de sentir orgulho da própria humildade, de jactar-se de estar livre de toda jactância.

            Precisamos nos vigiar constantemente sobre a jactância e o orgulho! "A vaidade está tão ancorada no coração do homem que... os que escrevem contra ela almejam a glória da boa escrita; e os que a lêem desejam a glória por tê-la lido”.(Blaise Pascal)

            Paulo nos lembra que aqueles que entenderam corretamente o Evangelho excluem de suas vidas toda jactância. Aqueles que cultivam a vaidade e orgulho estão muito perto de serem afligidos por Deus. Quem não desce, certamente será derrubado de seu trono. Assim aconteceu com a Babilônia, símbolo de poder e glória (Jr.51:53). Assim aconteceu com a arrogante cidade de Cafarnaum (Lc. 10:15). É muito pequena a distância entre a soberba e a ruína: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda”. (Pv. 16:18). Quanto maior a soberba, maior a queda. (Is. 14:13-15).

            Podemos ver um grande exemplo de como o orgulho destrói as pessoas num exemplo da nação de Israel. Esta nação se tornou arrogante depois da batalha com Jericó. Como conquistou uma cidade fortificada sem disparar uma flecha, acreditou que o alvo seguinte, a insignificante Ai, seria uma moleza. Ai parecia não oferecer nenhuma resistência. Então poucas centenas de soldados marcharam sobre a nação. Pouco depois, estes mesmos soldados, voltam para casa se arrastando, derrotados. Eles forma humilhados e envergonhados. Muitos morreram e outros ficaram terrivelmente feridos!

            Aprendemos com esta experiência da nação de Israel que se os israelitas obedecerem ao Senhor e nele depositarem total confiança, nenhum desafio será grande demais que não possa ser vencido (poderosa Jericó); contudo, se os israelitas insistirem em fazer tudo conforme melhor lhes parecer, nenhum obstáculo será pequeno demais que não possa lhes servir de tropeço (insignificante Ai). Isto se aplica a cada um de nós nos dias de hoje. Foi por isto que Paulo nos alertou: “Onde esta a jactância?”. Ela precisa ser excluída completamente!

            A soberba, o orgulho, o pedantismo é uma característica diabólica! Como o soberbo, o diabo gosta das alturas. Levou Jesus à Cidade Santa (700 m acima do nível do mar). Colocou Jesus sobre o pináculo do templo. Levou Jesus a um monte bem alto. Desejou subir ao céu, acima das estrelas. (Is. 14:12-15).

            A todos os soberbos, a orientação bíblica é uma só: desça imediatamente do lugar altivo que se encontra. O problema é que descer do “trono” não é nada fácil, afinal, o trono empolga, envaidece, vicia. No trono eu sou rei, todos se curvam diante de mim, todos me obedecem, recebo tributos. Agora, fora do trono, eu sou servo, me curvo diante de todos, obedeço, pago tributos.

            Um dos motivos principais da queda do Império Romano foi a vaidade de seus cidadãos. Tudo que existia no mundo, os romanos adquiriam. Roma engolia tudo que vivia, comprava tudo que se vendia. É daqui que surge o ditado que “todas as estradas levam a Roma”. Tudo ao redor do mundo parava na cidade de Roma. Existia uma rede inigualável de estradas dentro da Itália que levava à capital. O famoso Império foi derrotado pela própria vitória. O desejo de acumular cada vez mais por parte dos cidadãos romanos, fez com que a situação ficasse insustentável. 

            A vaidade é semelhante ao tumor maligno que faz surgir outros focos secundários até tomar conta de todo o corpo e provocar a morte. “Onde esta a jactância?” Precisa ser excluída!

            Uma característica de uma pessoa soberba é que eles sempre consideram os outros mais pobres, fracos, pecadores... Somente as coisas, os pensamentos, as idéias deles é que são válidas e importantes. Tudo do outro é inferior e de menor nível. Uma das maiores desgraças das nossas vidas pode ser o fato de estarmos certos. Estar certo diante de uma situação pode nos conduzir ao orgulho! “Estar certo é uma das maiores cargas que o ser humano pode carregar, e poucos conseguem levá-la com graça. Certa vez li um cartaz que dizia: ‘Senhor, quando estivermos errados, dá-nos disposição para mudar. Quando estivermos certos, concede que a convivência conosco seja fácil.” (Dallas Willard)

            Não podemos jamais ter tal atitude! Em Filipenses 3:3 somos exortados por Paulo a “Considerais  os outros superiores a si mesmo”. Será que temos tido tal atitude para com os outros? “Onde esta a jactância?” Precisa ser excluída!

            Outra característica de um coração soberbo é a comparação. Toda vez que comparamos algo ou alguém é para nos valorizarmos em cima do outro. Neste processo, denegrimos o outro de alguma maneira! "O primeiro passo para o orgulho é a comparação, e os passos subseqüentes levam a uma vida voltada para si mesmo”. (Bernard de Clairvaux) Precisamos aprender a parar de ficar fazendo comparações! “Onde esta a jactância?”. Precisa ser excluída!

            Muitas vezes Deus nos manda dificuldades para não ficarmos vaidosos, orgulhosos, cheios de si. Para que o apóstolo não se ensoberbecesse foi lhe dado uma dificuldade. (II Cor. 12:9) As dificuldades têm o propósito de reduzir o risco de chamarmos a atenção para nós mesmos. Paulo precisava de um espinho na carne para conservá-lo esperto em relação aos artifícios da arrogância. Não existe santidade genuína sem verdadeira humildade.“Onde esta a jactância?” Precisa ser excluída!

           

“É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios, visto que Deus é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso”. (v. 29, 30).

 

            O plano divino de Salvação aboliu todas as distinções entre as pessoas. Desde o verso 18 do capítulo um até o verso 23 deste capítulo, Paulo se empenha em mostrar que devido o sacrifício de Cristo, não existe mais nenhuma diferença entre judeu e gentio. Paulo enfatiza ao extremo a verdade de que todos são iguais diante de Deus. Ele sabia da nossa tendência de nos acharmos melhores que os outros. Contudo, diante de Deus, diz o apóstolo, todos são iguais, afinal: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”.

            Os judeus acreditavam que Jeová era o Deus da nação de Israel e que as outras nações tinham outros deuses. Paulo desmistifica esta crença israelita. Deus, diz o apóstolo, não é Deus apenas dos judeus, Ele também é Deus dos gentios. Não há um Deus para os judeus e outro para os gentios.

            Se há somente um Deus, os homens do mundo inteiro têm que estar sob esse único Deus. Paulo aborda a mesma questão ao escrever para a Igreja de Éfeso:“Há um só corpo e um só Espírito, assim também como vocês foram chamados numa só esperança que lhes trouxe sua vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que está sobre todos e por meio de todos e em todos”. (Ef. 4:4-6).

            Se existe apenas um Deus, também existe apenas um meio de salvação. Como este Deus é o mesmo para todos, Ele não pode ter duas maneiras de declarar justos os homens. Na questão da aceitação diante de Deus, os judeus não possuem nenhuma superioridade sobre os gentios. A salvação não é garantida pela circuncisão, nem é impossibilitada pela incircuncisão. Qualquer um, que Deus justifica, é justificado pela graça, “por intermédio” da fé.

            Paulo vem argumentando esta verdade o tempo todo. Ele quer mostrar ao homem que ele só pode salvar-se através da graça de Cristo a ele oferecida. Era muito importante para Paulo deixar esta verdade bem estabelecida entre aqueles crentes ali de Roma; isto porque, os crentes judeus ouviam o evangelho, mas ao mesmo tempo eram atacados pelas ideologias dos rabinos. Ao ouvir a ênfase dos mestres judaizantes na Lei e na circuncisão eles tendiam a retroceder na fé. Foi isto que aconteceu com Pedro em Antioquia (Gl. 2). Paulo o repreendeu porque ele estava voltando algumas práticas judaizantes, e tais práticas anulam o sacrifício de Cristo na cruz.

            Estamos tão familiarizados com esta verdade, que, em certa medida, ela perdeu o seu valor. Contudo, se levarmos em conta o exclusivismo teocrático e os preconceitos religiosos dos judeus, entenderemos a necessidade desta insistência do apóstolo.

            O mesmo tem acontecido atualmente. Muitos cristãos têm voltado seu evangelho para práticas que já foram abolidas ali na cruz. Isto é percorrer por um caminho que não é aquele indicado nas Escrituras. É contra isto que Paulo está escrevendo aqui neste texto de Romanos. Ele nos diz que: "Visto que há somente um Deus, há somente um meio das pessoas serem salvas”. Foi por isto que um dos lemas da Reforma foi “Sola Fide”. Não existem outros meios, caminhos ou opções.

            Infelizmente, nos dias de hoje existe uma tendência de voltarmos ao contexto anterior da Reforma. Muitos afirmam que só a fé não basta, é preciso ter fé mais cura interior, fé mais libertação das maldições hereditárias, fé mais entretenimento. Por isto a importância de pregarmos Sola Fide!

            “Por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso”. Paulo usa expressões diferentes para dizer a mesma verdade.  Ele disse isto para mexer com os judeus que achavam que existia diferença entre eles e os gentios. Calvino afirmou o seguinte: Sou da opinião que estas palavras expressam ironia, como se Paulo dissesse: ‘se alguém deseja fazer alguma diferença entre gentios e judeus que seja a seguinte: os judeus obtém a justiça pela fé, e os gentios através da fé”.

            Estes dois versículos são o resumo do ensinamento de Paulo desde o verso 18 do capítulo 1. Paulo juntou todas as peças. Por que nós precisamos de salvação? Porque somos culpados e estamos debaixo da ira de Deus. O homem sem a Bíblia (o gentio) está sob a ira de Deus: (1:18 – 2:16). O homem com a Bíblia (o judeu) está sob a ira de Deus: (2:17 – 3:8). Todos os homens estão debaixo da ira de Deus (3:9-20). Depois ele fala da maneira como Deus providenciou a salvação (3:21-28). Por fim, ele reúne toda a humanidade novamente declarando que Deus é o mesmo para todas as pessoas. E estas pessoas devem ser justificadas precisamente da mesma forma. (3: 29,30).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO IV

 

“Que, pois, diremos ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque se Abraão foi justificado por obras, tem do que se gloriar, porém não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado para justiça”. (4:1-3)

 

No capítulo quatro, Paulo vai utilizar o Velho Testamento para defender a doutrina da justificação pela fé. O apóstolo vai demonstrar que, mesmo no Velho Testamento, o homem era salvo apenas através da justificação pela fé. Mais tarde (cap. 11), Paulo vai falar disto novamente ao usar a analogia da oliveira. A oliveira é uma figura da igreja verdadeira. Havia primeiro os seus ramos naturais, os judeus, alguns destes foram arrancados devido a sua incredulidade. Agora, ramos não naturais (os gentios) são enxertados na oliveira.

O que Paulo vai demonstrar no capítulo quatro e no capítulo onze é que nunca houve um tempo em que o homem foi redimido por algum método que não fosse a justificação pela fé. No capítulo quatro, o apóstolo apanha como base e exemplo para defesa de sua crença o caso de Abraão. Recorrer a Abraão foi uma grande estratégia de Paulo, afinal Abraão era o centro e o baluarte de todo o ponto de vista judaico, era considerado pelos mestres judaicos e seus seguidores o único homem justo de sua geração. Alguns apócrifos mostram como Abraão era respeitado por todo judeu:“Portanto tu, ó Senhor, Deus dos justos, não determinaste arrependimento para os justos Abraão, Isaque e Jacó, que não pecaram contra ti, mas determinaste arrependimento para mim, que sou pecador”. (A Oração de Manassés)“Abraão foi perfeito em todos os seus atos para com o Senhor e amante da justiça todos os dias de sua vida”. (O Livro de Jubileus – II a.C.).

            De todos os justos do Velho Testamento ninguém foi maior que Abraão. Em Isaías 41:8, Deus fala de “Abraão, meu amigo”. Em Gênesis 26:5, encontramos: “Abraão obedeceu a minha Palavra, e guardou os meus mandamentos, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis”. (Gn. 26:5). Se forem as obras praticadas pelo homem que o justificam diante de Deus, Abraão era o melhor candidate! Ele, sem dúvida alguma, poderia candidatar-se a obter algum crédito por isso.

            Ao apanhar o exemplo de Abraão, Paulo não faz isto por acaso. Um judeu que fosse contra esta doutrina, certamente apelaria para o caso de seu ilustre ancestral. Contudo, Paulo demonstra que Abraão não foi justificado pelas obras. Paulo utiliza o texto de Gênesis 15:6 para defender sua idéia. Este texto mostra que Abraão simplesmente creu, descansou na promessa de Deus. Como vai mostrar no verso 4, a justiça foi imputada a Abraão por uma questão de graça e não de dívida. O pensamento de Paulo foi o seguinte: Se Abraão foi justificado gratuitamente, então sua descendência que reivindica uma justiça por direito deve cobrir-se de vergonha e ficar em silêncio. Quem dentre os judeus reivindicará para si a mínima partícula de mérito, quando o mesmo foi negado a Abraão?

            Paulo fez a mesma coisa que Mateus (escreveu seu Evangelho para evangelizar judeus). “Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”. (Mt. 1:1). Assim como Mateus, Paulo vai destacar estas duas importantes figuras do Velho Testamento.

            O que Paulo faz é dar uma visão panorâmica do processo de salvação. Ele a enxerga no Velho Testamento e demonstra que ela é a mesma ao longo dos séculos. Tal atitude de Paulo deve nos encher de esperança e consolo., afinal, nossa salvação não é algo incerto ou acidental. Deus a planejou antes mesmo que houvesse tempo. Deus já estava colocando nossa salvação em prática na aurora da história!

“Nosso pai segundo a carne”. (v.1)

 

O que será que Paulo quer dizer com a palavra “carne” aqui? “Carne” é o extremo e oposto ao que é interno e espiritual. Em Filipenses 3:3-6, Paulo faz uma grande exposição do que ele entende por “carne”.

            A carne é tudo aquilo no qual o homem é propenso a confiar, no que se refere à salvação. E se ele possui algo no que confiar, ele pode nisto se gloriar. Por isto que Paulo vai dizer no verso 2 que:

“Porque, se Abraão foi justificado por obras, tem de que se gloriar”. (v.2)

 

O que Paulo está dizendo é o seguinte: Foi Abraão justificado e aceito por Deus com base no que ele era e no que ele fez? Era Abraão amigo de Deus por Deus por causa do seu caráter e das suas obras? Se fosse assim, diz Paulo, ele teria base para gloriar-se diante de Deus. Contudo, diz Paulo:

 

“Não diante de Deus. Pois que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isto lhe foi imputado para justiça”. (v.2,3)

 

Esta declaração de Gênesis 15:6 é a primeira vez que a doutrina da justificação somente pela fé é exposta na Bíblia. Esta doutrina não é algo ensinado apenas no Novo Testamento, em todo o Velho Testamento ela está presente! Certamente que não tão explícito como no Novo Testamento, mas ela está lá, permeando todo o ensinamento bíblico.

            O fato de Deus aceitar Abraão evidentemente não se baseava em suas obras, por boas que fossem. As obras praticadas por Abraão, sua obediência aos mandamentos divinos, eram fruto de sua incontestável fé em Deus. Se não tivesse crido primeiro nas promessas de Deus, nunca teria conduzido sua vida daí em diante à luz daquilo que sabia ser a vontade de Deus.

            No verso 21, lemos que a confiança que Abraão depositava em Deus não era apenas algum tipo de fé genérica, era uma confiança numa promessa específica de Deus: “Estando totalmente convicto que ele era poderoso para cumprir o que prometera”. (v. 21). Deus fez uma promessa específica a Abraão e ele creu que Deus podia de fato honrar aquela promessa.

            Para entendermos que promessa específica foi esta que Deus fez a Abraão, devemos ler Gênesis 15:1-6: “Depois destes acontecimentos, veio a palavra do Senhor a Abrão, numa visão, e disse: Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande. Respondeu Abrão: Senhor Deus, que me haverás de dar, se continuo sem filhos e o herdeiro da minha casa é o damasceno Eliézer? Disse mais Abrão: A mim não me concedeste descendência, e um servo nascido na minha casa será o herdeiro. A isto respondeu logo o Senhor, dizendo: Não será esse o teu herdeiro; mas aquele que será gerado de ti será o teu herdeiro. Então, conduziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade. Ele creu no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça”.

            Esta é uma promessa específica. Deus prometeu a Abraão que ele e Sara teriam um filho apesar da idade deles. Em Hebreus 11:8,11,12, o autor sagrado descreve a fé de Abraão e Sara na promessa de Deus que eles teriam um filho. Mesmo sendo humanamente impossível devido a idade avançada, eles confiaram em Deus. Nos versos 17-19, o autor de Hebreus descreve como a fé de Abraão foi submetida ao teste definitivo.

A cada vez que era testado, Abraão cria na promessa de Deus! No sacrifício de Isaque Deus concedeu-lhe uma prefiguração do calvário. É evidente que Abraão não podia entender isto plenamente, contudo, é certo que ele entendeu o suficiente para ser salvo, afinal, como disse o próprio Cristo: “Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se”. (Jo. 8:56). “Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe”. (Hb. 11:13). Em meio a todas aquelas situações complicadas e algumas até utópicas, Abraão continuou crendo em Deus! E isto, diz as Escrituras, foi lhe imputado como justiça!

É importante perceber que ao defender esta doutrina, Paulo não facilita as coisas para si mesmo Em Filipenses 3:4, ele afirma o seguinte “Se alguém pudesse confiar na carne...”. Paulo tinha todos os motivos do mundo para pregar e defender algo que lhe era conveniente, afinal, quem tinha um currículo semelhante ao dele? Ele sim poderia descansar e confiar em seus feitos e em suas obras.

            Muitas vezes temos uma atitude contrária a de Paulo. Procuramos um evangelho que facilite e não dificulte as coisas. Muitos constroem e adoram a um Deus que atenda as suas necessidades. Como disse Paulo no capítulo um: “Mudam a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem”. (Rm. 1:23).

            É por isto que muitas novas versões de Deus continuam aparecendo por aí. As pessoas enxergam Deus da seguinte maneira: Se sou intelectual, Deus é um PhD cósmico; se sou um trabalhador braçal, Deus é um líder sindicalista (Ele foi o filho de um carpinteiro!); se sou empresário, Deus é a favor da livre empresa (Jesus disse: “Negociais até que eu volte” Lc. 19:13); Se sou pobre, Deus é um revolucionário; se tivermos propriedades, Deus é o guarda dos nossos bens. Enfim, “os deuses da Pérsia sempre pareceram com os persas”.

            Infelizmente, muitas pessoas usam a religião de forma corrupta e em causa própria. Seguem idéias falsas da verdadeira religião de Deus, usam a rigidez da lei para desfazer, desprezar e criticar o erro na vida dos outros, mas utilizam o amor e a graça para escapar do juízo.

No século XIX os cristãos do Sul dos EUA prepararam uma justificativa detalhada da escravidão, com base bíblica e tudo. Na era dourada, igrejas do Norte dos EUA pregaram o evangelho da prosperidade.

“Devemos considerar a possibilidade de que em nossa própria religião o que se apresenta como virtude altruísta pode ser, em termos de motivo e função, apenas um vício egoísta vestido de roupas domingueiras”. (Westphal). “Como é chocante que nós mesmos façamos de estranhos a nós mesmos. Bloqueamos nossa própria consciência, obscurecemos nossos julgamentos com nosso interesse próprio e reprovamos nos outros os mesmos vícios pelos quais somos conhecidos. Cada um de nós carrega uma profunda e calma fonte de engano que destrói todo o princípio do bem”. (Joseph Butler).

            Paulo não pregou nem defendeu um Evangelho que lhe era conveniente. Nós também devemos evitar esta postura!

           

“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça. E é assim também que Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras: bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado”. (v.4-8)

 

Já vimos que Paulo está afirmando que Deus revelou o plano de salvação em Jesus Cristo a Abraão. Abraão não o entendeu clara e plenamente, mas o viu: “Abraão exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se”. (Jo. 8:56) O que Abraão fez foi crer neste pano de salvação, nesta justiça pela fé, nesta dádiva de uma certa justiça.

“Ora, ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida”. Paulo faz uso de uma ilustração simples, tirada da vida comum. Se eu faço um serviço para um homem e ele me paga pelo que fiz, ele não está sendo bondoso para comigo, ele está apenas pagando pelo que me deve; fiz um serviço e lhe apresentei a conta, e ele me pagou a conta do serviço que lhe prestei. Não há por que dizer que o pagamento dessa conta é um ato de bondade, ou de graça da parte do pagador. Prestei-lhe um serviço e isto não é questão de bondade, mas de dívida; é questão de cumprimento da lei, poderia levá-lo ao tribunal se ele não me pagasse.

            “Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça”. O que Paulo quer enfatizar é que não existe graça ou bondade no ato de pagar o que se deve. Com isto, ele nos lembra que Deus não dispensa sua justiça como dívida, apenas como dádiva. Deus não tem nada para nos pagar, Ele não possui nenhuma obrigação de dar-nos nada. Tudo que recebemos é exclusivamente de graça. Sendo assim, os que não recebem não tem o que reivindicar ou reclamar. Deus não deixou de ser justo com eles! As bênçãos de Deus dispensadas a cada ser humano, não é algo obrigatório. Não fizemos nada que obrigasse Deus a nos abençoar. Toda benção e toda justiça que vêm sobre nós não é uma dívida, mas uma dádiva.

            “Naquele que justifica o ímpio”. A quem Deus justifica? Ele justifica ao ímpio! Deus nunca justifica o justo, o correto, o moralmente irrepreensível. Até porque, tal pessoa não existe. Deus segue um padrão de 100%, sendo assim, ninguém é completamente correto. Os que são justificados são sempre pecadores! “Não vim chamar justos, e, sim, pecadores ao arrependimento”. (Mt. 9:13). Jesus não quis dizer que existem alguns que são justos, Ele desejou mostrar que há muitos que acreditam ser justos.

Por que é importante esta ênfase de Paulo? Porque ninguém jamais será capaz de encontrar a salvação, enquanto não reconhecer que é pecador! Todos nós somos pecadores, mas nem todos sabemos que somos pecadores.

Desta maneira, a expressão (que transmite uma ideologia) “eu aceito a Jesus”, está completamente equivocada. Este não é o ensinamento bíblico! O homem precisa dizer: “Eu reconheço que mereço a ira de Deus”. Quem não entendeu isto tem séria deficiência no seu relacionamento com Deus, afinal, o homem precisa, antes de tudo, reconhecer que ele não merece nada do que possui, é justo estar sob a ira de Deus, é um terrível pecador.

            Observem o raciocínio de Paulo. Primeiro ele diz que: “o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”. (3:28). Depois ele apresenta Abraão como exemplo de alguém que foi justificado aos olhos de Deus sem ter cumprido a lei. Mais a frente (6:23), Paulo vai afirmar que “o salário do pecado é a morte”. Ou seja, se Deus lidasse conosco com base em um salário, só restaria a Deus um meio de nos pagar: Com a morte!

            Pensem da seguinte maneira: A nossa frente está o caixa, vamos até ele e dizemos: “Pague-me o que me é devido”. Por justiça, o caixa deve pagar nossos devidos salários. Suponha agora que este caixa fosse Deus. Então compareceríamos um a um diante dele dizendo: “pague-me o que me é devido”. Deus teria de nos entregar contra-cheques idênticos. Um Deus santo só poderia dar um único pagamento para criaturas que pecaram contra Ele. Tal pagamento só poderia conter uma única e terrível palavra: morte. Devido ao pecado, o nosso salário é a morte!

            Quando alguém estuda a doutrina da predestinação pela primeira vez, o primeiro argumento utilizado é: “A doutrina da eleição não é justa”. É verdade! A doutrina da eleição não é justa! As pessoas se esquecem que a salvação não é uma questão de justiça. Se alguém acredita que a salvação é uma questão de justiça, ela não entendeu nada do Cristianismo. É isto que Paulo está tentando demonstrar aqui. A salvação não é uma questão de justiça, mas de graça!

Nada pode ser mais perigoso a um homem do que ele exigir a justiça de Deus. A pior coisa que poderia suceder a este homem seria ele receber a pura justiça de Deus. Uma coisa é pedir a Deus por justiça nos meus relacionamentos com outras pessoas. Outra coisa é exigir justiça em meus relacionamentos com Deus. Se houvesse justiça, todos seríamos lançados no inferno! Se tivermos que obter aquilo que merecemos, todos estaremos perdidos!

            Ao citar Abraão e agora Davi, Paulo demonstra que mesmo no Velho Testamento a salvação era pela graça e não pelas obras. Logo depois que Deus deu a Israel os 10 Mandamentos, Ele lhes ordenou que construíssem um altar. Neste altar, o povo deveria oferecer sacrifícios para expiar o pecado da incapacidade de cumprir aquela lei que eles acabaram de receber! Quatro capítulos depois, esta combinação de altar e lei aparece novamente: “Moisés escreveu todas as palavras do Senhor e, tendo-se levantado pela manhã de madrugada, erigiu um altar”. (Êx. 24:4) O texto enfatiza a necessidade de derramamento de sangue para a expiação da incapacidade de Israel cumprir a lei. “Então tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras”. (Êx. 24:8).

            A aliança foi selada pelo derramamento de sangue. Mas por que era necessário haver sangue? Porque ninguém seria capaz de cumprir a lei. Mesmo naqueles tempos remotos, aquelas pessoas entenderam esta mensagem! Na verdade, os próprios métodos e materiais usados para a construção do altar, simbolizavam a incapacidade de Israel de comparecer diante de Deus, com base nas obras. O altar teria que ser erigido aplicando o mínimo de mão de obra humana: “Se me levantares um altar de pedras, não o farás de pedras lavradas; pois se sobre ele manejares a tua ferramenta, profaná-lo-ás”. (Êx. 20:25).

            Antes de os judeus terem qualquer oportunidade de achar que pudessem, de alguma maneira, conquistar a salvação, Deus estava deixando claro para eles que era impossível realizar tal coisa. Nem sequer lavrar as pedras do altar lhes era permitido, tudo isto para que eles não se tivessem absolutamente nada do que se gloriar ou confiar!

            Estas instruções para não lavrar as pedras na construção do altar foram dadas aos israelitas em momentos importantes e decisivos da sua história: Na entrega da lei, na entrada de Canaã e no monte Ebal. Nestas três ocasiões solenes, os israelitas receberam instruções específicas referentes ao altar: “Ali edificarás um altar ao Senhor teu Deus, altar de pedras, sobre as quais não manejarás instrumento de ferro. De pedras toscas edificarás o altar do Senhor teu Deus”. (Dt. 27: 5,6).

            Estivessem eles ouvindo acerca da lei pela primeira vez no Sinai, ou no momento em que a ouviram em Canaã, estava se fazendo entender a Israel que ninguém pode ser salvo por esforço humano! Paulo, com sua impressionante mensagem da graça está comprovando o ensinamento do Velho Testamento. Dá para entender o que ele quis dizer que ao invés de anular a lei ele a estava confirmando? (3:31). Foi por isso que ele disse em Gálatas 3:24 que a lei é o “aio para nos conduzir a Cristo”. A mensagem é a mesma em toda as Escrituras!

            Em Gênesis 22 Abraão foi provado quando Deus lhe ordenou que sacrificasse Isaque. O anjo segurou a mão de Abraão no momento em que ele estava para sacrificar seu filho, e então, apareceu um cordeiro, preso em uma moita. Abraão oferece o cordeiro “em lugar de seu filho”. (Gn. 22:13). Abraão percebeu que o Senhor havia providenciado o cordeiro como substituto para o seu filho. Em seguida lemos no texto que: “E pôs Abraão por nome àquele lugar o Senhor proverá. Daí dizer-se até o dia de hoje: no monte do Senhor se proverá”.

            Paulo perguntou: “Será que a idéia de salvação pela graça por meio da fé contradiz a lei?”. Ele mesmo responde: “De jeito nenhum!”. O evangelho longe de negar a lei, o que faz na verdade é confirmá-la (3:31). Logo em seguida, Paulo nos apresenta Abraão e Davi como pessoas que, embora tenham vivido sob a lei, também entenderam o evangelho. No verso oito ele prossegue citando Davi no salmo 32: “Bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado”. Abraão que viveu 500 anos antes do advento da lei entendeu que seria justificado pela fé. Davi que viveu 500 anos depois do advento da lei teve a mesma compreensão.

No que diz respeito à salvação, a lei não mudou as coisas em absolutamente nada! A idéia de salvação pela graça não anula a lei, pois este era precisamente o propósito da lei: Nos mostrar o quanto carecemos da graça de Deus.

            Existe unidade em toda a Aliança da Graça! As pessoas que estavam perdidas nos tempos do Velho Testamento, no tempo do Novo Testamento, tanto quanto as que estão perdias hoje, todas elas tem como base da sua salvação a graça e o instrumento, a fé.

 

 

 

 

 

 

“Vem, pois, esta bem-aventurança exclusivamente sobre os circuncisos ou também sobre os incircuncisos? Visto que dizemos: a fé foi imputada a Abraão para justiça. Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão, e sim quando incircunciso. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado. Não foi por intermédio da lei que Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé”. (v. 9-13)

 

Em todo o capítulo quatro Paulo trata de possíveis objeções que os judeus poderiam levantar contra a justificação pela fé. Vimos que os judeus argumentavam que as obras possuem um papel na salvação. Paulo trata deste argumento nos versos de 1a 5. Ali ele mostra claramente que Abraão foi justificado pela fé, e não pelas obras. Depois ele mostra (v. 6-8) que o ensino do salmo 32 fortalece esta doutrina.

Nos versos 9-16 o apóstolo vai responder mais duas objeções levantadas pelos judeus. Nos versos 9-12 ele vai refutar o argumento judeu de que “mesmo que as obras não sejam essenciais, certamente a circuncisão o é”. Os judeus acreditavam e defendiam com todas as suas forças que a circuncisão não era apenas um sinal da graça de Deus, como Paulo vai defender, pelo contrário, a circuncisão era o primeiro ato meritório de obediência à lei, era a primeira obra a ser praticada por aquele que desejava alcançar a salvação. Sendo assim, ela se tornou o símbolo da salvação pelas obras. O próprio Paulo colocou-a no topo da lista que ele acreditava ser mérito, ser ganho, ser lucro: “circuncidado ao oitavo dia”. (Fp. 3:5).

            Antes de analisarmos o que Paulo tem a nos dizer, devemos considerar uma coisa: Paulo está batendo na mesma tecla já há algum tempo. Ele vem levantando argumentos para defender a justificação pela fé desde o capítulo um. Parece que Paulo é prolixo, repetitivo, enfadonho. Mas não se trata disto. Paulo sabia do poderoso caráter da incredulidade. Quando um argumento era demolido, outro era edificado imediatamente. Quando Paulo tombava por terra uma tese dos judeus, eles logo levantavam outra. Por isto que Paulo precisava insistir, persistir até que tudo que pudesse ser dito fosse falado.

            Isto nos lembra de uma das grandes tragédias da humanidade. O homem insiste em argumentar contra o modo de salvação divino. É isto que aqueles judeus estão fazendo! O homem se sente ofendido pela doutrina que diz que ele não tem nenhuma participação na salvação. Sendo assim, ele levanta inúmeros argumentos contra esta doutrina que tanto o humilha. Paulo, sabendo disto, trata pacientemente de cada um dos argumentos levantados pelos judeus. Argumentos estes que são os mesmos levantados nos dias de hoje, só que com uma roupagem diferente. Os argumentos são sempre os três: nacionalidade, circuncisão e a Lei: obras, realização humana. Paulo argumenta sobre cada um deles exaustivamente! Paulo cita exemplos de sobra para mostrar ao judeu que o homem é salvo apenas pela graça.

            Neste processo, Paulo volta novamente ao exemplo de Abraão para defender o que vem argumentando até aqui. É interessante perceber que grande parte da argumentação do apóstolo está baseada no Velho Testamento. Isto nos lembra da importância de conhecermos todo o Velho Testamento, afinal, sem o conhecimento do Velho Testamento não entenderemos corretamente a mensagem do Novo Testamento. Não podemos jamais ignorar a mensagem do Velho Testamento!

            Ao defender a justificação pela fé, citando o exemplo de Abraão, Paulo faz duas coisas de uma vez só. Primeiro, ele corrige uma prática errada daqueles judeus. Os israelitas convertidos estavam obrigando os gentios que se convertiam a se circuncidarem, alegavam que isto fazia parte do processo de salvação: “Alguns indivíduos que desceram da Judéia ensinavam aos irmãos: Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podereis ser salvos”. (At. 15:1) A mesma exortação paulina foi dirigida aos crentes da Galácia (Gl. 5:1-4) Paulo, portanto, mostrou aos judeus, que esse ritual não deve ser imposto aos novos crentes.

            Segundo, Paulo lembra aos judeus o fato de que Abraão tinha sido justificado antes de ser circuncidado. Esta argumentação de Paulo é fantástica! Percebam a ordem cronológica. Quando Abraão foi circuncidado ele tinha 99 anos (Gn. 17:24). Neste dia, Ismael, com treze anos de idade, também foi circuncidado (Gn. 17:25). Quando Deus fez seu pacto com Abraão, Ismael nem tinha nascido (Gn. 15: 2, 3, 6). Ou seja, a justiça de Abraão lhe fora imputada “pela fé”, 14 anos antes da sua circuncisão. A justificação de Abraão é narrada em Gênesis 15, e sua circuncisão só em Gênesis 17.

            Portanto, não era da circuncisão que dependia a aceitação de Abraão por parte de Deus. Isto está muito claro! Abraão foi justificado antes de ser circuncidado. A circuncisão não teve nenhum papel, nenhuma participação na justificação de Abraão! Sendo assim, a justificação pela fé se aplica tanto no caso dos circuncisos como no dos incircuncisos. “Foi sobre o Abraão ainda não circuncidado, em cujo aspecto se assemelhava a um gentio, que a promessa foi feita, a bênção foi pronunciada. Isso prova que a circuncisão nada tem a ver com ele ser declarado justo”.  (W. Hendriksen).

            Esta é uma lição tão óbvia que não são necessários muitos argumentos. A própria história é o maior argumento! O exemplo de Abraão é suficiente para deixar claro que não há mais nada a ser dito sobre este assunto. Contudo, Paulo prossegue mostrando o verdadeiro motivo pelo qual Deus instituiu a circuncisão. Ou seja, ao corrigir a confiança errada que os judeus tinham na circuncisão, Paulo toma o cuidado de não diminuir o valor real da circuncisão como uma ordenança divina. Em outras palavras, a circuncisão não serve para justificação, mas ela tem o seu valor.

A circuncisão diz Paulo, foi dada a Abraão como sinal e selo de sua fé. Foi um sinal visível que autenticava a justiça de Deus dispensada sobre Abraão. Portanto, ela tem o seu valor.

Se por um lado o fato de ser incircunciso não é um obstáculo à justificação pela fé, por outro lado, não devemos supor que a circuncisão seja uma desvantagem. Embora não tivesse poder para justificar, não era destituída de proveito e nem era supérflua. Ela tinha a sua utilidade: selar e ratificar a justiça procedente da fé.

            Os sinais e símbolos possuem o seu valor no reino de Deus. São através dos sinais que Deus testifica sua graça em nossos corações e confirma Suas promessas. O arco-íris não vai impedir a destruição deste mundo, mas ele nos lembra que a humanidade jamais será tragada novamente pelas águas. O anel nupcial não traz bênçãos aos casados, porém, que pessoa casada, que ama seu cônjuge, pensaria em jogar fora o anel que simboliza o amor?

            Paulo nos lembra que sinais e selos não devem ser subestimados, afinal, eles possuem um enorme valor educativo e psicológico. É o que acontece com o batismo nos dias de hoje. Ele não salva, mas ele simboliza a salvação. E isto é algo importantíssimo! Sendo assim, ninguém deve prorrogar o batismo simplesmente porque ele não salva.

            Por outro lado, o apóstolo nos mostra que sinais e selos não devem ser superestimados, afinal, eles não redimem ninguém! Isto deve ser enfatizado porque algumas religiões acreditam que a ceia e o Batismo cooperam com graça. Atribuir valor salvífico ao batismo é heresia das grandes!

            O que o apóstolo faz é buscar o equilíbrio, tentando evitar os extremos. Nem subestimar, nem superestimar os símbolos e os sinais concedidos por Deus. O problema é que os judeus não tinham este equilíbrio e inverteram a ordem das coisas. Eles acreditavam que para uma pessoa ser salva ela precisava ser circuncidada. Quando o que Paulo está ensinando é que a circuncisão é um sinal daquele que já está salvo. A circuncisão era um sinal visível da justificação de Abraão, contudo, ela não adicionava nada àquela fé!

            Paulo vai reforçar ainda mais a sua tese diante daqueles judeus. Ele vai dizer que “E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse imputada a justiça, e pai da circuncisão, isto é, daqueles que não são apenas circuncisos, mas também andam nas pisadas da fé que teve Abraão, nosso pai, antes de ser circuncidado”. (v. 11,12).

            Paulo está afirmando que Abraão tornou-se o pai dos que são salvos e pertencem a circuncisão, desde que tenham crido, é claro. Dos que são salvos e pertencem a incircuncisão. Resumindo o que o apóstolo está mostrando é que ser circuncidado, em si e de si, nada é. Apenas ser circuncidado, mas não ser justificado pela fé não vale de nada! “Porque em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão, tem valor algum, mas a fé que atua pelo amor”. (Gl. 5:6).

            Se aquilo que a circuncisão significa pode ser encontrado na incircuncisão, então os judeus não possuem nenhuma vantagem! Com um golpe de sua pena, Paulo levou estrondosamente ao chão o gigantesco muro que separava judeus e gentios. Toda soberba, pretensão e orgulho dos judeus foi lançada por terra!

Filhos de Abraão, diz Paulo, são aqueles que têm a fé que Abraão tinha (Rm. 2: 28,29). Paulo usa a expressão “andar nas pisadas” (v. 12) para descrever o que devemos fazer. “Andar nas pisadas” é marchar em fila. Abraão é reputado como o líder do grupo. Não andamos lado a lado e sim em fila, seguindo as pisadas deixadas por Abraão. Devemos seguir a fé que Abraão possuía!

            Como cristãos, Abraão é o nosso pai espiritual. De acordo com a Bíblia, quando somos justificados, tornamo-nos judeus espirituais. Mais adiante, Paulo vai mostrar que os gentios convertidos passam a fazer parte do Israel espiritual. Toda esta argumentação paulina nos lembra que o Evangelho é, ao mesmo tempo, universal e exclusivista. Universal porque é acessível a todos, tanto para judeus como para gentios, não apenas para os circuncidados. Exclusivista porque só se aplica àqueles que crêem em Deus, somente para aqueles que “andam nas pisadas de fé do nosso pai Abraão”. O evangelho é tão abrangente quanto o mundo todo, mas ao mesmo tempo, é restrito ao grupo daqueles que vivem pela fé e se rendem a Jesus Cristo. É suficiente para todos, mas eficiente apenas para os escolhidos.

            Já que somos filhos de Abraão, devemos nós também seguir o exemplo de Abraão? Devemos confirmar a nossa justificação através do simbolismo da circuncisão? Se a circuncisão serve para selar a graça de Deus, por que é então que nós não a praticamos? Nos dias de hoje nós possuímos um sinal divinamente instituído em seu lugar, o batismo. A circuncisão não é mais necessária porque agora existe o batismo. Sendo assim, da mesma forma como a circuncisão era importante para confirmar a justificação, o batismo também deve ser praticado por aqueles que uma vez foram redimidos por Cristo.

            “Não foi por intermédio da lei... e, sim, mediante a justiça da fé”. (v.13) A expressão “justiça da fé” é uma expressão muito importante. Não significa que a fé torna alguém justo. Já vimos que devemos ter o cuidado de jamais deixar que a fé se torne uma obra. A fé não tem valor nenhum em e por si mesma. O importante da fé não é a fé, mas o objeto da fé. Contudo, esta expressão, entendida devidamente, transmite uma tremenda verdade.

Certo dia perguntaram a uma menina: “você sabe o que quer dizer justificação?”. Ela respondeu: “Sei, sim, quando eu aceito Cristo como o meu Salvador, é como se eu jamais tivesse pecado antes”. Isto é justificação! É como se nunca tivéssemos pecado em nossa vida! Somos declarados completamente justos! E esta justiça vem sobre nós por intermédio da fé. “A justiça da fé”.

Isto significa que no julgamento final, os crentes não correrão nenhum tipo de risco! Afinal, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. Passamos a ser declarados justos, estamos com a ficha limpa por causa da obra consumada de Cristo.

 

 

 

 

“Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa, porque a lei suscita a ira; mas onde não há lei, também não há transgressão. Essa é a razão porque provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência, não somente ao que está no regime da lei, mas também ao que é da fé que teve Abraão (porque Abraão é pai de todos nós, como está escrito: por pai de muitas nações te constituí), perante aquele no qual creu, o Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem”. (v. 14-17)

 

Passamos agora ao terceiro argumento de Paulo referente à sua defesa da justificação pela fé. Ele já tratou do argumento judeu concernente às obras e do argumento concernente à circuncisão. Agora ele vai tratar do argumento judeu relativo a guarda da lei. Ao contrário dos exemplos anteriores (v. 1, 9 e 10), Paulo não faz uma pergunta e sim uma afirmação. No verso treze há uma declaração categórica de que a promessa de salvação não foi feita a Abraão por meio da lei. A promessa foi feita exclusivamente por meio da justificação pela fé.

            Mais uma vez, Paulo vai usar apenas o argumento histórico para defender sua tese. Quando Deus fez sua promessa de salvação a Abraão, Ele não fez baseado no cumprimento da Lei. Deus não decretou condições quanto ao que Abraão teria que fazer ou não fazer. Até porque, diz Paulo, a Lei foi dada ao homem muito tempo depois. Deus fez esta promessa a Abraão 430 anos antes de ter dado a Lei, por meio de Moisés, aos filhos de Israel. Assim como a justificação veio antes da circuncisão, veio também antes da Lei! Abraão foi justificado quatro séculos antes de a lei ter sido concedida ao homem!

            Depois do argumento histórico, Paulo levanta outro argumento para mostrar que não é a guarda da lei que redime o homem. No verso quatorze o apóstolo nos mostra que a própria natureza da lei prova que a promessa não foi feita mediante o cumprimento da lei: “Porque, se os que são da lei são herdeiros, anula-se a fé”. Se for pela lei, então não há lugar para a fé! A lei está interessada em obras e feitos. Ela sempre se refere às nossas ações, à nossa conduta, ao nosso comportamento. No momento em que a lei é introduzida, a fé é colocada para fora: “Porque, se os que são da lei são herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa”.

            Se a promessa de salvação foi feita sob a condição de que Abraão guardasse a lei, então esta promessa estará automaticamente cancelada, afinal, ninguém jamais será capaz de cumprir a lei!

            O que a lei produz é ira, o oposto da promessa de bênção (v. 15). O que a Lei faz é denunciar nossas fraquezas e pecados. Esse foi o efeito da dádiva da Lei. Deus não concedeu a Lei com o propósito de que os homens fossem salvos por ela, ela foi concedida para revelar ao homem o que é o pecado. Apesar da Lei ser santa, boa e pura, visto que sou pecador, ela se torna morte para mim. A Lei diz: “Não faça isto e aquilo”. Ao fazer o que a Lei me proíbe, peco e acabo morrendo.

            Paulo reforça esta idéia da lei como algo que revela o pecado ao homem com as seguintes palavras: “Onde não há lei, também não há transgressão”. Ou seja, se o homem não tivesse a lei, ele não saberia o que é o pecado, não existiria transgressão. Sendo assim, vem a lei e revela a este homem que ele é pecador!

            Alguém pode inquirir o seguinte: “E as pessoas que viveram antes da lei ser dada a Moisés? Será que tais pessoas estavam isentas de culpa?” É o que aparentemente podemos deduzir. Contudo, Paulo já falou sobre isto e vai falar novamente no capítulo 5:13, 14: “Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei. Entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança de Adão, o qual prefigurava aquele que havia e vir”.

            Francis Schaeffer parafraseia Paulo da seguinte maneira: “É verdade, não há julgamento enquanto não há lei; entretanto, todos aqueles que viveram na época que vai de Adão até Moisés estavam selados para a morte. E por quê? Eles estavam pecando contra outra lei. Eles não tinham a revelação da Lei de Moisés, acontece que eles conheciam outra lei”.

            No capítulo dois nós vimos que outra lei seria esta. As pessoas que viveram antes de ter sido dada a Lei, da mesma forma que as pessoas sem a Bíblia de todos os tempos, serão julgadas com base no que elas sabem acerca do certo e errado.

            O que Paulo está nos mostrando é que se a salvação fosse dada por meio da Lei, nem uma só pessoa seria beneficiada. Afinal, a Lei nos condena a todos, sem exceção!

                                  

“Essa é a razão porque provém da fé”. (v.16)

 

Por que deve ser pela fé e não pelas obras, não pela circuncisão e não pela Lei? Paulo nos dá boas razões pelas quais a salvação vem até nós por intermédio da fé!A primeira razão é que deve ser, e é, pela fé.

“Para que seja segundo a graça”.  (v.16)

 

É preciso que seja pela fé, ou, de outro modo, não poderia ser pela graça. Há certas coisas que sempre são correlativas, que sempre andam juntas, que estão sempre entrelaçadas. Obras e ações sempre estão ligadas à Lei. Feitos, ações, comportamentos e conduta, tudo isto é característico da Lei.

            Já a fé é o correlativo de graça. No momento em que o termo graça é mencionado, automaticamente pensamos na fé. Este foi o mesmo raciocínio de João quando escreveu: “A lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”. (Jo. 1:17).

            Paulo vai reforçar esta idéia no capítulo onze: “Se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (v.6). Em outras palavras: “Se você estiver falando em graça, então não fale de obras. E vice-versa”. Graça e obras são coisas que jamais irão ser misturadas! Elas são coisas eternamente opostas. Quando introduzimos as obras na esfera da graça, a graça deixa de ser graça. Quando introduzimos a graça na esfera das obras, as obras deixam de ser obras. É uma coisa ou outra, elas nunca podem ser postas juntas! Portanto, precisa ser pela fé, porque se fosse por obras a graça seria completamente anulada!

            Além do que, sendo pela fé Deus é glorificado, sendo pelas obras o homem é glorificado! Se fosse pela Lei o homem teria méritos. Como é pela fé, todo mérito encontra-se em Deus. A graça é uma dádiva gratuita de Deus recebida pela fé! Através da fé não há espaço para nenhum mérito, nenhuma reivindicação, nenhuma exigência humana. É pela fé para que seja pela graça, a fim de que Deus receba toda a glória!

A segunda razão porque a salvação vem até nós pela fé é porque ela precisa ser oferecida a todas as pessoas.

 

“A fim de que seja firme a promessa para toda a descendência, não somente ao que está no regime da lei”. (v. 16)

 

A salvação tem que ser pela fé, não apenas porque esse é o único meio pelo qual a graça age e pelo qual Deus pode ter glória exclusiva, mas também porque se fosse pela Lei, seria uma salvação só para os que estão debaixo da Lei. Os que nunca tiveram a Lei não teriam nenhuma esperança. Contudo, como já vimos, a salvação beneficia tanto os circuncisos como os incircuncisos. Tanto pagãos e gentios como os judeus. Se fosse pela Lei os gentios estariam fora, estariam excluídos da promessa.

            Isto nos lembra que o homem pode receber esta salvação independentemente dos seus antecedentes. Não importa o passado de uma pessoa, ela pode ser um alvo da graça de Deus! Não há pré-requisitos a serem cumpridos por alguém para que a graça chegue até ele. Esta é a mensagem da parábola dos trabalhadores contratados para trabalhar na vinha (Mt. 24).

Deus concede sua graça a quem quer, na hora que quer e como quer. O dono da vinha empregou àqueles que passaram o dia todo na praça. Ninguém desejou empregar àqueles homens, eles passaram o dia todo sem emprego! Provavelmente, eram trabalhadores que nenhum empregador desejou. Prostitutas, publicanos, malfeitores... eram os “preferidos”de Jesus. “A graça, assim como a água, corre para as partes mais baixas”. (Philip Yancey) O senhor pagou aos da última hora o mesmo que receberam aqueles que trabalharam o dia inteiro. Aparentemente isto não era justo, no entanto, a salvação não é questão de justiça! A questão aqui é de graça e não de obras, de feitos, de trabalhos, de justiça! Deus concede sua graça a quem quer, na hora que quer e como quer. Isto é anunciado o tempo todo na Palavra de Deus!

            Reconhecer e conviver com um Deus soberano, que faz o que quer com o que é seu não é fácil. É complicado relacionar-se com um Senhor que: abre portas para uns e não para outros que responde às orações de alguns de forma surpreendente, deixando outros em compasso de espera, que cura alguns e não cura outros. Tudo isto gera em nós uma sensação de injustiça. A mesma que aqueles trabalhadores contratados na primeira hora sentiram.

            A soberania de Deus é algo nos humilha! Entender, na prática, que toda recompensa resulta da graça de Deus e não do mérito humano é revoltante! Perceber que ninguém é melhor do que ninguém não é algo que gostamos. Afinal, nos achamos melhores que o pobre, o feio, o gordo, a prostituta...

            A salvação, graças a Deus, é totalmente de Deus! E é somente por essa razão que ela é certa e segura. Nossa salvação só é garantida porque se baseia no caráter de Deus. Se nossa salvação dependesse em algum sentido de nós mesmos, de nossas capacidades, de nossa fidelidade, de nosso entendimento, ninguém se salvaria! A maior prova desta verdade é o exemplo de Adão. O primeiro homem foi criado perfeito e colocado no paraíso, e, no entanto, falhou! No Éden a relação com Deus era baseada na aliança das obras. O homem estava livre do pecado, era perfeito, nunca tinha feito nada contra o Criador. Deus tinha feito com Adão um pacto de obras, Ele tinha dito ao homem: “Você permanecerá aqui e terá a imortalidade se cumprir a minha lei”. Mesmo no paraíso, sem nenhum pecado em seu ser, o homem caiu. Sendo assim, que esperança haveria para qualquer um de nós, homens e mulheres imperfeitos, em pecado, num mundo completamente corrompido e depravado?

            Graças a Deus a salvação não depende do esforço humano. “É da fé para que seja pela graça, com o fim de que a promessa seja assegurada a toda a semente”. Não está em nossas mãos, graças a Deus! Está nas mãos daquele que “em vós começou a boa obra e a aperfeiçoará até o dia de Cristo Jesus”. Estou salvo não porque eu me seguro em Deus, mas porque Deus me segura poderosamente!“E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará de minha mão. Meu Pai, que mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai”. (Jo. 10: 29).

            É porque estamos nesta mão, na mão de Cristo e na mão do Pai, que a nossa salvação é absolutamente segura!

 

 “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser o pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso também lhe foi imputado para justiça”.(v. 18-22)

 

Paulo tratou de todos os argumentos contra a doutrina da justificação somente pela fé.  Ele enfrentou todas as objeções a essa doutrina que se pode conceber. Paulo foi paciente, dedicou tempo a cada argumento. Ele avaliou tudo o que se pode dizer contra esta doutrina e, depois de considerar tudo ele disse: “Portanto é pela fé, para que seja segundo a graça”.

            Tendo examinado o assunto em toda a sua teoria, Paulo vai dar uma lição prática sobre justificação pela fé. O apóstolo vai nos mostrar características da fé. Para isto ele continua falando do que aconteceu com Abraão. O pai da fé, diz Paulo, creu em Deus quando tudo o levava a duvidar e a desacreditar de Deus: “esperando contra a esperança, creu”.

            No verso dezenove Paulo nos convida a considerar os fatos. O corpo de Abraão estava amortecido, ou seja, não era mais capaz de gerar filhos. O ventre de Sara, à semelhança do corpo de Abraão, estava morto. Desta maneira, onde é que Abraão e Sara poderiam nutrir alguma esperança de algum dia terem um filho? Não existia nenhuma esperança! Era impossível! Tudo estava contra o curso da natureza, contra o curso da vida! As circunstâncias contribuíam para destruir toda e qualquer esperança. Era uma situação que não havia nenhum vislumbre de esperança!

            Diante deste quadro, Paulo nos informa que Abraão “esperando contra a esperança, creu”. Os termos “esperando” e “contra a esperança” apontam para direções opostas. “Contra a esperança”, nos lembra as circunstâncias mencionadas no verso dezenove. Em termos de recursos humanos, não havia a menor possibilidade de cumprimento da promessa. Exatamente por isto o termo “esperando” ganha um brilho maior. Contra todas as probabilidades, Abraão continuou “esperando”.

            Mesmo levando toda a situação em consideração, Abraão acreditou! No que ele acreditou? Na pura Palavra de Deus e em nada mais! Abraão não tinha coisa alguma a que recorrer quando creu nisso, exceto a promessa divina. Deus fez a declaração, e Abraão agarrou-se nela, unicamente na promessa! Abraão acreditou que Deus era capaz de “vivificar os mortos”. (v.17).

Apesar de todos os argumentos da razão se oporem a fé de Abraão, apesar de o senso comum ir fortemente contra a crença de Abraão, apesar de toda a história da raça humana parecer ridicularizar a fé de Abraão, apesar de tudo estar contra Abraão, ele “em esperança, creu contra a esperança”. Isto é uma característica fortíssima da fé: Crer em Deus mesmo quando as evidências mostram o contrário. A fé não pede provas, não as busca. Em certo sentido, ela não tem necessidade de comprovações, afinal, a fé se contenta com a pura Palavra de Deus. “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça”.

            Os fatos externos iam contra a lógica, mas uma única expressão derrubou todos os fatos da razão: “Segundo lhe fora dito”. (v.18). Esta expressão é fantástica! Ela nos mostra que a fé em Deus não representa um salto às cegas no escuro. A fé sempre envolve a crença numa promessa específica de Deus. No caso de Abraão isso significou acreditar em uma promessa que desafiava toda e qualquer base lógica para se ter esperança.

            Humanamente falando, era ridículo Abraão achar que ele e Sara poderiam ter um filho. Ela já tinha passado dos noventa, ele já tinha mais de cem. Mesmo assim, ele creu! Acreditou não nos fatos externos (estes o desanimavam), mas na promessa de Deus! Quando as tentações vinham à mente de Abraão para roubar-lhe a esperança e precipitá-lo em desespero, ele voltava sua mente para a promessa que lhe fora dada por Deus.

“Esperando contra a esperança, creu... segundo lhe fora dito”. Que exemplo! Que atitude fantástica a de Abraão!

            A verdadeira fé sempre tem entre os seus componentes este elemento de segurança, de certeza e de confiança. A fé não se limita à esperança. Fé é estar plenamente persuadido, certo e seguro, mesmo contra todas as evidências! Em outras palavras, a fé não é algo vago e incerto, indefinido e nebuloso. Pelo contrário: “Estando plenamente convicto de que Ele era poderoso para cumprir o que prometera”. (v.21). “Mas eu sei em quem tenho crido, e estou bem certo que é poderoso para guardar o meu tesouro”.

 

“Sem enfraquecer na fé, embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou”. (v.19)

 

Este verso reforça o que foi dito no verso anterior. Embora não tenha ignorado os fatos sobre a sua própria idade e a de Sara, Abraão estava tão absorvido pela promessa de Deus, que sua fé não vacilou. Ele não permitiu que a realidade tivesse um efeito negativo em sua fé na promessa de Deus. Ele enfrentou o “amortecimento” de si mesmo e de sua esposa sem duvidar da Palavra de Deus: “Sem enfraquecer na fé”.

Abraão não hesitou, nem vacilou naquele momento de incerteza. Havendo considerado todos os fatores, ele concluiu que era melhor confiar na promessa de Deus. Quando não existia nenhuma razão para continuar crendo, Abraão acreditou! “Se a nossa fé não voar com asas celestiais, de modo a vermos muito além de todas as sensações da carne, apodreceremos nos lamaçais deste mundo”. (Calvino).

            Abraão não enfraqueceu na fé porque fixou sua atenção na promessa de Deus. O bom senso diz: “não pode ser”, a razão diz: “não acontecerá”, mas a fé afirma: “pode ser e será, pois me foi prometido”.          

Este verso também nos lembra de uma outra verdade muito preciosa: a fé não se recusa a encarar os fatos. Muitos céticos olham para a fé como sendo uma “lavagem cerebral” que é feita nas pessoas. Eles dizem que a fé é um escapismo das pessoas. Afirmam que a fé é usada por pessoas fracas que não tem coragem de encarar a realidade, por homens e mulheres que não querem encarar a vida de frente, que buscam na fé uma saída.

Tais céticos não conseguem fazer a diferença entre fé e credulidade. A credulidade é ingênua, está baseada na superstição e no preconceito irracional. A credulidade acredita em algo sem ter motivo para crer. A grande maioria das pessoas possuem credulidade e não a fé bíblica. Quando Marx disse que “a religião é o ópio do povo” ele tinha a credulidade em mente.

Deus não requer credulidade, e sim uma fé sadia. A fé bíblica está diretamente relacionada com a razão. O autor de Hebreus disse sobre o relacionamento da fé com a razão: “pela fé entendemos” (Hb. 11) Ou seja, não aceitamos as coisas cegamente. Crer é também pensar. Fé não é crer sem provas, mas confiar sem reservas.

            Portanto, fé não é suicídio intelectual como querem algumas pessoas. Deus pede que creiamos no que ele expressa na plenitude da luz e com evidência consumada. Deus não pede para crermos na ressurreição sem primeiro tirar Jesus da sepultura. A fé racional deve ser o ponto de partida para o nosso relacionamento com Deus. Só podemos conhecer a Deus pessoalmente se, primeiro, conhecermos a verdade sobre Ele.

            A fé de Abraão não era credulidade, sendo assim, ele foi capaz de encarar os fatos de frente! “Embora levasse em conta o seu próprio corpo amortecido, sendo já de cem anos, e a idade avançada de Sara, não duvidou”. Abraão se lembrou de sua idade, bem como da idade de sua esposa. Ele viu os fatos como eles eram. Viu-os em sua pior expressão! Todavia, não foi enfraquecido em sua fé! Ele olhou para os fatos, mas não parou por aí. Abraão não ficou apenas olhando os fatos, as dificuldades e os obstáculos; ele os viu, porém tendo-os observado, olhou para Alguém mais.

            Um dos problemas da incredulidade é que ela só vê as dificuldades. Uma perfeita ilustração disto foi o incidente de Pedro andando sobre as águas. Enquanto ele olhou para Jesus, pôde andar sobre as ondas. Mas quando começou a olhar para as ondas e “reparou na força do vento”, ele começou a afundar.

            A fé não fica girando em torno dos problemas, ela os sobrepuja e os vence! A fé encara o problema (não se recusa a encarar os fatos) e considera as dificuldades. Contudo, não se enfraquece, mas permanece forte e vence seus inimigos!

            A fé é o que nos habilita a sermos fortes, a termos vigor, força e poder em todo o nosso viver. Foi a fé que capacitou Abraão a sair da sua terra, do meio dos seus parentes em busca de uma terra que ele nem sabia onde era, a continuar acreditando em Deus mesmo quando todas as evidências apontavam o contrário, a “sacrificar” seu filho, pois acreditava que “Deus era poderoso para ressuscitá-lo dentre os mortos”, (Hb.11:19)a entrar na mais famosa lista da história: a dos Heróis da Fé (Hb. 11).

            Precisamos pedir a Deus para nos dar um coração que acredite em Seu poder. Deus honra àqueles que possuem uma fé que se arrisca pelo Seu reino. Quando arcas são construídas, vidas são salvas. Quando soldados marcham, Jericó desmorona. Quando exércitos se levantam, mares ainda se abrem. Quando um lanche é compartilhado, milhares são alimentados. Quando uma roupa é tocada pela mão de um suplicante, Jesus deixa fluir poder de seu ser.

            Muitas vezes tratamos e olhamos para as coisas do Reino de Deus de maneira muito fria e racional. Precisamos crer no improvável e no inimaginável, naquilo que não faz sentido, no que fere o senso comum, no que extrapola as categorias do explicável e do plausível, em coisas que não podem ser vistas e tampouco comprovadas, no que excede o entendimento.

            Alguém já disse que “a História é a História de Deus”. E a história de Deus concentra-se nos fiéis a Ele, não importa o resultado dos fatos. Quando Nabucodonosor ameaçou três jovens de serem torturados pelo fogo, eles responderam: “Se formos lançados na fornalha de fogo ardente, o nosso Deus, a quem nós servimos, pode livrar-nos dela, e ele nos livrará da tua mão, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste”. (Dn. 3:17, 18)

            Na sua maneira de fazer história Deus não se impressiona com tamanho, poder ou riqueza. Fé é o que ele está esperando! E os heróis que vemos surgir não são heróis de poder ou riqueza, são heróis da fé!

 

“E não somente por causa dele está escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação”. (v. 23-25)

 

Paulo nos lembra que a história de Abraão é relevante e muito importante para cada um de nós, afinal, a maneira como somos justificados é a mesma maneira como Abraão foi justificado! Na pessoa de Abraão foi exibido o exemplo da justiça que é aplicada igualmente a todos. A declaração a respeito de Abraão não se restringe a Abraão; o que é verdade a respeito de Abraão é verdade a respeito de todo aquele que é reconciliado com Deus.

            “Não só por causa dele está escrito”. Se crermos como Abraão creu, seremos justificados como Abraão foi justificado. Desta forma, somos lembrados por Paulo, do dever de extrair benefícios dos exemplos bíblicos. Como disse Goethe: “Quem ignora o passado e não se dispõe a aprender com ele, está condenado a repeti-lo estupidamente no futuro”.

Precisamos olhar para os exemplos bíblicos do passado e extrairmos deles lições para as nossas vidas. Através das histórias bíblicas somos ensinados a fortalecer a fé, a jamais esquecer da importância do temor ao Senhor, a sobriedade, a caridade, o amor, a paciência, o desprezo ao mundo. Aprendemos através dos exemplos narrados nas Escrituras que o mesmo Deus que livrou seus servos no passado, pode fazer isto no presente, que as punições divinas certamente recaem sobre os desobedientes.

            Aos escrever aos crentes de Corinto, Paulo disse o seguinte: “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos tem chegado”. (I Cor. 10:11). Portanto, os exemplos do passado, devem inspirar em nossos corações o temor, a reverência e a devoção por Deus. Este é uma das mensagens indiretas de Paulo ao escrever que “Não somente por causa dele está escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa”. (v.23)

            Em seguida, Paulo passa a nos mostrar especificamente a quem e ao que nossa fé deve ser dirigida. O apóstolo faz isto porque as circunstâncias de nossa fé não são idênticas às de Abraão, afinal, não nos encontramos no mesmo contexto histórico de Abraão. Contudo, será que o conteúdo e o objeto da nossa fé são diferentes da fé de Abraão? É sobre isto que Paulo trata nos versos 24 e 25. Nestes versos o objeto da fé é cuidadosamente especificado pelo apóstolo.

Paulo nos mostra que o contexto era diferente, mas o conteúdo e o objeto são semelhantes! Primeiro: Paulo afirma que foi Deus quem ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Aqui existe uma semelhança entre a fé exercida por Abraão e a nossa. Confiamos que Deus exerceu este ato sobrenatural de ressuscitar Jesus dos mortos. Da mesma maneira, Abraão creu em Deus para realizar um ato sobrenatural. Segundo: O Deus em quem confiamos é Aquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos. Isso estabelece outro ponto de conexão entre a nossa fé e a fé do grande patriarca. Abraão voltava-se para Deus como Aquele que vivifica os mortos (4:17). Terceiro: Abraão se apropriou da promessa na certeza da fidelidade da Palavra de Deus. Nós também fazemos o mesmo em relação à ressurreição de Jesus!

            Portanto, existe uma unidade essencial entre a fé de Abraão e a nossa. O objeto e o conteúdo da fé de Abraão são idênticos ao da nossa fé: “A nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor”.

            Ter fé e crer em Deus não é somente crer em Deus de modo geral. Há muitos que crêem em Deus, mas isso não os torna cristãos. A fé que caracteriza o cristão, a fé justificadora, é a fé que crê em Deus de um modo particular. É a fé que reconhece que Jesus ressuscitou dentre os mortos. Crer na ressurreição de Cristo é fundamental para alguém se tornar cristão. A ressurreição de Cristo é a afirmação central da igreja cristã. Com esta verdade, toda a religião cristã, toda a fé em Deus, permanece ou desmorona. Se não há ressurreição não há razão para que a igreja continue, a não ser como uma agência social de serviços humanitários com uma vestimenta religiosa.

O próprio Paulo nos alertou que “Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé”. (I Cor.15:17) É vã, pois se Jesus jamais tivesse saído da prisão da sepultura, que certeza teríamos de que o nosso resgate tinha sido pago? Como poderíamos ter a confiança de que Ele venceu a morte? Se não houve ressurreição a fé é inútil (v.14), o testemunho apostólico é falso (v.15), os crentes estão em seus pecados sem salvação (v.17). Somos as mais infelizes das criaturas.

            É a ressurreição que estabelece definitivamente o fato de que Jesus é Deus, de que Ele é o Filho de Deus. É a ressurreição que proclama Jesus Senhor sobre todas as coisas! Se Cristo não tivesse ressuscitado dentre os mortos ele não seria vencedor, afinal, Ele não poderia nos oferecer absolutamente nada, Ele não seria capaz de justificar homem algum neste mundo!

“O qual foi entregue”. A atenção do leitor é direcionada para a ação do Pai em entregar Seu Filho para fazer expiação pelos nossos pecados. Paulo nos lembra do papel de Deus Pai no processo de salvação do homem. (Rm. 8:11; 10:9; I Pe. 1:21; Jo. 5:24).

            Foi o Pai quem planejou, providenciou e executou esta grande obra de redenção! “Quem entregou Jesus para morrer? Não foi Judas por dinheiro, não foi Pilatos por temor, não foram os judeus por inveja, mas o Pai por amor”. (Octavius Winslow)

            É importante realçar o papel do Pai na salvação, pois desta forma Ele recebe toda a glória por nossa salvação! Podemos perceber como o amor de Deus por nós é algo maravilhoso. O Pai nos amou de tal maneira que parece ter nos amado mais do que o Seu próprio Filho. Ele não poupou Seu único Filho para que pudesse nos poupar! Ele permitiu que Seu Filho perecesse “para que todo aquele que nele crê não pereça...”. (Jo. 3:16) Jesus morreu, não para fazer com que Deus nos amasse, mas porque Deus já amava o seu povo. O Pai não apenas enviou Seu Filho ao mundo, Ele deu o Seu Filho pelo mundo. “Enviar” mostra a encarnação - “Dar” demonstra a encarnação do amor.

Uma das maneiras de medirmos a profundidade do amor é percebermos a disposição do sacrifício. O grande amor de Davi por Deus podia ser visto no preço que ele estava disposto a pagar: “Não oferecerei sacrifício que não me custe nada”. (I Cr. 21:24). Deus não abriu mão de qualquer coisa, Ele deu Seu único Filho! Seu Filho amado, em que Ele se compraz!

           

“O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação”(v.25)

 

Jesus foi entregue para fazer expiação por nossos pecados e ressuscitou para que fôssemos justificados. Na morte de Cristo nossos pecados foram perdoados, ou seja, nossa dívida bancária foi paga. Contudo, para sermos salvos, não basta ter o déficit pago e a conta zerada, precisamos da um saldo muito positivo. É aí que entra a ressurreição! Foi através da ressurreição que nossa conta bancária passou a ter um saldo agradável a Deus! Paulo fala da ressurreição como sendo aquilo que lança as bases de nossa justificação.

            Precisamos ter o cuidado de não entendermos que a justificação não tenha nada haver com a morte de Cristo, ou que a ressurreição de Cristo não tenha nenhum vínculo com o nosso pecado. O que precisamos perceber é que ao falar desta maneira, o apóstolo estava mostrando que estes dois fatos centrais (morte e ressurreição) são inseparáveis na obra de redenção. A morte e a ressurreição de Cristo formam um único ato redentor. Um não tem sentido sem o outro. Na Bíblia, sempre que um é mencionado o outro está implícito.

O que o apóstolo nos mostra é que não teríamos nossa justificação garantida se Cristo não tivesse levantado do túmulo. Sabendo disto, ao longo dos anos, Satanás tem tentado desacreditar a ressurreição de nosso Senhor.  Várias ideologias foram levantadas ao longo da história tentando negar a ressurreição de Cristo.

A mentira do Sinédrio: “Os discípulos, enquanto os soldados que vigiavam o túmulo dormiam, roubaram o corpo de Jesus e o esconderam”. (Mt. 28:13). Este argumento é tão fraco que o derrubamos imediatamente.  Se os soldados estavam dormindo, como viram que foram os discípulos que roubaram o corpo? Se estavam acordados, porque deixaram que o corpo fosse roubado? Em ambos os casos os soldados teriam sido severamente punidos por negligência, e não foi isto o que aconteceu.

            A Mentira do Racionalismo: “Jesus não morreu na cruz, apenas desmaiou. Foi sepultado, depois despertou do desmaio, empurrou a pedra e saiu”. Acreditar em desmaio depois de todas as torturas pelas quais Jesus passou é tolice. Mesmo que tenha desmaiado, como ele conseguiria sair do túmulo lacrado e vigiado?

            A Mentira do Fator Psicológico: “Seus seguidores estavam tão aficionados pela idéia de revê-lo que acabaram imaginando que O viram”. Os seguidores de Jesus não estavam obcecados com a idéia de revê-lo, pelo contrário, eles estavam duvidando de que isto poderia acontecer! Como explicar o fato de que mais de 500 pessoas o viram ao mesmo tempo e no mesmo lugar?(I Cor. 15:6). A sabedoria de Deus, que conhece a incredulidade humana, providenciou uma grande nuvem de testemunhas sobre o assunto.

            A Mentira da Mediunidade: “Jesus não ressuscitou, Ele apenas reencarnou, Seu espírito se hospedou em outro corpo”. Num país de tantos espíritas como o Brasil, esta ideologia ganha muitos adeptos. Contudo, Jesus disse a Tomé que colocasse as suas mãos nas feridas que Ele adquiriu na cruz. Aquele era o corpo do próprio Cristo, e não um corpo emprestado. Se Jesus encarnou em outro corpo, porque não acharam o corpo de Cristo? Dezenas de pesquisas arqueológicas foram feitas na região para encontrar o corpo de Cristo, e nada!

            Após a ressurreição de Jesus nenhum incrédulo o viu. Cristo só apareceu àqueles que eram seus discípulos. O que teria acontecido se Jesus reaparecesse na varanda de Pilatos ou perante o Sinédrio, só que desta vez gritando com violência contra aqueles que ordenaram sua morte? Com certeza uma cena assim, causaria sensação, mas será que provocaria fé? Jesus já respondeu a essa pergunta na história sobre Lázaro e o homem rico: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”. (Lc. 16:31).

            Ao invés desta atitude Jesus optou por outro caminho. Ele deixou que os discípulos espalhassem a notícia, como suas testemunhas. É exatamente aqui que entra a maior barreira a crença na ressurreição de Cristo.

            A Mentira dos Falsos Religiosos. As outras mentiras são fáceis de contestarmos e derrubarmos. Agora, a pior de todas as mentiras sobre a ressurreição é contada pelos próprios religiosos. Pessoas que cantam, proclamam e afirmam a tese de que Jesus está vivo, no entanto, o seu comportamento prova exatamente o contrário. E como atitudes falam mais alto do que palavras, isto é terrível!

            Infelizmente, a vida de alguns religiosos é a maior barreira para acreditarmos na ressurreição de Cristo. A verdade da ressurreição de Cristo não casa com uma vida medíocre, desonesta, fria...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO V

 

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. (v. 1,2)

 

 Nos quatro primeiros capítulos Paulo escreve como se os seus leitores ainda fossem pessoas perdidas. A partir do capítulo cinco, o apóstolo dirigir-se a eles como se já fossem cristãos.

            Paulo expõe as conseqüências que advém do fato de que fomos justificados. Todos os que têm esta nova vida em Cristo, estão livres da ira (capítulo 5), livres do pecado (capítulo 6), livres da Lei (capítulo 7), livres da morte (capítulo 8).

            No capítulo cinco ele nos mostra que a nossa final e completa salvação é certa, está garantida, é absoluta. (v.2). Se não houvesse certeza do nosso estado futuro, quem ousaria gloriar-se? O apóstolo também nos lembra que nada jamais pode arrancar de nós a salvação. As maiores tribulações que nos sobrevenham não poderão nos privar da salvação. (v.3,4 e 5). Além disso, Paulo leva seu leitor a compreender que a justificação torna a salvação absolutamente segura. (v.6-11) Ela é segura porque é totalmente de Deus, baseada no amor de Deus, no caráter de Deus.

Deus nos amou quando éramos completamente fracos, quando éramos seus inimigos. Esse é o maior de todos os argumentos. Deus enviou Seu Filho para morrer por nós quando éramos pecadores. Agora que também somos seus filhos, Ele iria permitir que nos perdêssemos? “Se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte de seu Filho, muito mais estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”. (v. 10).

            Se Deus fez a obra máxima quando éramos inimigos, não poderá deixar de fazer coisas necessárias para garantir a nossa final e total libertação do pecado. É Ele quem garante a nossa glorificação final!

            Paulo nos mostra que a justificação pela fé, faz logo três coisas pelo homem. Primeiro: Dá-nos paz com Deus. Segundo: Coloca-nos no lugar em que se acham todas as bênçãos. Terceiro: Habilita-nos a exultar na perspectiva de nossa glorificação futura e definitiva.

            “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus”.   É interessante perceber que antes de falar das bênçãos que o homem pode receber, Paulo fala da paz com Deus. Atualmente o evangelho é pregado ao homem prometendo-lhe as bênçãos do Reino de Deus; contudo, não se anuncia que antes das bênçãos o homem precisa reconciliar-se com Deus. È preciso antes de qualquer coisa estar em “paz com Deus”. Não podemos receber nenhuma benção de Deus enquanto nossa situação não for normalizada com Ele!

            É interessante perceber que o que temos aqui não é apenas “paz”, é “paz com Deus”. O mundo ao nosso redor clama desesperadamente por paz. Paz nos relacionamentos, nas amizades, no casamento, no serviço, nas finanças, enfim, na vida! Todos nós ansiamos por paz. A guerra seja ela militar, ideológica ou sentimental, sempre é algo extremamente doloroso. A paz é aquilo que nós, mesmo sem percebermos, mais desejamos em nossas vidas. Certamente que o maior motivo de infelicidade nas pessoas é a ausência de paz.

            Sabendo disto, Paulo nos lembra que o homem precisa não é de qualquer tipo de paz, mas de “paz com Deus”. E a única maneira de encontrar esta paz é através da justificação pela fé!

 É importante perceber que Paulo não fala da “paz de Deus”, mas ele fala de “paz com Deus”. A diferença pode ser vista quando lemos Filipenses 4:7: “Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições, sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplicas, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus”. A paz que Paulo menciona em Filipenses não é a mesma paz de Romanos. Em Filipenses o apóstolo fala da “paz de Deus”, em Romanos, Paulo fala da “paz com Deus”. Não parece, mas a diferença entre uma e outra é bastante considerável.

            “A paz de Deus” é algo que precisamos quando estamos cercados de dificuldades e provações. É o oposto da ansiedade, da angústia de espírito. Quando falou desta paz, Paulo se dirigiu a pessoas convertidas, já estabelecidas na vida cristã. A “Paz com Deus” fala da situação do homem em relação a Deus. Esta paz não trata da questão de como enfrentar as provações da vida, ela fala de como enfrentar a Lei, o juízo e a justiça de Deus. Esta paz é necessária para todos aqueles que ainda não se converteram, afinal, tais pessoas estão debaixo da ira divina. Em Romanos o assunto é teológico, em Filipenses o assunto é prático e pastoral.

Outro detalhe interessante e importante, é que jamais experimentaremos a “paz de Deus”, enquanto não tivermos primeiro, “paz com Deus”. A pessoa não regenerada não tem paz com Deus. O homem entra no mundo lutando conta Deus, fazendo parte da rebelião que começou com Adão e Eva. No verso dez deste mesmo capítulo, o apóstolo afirma que o homem é inimigo de Deus por natureza, e tudo que ele faz é contrário aos ensinamentos divinos. Ao receber Jesus Cristo como seu Salvador, o homem deixa de ser inimigo de Deus. O evangelho é aquilo que faz uma pessoa em guerra com Deus ficar em paz com Ele (Ef. 6:15). “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus”, saímos do reino das trevas e nos transferimos para o reino da luz. Nossos pecados são perdoados, cessa a rebelião, a guerra terminou e temos paz com Deus!

Outra tradução deste verso diz: “Sendo justificados pela fé, temos paz com referencia a Deus”. Portanto, não é paz com referência às provações, as tribulações e às circunstâncias difíceis, mas, exclusivamente, paz com referência a Deus! Graças à justificação pela fé, aqueles obstáculos que existem entre Deus e o pecador, são removidos; agora existe uma relação inteiramente nova. Antes existia uma barreira, um estado de inimizade, de guerra, mas sendo justificado pela fé tudo isso desapareceu. Estabeleceu-se uma condição de paz entre Deus e o homem justificado.

            Portanto, a comunhão entre Deus e o homem, rompida pela Queda e pelo pecado, foi restabelecida. Somente depois do que Cristo fez por nós, é que Deus pode olhar-nos de maneira favorável. Antes o que existia era a ira de Deus sobre cada um de nós: “Justificados por meio da fé, temos paz com Deus”.

            Não há prova mais certa de nossa justificação do que esta: estamos gozando de paz com Deus? Quem foi justificado pela fé e que tem paz com Deus, pode responder às acusações da própria consciência. Várias vezes somos tentados através de pensamentos que dizem: “Você realmente acredita que irá para o céu? Como você pode estar em paz com Deus em meio a tantos pecados?”. As acusações de nossa consciência são as mais diversas. Contudo, o homem verdadeiramente justificado é capaz de responder a estas acusações.

            Também sofremos as acusações de Satanás. John Newton, antes de sua conversão tinha sido traficante de escravos. Um pecador vil e torpe em todas as suas atitudes. Dificilmente não haveria um pecado que ele não havia cometido. Mediante esta realidade, o Diabo procurava revolver o seu passado e atirá-lo sobre ele. Satanás ressuscitava cada erro e o fazia “visualizar” aqueles delitos. Depois ele desafiava a John Newton: “Você ainda afirma que é cristão, que está perdoado e em paz com Deus?”. Num destes momentos, John Newton compôs um hino que diz o seguinte: “Sê Tu, Senhor, o meu escudo e o meu refugio; para que, junto a Ti, por Ti amparado; Eu consiga enfrentar meu cruel acusador, e dizer-lhe que Tu por mim morreste”. Há somente uma coisa que Satanás não pode contestar, e isto é o argumento do sangue de Cristo: “E eles o venceram, pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho”. (Ap. 12:11).

            Além de não temer a consciência e Satanás, quem foi justificado pela fé e que tem paz com Deus, não tem medo da morte. O justificado sabe que não há nada para se temer na experiência da morte, pelo contrário, ela é até mesmo desejável! Paulo se referiu a ela como: “Uma bem-aventurada partida”, “Estar com Cristo”, “Lucro”. Ao dizer estas palavras, Paulo não estava desprezando a vida neste mundo. Ele afirma que está “constrangido” entre escolher permanecer e desejar partir. O contraste aponta entre esta vida e o céu, ou seja, não é um contraste entre bom e mau, a comparação é entre bom e melhor. Esta vida em Cristo é boa, a vida no céu é muito melhor!

            D. M. Lloyd-Jones quando estava enfermo, fez o seguinte pedido aos membros de sua igreja: “Não orem por cura. Não me impeçam de ver a Jesus!” Ele desejou ardentemente o dia de sua morte! Para ele a morte era muito bem-vinda! Bonhoeffer quando estava sendo levado para ser morto disse aos seus amigos: “Isso não é fim, é o princípio da vida!”. O sábio afirmou que: “O justo até na sua morte tem esperança”. (Pv.  14:32).

            “Por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. A mediação de Cristo não é dispensada em momento algum, ela jamais é suspensa! Não é apenas na justificação, mas também em todos os privilégios que recebemos. É tudo por intermédio de Jesus! Esta idéia é reforçada no v.2: “por intermédio de quem”. Mesmo em nossa aproximação confiante a Deus, dependemos da mediação de Cristo.

            “Gloriamo-nos na esperança da glória de Deus”. Ao perceber o que a justificação pela fé é capaz de realizar, Paulo exulta de alegria! Ele nos lembra da alegria, do regozijo, do gozo que cada cristão deve sentir constantemente!

O coração do apóstolo está cheio de exultação e certeza: “Gloriamo-nos na esperança da glória de Deus” (v.2); “Também nos gloriamos nas próprias tribulações” (v.3); “A esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração” (v. 5); “Muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por Ele salvos da ira” (v.9); “Também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo” (v.11).   Não podemos nos cansar de agradecer a Deus por nossa salvação. Este assunto precisa ser motivo de gratidão constantemente em nossas vidas!

            Só podemos nos gloriar na salvação porque temos a certeza de que jamais a perderemos. Paulo vai tratar deste assunto em vários momentos a partir daqui. Ele vai nos mostrar que podemos exultar em nossa salvação, afinal, “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”. (Rm. 11:29). As dádivas divinas da vida eterna nunca serão revertidas por Deus! “Tu que nunca abandonas as obras começadas, completa o que em mim há de imperfeito”. (Agostinho)

            Para perdermos a salvação, teríamos que retornar à condição de morte espiritual. Que tipo de regeneração o Espírito Santo seria autor se aqueles a quem Ele ressuscitou são capazes de morrer espiritualmente de novo? Não podemos cometer suicídio espiritual! Não se considerarmos seriamente a natureza da nossa regeneração segundo Pedro: “Tendo renascido, não de semente corruptível, mas de incorruptível, pela palavra de Deus, a qual vive e permanece”. (I Pe.1:23)

            Paulo estava certo, realmente podemos nos gloriar na “esperança da glória de Deus”. Os mártires, em sua grande maioria, possuíam uma característica que deixava os reis indignados e intrigados. Eles eram capazes de sorrir diante da sua morte. Eles assim procediam porque sabiam que da fogueira iam diretamente para o céu. Eles se regozijavam na segurança da salvação!

 

“E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança”. (v. 3,4)

 

Estes dois versos, como sugerem as palavras iniciais, são uma continuação do que Paulo vinha dizendo. Nos versos anteriores, o apóstolo tinha nos mostrado porque podemos ter a certeza da salvação. Tendo dito isto, Paulo continua dizendo: “não somente isto”. O que ele estava dizendo não era o fim, existe mais alguma coisa. Existe mais uma prova, diz Paulo, de que estamos salvos.

            Outra garantia da salvação de uma pessoa, é a maneira pela qual a sua fé a habilita a enfrentar as provações e tribulações da vida. Um dos caminhos de averiguarmos o falso e o verdadeiro é observar o que acontece na hora da crise. Uma fé que não nos ajuda quando temos dela a máxima necessidade não é a fé cristã.

Muitos se tornaram cristãos porque sentiram um arrepio, uma emoção mais forte num determinado culto; depois aceitaram o apelo do pregador e foram declarados convertidos. Entraram para o meio evangélico e ficaram empolgados com algumas novidades; até que apareceram as dificuldades e provações, e tais pessoas renunciaram ao cristianismo. Tribulações e sofrimentos logo dão cabo de uma experiência meramente emocional ou psicológica. É o que Jesus ensina na parábola do semeador. As partes da semente que caíram em solo pedregoso cresceram rápido, mas a terra não era profunda, não criou raiz e morreu. Ao fazer a aplicação deste tipo de semente, Jesus disse: “Não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende”. (Mt. 13:21).

            “Nos gloriamos nas próprias tribulações”. É interessante perceber que Paulo não diz que nos gloriamos apesar das tribulações, mas nas tribulações. Paulo não está pregando o masoquismo. Não significa que quando enfrentamos a dor devemos ficar felizes e louvar a Deus irrefletidamente. Em si mesmas, as tribulações são más, aflitivas e não causa de júbilo. “O efeito natural da tribulação, como vemos, leva grande parte da humanidade a murmurar contra Deus, e até mesmo a amaldiçoá-lo”. (Calvino)

            O autor de Hebreus nos disse: “Toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristezas”. (12:11). Quando passamos por momentos difíceis, não gostamos disto! Paulo não está dizendo que devemos gostar do sofrimento, mas que devemos nos gloriar nele. A diferença é abismal! Não é se alegrar pela dor, mas pelo motivo que estamos sofrendo a dor!

            Esta questão pode ser melhor entendida quando analisamos o motivo pelo qual devemos nos gloriar nas tribulações. Devemos nos alegrar pelos problemas e perseguições porque eles provam que somos filhos de Deus: “O Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho”. (Hb. 12:6); “Se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos”. (Hb. 12:8). Se as tribulações provam que eu sou filho de Deus, será que ela não me leva ao regozijo?

            Além disso, as tribulações são usadas por Deus para aprimorar a nossa fé: “Nisso vocês exultam, ainda que agora, por um pouco de tempo, devam ser entristecidos por todo tipo de provação. Assim acontece para que fique comprovado que a fé que vocês têm, muito mais valiosa do que o ouro que perece, mesmo que refinado pelo fogo, é genuína e resultará em louvor, glória e honra, quando Jesus Cristo for revelado”. (I Pe.1:5-7).

            Como que se purifica o ouro? Colocando-o na fornalha! O fogo elimina toda mistura e tudo o que é impuro. Toda a escória é eliminada, restando apenas o ouro puro. É isto que fazem conosco as tribulações e as provações. Elas nos testam, nos provam, e nos livram de toda impureza. Uma fé aprimorada é uma fé fortalecida. “Uma fé como a de Jó não pode ser sacudida, pois é o resultado de ter sido sacudida”. (Abraham Heschel – Rabino)

            As tribulações são usadas por Deus para tornar-nos mais maduros: “Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma”. (Tg. 1:2-4).

Tempos de sofrimento são tempos de aprendizado. "As grandes árvores possuem as cicatrizes das grandes tempestades".  Ninguém aprende nada com a alegria. A alegria é a pior mestra que existe. É por isto que a Bíblia vai dizer que estar na casa onde há luto é melhor que estar na casa onde há festa. No luto todos param para pensar e raciocinar sobre a vida, já na casa onde há festa o que não existe, em momento algum, é o questionamento da vida. A natureza da alegria é fogosa e pouco reflexiva. A alegria não possui a didática que faz o ser humano tornar-se sábio.        

            As tribulações são usadas por Deus para tornar-nos mais sensíveis com a vida e com as pessoas. Muitos precisam passar por dores fortes para valorizarem a vida e as pessoas. Precisam pedir: "amolece meu coração, molha meus olhos". “Uma enfermidade na esposa, uma sepultura recém aberta, a pobreza, a difamação, a depressão do espírito, ensinam lições que em nenhuma outra parte se aprende tão bem”. (Spurgeon)

            As tribulações são usadas por Deus para nos mostrar quem realmente somos. Normalmente somos muito arrogantes, petulantes por natureza. Estamos sempre exagerando em nossa auto-estima. Estamos sempre inclinados a pensar que conosco as coisas são sempre melhores do que realmente são. Então vem a tribulação e nos humilha, e percebemos que não somos tão fortes ou tão bons como achávamos que fôssemos. Desta maneira somos levados a ficar mais dependentes de Deus.

            Mediante tudo isto será que conseguimos entender que devemos nos regozijar nas tribulações? O cristão que não estiver experimentando algum tipo de provação ou correção deve examinar-se seriamente. Não há nada mais suspeito do que um cristão que não passa por lutas e tribulações. Jesus disse: “Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem”. (Lc. 6:26).

            Portanto, as tribulações nos levam a conhecer melhor o Senhor e a nós mesmos. Elas não apenas demonstram o amor de Deus por mim - “O Senhor corrige a quem ama” - como testa e comprova, ao mesmo tempo, o meu amor por Deus. Se amamos ao Senhor só quando tudo vai bem, não somos cristãos de verdade. O cristão verdadeiro é aquele que pode dizer como Jó: “Ainda que ele me mate, nele confiarei”. (Jó 13:15).

“A tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança”. Dá para acreditar que isto seja verdade? Podemos entender que a tribulação gere experiência, agora, onde é que a tribulação produzirá perseverança (paciência) e esperança? Tudo que nós não temos na hora da tribulação é paciência e esperança! Queremos que o momento de agonia passe rápido. Não vemos muitas saídas no contexto de dor em que vivemos. Como entender isto?

Percebam que Paulo está falando de algo que é progressivo, uma coisa leva a outra. Para isto, Paulo faz uma lista de um processo santificador que termina por produzir esperança. É interessante perceber que Paulo coloca a esperança no final da lista. Ele não a utiliza no início, onde normalmente era de se esperar. Ele faz isto, não porque “a esperança é a última que morre”, mas porque ela é o resultado do processo. Primeiro vem a tribulação, depois a perseverança, depois a experiência e por fim, a esperança.

            O que desejo realçar é que Paulo nos mostra que a esperança bíblica emerge da luta, é produto da fidelidade. Mesmo que não entendamos os caminhos de Deus, precisamos ser fiéis a Ele! “Abraão creu contra a lógica”. (Rm. 4:18). “Esperança que se vê não é esperança” (Rm. 8:24). Ou seja, esperança de hora marcada não é esperança, é lógica do encontro. A esperança é filha do atraso, e no contexto bíblico, ela é gerada no meio da dor.

            Paulo sabia, por experiência própria, que os cristãos, muitas vezes, passarão por tribulações nesta vida. Nosso Senhor dirigiu-se aos discípulos e os advertiu de que no mundo eles teriam aflições. O apóstolo advertiu aos recém-convertidos com as seguintes palavras: “Por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus”. (At. 14:22).

O Novo Testamento nos ensina que o provável é que o cristão tenha mais tribulações do que qualquer outra pessoa. Diante desta realidade, o apóstolo nos lembra que nosso papel é sermos fiéis a Deus, e como conseqüência, Ele nos recompensará com esperança!

            Mas o que é que significa esperança dentro da palavra de Deus? Certas expressões bíblicas têm sido confundidas com outras palavras que não trazem o real ensinamento bíblico: Fé e pensamento positivo, arrependimento e remorso, pecado com sentimento de culpa, alegria com euforia, perdão e esquecimento. O significado dessas palavras são completamente diferentes! As experiências decorrentes também serão diferentes! Se encararmos estas expressões de maneira igual, teremos sérios problemas. Pensamento positivo, remorso, sentimento de culpa, euforia, esquecimento, estas palavras fazem parte do vocabulário dos manuais de auto-ajuda; fé, arrependimento, pecado, alegria e perdão, estas palavras fazem parte do vocabulário bíblico, da dependência de Deus, da oração.

            Da mesma maneira que confundem estas palavras, algumas pessoas confundem esperança com otimismo. Estas são palavras diferentes que promovem atitudes radicalmente distintas! O otimismo é uma atitude que depende exclusivamente do homem, é um sentimento produzido pelo coração humano. Por causa disto, é inconstante e pode falhar, afinal, ele depende da personalidade de cada um.

O otimismo deixa o homem ligado nas previsões futuras, levando-o a um coração ansioso. Quando chove, o otimista busca sinais de que o sol logo voltará e que as férias serão como planejadas. Enquanto isto, ele fica frustrado, pois não tem outras alternativas. O otimista aguarda com ansiedade a promoção no serviço, enquanto ela não acontece, seu trabalho perde o brilho e torna-se entediante. Portanto, dependendo da situação, apenas o futuro é algo bom para o otimista, o presente perde completamente o significado.

            Já a esperança depende de algo fora do homem, ela depende de Deus! Esperança é a confiança de que Deus irá cumprir todas as Suas promessas, é a certeza de que Deus não nos abandona em momento algum, é a convicção de que os planos divinos são justos e perfeitos, é viver a cada momento da vida confiando e descansando, afinal nos encontramos em boas mãos.

            A esperança aceita conviver com o imprevisível, com o inusitado. A pessoa sabe viver o presente como dádiva de Deus. Ainda que as circunstâncias não sejam favoráveis, ela pode descansar e confiar em Deus. Habacuque entendeu completamente a diferença entre otimismo e esperança quando afirmou que:“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia eu me alegro no Senhor, e exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza, faz os meus pés como os da corça e me faz andar altaneiramente”.

            As previsões não eram das melhores, os riscos eram muito grandes, mas a esperança fez com que seu presente fosse cheio de vitalidade, alegria e firmeza. O mesmo que aconteceu na experiência de Abraão.

            Certo evangelista americano que perdeu toda sua família num incêndio em Chicago escreveu o seguinte hino:

 

As nuvens negras, a dor em mim; eu não compreendo, não sei seu fim.

Há muitas coisas a esclarecer, mas sei que um dia, hei de saber.

Nós falaremos num porvir de amor. Conversaremos, eu e o Senhor.

Pois mil perguntas vou lhe fazer, lindas respostas Ele vai me conceder.

 

            Este homem não negou a dor que sentia, não escondia o seu sofrimento, contudo, ele reconheceu sua limitação e incapacidade de compreensão. Ele compreendeu que Deus sabe o que é o melhor! Isto é esperança e não otimismo. Enquanto aguarda as respostas que virão, vive as promessas de cada dia!

            Paulo faz uma clara distinção de otimismo e esperança. O apóstolo nos diz que com a esperança somos capazes de “nos gloriarmos nas próprias tribulações” (v.3). Ele não nega a realidade das tribulações. Elas existem e doem demais! No entanto, somos consolados com a visão de que estes sofrimentos são usados por Deus para um bem muito maior em nossas vidas!

 

“Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”. (v. 5)

 

Dizem que “a esperança é a última que morre”. Mas morre! E quando morre, não resta absolutamente nada! Inicia-se um período de desespero, de angústia, de um caminho sem volta! A Bíblia nos fala que a esperança morreu para algumas pessoas: “Naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo”. (Ef. 2:12). “Para não vos entristecerdes como os demais que não tem esperança”. (I Tes. 4:13).

            Já para o cristão, a esperança não morre nunca! Ela é firme e segura! “O justo até na sua morte tem esperança”. (Pv. 14:32). A esperança daquele que é justificado nunca o desapontará ou se mostrará ilusória. Isto acontece porque a esperança destas pessoas é ancorada no amor redentor de Deus: “A esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo”.

            O amor de Deus não sofre qualquer variação ou reversão. Se o amor faz parte da natureza de Deus e se Deus é imutável, logo, o amor de Deus é imutável. Jacó é um dos maiores exemplos do amor imutável de Deus. Apesar de tudo o que fez, Deus continuou amando Jacó! Apesar de tudo o que os discípulos fizeram na noite da crucificação, Jesus continuou os amando: “Havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim!”. Sendo assim, a esperança do cristão que está baseada no amor de Deus, também não pode deixar de existir! Essa é a importância do derramamento desse amor em nossos corações: Manter-nos sempre com esperança!

            “O amor de Deus é derramado”. O amor de Deus não é racionado por um conta-gotas. Pelo contrário, ele é “derramado” pelo Espírito Santo. A expressão “derramado” indica a abundante difusão deste amor. O que foi derramado penetrou todas as partes, enchendo tudo até transbordar! George Whitefield disse que quando o amor de Deus foi derramado em seu coração “era como se viesse sobre mim ondas fortíssimas que abalaram completamente toda a minha estrutura física, deixando-a em profundo colapso”.

            “Pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado”. Além dos quatro motivos já citados, o apóstolo nos oferece uma quinta prova da nossa certeza de salvação. O fato de o Espírito Santo ter sido dado ao homem é uma garantia do caráter final e definitivo da sua salvação, é uma prova de que Deus começou a agir em seu coração, de que o Senhor está interessado em sua glorificação final!

            O Espírito Santo residindo dentro do homem, é uma garantia de que ele continuará na fé. “Deus é o que efetua em vós tanto o querer como o efetuar”. (Fp. 2:13). Somos instáveis, inconstantes, vacilantes. Muitas vezes desanimamos, descremos... mas retornamos, não por nós, mas por Cristo! É Ele quem opera em nós o querer! E isto é garantia da nossa salvação! Não amaríamos a Palavra de Deus, não lutaríamos contra o pecado, não evitaríamos o erro, se não fosse o Espírito Santo em nós!

            Como posso ter certeza de que o Espírito Santo está em mim? Existem algumas maneiras de se ter esta certeza, eu quero citar apenas três. Primeiro: Quem tem o Espírito Santo produz o fruto do Espírito: “O fruto do Espírito é amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança”. (Gl. 5:22). Você produz estas virtudes? Você tem no seu caráter tais características? Segundo: “Sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os nossos irmãos”. (I Jo. 3:14). Se não existe amor em seu coração pelos seus irmãos, cuidado, muito cuidado! Pode ser que o Espírito Santo não esteja em você. Pode ser que você não seja uma pessoa regenerada! Terceiro: O Espírito sempre nos levará a adorar e a louvar o Filho. O louvor ao Filho é a prova definitiva da obra do Espírito Santo em nossos corações. Não importa quão maravilhosas coisas você seja habilitado a fazer, se a sua experiência não o levar a glorificar o nome do Filho o tempo todo, não é o Espírito Santo de Deus.

            Num dos seus livros J. I. Packer nos conta de uma belíssima catedral em Vancouver que foi espetacularmente iluminada com holofotes durante a noite. As luzes que iluminavam aquela catedral eram tão belas que, segundo Packer: “Pode ser que alguém fosse tolo de passar pela catedral durante à noite e ficar olhando para as luzes brilhantes e, naturalmente, esta não era a intenção dos que as colocaram lá. Em vez disso, pretendia-se que alguém gozasse da visão da catedral. Da mesma forma, o Espírito Santo não foi dado para atrair atenção para si mesmo, mas para expor a glória de Cristo no meio da noite escura do pecado e da morte. Precisamos do Espírito Santo para iluminar Cristo, mas é Cristo o foco da nossa admiração”.

            Através do Espírito Santo podemos desfrutar da presença de Deus e conhecê-lo pessoalmente. O Espírito reside em nós! Nenhum seguidor de Confúcio, Buda ou muçulmano pode alegar conhecer o seu deus pessoalmente. Essa crença, que se encontra no âmago da fé, pertence unicamente ao Cristianismo.

 

“Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. (v. 6-8)

 

Talvez não exista nenhuma declaração mais grandiosa do amor de Deus do que a que lemos nestes versículos. No verso seis o apóstolo nos dá a idéia central do que ele tem em mente. Depois, nos versos sete e oito, ele desenvolve a declaração feita resumidamente no verso anterior, faz isto para que ninguém fique sem entender a grandeza desta declaração.

            Portanto, nestes três versos, Paulo vai nos dar duas provas do amor de Deus por nós. Primeiro: O amor de Deus pelo homem pode ser visto no sacrifício de Cristo pelos ímpios. Paulo nos convida a considerar o caráter das pessoas para as quais foi feito o sacrifício de Cristo. Se fosse feito em favor de pessoas boas, piedosas, amorosas, já seria algo maravilhoso. Mas não! Jesus morreu em favor de pessoas sem nenhuma virtude! Estas pessoas eram “fracas”, “ímpias”, “pecadoras”.

            A expressão “fracas” nos mostra a incapacidade total. Significa que não tínhamos nenhum poder espiritual, éramos completamente incapazes, sem nenhuma força para nos movermos em direção à salvação.

“Ímpios” nos fala do homem desfigurado diante da imagem do Criador. O homem foi “criado a imagem e semelhança de Deus”, ao pecar, diz Paulo que o homem foi “destituído da glória de Deus”, ou seja, grande parte da imagem divina no homem foi perdida. O homem não apenas ficou diferente de Deus, ele também não ama o seu Criador! O apóstolo vai dizer que o homem tornou-se “inimigo de Deus”. (v. 10). Por natureza o homem não tem prazer na Lei de Deus, em Seus mandamentos, em obedecê-lo: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus”. (8:7). O salmista falando a respeito do homem ímpio, disse: “Deus não está em seus pensamentos”. Isto é impiedade: Ausência de amor, de temor, de reverência para com Deus.

            O que o apóstolo está nos mostrando é que Cristo teve que descer a um ponto muito baixo para elevar-nos. Nada, senão o amor de Deus poderia fazer Cristo sair de onde estava e ir para onde Ele foi. Portanto, a vinda do Filho de Deus a este mundo é uma grande demonstração do amor de Deus.

            O amor de Deus foi derramado sobre um mundo perdido, arruinado e culpado! O que é que existia no mundo para que Deus o amasse? Não havia nada neste universo que fosse digno do amor divino. Inimizade para com Deus, ódio à sua verdade, desprezo à Sua Lei, rebelião contra os Seus mandamentos. Portanto, Paulo tem razão quando diz que “Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”.

            “Cristo... morreu”. É por causa da morte de Cristo que somos verdadeiramente salvos. Jesus não nos redime por Seus ensinos, pelo Seu exemplo ou por sua vida. Todos estes aspectos são gloriosos e de inestimável valor, contudo, não somos salvos por nenhum deles. Para sermos redimidos foi necessário o derramamento do sangue do Cordeiro: “Sem derramamento de sangue não há remissão de pecados”.

            “Morreu a seu tempo”. Outra tradução diz: “no tempo determinado”. O texto traz a idéia de “no tempo próprio”. Que tempo determinado seria este? No passado, antes da fundação do mundo, antes da criação do homem, antes da existência do próprio tempo, Deus planejou este extraordinário e glorioso meio de salvação. Planejou em detalhes. Planejou que Seu Filho viria ao mundo para fazer a expiação pelos pecados dos eleitos. Em várias outras partes das Escrituras nós encontramos a mesma idéia: “Vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu filho nascido de mulher... para remir os homens”. (Gl. 4:4).

            Aprendemos com isto que a salvação não foi uma atitude posterior e emergencial de Deus. Existia um plano de salvação, um esquema de redenção que foi estabelecido antes dos tempos. “O Cordeiro que foi morto antes da fundação do mundo”. (Ap. 13:8). Nossa salvação não é algo acidental ou por acaso, nosso Pai já nos amava antes mesmo de existirmos! Antes da nossa existência, a morte de Cristo em nosso lugar já tinha sido planejada!    

O planejamento da salvação é uma gloriosa manifestação do amor de Deus. Este amor, como disse Jeremias é um “amor eterno”. O tempo está vinculado com Seu amor. A promessa de que Jesus seria enviado foi feita no Jardim do Éden, logo após a queda de Adão. Através dos tempos o Pai se manteve Fiel à Sua promessa! Cada animal morto dentro do sistema de sacrifícios era um prenúncio do Cordeiro que seria entregue. Cada sacrifício era uma confirmação de que Deus não voltaria atrás de Sua decisão. Imagine que uma mãe soubesse a data exata da morte de um filho. Como ela viveria ano após ano, mês após mês? Esta situação lançaria uma sombra sobre cada dia e hora do futuro! E, se ela soubesse não apenas o dia, mas a maneira (como um criminoso) como o filho morreria? Isto certamente traria uma amargura ainda maior! Se esta mãe pudesse evitar esta situação, ela não o faria? É claro que sim! No entanto, o Pai não poupou o seu próprio Filho, antes por todos nós o entregou! Ele fez isto, ano após ano, por amor! Amor “que muitas águas não podem sufocar”, amor eterno, inconcebível, infinito, imutável!

O Pai entregou Seu Filho desde eras passadas e jamais revogou esta dádiva! Sempre foi fiel a promessa!

            “Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer”. Parece que Paulo faz uma diferenciação entre o homem justo e homem bondoso. O homem justo é aquele que tem consideração para com a justiça e não se desvia do caminho certo. Ele é reto, íntegro, cumpre a Lei, honra os mandamentos. Ele possui uma moral perfeita! Por esta razão, este homem merece admiração e respeito.

Por outro lado, o homem bom não é apenas justo, ele é benevolente e bondoso. Ele é governado pelo amor. Suas ações são permeadas de misericórdia, de bondade, de generosidade. Este, além de admiração e respeito, tem o nosso afeto. “Os pastores da época de John Bunyan eram respeitados e admirados, John Bunyan era amado”. (John Piper)

            Aprendemos com este texto que a bondade é melhor do que a justiça. Não que a justiça e a retidão não sejam importantes. Elas são extremamente relevantes! Mas a bondade vai além! Ser bondoso é mais importante do que ser correto. Muitas vezes somos justos, mas não somos bondosos: “A misericórdia triunfa sobre o juízo”. (Tg. 2:13).

            Além disso, o que Paulo nos lembra é que o respeito pela justiça raramente constrangeria alguém a morrer por um homem justo. Mas a afeição talvez nos constrangeria a morrer por um homem bom. Em outras palavras, raramente alguém morreria por um homem justo e bom, quanto menos por um pervertido. Mas Deus enviou Seu Filho para morrer por pecadores. O homem não era reto nem bondoso, e, mesmo assim, Deus sacrificou Seu Filho em seu lugar!

            “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores”. Novamente Paulo enfatiza o tipo de gente pelo qual Jesus veio morrer! “Não vim chamar justos, e sim, pecadores ao arrependimento”. Não foram os homens bons, louváveis, e sim os odiosos e vis! Paulo diz em Filipenses que: “Éramos noutro tempo insensatos, desobedientes, extraviados, servindo a várias concupiscências e deleites, vivendo em malícia e inveja, odiosos, odiando-nos uns aos outros”. Pecadores! Criaturas odiosas!

            Deus prova o seu amor para conosco, afinal, quando merecíamos a ira divina, o banimento para longe dos Seus olhos, neste contexto, Deus enviou Seu Filho para morrer por nós! Se isso não prova o amor de Deus por nós, nada jamais o fará!

Desta forma, aprendemos com as palavras do apóstolo que aqueles que mais sabem apreciar o amor de Deus são os mesmos que percebem a profundidade do seu pecado. (Lc. 7: 36-47). Os que recebem muito perdão é que amam muito! Da mesma maneira, os que possuem uma pequena noção do seu perdão, amam pouco.

            Paulo também nos mostra através destas palavras que a convicção de pecado é o pré-requisito essencial para uma participação em Cristo. Aqueles que se imaginam sem pecado, se excluem das bênçãos de Jesus. Da mesma forma acontece na santificação; enquanto não reconhecemos que somos maledicentes, invejosos, maldosos, indiferentes... não poderemos crescer em santidade! Enquanto tomarmos conta do pecado do outro, esqueceremos do nosso pecado e não faremos nenhum progresso em santificação.

A nossa salvação se deve inteiramente a Deus e ao Seu amor por nós! Não havia nada em nós que nos recomendasse a Deus e ao Seu amor! A verdade a nosso respeito é que éramos vis, odiosos, pecadores diante de Deus; vivíamos, e ainda vivemos em muitos momentos de nossa vida, em antagonismo para com Deus. Desta maneira, somos lembrados que a nossa salvação é fruto do amor de Deus por nós.

            Se já não bastasse a paz com Deus, o caráter de Deus em perseverar por nós, as tribulações e o Espírito Santo que nos foi dado como garantia de nossa redenção, agora o apóstolo nos mostra que o amor imutável de Deus é outra prova da segurança de nossa salvação. Isto pode ser visto nas palavras do apóstolo João: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (3:16).

            Aquele que é alvo do amor de Deus vai crer, e como conseqüência não vai perecer! Existe aqui a promessa de que o verdadeiro cristão jamais retornará ao seu estado anterior. Se o crente deixasse de ser crente, ele pereceria, contudo, como ele não perece mais, ele jamais deixará de ser um cristão!

            Começaria Deus a construir, sem terminar? Começaria Deus uma batalha para abandoná-la antes de alcançar a vitória? O que diria o diabo, se Cristo começasse a salvar uma alma e falhasse na tentativa? Se cair no inferno uma única alma que creu em Cristo, onde fica a soberania e o poder de Deus? “Eu dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém os arrebatará da minha mão; o meu Pai que me deu, é maior do que todos, e ninguém pode arrebatá-los das minhas mãos”. (Jo. 10:28, 29).

            O Pai nos amou tanto que deu o Seu Filho. Será que agora Ele não é capaz de fazer coisas bem menores, como mudar situações que nos afligem, endireitar caminhos tortuosos, conduzir amigos e parentes incrédulos à salvação, dar alívio, consolo, esperança e fé aos corações abatidos e atemorizados?

            O que precisamos fazer é confiar em Deus!

 

“Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida; e não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação”. (v. 9-11)

 

Paulo está, em todo este capítulo, mostrando aos crentes de Roma a mim e a você a segurança e a certeza que podemos ter de nossa salvação. Para isto, ele já nos falou da paz com Deus, do caráter de Deus em perseverar por nós, das tribulações como prova de que somos regenerados, do Espírito Santo que nos foi dado como garantia de nossa redenção, do imutável amor de Deus nos garantindo a salvação.

            Paulo vai continuar insistindo, usando outros argumentos para nos mostrar que somos salvos. Ele usa a expressão “muito mais agora”. Esta declaração faz uma conexão entre os versos anteriores e o que Paulo está por dizer. Nos próximos versículos, o apóstolo faz deduções do que tinha acabado de dizer. Ele elabora um argumento baseado em sua declaração do amor de Deus. Ele diz que se Deus nos amou e nos redimiu quando éramos pecadores, certamente que agora, como amigos de Deus, seremos preservados na salvação.

            Se os cristãos foram justificados pela morte de Cristo quando estavam perdidos em seus pecados, quanto mais serão salvos da ira agora que eles foram reconciliados com Deus: “muito mais agora”. Se Deus justifica e se reconcilia com os inimigos, certamente que Ele salvará Seus amigos! Não existe a menor possibilidade daqueles que foram justificados, perderem-se novamente. Seria tolice pagar um preço tão alto para conquistar a salvação e não ser capaz de sustentar e assegurar esta vitória que foi adquirida e conquistada: “muito mais agora!”.

            Esta expressão vai aparecer novamente nos versos 15 e 17. Paulo está utilizando a razão e a argumentação para nos falar do amor de Deus. Indiretamente, o apóstolo nos ensina que não é contra a espiritualidade raciocinar e ser lógico, na verdade, ser lógico, raciocinar e argumentar é ser altamente espiritual! A fé bíblica está diretamente relacionada com a razão.

            “Sendo justificados pelo seu sangue”. Mais uma vez somos lembrados por Paulo que nossa justificação acontece devido ao sacrifício de Cristo na cruz. Este não é somente o método de Deus para a nossa reconciliação com Ele, é o único método! Não existe outro caminho, outra forma de ser reconciliado com Deus. Qualquer tentativa de reconciliar o homem com Deus que não seja unicamente através da morte de Cristo, é paganismo!

            “Quando inimigos”. Paulo já tinha se referido a “fracos”, “ímpios” e “pecadores”, agora acrescenta “inimigos”. Será que já não basta de tanta ênfase na miséria humana? Certamente que não! Ele sabia da importância de se massacrar o ego humano. Ele entende que é preciso mostrar ao homem a peçonha que ele realmente é! Além disso, Paulo nos lembra que o evangelho não é para pessoas perfeitas, antes, é para pecadores, ímpios, fracos, pessoas como eu e você.

            “Se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”. O argumento de Paulo aqui parte do maior para o menor. Se o maior (Cristo morrendo por pecadores) é verdadeiro, o menor (Cristo preservando os regenerados) será necessariamente verdadeiro! Se Deus realizou o maior, não estaria disposto a realizar o menor? Não faria sentido, Deus agir de outra forma!

            Se quando eu era um inimigo, o Pai enviou Seu Filho para morrer em meu lugar, agora que sou seu amigo, Deus irá falhar comigo, irá me abandonar? De forma alguma! O grande problema era como lidar com o estado de inimizade entre Deus e o homem. Este problema era tão grande que nada menos que a morte de Cristo poderia dar o devido tratamento, contudo, Deus solucionou este problema! O maior de todos os empecilhos foi removido! Muito mais fácil será o restante! Uma vez estabelecida a justificação, a santificação não será assim tão complicado. Isto é lógica pura! É argumentação! E os argumentos sustentam a nossa fé!

            Se antes já tínhamos certeza, “muito mais agora!”.

            “E não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação”. Ou seja, a ira de Deus não está mais sobre nós! Esta notícia é que faz da mensagem cristã uma boa nova. Nós que estávamos debaixo da ira de divina, que éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele por causa do Seu amor. Agora, “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”. (8:1).

            Todas às vezes no Novo Testamento que aparece a idéia de reconciliação, Deus é o agente e o homem o receptor. A iniciativa sempre é de Deus, o homem por sua vez, sempre é o objeto da ação divina. “Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo... Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”. (II Cor. 5: 18,19).

            A Bíblia deixa muito claro que a iniciativa sempre é de Deus, nunca é o homem que vai em direção a Deus! A mudança de inimizade para amizade pertence exclusivamente ao Pai! Somente após esta mudança realizada por Deus, é que entra a responsabilidade humana de manter esta relação. Aí é que versículos como Filipenses 2:12: “Desenvolvei a vossa salvação”, vão fazer sentido.

            E não apenas isto”. Paulo estava dizendo o seguinte: “Tudo o que acabei de dizer é verdade, mas não é tudo”. “Isto” é verdade, porém, por causa disso, há algo mais que também é verdade. Paulo quer nos mostrar algo mais, pois entende ser relevante para a nossa espiritualidade. Este algo mais que o apóstolo quer nos mostrar é que se entendemos o que acabou de ser dito, não somente temos segurança em nossa salvação, devemos também nos alegrar em Deus! Não devemos nos gloriar apenas na glória que nos está reservada (v.2), precisamos nos alegrar e nos gloriar nAquele que nos concede esta glória! Isto significa amar, ter prazer, se deleitar em Deus!

            Não apenas fomos salvos, não apenas temos a certeza da salvação, devemos exultar em Deus! Esta idéia é vista em toda a Escritura. Nos Salmos: “Regozijai-vos no Senhor, vós, justos, pois aos retos convém o louvor”. (Sl. 33); “Louvarei ao Senhor em todo tempo, o seu louvor estará continuamente na minha boca”. (Sl. 34); “Engrandecei ao Senhor comigo, e juntos exaltemos o seu nome”. (Sl. 34); “Bendize ó minha alma ao Senhor, e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome”. (Sl. 103). Maria teve a mesma atitude quando disse: “Minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”. (Lc. 1:46). Ao escrever aos Filipenses, Paulo disse a mesma coisa: “Regozijai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, regozijai-vos”. (Fp. 4:4).

            A Bíblia tem o cuidado de nos lembrar que nossa exultação sempre acontece em Deus e não em nossos méritos. Não podemos cair no mesmo erro dos judeus de se gloriar em feitos pessoais. Contra este perigo, Paulo nos alerta dizendo; “Nos gloriamos em Deus”. Numa outra ocasião, o mesmo Paulo afirmou: “Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor”. (I Cor. 1:31).

            A Bíblia não deixa brecha nenhuma para o homem receber qualquer “centímetro de glória”. Nas Escrituras, a glória é concedida em sua totalidade ao Senhor. “A minha glória a outro eu não darei”. Isto nos recorda da importância dos cultos públicos serem sempre teocêntricos. Em nosso relacionamento com Deus não há nenhum lugar para o nosso ego sobressair! O louvor, o regozijo em Deus através de nosso viver de forma honrosa é o que Deus requer de nós. Aqueles que eram ímpios, fracos e pecadores e agora foram reconciliados com Deus, precisam regozijar-se em Deus!

 

“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. (v. 12)

 

Paulo já tinha explicado porque a humanidade precisa de salvação (1:18-3:20). Em sua explicação, o apóstolo mostra como o homem rebelou-se contra Deus. As pessoas de todas as nações, apesar de terem conhecimento da verdade, deliberada e sucessivamente foram se afastando de Deus, como conseqüência, serviram à criatura ao invés do Criador, afundaram-se cada vez mais em seus pecados morais.

            Paulo concedeu toda esta explicação sem fazer uma única menção a Adão e Eva. Até aqui, o apóstolo não nos tinha dito como foi que ficamos envolvidos nesta situação calamitosa.  Somente agora, no capítulo 5, ele vai nos mostrar onde está a raiz de tudo isto, a razão básica pela qual todas as pessoas são pecadoras. A Queda histórica por meio de Adão só é relatado por Paulo aqui neste capitulo.

            Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, Paulo entende e defende a verdade de que, assim como Jesus foi uma pessoa histórica, Adão também o foi. Não pode haver um paralelo correto entre um Adão mitológico e um Cristo histórico. Adão é tão necessário para o sistema teológico cristão quanto Jesus Cristo. As Escrituras chamam Jesus de “o segundo Adão”. Isto deixa bem clara a existência do primeiro homem chamado em Gênesis de Adão. Se Cristo, como o segundo Adão, veio para desfazer o mal causado pelo primeiro Adão, então, não há como negar a existência do primeiro Adão. Qualquer teoria ou ideologia que elimine a figura histórica de Adão, destrói o Cristianismo.

            A declaração direta de Paulo de que “por um só homem entrou o pecado no mundo”, prova que ele acreditava que o caso de Adão em Gênesis 1-3 havia acontecido de verdade. O mesmo pode ser observado em outros textos bíblicos. Como nome próprio, Adão é mencionado em várias outras partes das Escrituras: Gênesis (3.17 e 21, 4.25, 5.1-5); na genealogia de Jesus (Lc 3.23-38); em Coríntios (1 Co 15.22 e 45);em Timóteo (2 Tm 2.13 e 14); na Epístola de Judas (14); em outros livros da Bíblia (1 Cr 1.1, Jó 31.33 e Os 6.7).            Ao que parece, Jesus também acreditava na historicidade de Adão. Isto pode ser observado em Mateus 19:4, 5 onde Jesus cita Gênesis 2:24. Neste texto, nosso Senhor está falando de um fato histórico para explicar seu posicionamento em relação ao divórcio. Portanto, tanto Paulo como Jesus se referiram a Adão como um personagem histórico. Se rejeitarmos a historicidade de Adão, rejeitaremos a autoridade de Paulo e a de Jesus.

Não há como negar, a Bíblia é clara ao afirmar a historicidade de Adão. O Novo Testamento afirma claramente que Adão é o cabeça da humanidade, como Cristo é o cabeça da igreja.

 “Assim como por um só homem entrou o pecado no mundo”. Devemos entender que Adão não foi o originador do pecado, afinal, diz a Bíblia que “o Diabo peca desde o princípio”. Contudo, a humanidade foi introduzida no pecado por Adão desobedecer a Deus. O primeiro mortal incluiu toda a humanidade em sua decisão. Assim como as vítimas de uma transfusão de sangue contaminada, todos nós herdamos a corrupção de Adão. Isto é o que os teólogos chamam de “Pecado original”.A partir de então, nenhum ser humano veio ao mundo como uma folha em branco. Assim como não podemos separar nossa personalidade, aparência e identidade dos nossos ancestrais, não podemos separar o pecado deles do nosso.

            Segundo as Escrituras, já nascemos pecadores. O pecado é passado de pai para filho. Não existem bebês inocentes, e a maior prova desta verdade é o fato de que bebês também morrem. De acordo com a Palavra de Deus, só morre aquele que é contaminado pelo pecado, afinal, “o salário do pecado...”. Se os bebês morrem, isto é um sinal claro de que eles já são pecadores! O pecado de Adão chegou até eles!

            Alguém pode alegar o seguinte: “Mas não é justo que eu pague pelo erro de Adão”. Devemos lembrar que Adão foi apenas um representante humano, se estivéssemos lá, teríamos feito exatamente o mesmo! Paulo disse que “Todos pecaram”, ou seja, o pecado é individual!

Escritos apócrifos salientam esta verdade: “Ó Adão, que fizeste? Pois embora sejas tu quem pecou, a queda não foi só tua, mas também nossa, que somos teus descendentes”. (II Esdras 7:118). “O pecado começou com uma mulher, e por causa dela todos morremos”. (Eclesiástico 25:24).

Não é porque Adão é o ancestral da humanidade que se diz que todos pecaram no pecado dele. Se fosse assim, os descendentes de Abraão poderiam estar incluídos na sua fé. A questão é que Adão é o representante da humanidade! Tanto que o seu nome no hebraico significa “humanidade”.

            “A morte passou a todos os homens”. A morte não é natural à constituição humana, mas é a conseqüência penal do pecado: “O salário do pecado é a morte”. (6:23). Não estamos em nosso estado natural. Fomos criados perfeitos, mas o pecado nos tornou imperfeitos. O Fabricante não produziu o seu produto com defeito: “Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom”. (Gn. 1:31). O problema foi o que a primeira criatura resolveu fazer com a liberdade a ela concedida. Shakespeare imortalizou a frase: “Errar é humano”, no entanto, a resposta bíblia é: “Errar é o resultado da Queda humana”.

            Outra verdade que aprendemos com esta expressão paulina é a universalidade da morte. Não tem jeito, a morte alcança todos os homens! Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, todos são possíveis alvos da morte. As estatísticas da morte são infalíveis e exatas: para cada pessoa, uma morre. Como diz o autor de Hebreus: “está ordenado morrerem”. (Hb. 9:27) A criança que acabou de nascer, está caminhando para a morte. Acabou de nascer e está começando a morrer! Esta universalidade da morte comprova a universalidade do pecado, afinal, como já falamos, tudo que é manchado pelo pecado, morre.

            Alguém poderia perguntar: “Se Adão não tivesse pecado, ele teria morrido?” D. M. Lloyd-Jones diz o seguinte sobe isto: “Se Adão não pecasse, não teria morrido. Isso não significa que, pela criação, Adão já estava numa condição imortal, e que continuaria assim eternamente como tal por toda a eternidade. Ele era perfeito, mas não era glorificado. Adão tinha ainda que conseguir a imortalidade, porém não havia nele nenhum princípio de morte; e ele não teria morrido, se não tivesse pecado. Para ser glorificado e para tornar-se imortal, seu corpo teria que ser transformado para corresponder ao corpo glorificado do Senhor Jesus Cristo, mas, se ele não tivesse caído em pecado, não teria morrido. A morte foi conseqüência direta do pecado. É a punição do pecado, é penal”.

            O certo é que nada disto aconteceu. O que ocorreu foi que Adão falhou e a morte passou a todos os homens! Também é certo que quando um homem falha na realização do propósito de Deus, o Senhor levanta outro para tomar-lhe o lugar. Josué substituiu Moisés, Davi substituiu Saul, Eliseu substituiu Elias. Quem poderia tomar o lugar de Adão? Somente alguém que fosse capaz de desfazer os efeitos do pecado de Adão, alguém capaz de se fazer o iniciador de uma nova humanidade. A Bíblia nos mostra que um único homem possuía estas qualificações: Jesus Cristo. Isto é algo iremos continuar aprendendo com Paulo nos próximos versículos.

 

“Porque até ao regime da lei havia pecado no mundo, mas o pecado não é levado em conta quando não há lei, entretanto, reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual prefigurava aquele que havia de vir”. (v. 13,14).

 

Paulo usa estes dois versos (13,14) para justificar a expressão “todos pecaram” do verso anterior. Após afirmar que a morte sobreveio a todos os homens, por estes estarem envolvidos no pecado de Adão, o apóstolo entende que precisa esclarecer melhor o que tinha acabado de falar. Esta idéia, segundo Paulo, merece alguns exemplos mais convincentes.

            Paulo sabia que esta expressão poderia suscitar certa desconfiança naqueles que estavam lendo a carta, afinal, “se pecar significa transgredir a lei, como aqueles que viveram antes de Moisés pecaram?”; “antes de a lei ser promulgada, não havia nenhuma lei, logo, nenhuma transgressão da lei, nenhum pecado”. Mediante estas e outras possíveis indagações e dúvidas, Paulo vai explicar melhor esta questão do pecado de Adão sendo transmitido para todos os homens.

            A existência do pecado após a lei é algo indiscutível. Os homens transgrediam e ainda transgridem a lei de Deus o tempo todo! Eles conhecem o que deve ser feito e não o fazem. Eles sabem o que não deve ser feito e o fazem. O problema está no tempo anterior à lei! As pessoas não possuíam uma lei escrita para informá-las do que deveria ou do que não deveria ser feito. Mediante esta discussão, Paulo faz uma pequena interrupção no que estava dizendo para tratar deste problema. Ele desenvolve seus argumentos através de várias expressões nestes dois versículos.

            “Até ao regime da lei havia pecado no mundo”. Paulo está afirmando categoricamente que de Adão até Moisés havia pecado no mundo sim! A lei escrita ainda não tinha sido dada ao homem, mas mesmo assim, havia pecado no mundo. A dúvida levantada aqui, como já disse, é a seguinte: “Se pecar significa transgredir a lei, como aqueles que viveram antes de Moisés pecaram?”. Eles não tinham nenhum padrão a seguir, nada que os informasse que estavam errados.

            Paulo vai defender a tese de que “todos pecaram” através de dois argumentos. Primeiro, através da universalidade da morte: “Reinou a morte desde Adão até Moisés”. Se existe morte, é porque existe pecado! Tudo que é manchado pelo pecado, morre! O contrário também é verdade: onde não existe pecado, não existe morte: o céu.

            Segundo o apóstolo, a morte já estava em atuação, cheia de poder, mesmo antes da lei. A conseqüência do pecado (a morte) já estava em vigor! A sentença passada contra Adão “no dia em que dela comerdes, certamente morreras”, foi executada nos descendentes de Adão. Todas as pessoas de Adão até Moisés enfrentaram a morte. Esta é uma prova convincente de que já existia pecado no mundo, afinal, se existe morte, é porque existe pecado: “o salário do pecado é a morte”. Portanto, mesmo durante o período de Adão a Moisés o pecado foi levado em conta: “Até ao regime da lei havia pecado no mundo”.

             O segundo argumento levantado por Paulo para provar que “todos pecaram” mesmo antes da lei ser dada ao homem, é a quebra da lei da consciência: “Mas o pecado não é levado em conta quando não há lei”. Paulo não está dizendo que não existia pecado no mundo, também não está afirmando que Deus não considerava o pecado como tal antes da dádiva da Lei. Ele acabou de afirmar que “até ao regime da lei havia pecado no mundo”. Deus sempre responsabilizou os homens por suas iniqüidades, mesmo antes de a Lei ter sido promulgada! Assim foi com o castigo de Caim, o Dilúvio, a destruição de Sodoma, as pragas no Egito.

O que será então que o apóstolo está querendo dizer com a expressão: “Mas o pecado não é levado em conta quando não há lei”. O que Paulo nos mostra, indiretamente, é que é a Lei quem define e estabelece o pecado como transgressão. O apóstolo vai tratar melhor deste assunto nos versos 20 e 21. O que ele está nos lembrando aqui é que o pecado existe independentemente de ele ter sido definido como transgressão ou não. O pecado continua sendo pecado, mesmo que não tenha sido definido como tal. Isto nos lembra que os pecados ocultos que nós cometemos, serão julgados como todos os outros. Os pecados que cometemos em nossa ignorância não deixam de ser pecados! Eles também precisão de propiciação, de perdão! Quando estava na cruz sendo maltratado, Jesus orou: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Jesus não disse: “Eles não sabem o que estão fazendo, por isso deixe-os ir em paz”. Deus jamais rebaixa seus padrões de justiça ao nível de nossa ignorância. Os pecados cometidos na ignorância, ainda assim, são pecados. A culpa dos que crucificaram a Jesus era real, a despeito do quanto compreendessem!

            Contudo, existe outro detalhe aqui. Embora a Lei do Sinai com seus mandamentos expressos ainda não existisse, havia outra lei. Este é o segundo argumento de Paulo para provar que “todos pecaram”, a transgressão da lei da consciência. Paulo já tinha se referido a isto anteriormente (2: 14,15). A existência desta “outra lei” deduz-se do fato de que já havia pecado. Se não existisse nenhuma lei, então não haveria pecado algum!

            Em 2:1, Paulo nos mostra que todos aqueles que viveram dos tempos de Adão até a promulgação da lei, não serão julgados pela lei de Moisés. Tais pessoas serão julgadas com base de acordo no que elas sabiam sobre certo e errado. Eles não serão julgados de acordo com algo a que não tiveram acesso (a lei). Serão julgados de acordo com a própria consciência! De qualquer forma, todos acabam sendo condenáveis, mesmo antes da Lei de Moisés. Portanto, “Reinou a morte de Adão até Moisés”.

            “Mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança de Adão”. Não pecaram como Adão, afinal, não tiveram o conhecimento da vontade de Deus de forma expressa como teve Adão. O Senhor proibiu Adão de tocar o fruto da árvore do conhecimento. Esta foi uma ordem expressa e direta do Criador para a criatura. Ao tomar do fruto, Adão transgrediu uma lei que lhe fora dada expressamente. Já os outros homens, diz Paulo, o único mandamento que lhe fora dado, foi o testemunho da consciência; eles não tiveram uma ordem expressa e direta como Adão e Eva tiveram. Daí a expressão do apóstolo: “aqueles que não pecaram à semelhança de Adão”.

            Há quem interprete esta expressão incluindo também as crianças que morreram e ainda morrem. As crianças são pecadoras por natureza, contudo, elas não desobedecem deliberadamente. Como uma criança de dois meses de vida desobedece propositadamente? Ela ainda não tem consciência do certo e errado. Ela não é capaz de pecar como Adão contra um mandamento expresso de Deus. As crianças são pecadoras devido ao pecado Original, que é transmitido por natureza! E a maior prova de que são pecadoras é porque morrem, e só morre aquilo que é manchado pelo pecado.

            Contudo, esta diferença entre Adão e sua descendência, ou entre as crianças, não os isenta da condenação! Mesmo não tendo uma definição clara do que era errado, o pecado foi levado em consideração. A prova, diz Paulo, é que mesmo não pecando como Adão, eles sofreram as mesmas conseqüências de Adão!

            “O qual prefigurava aquele que havia de vir”. O único personagem do Velho Testamento a ser chamado explicitamente de tipo de Cristo no Novo Testamento é Adão. Paulo cita explicitamente nesta passagem, aquilo que os teólogos chamam de o estudo de Tipos e Profecias do Velho Testamento. Este estudo é aquele onde encontramos a figura de Jesus em todo o Velho Testamento. O próprio Jesus nos ordenou a procurar personagens, a fazer analogias com a sua Pessoa no Velho Testamento: “Começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito estava constava em todas as Escrituras”. (Lc. 24:27).

            Eis alguns exemplos de tipos de Cristo no Velho Testamento. Abraão nos mostra a obediência de Cristo. Ele deixou a terra, os parentes, o pai e foi em busca da promessa que dele Deus suscitaria uma grande nação. Semelhantemente, Jesus deixou seu lar e seu Pai. Por causa disto uma grande nação (Israel celestial) começou a existir.

            Isaque nos mostra a passividade de Cristo. Isaque poderia não aceitar o sacrifício proposto por seu pai Abraão. Em outro texto vemos que Abimeleque o odiava, porém Isaque fez aliança com ele. (Gn. 26:27-30) Jesus nos mostra sua passividade e mansidão quando demonstrou amor e cuidado pelo soldado com a orelha cortada, na cruz clamou por aqueles que o maltratavam: “Pai, perdoa-lhes...”.

            Alguns detalhes da vida de Moisés mostram como ele foi um grande tipo do Messias. Na época em que Moisés nasceu foi decretada a morte de crianças, o mesmo ocorreu no nascimento de Jesus. O preparo de Moisés aconteceu no deserto, o mesmo aconteceu com Jesus. Moisés foi solidário, afinal, ele desestruturou toda a vida que já tinha construído e voltou para o Egito com o propósito de conduzir o povo para Canaã, a terra prometida; semelhantemente, Jesus deixou seu lar, sua glória, sua “estabilidade”, e Ele é o único caminho pelo qual o Seu povo pode ser conduzido para a Cidade Santa, a Jerusalém Celestial. Outro detalhe significativo pode ser visto no ministério de Moisés que começou depois de um grande acontecimento sobrenatural: Sarça ardente; o mesmo aconteceu com Jesus, seu ministério teve início depois do seu batismo, onde estiveram presentes o Pai e o Espírito Santo. Sob o comando de Moisés o povo se alimentou do maná, Jesus afirmou ser o Pão da Vida.

            Portanto, existe toda uma estrutura no Velho Testamento de personagens que jogam luz sobre o Messias que viria. É isto que Paulo está falando de Adão em referencia a Jesus: “O qual prefigurava aquele que havia de vir”.

            Como pode Adão ser um tipo de Cristo? Como é possível haver semelhanças entre estes dois homens? Tanto Adão como Cristo, comunicaram aos que eram seus aquilo que lhe pertencia. Adão transmitiu aos seus o pecado, a condenação e a morte, Cristo transmitiu aos seus, justiça, libertação e vida. Cada um deles é o cabeça de uma raça, de uma humanidade (I Cor. 15:45-49). Jesus é o “segundo homem” e o “último Adão”, simbolizando que ele é o líder de uma nova humanidade.

            São nestes aspectos que Adão prefigura Cristo. São nestes termos que Adão é uma figura dAquele que havia de vir. Ainda existem outros paralelos entre Cristo e Adão, mas estes não são de semelhança e sim de contrastes. Paulo irá desenvolvê-los nos próximos versos.

            “À vista de Deus existem dois homens – Adão e Jesus Cristo – e estes dois homens têm todos os outros homens amarrados a seus cintos”. (Thomas Goodwin – Presidente do Magdalen College em Oxford, séc. XVII).

            Quando um homem falha na realização do propósito de Deus, o Senhor levanta outro para tomar-lhe o lugar. Josué substituiu Moisés, Davi substituiu Saul, Eliseu substituiu Elias. Quem poderia tomar o lugar de Adão? Somente alguém que fosse capaz de desfazer os efeitos do pecado de Adão, alguém capaz de ser o iniciador de uma nova humanidade. A Bíblia nos mostra que um único homem possuía estas qualificações: Jesus Cristo. É por isto também que devemos adorá-lo como único Senhor de nossas vidas!

“Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre muitos”. (v.15)

 

Paulo continua aquele paralelo que ele começou a fazer entre Adão e Jesus. Depois de ter falado das semelhanças, o apóstolo vai realçar alguns contrastes. O primeiro deles é que a nossa relação com Adão é física e com Jesus é espiritual; procedemos de Adão fisicamente, mas a nossa ligação com Jesus é puramente espiritual. Outro contraste pode ser visto nos termos “ofensa” e “dom gratuito”. As expressões por si mesmas já sugerem um contraste. Paulo está contrastando a morte com a vida. Se a morte é certa, quanto mais certa há de ser a vida! O último contraste que pode ser percebido é entre a justiça e o amor de Deus. A justiça opera dando aos homens o que eles merecem, a morte. Já o amor opera oferecendo aos homens o que eles não merecem, a vida eterna.

Encontramos neste texto um caso clássico daquele princípio que afirma que “a Bíblia interpreta a própria Bíblia”. A palavra “muitos” aparece no mesmo versículo através de duas citações: “Pela ofensa de um só, morreram muitos”, “Pela graça de um só, foram abundantes sobre muitos”.

            Será que “muitos” possui o mesmo significado nas duas citações? Aparentemente é o que podemos deduzir. Contudo, se “muitos” significa a mesma coisa nas duas expressões, temos um problema sério aqui. Esta palavra precisa, necessariamente, ter um duplo sentido. Numa expressão ela precisa significar uma coisa e na outra expressão ela precisa significar outra coisa. Porque que “precisa significar?”. Por causa da minha interpretação das Escrituras? Não! Por causa do ensino geral das Escrituras.                 

            “Muitos” pode significar “todos os homens” e “vários homens”. Não existe uma terceira ou quarta opção.  Muitos só pode significar “todos os homens” ou “vários homens”. Expressões completamente diferentes uma da outra. Uma expressão fala de toda a humanidade: “Todos os homens”; a outra expressão fala de uma parte da humanidade: “Vários homens”.

            Analisando os dois possíveis significados da palavra “muitos” em cada caso em que ela aparece, encontramos o seguinte: Utilizando “todos os homens” nas duas expressões em que aparece “muitos”, temos a seguinte leitura do texto: “Pela graça de um só, foram abundantes sobre todos os homens”. Neste caso a segunda expressão afirmaria que “todos os homens” serão salvos, sendo assim, a doutrina do universalismo seria verdadeira. A conseqüência natural é que não existiria inferno e a Bíblia seria mentirosa.         “Pela ofensa de um só, todos os homens morreram”. A primeira expressão afirmaria que a ofensa de Adão passou para todos os homens.       Segundo o ensino bíblico isto é verdade, é o que chamamos de pecado original. Portanto, “Todos os homens”só pode ser aplicado na primeira expressão.

            Utilizando “vários homens” nas duas expressões em que aparece “muitos”, temos a seguinte leitura do texto: “Pela ofensa de um só, vários homens morreram”. Neste caso, a primeira expressão afirmaria que a ofensa de Adão foi transmitida apenas para “alguns homens”. Desta forma, nem todos os homens devem ser considerados pecadores. Isto vai contra o ensino das Escrituras de que “todos pecaram”.Pela graça de um só, foram abundantes sobre vários homens”. A segunda  expressão afirmaria que a graça de Cristo foi dispensada somente sobre alguns. Isto encontra apoio e sustentação na doutrina bíblica da Expiação Limitada. Portanto, “vários homens”só pode ser aplicado na segunda expressão.

            Se eu aplico “todos os homens” na primeira expressão e “vários homens” na segunda expressão, o texto fica assim: “Todavia, não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um só, morreram todos os homens, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, foram abundantes sobre vários homens”. Logo, eu concluo que Paulo utilizou a mesma expressão com duplo sentido. Primeiro: “Muito morreram”, indica os descendentes de Adão. Segundo: “Abundantes sobre muitos”, indica os escolhidos para a salvação.

            Apesar de analisarmos estas questões, Paulo não está preocupado com números. Certamente que isto que acabamos de analisar nem passou pela mente do apóstolo ao escrever este texto. Estudamos pela necessidade de esclarecer um texto que pode ser interpretado de forma equivocada.

O que Paulo está preocupado em demonstrar é o paralelo de dois atos históricos. O ato histórico de Adão: Através deste, toda a humanidade se tornou pecadora. E o ato histórico de Jesus, aonde Ele veio para resgatar tudo o que se havia perdido.

            Existe um paralelo muito interessante no Velho Testamento para ilustrar esta questão levantada por Paulo. Certa vez um professor disse que assim como Moisés e outros tantos, Boaz também prefigurava Cristo. Só que eu nunca consegui enxergar Boaz como alguém que prefigurava Jesus. Foi fazendo este paralelo do que Paulo diz aqui de Adão e Jesus com uma questão do Velho Testamento que consegui entender que Boaz também era um Tipo de Jesus.

            Na cultura judaica existia a prática de se levantar descendência de um irmão falecido. (Dt. 25: 5,6). Numa linguagem mais simples, se um homem morresse sem deixar herdeiro, seu irmão era encarregado de casar-se com a viúva. Ele era obrigado a dar continuidade ao nome do seu irmão que faleceu. Isto era feito através do filho que ele teria com sua cunhada. Este filho receberia o nome do seu irmão falecido e não o do pai verdadeiro.

            O livro de Rute gira precisamente em torno de um caso como este. Quando Rute se lança aos pés de Boaz (cap. 3), ela não está se oferecendo sexualmente ao cunhado, pelo contrário, uma vez que o seu marido havia falecido, ela estava solicitando ao cunhado que fizesse precisamente o que a passagem de Deuteronômio diz que deve ser feito. Rute estava pedindo que Boaz se casasse com ela, para que ela desse à luz um filho, e, desta forma, pudesse levantar um herdeiro para o seu marido falecido.

            Com isso em mente, lembremos do que diz Isaías 53. Este é um capítulo de tremenda importância, em referência a obra de Cristo. Ali lemos o seguinte: “Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos”. (v.10). Percebam a frase: “Verá a sua posteridade”. Embora nunca tivesse casado, Jesus verá a sua posteridade, ou seja, ele terá filhos. Esta idéia de filhos de Jesus também pode ser vista em Isaías 9:6: “Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será; maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da eternidade, Príncipe da Paz”.

            Estava para nascer uma criança que seria chamada de “Pai da Eternidade”. Será que isso indica alguma confusão entre Deus Pai e Deus Filho? Certamente que não! Jesus pela sua morte na cruz está trazendo à existência, filhos espirituais e eternos! Em Hebreus 2:13, lemos de Jesus falando: “Eis aqui estou, eu, e os filhos que Deus me deu”.Quando a Bíblia fala de filhos de Jesus, tanto em Isaías quanto em Hebreus, ela está se referindo a todos aqueles que foram redimidos por Cristo na cruz.

            Aqui em Romanos cinco, Paulo nos explica que a raça humana caiu devido ao pecado de Adão, contudo, um segundo homem surgiu para resgatar esta humanidade caída. Assim como no Velho Testamento um irmão resgatava a prole do seu irmão que havia morrido sem ter filhos, da mesma forma, Jesus surgiu, depois de morta a humanidade devido ao pecado de Adão, para restaurar uma humanidade viva e santa. É neste sentido que Boaz é alguém prefigura Jesus Cristo.

            “Não é assim o dom gratuito como a ofensa”. Certamente que o dom gratuito não é como a transgressão, afinal, nós ganhamos muito mais em Cristo do que aquilo que perdemos através de Adão. As bênçãos que Jesus conquistou são melhores do que aquelas que perdemos em Adão. Adão convivia com a possibilidade de cair, como realmente aconteceu. Isto não se aplica mais a nós! Não existe a possibilidade de cairmos da graça! A nossa glorificação está garantida! Paulo vai dizer que “nada neste mundo pode nos separar do amor de Cristo”.

            Poucas verdades expressam de uma forma tão fantástica esta questão daquilo que ganhamos em Cristo, quanto a doutrina da Adoção. Percebemos isto ao compararmos a adoção com a regeneração e a justificação.

Na regeneração Deus nos dá uma nova natureza, tornamo-nos participantes da natureza divina, somos capazes de falar com Deus em oração e de ouvir Sua Palavra com coração receptivo. Os anjos são criaturas espiritualmente vivas, porém, os anjos não são membros da família de Deus, não compartilham dos privilégios especiais de membros da família. Deus poderia decidir dar-nos regeneração sem o grande privilégio da adoção na sua família. Poderíamos não ser filhos e ser simplesmente como os anjos.

            Na justificação Deus nos declara justos e imputa a nós a justiça de Cristo. Este ato é recebido por cada um de nós unicamente pela fé. Um juiz pode absolver a alguém que esteja sendo acusado de crime, contudo, ele não pode conferir ao que foi absolvido, nenhum dos privilégios que um dos seus filhos possui! O crente em Jesus tem o privilégio de poder considerar a Deus não apenas como Justificador, mas como um Pai amoroso com quem se relaciona. Deus poderia decidir dar-nos somente a justificação sem o privilégio da adoção!

            “A regeneração tem a ver com nossa vida espiritual interior. A Justificação tem a ver com nossa posição diante da Lei de Deus. Mas a Adoção tem a ver com nossa comunhão com Deus como nosso Pai, e por causa da Adoção nos são dadas muitas das maiores bênçãos, das quais nos lembraremos por toda eternidade. Quando começamos a perceber a excelência dessas bênçãos e compreendemos que Deus não tem a obrigação de dar-nos nenhuma delas, então somos capazes de exclamar com o apóstolo João: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus”. (Wayne Gruden)

Não fomos meramente restaurados à condição inocente e sem mácula de Adão antes de pecar. Fomos levados para um estágio muito além daquele no qual Adão se encontrava! Antes éramos apenas criaturas de Deus, agora somos filhos de Deus! Adão era perfeito e não tinha cometido pecado algum, no entanto, ele não era membro da família de Deus. O cristão, devido ao que Cristo fez, torna-se um Filho de Deus!

            Foi por isto que Calvino afirmou que “Cristo é muito mais poderoso para redimir do que Adão para arruinar”. A influência de Cristo para o bem excede em muito à eficiência de Adão para o mal. A graça é muito mais eficaz que o pecado! O dom gratuito é muito mais eficaz do que a transgressão.

 

“O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou; porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação. Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo”. (v. 16, 17)

 

Paulo continua o seu contraste entre Adão e Jesus. O apóstolo vai novamente falar daquilo que a desobediência de Adão produziu e daquilo que a obediência de Cristo providenciou. Ele vai dizer que um só pecado de Adão levou todos os homens a condenação: “o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação”. Por outro lado, as muitas ofensas são cobertas por um só ato de Jesus: “mas a graça transcorre de muitas ofensas, para a justificação”.

            Reinou a morte”. Paulo agora se volta especificamente para o tema da morte. Depois de defender a idéia de que a morte veio sobre os homens por causa do pecado de Adão, o apóstolo vai falar do reinado da morte, da poderosa e destrutiva influência que ela exerce sobre as atividades dos seres humanos. O apóstolo tem enfatizado o poder da morte em vários momentos neste capítulo:  “A morte passou a todos os homens”; (v.12), “A morte reinou desde Adão até Moisés” (v.14); “Morreram muitos” (v. 15).

Ao enfatizar a morte, o apóstolo não quer apenas mostrar que a morte sobreveio a todos os homens, a morte, diz ele, tem estado reinando sobre a humanidade. Este é um fato lamentável que Paulo nos convida a lembrar e a raciocinar em cima dele. A morte algum dia, irá nos apanhar! Não termos como fugir, temos um encontro marcado com a morte. A frase do portão de certo cemitério é muito precisa: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

O epitáfio do prefeito irlandês Rice, morto no período da Peste Negra concorda com a frase do cemitério: “Quem quer que você seja, ao passar, pare, leia e chore. Sou o que você será um dia e já estive onde você está”. Precisamos entender que o mundo é um lugar de cemitérios, de morte, de escuridão, de cessação da vida! Esta é a idéia de Paulo quando diz: “Reinou a morte”.

            Penso que Paulo enfatiza o poder da morte, para realçar ainda mais o poder de Jesus. Sem Cristo, a morte é por demais devastadora. Sem Jesus, a morte é o fim de tudo! No entanto, com Jesus, a tão temida e poderosa morte é apenas a transição de um mundo para o outro. Para o cristão, a morte que parece interpor-se à vida, na verdade abre uma porta para uma nova vida.

 

“Morte, não te orgulhes,

ainda que alguns a tenham chamada Poderosa e Terrível,

pois tu não o és...

Um pequeno sono apenas e acordamos eternamente,

E não haverá mais morte, pois tu, ó morte, morrerás”.

(John Donne)

                                   

Se estamos diante de um contraste, e a primeira afirmação diz que: “pela ofensa de um só, reinou a morte”, logo, o oposto disto seria: “reinará a vida”. Contudo, Paulo nos diz que “muito mais”. Não é meramente o oposto, é mais do que o oposto: “Reinarão em vida”. Não apenas teremos uma vida eterna contrastando com o reinado da morte sobre nós, além de a vida reinar em nós, diz o apóstolo que, todos nós, os eleitos, reinaremos em vida! É diferente! Sem dúvida que é “muito mais” do que o contraste poderia supor.

            No caso dos crentes o reinado da morte não é apenas substituído pelo reinado da vida, além de termos vida eterna, seremos como reis e rainhas! Em vários momentos na Palavra de Deus vemos esta idéia de que os redimidos serão como reis e rainhas. Paulo já tinha mencionado isto rapidamente no capítulo 2: 7 e 10. Ali ele afirma que os salvos estão “procurando glória, honra, incorruptibilidade e paz”.

            Escrevendo aos Coríntios Paulo nos disse: “Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?”. No fim de sua longa, árdua e sofredora vida, Paulo afirmou o seguinte: “Desde agora, a coroa da justiça me está guardada”. (II Tm. 4:8). Nosso Senhor também nos falou sobre isto: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado”. (Mt. 25:34). Em Apocalipse, João nos diz que Deus, “Nos fez um reino e seremos reis e sacerdotes para Deus”. (Ap.1:6). Ainda em Apocalipse, vemos Jesus falando que: “Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono” (Ap. 3:21); “Vem aí o dia da coroação”. (Ap. 5:10).

            Jesus Cristo é descrito em Apocalipse como o “Rei dos reis”. Quem serão os reis de quem Ele é o rei? Eu e você! Não se trata ali de reis terrenos. Tudo terá desaparecido naquele momento. Ele será o “Rei dos reis!”. Reinaremos com Ele, julgaremos os anjos com Ele.   Os crentes participarão do reinado de Cristo, sendo, eles mesmos, reis e rainhas! Esta é uma das mensagens de C. S. Lewis no “Leão a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, das Crônicas de Nárnia. Os humanos, no final, transformam-se em reis e rainhas.

Talvez seja muito difícil alcançarmos esta linguagem que Paulo usa para descrever o que há de acontecer conosco porque não vivemos numa sociedade Monarquista. A idéia de um rei ou uma rainha é completamente distante da nossa realidade. Mesmo sociedades como a inglesa ou a japonesa não sabem o que é ser governado por um rei. Muitos podem encarar estes versículos como apenas uma figura utilizada pelo Apóstolo, no entanto, não é apenas uma metáfora, é uma realidade! No céu seremos reis e rainhas diante de Deus!

            Não consigo alcançar quase nada do que isto significa, mas sei que deve ser algo extremamente maravilhoso o que Deus tem preparado para seus eleitos.  “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram o que Deus tem preparado”. Tudo isto é resultado do que Cristo conquistou na cruz por nós! Adão foi feito senhor da criação, mas perdeu esta posição, nós, não somente teremos isso de volta, teremos infinitamente mais!

            A explicação de Paulo para a origem e as conseqüências do pecado não é um mero exercício acadêmico. O apóstolo não está discorrendo sobre uma tese teológica que nada tem haver com a nossa realidade, ao falar sobre o pecado, a sua origem e as suas conseqüências, Paulo nos lembra da grandiosa salvação que Cristo conquistou por nós!

            Todos os nossos pecados, todos os pecados do Seu povo foram lançados sobre Ele! “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele”. (Is. 53:5). Isto foi o que Cristo mais temeu em todo o processo de crucificação! A razão pela qual Jesus estremeceu ao pensar na crucificação teve pouco a ver com a tortura física. A principal razão foi saber que Ele se tornaria aquilo que Ele mais odiava: em pecado. Ele, que era a verdade, iria se tornar o mentiroso mais inveterado do mundo. Ele, que era demasiadamente puro para olhar para uma mulher com luxúria, tornar-se-ia no adúltero mais promíscuo da história. O único homem que sempre amou com altruísmo puro, se transformaria no vilão mais desprezível do universo de Deus. Ele se tornaria tudo isto não em si mesmo, mas como o substituto carregador do pecado por nós.

            Aquele foi o momento em que Deus virou sua face de ira em direção ao Filho que estava sangrando e morrendo. O Pai o fez beber do cálice da rejeição até a última gota. Este foi o preço da nossa redenção! Deus teve que odiar seu único Filho sem pecado, a alegria de seu coração eterno. Tudo isto para que pudesse amar cada um de nós justamente.

            O Pai teve que se tornar o inimigo do Filho. Tornou-se o anjo vingador que massacra o Primogênito na escura noite egípcia do seu cativeiro. A cruz foi o cálice do castigo eterno, destilada da ira que estava armazenada desde o pecado de Adão. O Filho bebeu o cálice da ira para que pudéssemos beber o cálice da salvação. E quando Ele terminou o seu cálice, não sobrou uma única gota para nós que, de forma grata, recebemos o benefício de sua morte.

            Que ironia! O Seu inferno obteve o nosso céu. A sua maldição assegurou a nossa bênção. A sua aflição incalculável nos trouxe alegria imensurável. Ao se fazer inimigo de Deus na cruz, Ele nos fez Seus amigos.

            Ao falar sobre o pecado, a sua origem e as suas conseqüências, Paulo nos lembra da grandiosa salvação que Cristo conquistou por nós!

            O teólogo Karl Barth disse que a palavra mais importante de todas do Novo Testamento é a expressão: “em favor de”. A morte de Jesus ocorreu em favor de nós. Ele tomou sobre si a maldição da lei, em favor de mim e de você. O próprio Jesus disse isto de várias maneiras: “Dou a minha vida em favor das ovelhas... eu espontaneamente a dou” (Jo. 10: 15,18). “O filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos”.

 

“Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (v. 18,19).

 

Paulo resume em dois versos tudo que ele ensinou desde o verso doze. Cada elemento do verso 18 e 19 se acha presente, explícita ou implicitamente nos versos anteriores. Isto explica o “pois”, “portanto” ou “conseqüentemente”, com que o verso 18 se inicia. É como se ele estivesse finalizando seu pensamento e o resumiu nestas palavras. Desta forma, não vamos analisar estes dois versos, pois já o fizemos anteriormente. Passemos assim aos dois versos finais do capítulo 5.

 

“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”. (v. 20,21).

 

Depois de passar um bom tempo falando do pecado e da morte, e de como eles chegaram até nós, o apóstolo vai falar da graça, e, para lhe dar um destaque ainda maior, ele nos lembra do significado da lei. Paulo vai novamente mencionar algo que ele já tinha dito anteriormente: A lei foi concedida ao homem para convencê-lo de seu pecado.

            A lei é novamente mencionada porque o homem ao entender que é pecador, a graça ganha contornos grandiosos. A multiplicação das ofensas realça a magnitude da graça divina.

A Lei não foi dada aos israelitas para que por meio de sua obediência eles fossem salvos. A lei nunca teve este objetivo! Ela não foi acrescentada como um meio de salvação. Isto foi o que Paulo tinha dito anteriormente no capítulo três. Agora o apóstolo vai ser um pouco mais específico sobre o propósito da lei.

            “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa”. A lei foi concedida ao homem para que ele tivesse um conhecimento maior do pecado. Isto já tinha sido dito no capítulo três verso vinte: “Pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. A mesma verdade aparece de novo no verso sete do capítulo sete: “Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei, pois não teria conhecido a cobiça, se a lei não dissera: não cobiçarás”.

            A primeira tarefa da lei é aumentar o conhecimento do homem sobre o seu pecado. Ela age como uma lente de aumento. Ela torna os pecados ainda mais nítidos do que eles parecem ser. Portanto, e lei possui algumas funções extremamente importantes.

            Primeiro, a lei aumenta o meu conhecimento do pecado porque ela define o pecado para mim. Muitas pessoas cometem pecado sem saber que o estão fazendo, praticam iniqüidades durante anos e não conseguem perceber as suas mazelas. Por exemplo, milhares de pessoas adoravam a ídolos achando que estavam corretas, tentavam conquistar a salvação através de boas obras, negligenciando a cruz, cobiçavam isto e aquilo outro e achavam que era natural, que era a “lei da sobrevivência”.  Tudo isto acontecia até que elas tiveram contato com a verdade bíblica e seus olhos foram abertos para mal que estavam cometendo.

            O dever da lei, diz Paulo, é codificar e definir o pecado. Portanto, os homens precisam ser instruídos quanto ao pecado, e isto vem através do conhecimento da lei. Daí a importância da pregação da lei! Talvez o maior problema do evangelho nos dias de hoje é que as pessoas não são convencidas de pecado, os homens não possuem conhecimento do pecado como deveriam ter.

Um dos motivos pelos quais isto acontece é porque o pregador que aborda estas questões em suas mensagens é considerado carrasco, sem amor ou um pregador mórbido. No entanto, a mensagem bíblica para o homem é “Arrependei-vos!”. Quer esteja na moda ou não, a mensagem bíblica para o homem o tempo todo é “Arrependei-vos!”.

Tanto o Antigo quanto o Novo Testamento conclamam os homens ao arrependimento! Noé foi “pregador da justiça de Deus”, ele convocou os homens para que abandonassem seus caminhos iníquos e se voltassem para Deus: “Por esta fé condenou o mundo, e tornou-se herdeiro da justiça que é segundo a fé” (Hb. 11:7). Os profetas o tempo todo batiam na mesma tecla: Arrependei-vos! A mensagem do precursor de Jesus, João Batista, era uma só: “Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento”, “Já está posto o machado á raiz das árvores; toda árvore, pois que não produz bom fruto, é cortada e lançada no fogo”.

            Jesus iniciou o seu ministério dizendo: “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus”. Várias parábolas de Jesus abordam a questão do arrependimento. No Pentecostes o Espírito foi derramado e o povo perguntou a Pedro o que eles deveriam fazer. Qual foi a resposta de Pedro? Arrependei-vos! Paulo, depois da igreja instituída, escreveu suas epístolas e em todas elas existia o apelo ao arrependimento. Quando pregou no areópago, no meio dos filósofos, eis o que Paulo falou: “Mas Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam”. (At. 17:30). As cartas as 7 igrejas do Apocalipse estão cheias de convites ao arrependimento. Jesus andava dentro destas igrejas dizendo: “Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; e se não, brevemente virei a ti, e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres”. (Ap.2:5)

            A mensagem bíblica nunca massageou o ego do homem. Nunca na Bíblia, os pregadores estiveram preocupados com aquilo que os homens queriam ouvir. Os profetas de Deus jamais pregaram com o intuito de tornar o Evangelho atraente para as pessoas. Mesmo que ninguém os ouvisse, eles mantinham-se fiéis a mensagem! Eles não barateavam o evangelho por causa dos resultados! “Ninguém vai te ouvir Isaías, mas continue pregando!”.

            Quando nos deparamos com as mensagens de hoje em dia percebemos que “alguma coisa foi modificada”. Deixamos de seguir a ênfase bíblica. Não tem jeito, se é para pregar a Bíblia, o que nós vamos ouvir o tempo todo é: “Arrependei-vos!”. Não tem pausa, não tem intervalo, não tem descanso, o tempo todo é: “Arrependei-vos!”, é Deus falando ao homem de mortificação da carne, de carregar a Cruz, de negar-se a si mesmo, da necessidade de arrependimento.

            Isto é assim e precisa ser assim, porque Deus conhece nossa natureza extremamente pecaminosa. Precisamos ser convencidos o tempo todo do nosso orgulho, presunção, falta de perdão e amor. É por isto que Paulo está batendo nesta tecla o tempo todo. Se nos faltar o conhecimento do pecado que é dado unicamente pela Lei, cairemos num evangelho superficial.

Este é um dos maiores problemas das igrejas nos dias de hoje. Falta-lhes o conhecimento da lei! Conseqüentemente, falta-lhes o conhecimento dos seus pecados!

            A segunda tarefa da lei é aumentar o conhecimento do pecado e conseqüentemente, a convicção de pecado. Se realmente tivermos o conhecimento do pecado, ele nos tornará convictos do erro. Não somente praticamos o mal, mas sabemos que estamos praticando o mal. Antes éramos como uma criança que faz o que é errado, mas não sabia disto; com a lei, vem o conhecimento, e passamos a pecar deliberadamente.

            Quem peca, sabendo que está pecando, desafia a majestade de Deus e se opõe a santidade do Criador! Este é um dos aspectos mais terríveis do pecado, ele é uma ação contra Deus! Quando adulterou Davi disse: “Contra ti, contra ti somente pequei”. O problema não era contra Bateseba e Urias, era contra Deus! Quando ofendemos um irmão, o nosso problema principal é com Deus. Quando recusamos a perdoar nosso próximo, estamos encrencados é com nosso Senhor. Quando não nos relacionamos corretamente uns com os outros, nossa dívida é, antes de tudo, com Deus. O pecado não é conta o próximo, é contra Deus! “Contra ti, contra ti somente pequei”.

Além disso, somos exortados pela Bíblia que nos mostra que quanto mais luz, mais condenação. Quanto maior for o nosso conhecimento e a nossa convicção de pecado, maior será a nossa condenação! Quanto mais evidente for a revelação de uma lei, mas hediondas e graves serão as violações desta lei. Pecar deliberadamente torna a nossa ofensa muito mais odiosa!

A terceira tarefa da lei é induzir o homem ao erro. Ouçam o que Paulo diz sobre isto nos versos 5, 8 e 11 do capítulo sete. “Despertou em mim toda sorte de concupiscência; porque sem lei, está morto o pecado”. (v.8). A própria lei que nos proíbe fazer determinadas coisas, cria em nós o desejo de fazê-las ainda mais! “Quando a concupiscência é reprimida pelas restrições da lei, a mesma é intensamente estimulada. Há no homem inerente tendência de esforçar-se por fazer aquilo que lhe é proibido”. (Calvino)

            Quanto mais a pessoa conhece o pecado, mais sujeita estará à tentação de cometê-lo. Foi por isto que Paulo afirmou que a Lei aumentou o pecado: “para que avultasse o pecado”.

É importante lembrarmos que nunca foi o propósito da Lei fazer isto. A Lei, diz a Bíblia, “é justa, santa e boa”. Não devemos dizer que há algo errado com a Lei. O problema está no homem! Embora Deus nos tenha dado muitas coisas com as quais podemos ter prazer, não nos contentamos até nos entregarmos àquilo que é proibido. Foi exatamente isto o que aconteceu com Adão e Eva.

            Em suas Confissões, Agostinho conta a história de como ele e seus amigos roubavam as peras do vizinho. Eles não roubavam porque precisavam. Agostinho confessou que o prazer estava no pecado, não na pêra. A fruta roubada tinham um gosto melhor, precisamente porque eram roubadas. Como disse o sábio: "As águas roubadas são doces, e o pão comido às ocultas é agradável". (Pv. 9:17) Gostamos daquelas coisas que são proibidas. Isto se deve ao amor inato de sermos nosso próprio deus e ao nosso desprazer por submissão.

            É por isto que a Lei nos incita ao erro, nos convida a pecar: “A lei veio para que avultasse a ofensa”. O que Paulo está fazendo aqui na primeira parte deste verso vinte é, mostrar a grandiosidade e intensidade do pecado em nossas vidas, e isto é percebido pelo homem através da Lei que lhe foi dada por Deus.

            Penso que o apóstolo faz isto porque ele está prestes a falar da graça de Deus. E para apreciarmos a glória da salvação precisamos conhecer algo da gravidade do pecado. O homem que conhece melhor a sua pecaminosidade conhece melhor a graça de Deus.

            Philip Yancey conta no seu livro “Rumores de Outro Mundo” que na sua igreja existe o programa “Uma noite de folga da mamãe”. Uma vez por semana babás trabalham de graça para a mãe que quer passar uma noite com seu marido. Certa vez, a esposa do pastor tirou vantagem desse programa, para jantar com o marido. Mais tarde, quando Peter, o pastor, foi pegar seu filho de três anos de idade, a babá contou-lhes uma das brincadeiras que fizeram. Ela perguntou a cada criança o que a mãe mais gostava de fazer com elas. “Sabe o que seu filho respondeu? Disse que aquilo que sua mãe mais gosta de fazer é limpá-lo”. No domingo seguinte, Peter contou esta história à igreja. Ele disse: “Na verdade, não é isto que Susan mais gosta de fazer com nosso filho. Limpá-lo é uma desculpa para pegá-lo no colo. Tomar para si toda bagunça é apenas parte de um processo de aproximação”. E então ele aplicou: “O mesmo acontece com Deus”. Quando estamos inundados de pecado, nosso Pai se aproxima e, com todo o Seu amor, nos limpa para Sua glória. “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

 

“Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça, a fim de que, como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça pela justiça para a vida eterna, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”. (v. 20,21).

 

Já vimos que é impossível ter uma fiel apreciação da graça sem um correto entendimento do que é o pecado. Se não existir uma adequada pregação da lei, nunca haverá uma fiel concepção da graça e da salvação. É quando se está sofrendo grande dor, que aprecia-se melhor o alívio; o homem que chegou às portas da morte e foi curado, ficará muito mais agradecido pela cura; o pecador que chegou a ter um vislumbre do inferno, apreciará muito mais as glórias do céu.

            “Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa”. Primeiro o apóstolo pinta o lado negro do quadro, depois ele diz: “mas”. Graças a Deus porque na Bíblia sempre existe um “mas”, sempre existe uma meia volta, uma metanóia. Existem situações de desespero, angústia, apodrecimento que parecem que não tinham volta, mas são revertidos por Deus. Portanto, Paulo interrompe aquilo que estava dizendo e passa a descrever o lado maravilhoso do Evangelho. Primeiro ele mostra as profundezas do pecado, a seguir, ele descreve as alturas da graça.

            “Onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Paulo não usa um comparativo como vinha fazendo, aqui ele utiliza um superlativo. Ele faz isto para enfatizar a verdade de que, seja lá o que for que o pecado tenha feito, a graça fez muito mais, imensamente mais! O que a graça fez não foi contrapor-se exatamente ao que o pecado fez. Se a graça fizesse somente isto, já seria algo maravilhoso. Se o efeito da graça fosse meramente o de apagar e cancelar tudo o que tinha acontecido do outro lado, já teríamos motivos suficientes para louvar a Deus por toda a eternidade. Contudo, não se trata de mera compensação, o que eu tenho num lado não corresponde exatamente ao que eu tenho no outro. O que ocorre é um transbordamento do lado da graça! A graça não apenas desfaz o que o pecado fez, ela faz muito mais! Não é uma questão de equilibrar as coisas, a graça é abundante!

            Esta idéia de graça transbordante sobre o pecado pode ser vista nas expressões “muito mais” de Paulo (v. 9, 10, 15, 17). O clímax é este no verso vinte.

            Talvez um dos maiores exemplos de graça abundante sobre grandes pecados, seja o exemplo deste que nos escreve. Paulo foi um terrível perseguidor da igreja, alguém que cometeu grandes e terríveis pecados. Contudo, a graça de Deus foi extremamente abundante sobre a vida deste homem. Aquele que era um grande perseguidor da igreja tornou-se o seu maior defensor. Deus o transformou no maior teólogo da história da igreja.

            Todos nós podemos mencionar como Deus tem sido gracioso para com cada um de nós. Ele tem nos concedido muito mais do que nós merecemos. Através de Sua graça, o Pai tem nos concedido inúmeras coisas que jamais sonharíamos possuir: Perdão, reconciliação, justificação, perseverança nos caminhos de santidade. Estas e muitas outras coisas nos são concedidas unicamente pela graça de Deus. Mesmo sendo quem somos e fazendo o que temos feito, Deus tem nos abençoado. A única explicação para isto é que “onde abundou o pecado, superabundou a graça”.

            “Como o pecado reinou pela morte, assim também reinasse a graça”. Quanto ao pecado, vimos que a humanidade não possui escolha, estamos debaixo do domínio do pecado e não podemos solucionar isto por nós mesmos. O pecado, diz Paulo, reina em nós e por isto somos compelidos a pecar. Somos “por natureza, filhos da ira” (Ef. 2:3). O homem natural, além de fazer, ele deseja ardentemente pelo pecado. Contudo “como” o pecado reinou, “assim também” a graça reina. Isto significa que a graça não é oferecida ao homem, ela age nele atuando com poder. Deus não nos oferece Sua graça e fica aguardando por uma resposta de nossa parte. Nosso Senhor não está do lado de fora do nosso coração oferecendo algo que podemos rejeitar. Este Deus é mais digno de pena do que de louvor!

            O que Paulo nos mostra é que assim como o pecado era um poder em nossa vida, assim também ocorre com a graça; ela reina no cristão da mesma forma como o pecado reina nos não regenerados. Os incrédulos não têm opção, eles são escravos do pecado! O mesmo ocorre com a atuação da graça em nossas vidas, não temos escolha, ela vem e nos rende ao seu poder. Foi isto que C.S. Lewis tinha em mente quando comentou sobre sua experiência de conversão: “Deus encostou-me na parede”.

            Se não fosse deste jeito, ninguém se salvaria! Se não fosse a graça sobrevir sobre o homem com todo o seu poder, ninguém seria resgatado, afinal, a vontade humana, como disse Lutero, é escrava do mal. Se fôssemos abandonados à própria sorte, sempre escolheríamos de acordo com a nossa natureza. Buscaríamos sempre o pecado! Por isto seja Deus louvado pelo reinado da graça em nossas vidas!

            É por isto que a graça precisa ser “Irresistível”. Se os homens são incapazes de salvar a si mesmos devido a sua natureza degenerada, então cabe a Deus prover os meios para salvá-lo. Se não existir um chamado interior maior que a nossa vontade jamais seremos salvos! Como disse Jesus: “Vós não quereis vir a mim para terdes vida”.

            Podemos entender isto um pouco melhor quando lembramos do nosso próprio nascimento. Qual foi a sua participação no seu nascimento físico? Você foi consultado acerca desta questão? Lhe perguntaram se você queria nascer homem ou mulher, rico ou pobre, feio ou bonito, no Brasil ou no Japão, negro ou branco? Deus soberanamente nos trouxe à existência sem nos perguntar nada a respeito. Da mesma maneira acontece em nosso nascimento espiritual. Deus não nos consultou! Deus nos traz à vida eterna mediante o Seu próprio poder soberano! “Ele encostou-me na parede”. É a graça reinando soberanamente!

Glória a Deus por que é assim! Se Ele nos deixasse a nossa própria sorte estaríamos todos eternamente perdidos. Contudo, Ele nos predestinou, nos justificou e nos chamou! Não é a ovelha perdida que encontra o pastor, é o pastor que encontra a ovelha perdida!

            “Reinasse a graça”. A graça é soberana, e por isto ela não depende do que o homem faz. Ela faz o que precisa fazer a despeito da vontade humana. Independentemente de quem foram e do que fizeram, alguns homens foram instrumentos da graça. Para constatarmos esta verdade é só darmos uma olhada na genealogia de Jesus. Homens iníquos foram escolhidos para fazer parte do plano de salvação!  Isto é o reinado da graça atuando na humanidade! Apesar do fracasso e da indignidade de alguns homens, o plano de Deus sempre prosseguiu. Isto é o reinado da graça em atuação! Apesar de nossos defeitos, quedas e erros, a igreja continua existindo. A graça está reinando!

Ao contrário da graça, o pecado nos rouba tudo aquilo que possuíamos. Isto pode ser visto claramente na parábola do Filho Pródigo. Aquele rapaz tinha tudo que precisava para viver, e o pecado roubou-lhe tudo, ao ponto, de como diz o texto, “padecer necessidades”. Isto nos mostra que é o pecado que nos deixa tristes, abatidos e desanimados. Toda alegria em Deus nos é roubada pelas iniqüidades que cometemos. Foi por causa do pecado que Davi disse: “Torna a dar-me a alegria da salvação”. Quando pecamos nossa via de acesso ao Pai é bloqueada.

            E o irônico é que o pecado se apresenta oferecendo muitas coisas. Quando na verdade, ele vem para roubar, matar e destruir.

            “Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor”. A graça vem até nós unicamente por meio de Jesus Cristo! Paulo conclui todos os seus ensinamentos citando nosso Senhor: “O dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (6:23); “Nem a altura... poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (8:39); “Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas. Glória, pois a ele, eternamente, amém” (11:36).

            Em todo encerramento de algum ensinamento, o apóstolo nos força a olhar para Jesus Cristo. Isto acontece porque é por meio dele que tudo nos vem! É somente Ele e Sua obra que garante tudo que possuímos espiritualmente. É por isto que logo ali na frente Paulo vai dizer: “Porque dele, por ele e para ele são todas as coisas, glória, pois a Jesus Cristo para todo sempre, amém”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO VI

 

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?”. (v.1,2)

 

Do capítulo 1:18 ao 3:20, Paulo nos mostrou que necessitamos de justificação. Depois de 3:21 até 4:25, ele nos mostrou como somos justificados. Após isto, em 5:1-11, o apóstolo começou a descrever os maravilhosos resultados da justificação. Depois, em 5:12-21 ele explicou como tanto o pecado quanto a salvação entraram no mundo. Agora, nos capítulos 6 e 7 ele falará da trágica realidade de que, por mais que estejamos vivos em Cristo, freqüentemente vivemos como se ainda estivéssemos mortos.

            Neste capítulo, Paulo trata especificamente do problema do pecado na vida do crente. O apóstolo mostra que a forma como conduzimos a nossa vida cristã é de suma importância! Por mais que já tenhamos sido justificados, precisamos ser santificados! Paulo vai alertar ao seu leitor sobre a necessidade urgente da santificação. Aliás, este é um apelo encontrado em toda a Palavra de Deus. “Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos aos pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas fostes sarados”. (I Pe. 2:24).

            Jesus não morreu na cruz simplesmente para nos levar para o céu, Ele sacrificou-se para que nesta vida presente o homem tenha condições de mortificar as paixões pecaminosas de sua carne, vivendo em justiça para a glória de Deus: “Levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal”. (II Cor. 4:10,11).

            Não devemos ficar esperando até morrer e irmos para o céu para começarmos a viver a vida cristã. Ao invés disso, devemos carregar dentro do nosso corpo tanto a morte quanto a vida de Cristo. Em toda a Bíblia, Deus apela ao homem para a necessidade de santificação. E aqui em Romanos 6, encontramos mais uma passagem onde esta ênfase bíblica é percebida. “Faze-me aprender que o primeiro grande negócio sobre a terra é a santificação de minha própria alma”. (Henry Martyn)

            “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?”. (v.1) Que diremos sobre o quê? Sobre aquilo que ele acabou de dizer! O que o apóstolo vai dizer agora é algo que, direta e evidentemente, vem do que ele já estava dizendo.

Paulo tinha dito anteriormente que depois de justificados, estamos debaixo do domínio da graça. A graça abundante, diz o apóstolo, reina absolutamente em nossas vidas. Isto significa que nada neste mundo poderá impedir a nossa salvação final. Paulo compreendia que aquilo que ele acabara de afirmar poderia ser entendido da seguinte maneira: Se a graça foi mais abundante do que o pecado, por que não continuarmos pecando para dar à graça a oportunidade de se tornar abundante ao máximo? Ou seja, o que o apóstolo afirmou sobre a graça poderia ser interpretado de tal maneira que incentivasse o povo a pecar, e a pecar até mais do que antes! Desta forma, ele antecipa-se a uma possível argumentação, e logo de cara declara: “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?”.

            É impressionante como que as pessoas têm o poder de deturpar aquilo que é falado! Paulo jamais disse que a graça é uma autorização para o pecado. Pelo contrário, o objetivo geral da graça é destruir o pecado e todas as suas obras. Ou seja, estamos sob o poder daquilo que está destruindo e não promovendo o pecado! Portanto, insinuar que Paulo está ensinando tal coisa é impossível! É interessante que Pedro mencionou este fato das pessoas deturparem os ensinamentos de Paulo: “Como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epistolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles”. (II Pe. 3:15, 16).

            Todo pregador da Palavra de Deus está sujeito a ter suas palavras interpretadas de forma equivocada. Exupéry estava certo quando afirmou que “A palavra falada é uma fonte de mal entendidos”. Infelizmente, a infalibilidade de quem fala não garante a infalibilidade de quem ouve. A brincadeira do “telefone sem fio” transmite a